Estávamos em 2017. Lembro-me como se fosse ontem. Provavelmente não te lembras de mim, porque eu era só mais um dos trabalhadores em luta. Era dia 28 de Março e nós, os jovens precários da Randstad, fizemos greve. Tínhamos decidido concentrar-nos à porta do edifício da Meo na Praça do Areeiro, e daí seguimos em marcha até à sede da Randstad em Lisboa, na Avenida da República.
À chegada, ficámos espantados: estava lá uma equipa de reportagem! Uma equipa de reportagem e tu, Isabel Pires, deputada do Bloco de Esquerda. Eu desconfio que sei quem te deu a dica, e ficará para a consciência dele essa traição aos trabalhadores que foi eleito para representar.
E portanto, com os trabalhadores a servirem de pano de fundo para a desavergonhada promoção do Bloco e de ti própria, palraste umas generalidades sobre a precariedade e sobre o compromisso do Bloco no combate à mesma. Findos os teus minutos de fama, deste à sola, e a equipa de reportagem fez o mesmo.
Nós, os trabalhadores, não tivemos sequer um segundo para expôr perante aquela câmara de televisão as nossas reivindicações. Entregámos na empresa o nosso caderno reivindicativo e seguimos para os Restauradores, onde engrossámos mais uma manifestação de jovens trabalhadores.
Passaram-se dois anos e três meses e tu abstiveste-te na votação da taxa de precariedade. Uma taxinha de merda, com um máximo de 2%, para as empresas que ultrapassem a média de precariedade do sector a que pertencem. Média essa que sobe de cada vez que uma empresa contrata acima da média, isentando no futuro as empresas que agora ultrapassam a taxa média. Já sei, vais dizer-me que o teu voto pouco conta, que mesmo com os votos do Bloco todos somados não conseguirias ainda assim travar esta proposta. Sabes para quem é que o teu voto teria contado muito? Para os trabalhadores precários. Aqueles com quem te comprometeste, para que te dessem o seu voto. Aqueles a quem roubaste a voz quando, oportunista, te meteste entre eles e uma câmara de televisão.
A precariedade não é para regulamentar nem para taxar, Isabel. A precariedade é para acabar! Os trabalhadores precários asseguram necessidades permanentes, têm um horário de trabalho e um local de trabalho fixos, e do que precisam mesmo é de vínculos de trabalho efectivos com as empresas para as quais efectivamente trabalham. Não é de uma taxinha insignificante paga pela empresa que os explora e que legitima que continuem a receber ordenados de miséria, com vínculos precários e o medo constante de serem despedidos se lutarem pelos seus direitos.
Como já disse, provavelmente não te lembras de mim. Mas eu lembro-me de ti e do teu oportunismo. Oportunismo que não foi coisa da ocasião, é mesmo o teu modus operandi. Passaram-se dois anos e três meses e tu, na semana a seguir a te teres abstido na aprovação da taxa da precariedade, estiveste à porta da Assembleia da República depois da manifestação da CGTP-IN de 10 de Julho, com o teu co-aderente José Soeiro, rodeados por três câmaras de televisão. Ao mesmo tempo o Arménio Carlos falava para duas câmaras. E lá no meio da multidão vi o Jerónimo de Sousa e a Rita Rato, mas esses nem sequer prestaram declarações. Mais uma vez aproveitaste-te de um momento da luta sindical para o qual não deste qualquer contributo para a promoção, tua e do Bloco.
Dir-me-ás que a culpa não é tua, que as câmaras vos procuram. Treta. Mas mesmo que fosse verdade; cabia-te, se soubesses o que é rectidão, dizer aos repórteres que te procuram que não é a ti que devem entrevistar, que não é a tua voz que naquele momento deve ser ouvida. Que os trabalhadores têm estruturas representativas e elegem democraticamente os seus delegados e dirigentes, e que nos momentos de luta sindical são esses os seus porta-vozes.
Mas deixa lá, estás bem entregue; o oportunismo político está no ADN do Bloco e assenta-te que nem uma luva.

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