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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Queixa das almas jovens censuradas

A CORAGEM E O MEDO -ANTÓNIO LOPES DE ALMEIDA ASSASSINADO PELA PIDE - HISTÓRIA DA LUTA REVOLUCIONÁRIA



António Lopes de Almeida: A coragem e o medo

Antonio Lopes de Almeida, Maria da Piedade (mulher) e Suzete (filha)
No início do ano passado homenageei aqui António Lopes de Almeida, assassinado pela PIDE, no Aljube, em 1949. Na altura baseei-me nos arquivos da PIDE/DGS e nos jornais da época. Só mais tarde tomei conhecimento de um livro de 2008, - Mulheres da Marinha Grande, histórias de luta e de coragem -, da autoria de Júlia Guarda Ribeiro, com uma excelente recolha de testemunhos, entre os quais o de Maria da Piedade Almeida, viúva daquele malogrado operário vidreiro da Marinha Grande.
É esse testemunho que vos deixo aqui, nos 61 anos da morte de António Lopes de Almeida.



É com lágrimas na voz, pois as lágrimas dos olhos já secaram há muitos anos, que Maria da Piedade Almeida fala do dia 16 de Janeiro de 1949.

- O meu marido foi preso nesse dia. Era um Domingo, de manhã. Ele ainda estava a dormir, porque nessa noite tocara no grupo “Os Pinantes” até de madrugada. É que o meu António, para além de bom operário vidreiro, era um grande músico. Aos 14 anos já tocava clarinete. Depois aprendeu a tocar saxofone, trompete, trombone de varas e acordeão. Tocava muito bem. E compunha.Na banda era o único que escrevia músicas. A “Marcha dos Pinantes” , que ele compôs , foi muito aplaudida. E tantas outras músicas... Os olhos de Maria da Piedade ainda brilham com o amor dos 20 anos, quando fala do seu Toni.
- Era um grande músico e um grande homem. Não imaginam o prazer que tinha em ensinar os miúdos a ler. Porque eram ainda muito miúdos quando começavam a trabalhar no vidro. Alguns nem tinham tempo para ir à escola.

-Mas estava eu a falar do dia em que o meu António foi preso.
Ouvi bater à porta, fui abrir e lá estavam dois homens desconhecidos que me perguntaram: “É aqui que mora o Sr. António Lopes de Almeida?”
Pela má catadura deles, percebi logo que eram pides e até um calafrio me subiu pela espinha. A custo, perguntei: “Que lhe querem?” . “Não é da sua conta. Vá chamá-lo, que temos pressa”.
Fui acordá-lo e ele, ainda ensonado, veio à porta.
“Apronte-se, que tem de nos acompanhar à esquadra?” . “À esquadra? Para quê?” . “Precisamos de ter uma longa conversa”. “Tenho de me lavar, barbear e…” “Vá, rápido. Não temos o dia todo”

-Eu tinha o coração mais apertado que um nó cego. Fui ver a menina. Ainda dormia naquela paz e doçura que só uma criança tem enquanto dorme. Dei-lhe um beijo e as lágrimas correram-me desatadas. Foi aí que o meu medo começou. Medo pelo que se estava a passar e medo pelo que poderia vir a acontecer. Mas estava longe de adivinhar todo o horror que se passou. Saí do quartinho da minha filha e fui ter com o meu marido. Tentei aparentar coragem, mas o pavor crescia dentro de mim. Pôs-me o braço sobre os ombros, como se me quisesse dar forças e disse baixinho:”Não vai ser nada. É tempo de eleições e a pide quer meter medo às pessoas. Amanhã estou de volta, vais ver”.

A menina acordou entretanto e veio ter connosco. O pai pegou-a ao colo e voltámos os três à salinha onde os pides esperavam.Um deles disse-lhe: “Olhe, diga à patroa que lhe leve o almoço, que isto vai durar”. Foi assim, como se eu não estivesse presente, como se eu não contasse para nada.
E levaram-no. A menina, com 5 anitos, assistiu à prisão do pai e também nos seus olhos se espelhava o medo. Perguntou: “Para onde vai o pai’” “Teve de sair”. “Para onde foi?” “Foi com uns senhores, mas não demora.” “Foi com uns senhores, mas não demora”. Daí a minutos perguntava outra vez: “Quando vem o pai?” “Olha, minha querida, vamos fazer o almoço e levamos-lho, está bem?”
E levei-lhe o almoço ao quartel da GNR, junto do Mercado Velho, a Resinagem. Ele então pediu-me :”Traz-me roupas, Piedade. Vão levar-me para Lisboa, para interrogatório”. Fiquei sem fala. O pavor parece que se tornou uma vaga enorme que me estava a submergir. Custava-me a respirar. De boca aberta, parecia um peixe fora da água. “Vamos no comboio da tarde, Piedade. Vá, calma, não há-de ser nada. Eu não fiz nada. São umas perguntas para amedrontar ”. Lá consegui respirar e vim para casa, porque não queria que ele me visse chorar mais. Preparei uma maleta e aprontei a minha Suzete para nos irmos despedir dele à estação. A menina, ainda tão pequenina, mas parecia que percebia o que se estava a passar. Muito abraçada ao pai, a chorar, não o queria largar. Era de cortar o coração. E eu, ao abraçá-lo, disse-lhe ao ouvido “Oh, Toni, eles vão fazer-te mal. Vão torturar-te, mas tem coragem. Não dês o nome de ninguém”. E ele respondeu ao meu ouvido: “Tu conheces-me, Piedade. Sabes que eu nunca seria capaz de trair um amigo ou um camarada”.

- Depois arrependi-me muitas vezes de lhe ter dito tal coisa. E pensava cá para comigo : “ Quem sabe se ele tivesse dado um nome ou dois, daqueles que até já tinham sido presos, ele e os outros não seriam soltos mais dia menos dia?”
Mas também sei que mesmo que eu não lhe tivesse dito nada, o meu António não denunciaria ninguém.

Porém, ele... ele foi denunciado... Havia sempre bufos, mesmo onde não era de esperar.
Fez uma longa pausa, pois a ferida antiga fora reaberta. Perpassa funda amargura nas palavras que profere.
- Se houver contas a ajustar... Olhe, já lá estão os dois.

E continuou com voz mais sumida:
- O que o meu marido sofreu! Esteve 48 horas seguidas de estátua. Se escorregava para o chão, era logo “Levanta-te, cabrão” e pontapés por onde calhava: nas costas, na barriga, nos testículos. Se fechava os olhos de exaustão, eram pontapés na cara e na cabeça. Partiram-lhe o nariz, os óculos, escorria sangue por todo o lado. (Soubemos destas coisas por outros presos e porque o homem da funerária contou como estava o corpo: todo pisado. Todo ele era uma nódoa roxa. Disse que mais parecia o pano da Paixão.) . Tudo isto se passou na António Maria Cardoso e no Aljube. A prisão, a tortura e a morte : tudo isto em 3 dias ou 4.

Todavia há orgulho na voz sofrida desta mulher de 92 anos quando afirma:
- Mas nunca denunciou ninguém!

Regressa à sua memória e os seus olhos mostram que a lembrança lhe dói profundamente.
Quanto sofreste, meu Toni. Quanto eu sofri, nesses dias e em todos os outros dias da minha vida. Sentindo sempre aquele medo imenso, que me gelava o sangue. Não conseguia dormir e se caía no sono, tinha pesadelos infernais. Acordava aos gritos. Punha uma almofada na boca e mordia-a com força para não acordar a minha filhinha. De manhã tinha de tratar dela, sem choro nem lágrimas. E a menina continuava a perguntar: “Quando vem o pai?” “Não tarda aí, meu amor”. Que difícil compor um sorriso quando o coração geme e sangra. “Quero o pai”. E eu tinha de me virar de costas para ela não me ver chorar.

- Quando o meu marido foi torturado, estava no Aljube um estudante de Coimbra, preso nas lides da campanha de Norton de Matos. No corredor passavam um pelo outro. O meu António, com o rosto todo maltratado, os olhos muito negros e inchados, segredou-lhe: “Estive dois dias de estátua. Não me arrancaram nada nem arrancarão”. Na volta seguinte mais umas palavras: “Sou Lopes de Almeida, Marinha Grande. Estão a matar-me de pancada”. O estudante foi solto daí a um ou dois dias e viu a notícia da morte de António Lopes de Almeida, que se enforcara no Aljube. Mas não dizia que era da Marinha Grande. Cheio de fúria, correu ao jornal “República”, explicou tudo o que viu, e então a notícia saiu correcta.

- Mas como podia ele ter-se enforcado, se não tinha corda, nem cinto, nem atacadores dos sapatos. Realmente, segundo me contaram os meus primos Bajancas (isto é uma alcunha, que o apelido deles é Neto, e foi a eles que eu pedi que arranjassem uma funerária para tratar do corpo e do funeral), o meu marido tinha um vergão roxo à volta do pescoço. Mas a pide é que o dependurou já morto ou moribundo, para fazer crer que ele se tinha enforcado. Aliás, isso era prática muito frequente na pide.

Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, os meus primos levaram-me à funerária, mas o caixão já não se encontrava lá. O proprietário contou-me que, ao preparar o corpo, um dos empregados havia encontrado num bolso do pijama um papelinho escrito com sangue “Avisem minha mulher, Mª Grande”. “ Dê-me esse papelinho, por favor”. “Não o temos. A pide veio cá hoje mesmo buscá-lo”. “Mas como é que a pide soube?” “Minha senhora, a pide tem olhos e ouvidos em todo o lado. Até na casa dos mortos”.

- Eu percebi então que o meu António, à beira da morte, teve medo que a pide destruísse o seu corpo.

- Um agente da pide, de nome Fernando Gouveia, muito chegado a uma vizinha da minha cunhada Maria João, falou um dia sobre a tortura e morte do meu marido e disse: “O António Lopes de Almeida era um Homem. Um vidreiro, mas não um operário comum. Muito culto. Só que nunca quis dizer a verdade. A culpa foi dele. Porque é que nunca disse o que devia? Portanto, ele é que se enforcou”.

-Repare que todas estas coisas se foram sabendo com o tempo. Desculpe contar assim, sem jeito nenhum. Vou voltar atrás, ao Domingo seguinte à prisão. Era dia 23 de Janeiro e o grupo “Os Pinantes” estava a tocar num baile na Nazaré, quando alguém chegou com o jornal “República” e disse: “Mataram o António Lopes de Almeida”. Eram 4 horas da manhã quando ouvi duas pancadas na janela do meu quarto. O meu coração parou. Senti uma dor... sei lá … a dor da morte. Sabia, tinha a certeza, que o meu António morrera antes mesmo de ouvir dizer “Não tenha medo, Piedade. Sou eu, o Mário”. Era o Mário Macatrão. Abri a janela. “Venho dizer-lhe o que se passou com o seu marido”. Contou-me o que o meu coração já tinha adivinhado.
De manhã, fui chamada à Câmara e o Presidente disse-me: “Vá já para Lisboa tratar de assuntos referentes ao seu marido”. Eu já estava vestida de luto.

Avisei os meus primos e fui logo para Lisboa. Dirigi-me à António Maria cardoso, pois era lá, pensava eu, que deveria reclamar o corpo, a fim de lhe dar um funeral digno na Marinha Grande. Veio um pide e, com falinha mansa, disse-me: “O corpo não pode ser entregue já. Só daqui a três meses é que o pode levar”. Pensei que enlouquecia. Desatei a gritar: “Quero o corpo do meu marido. Que lhe fizeram? Que lhe fizeram depois de o matar?”. “Ouça, não grite. O seu marido terá um funeral. O Governo Civil está a tratar disso”. Empurraram-me. Obrigaram-me a sair. Já no meio da rua continuei a gritar “Assassinos! Assassinos! Mataram o meu marido. Já que não mo dão vivo, dêem-mo morto”. O pide que me agarrara por um braço, ameaçou : “Cale-se, mulher, se não o corpo ainda vai parar à vala comum e você nunca mais saberá dele”. Eu não consegui parar de gritar. Foi o único momento em que não tive medo, talvez porque devo ter pensado que já não tinha mais nada a perder. Os meus gritos fizeram assomar muitos rostos assustados às janelas apenas entreabertas. “Assassinos! Assassinos!” . Gritei até a voz me doer. Gritei para lá da dor. Ali fiquei derrubada , no meu desespero e no meu soluço.

Quando consegui pensar, percebi que o que a pide queria era deixar passar o tempo, para que o caso caísse no esquecimento, porque era período de eleições e para que as marcas da tortura desaparecessem.

- O corpo de meu António ficou no gavetão nº 59 no cemitério de Benfica. Mais tarde soubemos que esse gavetão fora pago pelo Governo civil de Lisboa não por 3 meses, mas por 50 anos.E assim teria acontecido, se não fosse o 25 de Abril.

Quando íamos ao cemitério de Benfica pôr flores, por vezes interrogava-me se a pide não teria ido lá retirar o corpo. Até esse medo eu tive.
Um coveiro chegou a dizer-nos: “Preparem tudo na Marinha Grande e venham cá uma noite e levam o caixão.” Mas, obviamente, isso não se podia fazer assim.

Na Marinha Grande, logo que se soube da morte do meu marido, as fábricas pararam, os trabalhadores vieram para a rua e, em frente do Sindicato dos Vidreiros e no Largo da Câmara gritavam em altas vozes: “Queremos o Homem” “Queremos o Homem”. Foi um pide que chegou à varanda e disse: “Calma, que o Homem vem”. E veio. Mas passados 30 anos.
Mas já estou outra vez a adiantar-me aos acontecimentos.
Mais uma pausa no relato. Mais um reavivar da dor.

-Vou tentar retomar o fio da meada. O meu António não sobreviveu à tortura. Eu nem sei como sobrevivi a tanta dor, porque sofrer na alma é sofrer mil mortes. O que me prendeu à vida foi a minha filha, que eu, tão cedo viúva, ia ter de criar sozinha. Por isso, havia que secar as lágrimas eenfrentar a dura realidade. A morte do meu António não podia ter sido em vão. Tudo o que eu sentia: desespero, raiva, angústia, uniam-se num sentimento que me tolhia: o medo. Eu era vigiada. Fui vigiada anos e anos. E o medo entranha-se em nós até ao tutano. Tinha medo que me destruíssem também e eu tinha de viver e trabalhar para a minha filha.
- Quando havia qualquer movimento dos trabalhadores, para pedir aumento, ou melhores condições de trabalho, toda a gente, colegas e dirigentes sindicais me recomendavam que eu não me mostrasse, não saísse da fábrica, pois estava muito marcada. Na verdade, estava marcada pelo medo na alma e no coração. Mas aprendi que o medo também nos pode dar coragem. Coragem e força para lutar pelo que é nosso, pela nossa família, pelos nossos direitos.

- Já contei que trabalhava numa fábrica, na “Catita e Barros”, mas não disse o que fazia. Fui empalhadeira quase 20 anos. Era um trabalho muito duro. As costas ficavam derreadas e, a certa altura, comecei a ter dores muito fortes na barriga. Já quase nem podia encostar nela o garrafão, porque as dores se tornavam insuportáveis. Fui operada a um tumor e reformada por invalidez com 170 escudos mensais. Foi em 1961. Claro que isto não dava para viver e eu trabalhava em casa, empalhando coisas pequenas como garrafõezinhos e cantis-miniatura que a Elisa Bizarro vendia em Fátima. Era um trabalho menos duro, mas que exigia arte e paciência, porque a empalhação tinha de ficar como uma renda.

- No meio de tanta desgraça gostaria de dizer uma coisa muito linda sobre um patrão que tive e que era a excepção à regra: o Dr. Artur Barros. Grande amigo do meu marido, tinha pena de mim e da minha filha. Um dia perguntou-me: “Então a miúda vai bem nos estudos?”. “Vai, sim. Fez a 4ª classe e agora vai trabalhar”. “Trabalhar? Tão pequenina? Seria o que o pai queria?” . “ Não, não era. Mas o que eu ganho não dá para mais estudos” . “Escuta o que te digo, Piedade. Olha que sem estudos não se vai a lado nenhum”. “Sei que o senhor tem razão, mas…” “Eu tomo a meu cargo os estudos da pequena”. Foi assim que a minha Suzete continuou a estudar. E foi assim que pôde arranjar um emprego melhor do que ser empalhadeira.
- Hoje ajudo a minha filha a criar os filhos: os meus netos que, felizmente, não tiveram de viver num regime de opressão e de medo.

- Para terminar, só vou falar de um dos momentos mais importantes da minha vida: a trasladação dos restos mortais do meu marido para a terra que era a sua e que ele tanto amava.
Claro que teve de se dar o 25 de Abril. Teve de chegar a liberdade, tão duramente conquistada por mulheres e homens corajosos. A liberdade pela qual alguns, como o meu António, sacrificaram a própria vida.
Após 30 anos teve o funeral que lhe era devido. Foi no dia 13 de Março de 1979 que os seus restos mortais desceram à campa nº 1648, no cemitério da sua querida vila. Os trabalhadores da Marinha Grande, em peso, estavam lá.
Após 30 anos o Homem regressou, finalmente, à sua terra.


Maria da Piedade Almeida, in Júlia Guarda Ribeiro, Mulheres da Marinha Grande - histórias de luta e de coragem, Folheto Edições & Design, Leiria, 2008, pg. 39-53

A arte na rua e a rua na arte. Um relato de experiências.

 
A arte na rua e a rua na arte
Um relato de experiências.
Ana Teixeira
Foquei meu trabalho nos últimos 13 anos em ações reconhecidas por alguns teóricos como “arte relacional“, ou seja, uma arte que toma como horizonte as interações humanas e seu contexto social, mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado. A maioria dessas ações foi ambientada na rua, em interação com um público bastante diversificado, composto tanto por frequentadores habituais de museus e galerias, quanto por transeuntes não habituados à convivência com obras de arte de qualquer espécie.
O ato de promover essas “ações de rua” está ligado a um desejo de criar, no espaço público, um “lugar da dúvida da realidade”, como diz Waltércio Caldas (1) , ou de engendrar o que o filósofo Michel Foucaultchama de heterotopias, espaços que contém “em um só lugar real vários espaços, vários posicionamentos que são em si próprios incompatíveis (2) As heterotopias “supõem sempre um sistema de abertura e fechamento que, simultaneamente, as isola e as torna penetráveis”. Assim vejo as ações que faço: um lugar que questiona o próprio lugar. Acredito que andamos pelo espaço público (e às vezes também pelo privado) anestesiados, e por isso deixamos de ver – pois há ofertas demais, tanto visuais, quanto táteis e sensíveis. Não vemos mais, pois há muito pra ver. Gosto da ideia de criar pequenos curtos-circuitos no tecido da cidade e de seus habitantes.
Na base de minhas ações, encontra-se a noção de troca, seja ela a troca de pequenos doces recheados, denominados sonhos, por outros sonhos, esses de ordem abstrata; ou de palavras por outras palavras. Essas ações têm sua gênese em ações cotidianas do comércio formal e informal. São, porém, articuladas em uma outra estrutura, de caráter híbrido, por reportarem-se tanto às estratégias do comércio quanto às da arte.
TROCO SONHOS” é uma ação que consiste na montagem de uma banca, como as dos vendedores ambulantes, em lugares de grande fluxo de pessoas. Sobre ela são colocados, em uma bandeja, em média, duzentos sonhos – pequenos bolos recheados e fritos, que, no Brasil, recebem o nome de “sonho”. Um cartaz afixado na banca tem os dizeres: “TROCO SONHOS. ACEITO TODOS OS TIPOS: DOURADOS, ESQUECIDOS, ABANDONADOS, VIVOS, MORTOS, IMPOSSÍVEIS, PRESENTES OU ENTERRADOS”. É proposto aos transeuntes que troquem sonhos comigo: ofereço-lhes um sonho – bolo doce – e eles me dão em troca um sonho seu, gravado por um cinegrafista que me acompanha. As heterotopias “supõem sempre um sistema de abertura e fechamento que, simultaneamente, as isola e as torna penetráveis”. Assim vejo as ações que faço: um lugar que questiona o próprio lugar. Acredito que andamos pelo espaço público (e às vezes também pelo privado) anestesiados, e por isso deixamos de ver – pois há ofertas demais, tanto visuais, quanto táteis e sensíveis. Não vemos mais, pois há muito pra ver. Gosto da ideia de criar pequenos curtos-circuitos no tecido da cidade e de seus habitantes.

Essa ação foi executada pela primeira vez em 1998 e pela última em 2006. Foi a primeira das ações urbanas que promovi e foi concebida com a idéia de ser uma oferta diferenciada no cotidiano das ruas. A experiência que esse trabalho trouxe é significativa e tanto a abordagem às pessoas quanto a minha maneira de ver e pensar essa ação foram se modificando com o passar dos anos. Foram mais de 6.000 sonhos trocados em ruas, praças, viadutos, avenidas, e centros culturais de 20 cidades diferentes (3) o que gerou um agrupamento bastante diverso de pessoas, situações e experiências.
O material coletado nas filmagens conta com quase 30 horas de gravação em mini-dv. Um filme com 10 minutos de duração foi feito e já mostrado em exposições no Brasil e na Europa. Pode ser assistido no youtube, no endereço: http://www.youtube.com


Já “OUTRA IDENTIDADE” é um trabalho que propõe aos transeuntes a escolha de uma identidade diferenciada. Confeccionei cédulas de identidade no mesmo formato, tamanho e cores das originalmente usadas no Brasil, porém sem nome, números ou fotos. Construí um carrinho que se assemelhasse a um escritório ambulante e confeccionei carimbos com dez diferentes frases identitárias: TENHO SONHOS; NÃO TENHO CERTEZAS; AMO E NÃO BASTA; AINDA TENHO TEMPO; AGORA TANTO FAZ; QUERIA MENOS DE MIM ÀS VEZES; NÃO SEI DE MIM; ADORO FALAR SOZINHO; NÃO FAÇO SENTIDO; EU FALO MENTIRAS.
A ação toda se dá da seguinte maneira: levo o carrinho a lugares onde haja grande fluxo de pessoas, estaciono-o, abro o tampo onde estão divisões com os carimbos, as identidades, os plásticos e demais apetrechos; abro a porta lateral onde carrego um banquinho, preparo o material de limpeza das mãos das pessoas (álcool e toalhinhas) e aguardo o primeiro “cliente“. A cada pessoa que se aproxima, interessada, explico que ela pode escolher uma identidade entre aquelas que ofereço e que só tem que me dar em troca sua impressão digital. A pessoa lê as frases no próprio tampo do carrinho e escolhe uma delas (ou mais de uma) que é carimbada no novo documento e em uma página de um pequeno caderno preto. A digital do participante também é reproduzida tanto no caderno, quanto no documento. A “outra identidade” é colocada, então, em uma embalagem apropriada para documentos e entregue ao transeunte.
A idéia que norteia essa ação é a de oferecer, inserida no mercado da economia dita informal, a aquisição de uma outra identidade, não baseada na profissão, na sexualidade, nos cromossomos, na moral ou nas eficiências/deficiências de cada um. Uma identidade onde se sobressaia o desejo, o sonho, ou as sensações. Tais critérios não são nem melhores nem piores do que os tradicionalmente usados como identitários, mas são uma outra opção que pode vir a provocar conflitos, raciocínios ou, no pior dos casos, novas alienações.
Em 2005, ao fazer essa ação em uma praça do bairro da Bela Vista, em São Paulo, fui denunciada por alguns freqüentadores e levada, juntamente com meu carrinho, em um carro de polícia até o 5º Distrito Policial, para prestar esclarecimentos. Lá fiquei por quase 3 horas, apesar do delegado afirmar, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, que foram apenas 15 minutos. (4)
A “banca de sonhos” ou o carrinho que oferece uma outra identidade ativam, basicamente, a troca. Em ambos os casos, troca-se algo material e consumível (o bolinho chamado sonho ou a cédula de identidade carimbada) por algo subjetivo e imaterial (um sonho pessoal) ou, ao menos, não consumível (a impressão digital). Ao mesmo tempo em que tais ações repetem procedimentos usuais do comércio, deles se diferenciam, quando alguém se dispõe a interromper sua rotina e participar da troca. Se o transeunte não optar por deter-se e por saber o que ofereço nas bancas que monto, ou no carrinho que empurro pelas ruas, minha ação se confundirá com qualquer outra oferta presente no espaço público.
Há ainda outras questões a serem destacadas: As ações, ao reafirmarem as estratégias do comércio, dão mais visibilidade aos excessos do contexto consumista. E, ao me misturar aos vendedores ambulantes e, como eles, buscar contato com os passantes, promovo uma equivalência entre o que habitualmente está separado: o mundo da arte e o mundo que está nas ruas.
Trabalhos como os que faço podem ser analisados pela ótica do que o filósofo Jacques Rancière chamou em seu texto A arte além da arte. (Folha de SP, Caderno MAIS!, 24.10.2004) de “arte relacional“, ou seja, uma “arte que busca criar não mais obras, mas situações e relações“. Rancière afirma que os artistas e os atores do mundo da arte acabam por “utilizar seus meios e seus lugares para testemunhar uma realidade das desigualdades, das contradições e dos conflitos que o discurso consensual tende a tornar invisíveis“. Ele comenta também as dificuldades pelas quais passa a arte contemporânea, detectando nos trabalhos atuais o que ele chama de uma “obsessão pelo real“, que assumiria diversas formas, entre elas a do desejo de intervir diretamente na realidade social. Para ele essa seria uma questão oriunda da arte moderna, “habitada pela preocupação de sair de si para tornar-se uma forma de intervenção que transforme a realidade mesma das coisas“. Diz o filósofo que a novidade, então, estaria no fato de a vontade de intervenção ter tomado forma de “assistência individual” aos desfavorecidos, algo rejeitado, anteriormente, tanto pelas vanguardas artísticas como pelos construtores do socialismo. Afirma que se estaria reduzindo “o poder artístico de provocação às tarefas éticas de testemunho sobre um mundo comum e de assistência aos mais desfavorecidos“. Tal afirmação é significativa e parece denunciar um momento peculiar da arte contemporânea. Porém, muitos artistas, alguns indiferentes às teorizações, outros receptivos a elas, desenvolvem seus trabalhos no espaço público não com a intenção de provocar mudanças na estrutura social, mas nela causando pequenas fissuras, deslocamentos e alterações.
Eu, particularmente, prefiro acreditar que mais do que testemunhar a realidade atual é possível intervir nela dando-lhe visibilidade e provocando dúvidas, mesmo que momentâneas e pontuais.
Acredito ser esse o caso da ação denominada “Escuto histórias de amor”, que realizei em nove países: Brasil, Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Chile, Canadá e Dinamarca. A ação aconteceu da seguinte maneira: em lugares com grande fluxo de pedestres de cada cidade sentei-me, deixando um lugar livre ao meu lado e, enquanto tricotava uma lã vermelha, esperava por pessoas que quisessem me contar uma história de amor. Um cartaz, ao meu lado, anunciava, no idioma local, a minha intenção. A reação das pessoas foi variada e em alguns lugares ninguém falou comigo, em outros, escutei várias histórias diferentes. Cabe comentar que eu imaginava ouvir histórias sem entendê-las, porém isso nunca aconteceu. Quando as pessoas percebiam que eu não falava alemão, por exemplo, elas se comunicavam em inglês. Compreendi que as pessoas não querem apenas ser ouvidas, elas querem ser entendidas. Este trabalho foi feito pela última vez em São Paulo, durante a Virada Cultural de 2012. Foram sete horas ininterruptas escutando histórias de amor e o tricô, iniciado na Alemanha em 2005, agora tem sete metros de comprimento e muitas histórias guardadas em sua trama. As ações foram filmadas e uma vídeo-instalação com seis destes filmes foi montada em Toronto, no Canadá, em junho/julho de 2008. Os filmes não tem som e as histórias são mantidas em segredo. O som que preenche a sala expositiva é o do barulho das ruas de todas as cidades visitadas.
Histórias, aliás, é o que não faltam em minha experiência de levar a arte para o espaço público, histórias de confrontos e negociações. Como afirma o artista e teórico francês Daniel Buren:
A rua não é um terreno conquistado. Na melhor das hipóteses é um terreno a conquistar, e para tanto são necessárias outras armas que aquelas forjadas ao longo do século na tradição, por vezes complacente, dos museus.” (5)
A arte que dialoga com questões sociais e com o espaço urbano é ainda um desafio tanto para os teóricos quanto para os artistas, ambos trabalhando em searas diferentes, mas complementares. Quero crer que talvez ainda não tenham sido articulados conceitos suficientes para abarcar o espectro de atuações voltadas ao que, por falta de um termo melhor, chama-se “arte relacional”.



1 “A arte não é o lugar de entendimento da realidade, a arte é o lugar da dúvida da realidade. É o momento onde a realidade se oferece como latência produtiva. A arte não trabalha com o conceito de realidade, ela trabalha com a possibilidade de uma coisa vir a ser mais que um conceito de realidade. Para a arte não importa se este copo é um copo, importa o que ele pode vir a ser se ele não for o que ele é”. Waltércio Caldas
2 Michel Foucault, Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema/ Michel Foucault; Ditos e escritos, pp 418
3 Quando essa ação foi feita em frente ao MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo, na Avenida Higienópolis, durante a abertura da mostra “São Paulo Turística”, recebeu uma caracterização especial: a transmissão ao vivo da ação para dentro do Museu. O filme, registro da ação, fez parte da mostra, de 31.05 a 22.07 de 2001. o que gerou um agrupamento bastante diverso de pessoas, situações e experiências
4 Reportagem no Jornal Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, de 04 de julho de 2005.
5 Daniel BUREN, Textos e entrevistas escolhidos, p. 175

Passos Coelho afinal sabe que governa injustamente e ruinosamente.




Passos Coelhonos primeiros 2 minutos deste video, reconhece as consequências 
desastrosas, de um mau Governo.
  1. Assume que o governo trata mal os portugueses...  e demonstram falta de democracia.
  2. Assume que reduzir o deficit é uma medida gravosa que afecta o rendimento das 
  3. pessoas e das famílias,  das empresas,  e da economia.
  4. Critica o aumento de impostos, cortes na saúde, nas pensões ou no ensino, pois isso 
  5. é transferir para os portugueses a responsabilidade e o custo pelos erros sucessivos 
  6. do governo.
  7. Acusa ainda desleixo, falta de rigor, incompetência e desnorte.
  8. Opina que as medidas mais urgentes deveriam ser reduzir o peso do sector 
  9. empresarial do estado, organismos e institutos públicos. Mas o governo apenas 
  10. demonstra inacção nestas matérias! E a despesa pública continua a aumentar...
  11. Critica ainda que o governo lance sacrifícios adicionais, sobre os que são sempre 
  12. sacrificados. E nada se faz para cortar na máquina do estado tanta vez supérflua 
  13. e desnecessária.
Para aqueles que são isentos e racionalmente capazes 
de avaliar estas palavras, seriam levados a acreditar que 
Passos Coelho se referia a ele próprio e ao seu governo, 
ou ainda que, se referia aos últimos 30 anos de governação... mas não. 
Para semear a ideia que o mal do país é sempre do partido que lá esteve, 
este discurso impessoal, difuso e descaracterizado, que poderia ser uma 
critica a todos, era dirigido exclusivamente ao calamitoso fugitivo de Paris. 

Mas a politica é isto mesmo... como diz o ditado popular - "Depois de mim virá quem bom de mim fará." 
Apesar da responsabilidade pelo caos de Portugal, ser de todos os políticos, de todas 
as politicas e de tudo que se fez nas últimas 3 décadas, para estes demagogos incuráveis, 
é importante fazer o povo acreditar e manter essa crença, de que os políticos são pessoas 
de confiança e competentes, basta saber escolher, e os portugueses andam há anos 
a tentar descobrir, e não encontram. Geralmente a escolha consiste em tirar o que esteve 
recentemente a fazer asneiras e colocar um que esteve lá, antes, a fazer as mesmas asneiras. 
Mas cuja memória dos portugueses já não tem a capacidade de reter.
E assim se vai intercalando um governo ruinoso, com outro ruinoso, um governo mentiroso 
por outro mentiroso, uns fogem com vergonha e medo, outros ficam por cá a fingir que 
são uns inocentes outros tem mesmo o descaramento de permanecer no poder ... para variar. 


Acesse ao Artigo completo: http://apodrecetuga.blogspot.com/#ixzz27TrurXPi

TENHAM UM PINGO DE VERGONHA, DEMITAM-SE

Pelos vistos, para esta gente, o 15 de Setembro não foi mais que fumaça. Leva-me até a pensar que o anunciar por parte de Passos naquele fatídico 7 de Setembro em relação à TSU não era mais que uma manobra deliberada de distracção para o anuncio de outras medidas mais graves e dolorosas.

Se o aumento/roubo de 7% na taxa de TSU aos trabalhadores para o entregar ao patronato era para além de aberrante e maquiavélica, inconstitucional, eles sabiam-no e aqui a coisa é bem mais grave. Se sabiam as consequências (e eu acredito que sabiam) de tal anuncio/medida, porque razão avançaram com ela? Se Portas sabia porque razão todo este cenário de "crise" no governo, com comunicados e contra-comunicados, com pseudo-zangas encenadas e alimentadas pelos mídia, culminando na reunião do conselho de estado?

Pois é, tudo isto fazia e faz parte de medidas pré-cozinhadas entre os personagens da imagem, Cavaco e os funcionários do FMI, BCE e CE que frequentemente nos visitam, tendo o PS/Seguro como cão de guarda a qualquer eventualidade.  Só assim se explica que "eles" continuem a cozinhar o nosso destino a seu belo prazer, tendo o grande capital e a banca como únicos beneficiados do descalabro económico e social do POVO. 

A sensação que fica é que o 15/9 não chegou, temos de ir mais além, o assalto que nos continuam a fazer é colossal, por tal, a resposta tem de ser a condizer.  

Ferroadas

A TROIKA NÃO O PREOCUPA


 A TROIKA NÃO O PREOCUPA !

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SIMBIOSE - POEMA DE ANTÓNIO GARROCHINHO


O INACREDITÁVEL SOARES



que galgue o rio - poema de António Garrochinho



Polícias juntam-se aos protestos das centrais sindicais

Manifestação de polícias do ano passado
A decisão envolve a PSP, a GNR, os Guardas Prisionais, a ASAE, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e a Polícia Marítima. O primeiro protesto será na manifestação da CGTP no dia 29.
24-09-2012 19:50 por Celso Paiva Sol










A partir de agora, os polícias vão juntar-se a todos os protestos que as duas centrais sindicais organizarem contra as medidas de austeridade.
A decisão, que envolve a PSP, a GNR, os Guardas Prisionais, a ASAE, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a Polícia Marítima, foi tomada esta segunda-feira, numa reunião que juntou no Porto os dirigentes de seis estruturas sindicais de outras tantas forças e serviços de segurança.
O coordenador e porta-voz deste grupo, diz que o primeiro protesto será já na manifestação da CGTP dia 29 de Setembro, para a qual será mobilizado o maior número possível de polícias.
“Decidimos participar em todas as acções de protesto convocadas pelas centrais sindicais, seja a CGTP seja a UGT, iniciando já à manifestação da CGTP. Será enquadrada onde os polícias irão demonstrar o seu descontentamento e também dizer que estão ao lado de todos os cidadãos que estão a lutar por uma solução de acordo com as suas expectativas”, afirmou Paulo Rodrigues.
Além dos que vão estar a trabalhar na vigilância das manifestações, os profissionais da área da segurança assumem agora a intenção de participar do outro lado das barreiras em todos os próximos protestos.

VENENO TSU


MUDA-TE TU Ó CAMELO (DIGO EU)


Muda-te tu, ó Camilo

O indivíduo que suponho ser jornalista e que dá pelo nome de Camilo Lourenço acaba de descobrir, após a reunião do Conselho de Estado, que o mal está em que "o país não quer mudar". E o pior é que, segundo ele, o "mal" tanto afecta a Esquerda como a Direita.
Estivesse certo o diagnóstico de Camilo e o caso era grave, pois o mal, afectando a Direita e Esquerda, não tinha mesmo remédio. Felizmente, acontece que o diagnóstico de Camilo,  para além de apressado, é errado.
A prova de que o país quer mudar está nas recentes manifestações populares demonstrativas de que o povo quer sair do sufoco criado pelas medidas tomadas pelo governo de que ele é, sem dúvida, um dos últimos e um dos mais acérrimos e mais acríticos defensores, medidas que se revelaram claramente contraproducentes, razão por que o país se recusa a aceitar mais do mesmo, uma vez que as medidas anunciadas vão no mesmo sentido e, ainda por cima, vêm acompanhadas de agravantes.
Há, no entanto, que reconhecer que o país não quer mudar para o modelo perfilhado por Camilo e por este governo que é o de, através da baixa de salários e do corte, a torto e a direito, dos direitos dos trabalhadores, transformar Portugal na China do Ocidente.
De forma que, Camilo, se não estás de acordo com a opção da maioria da população, tens bom remédio: muda-te tu para a China e aproveita para levar contigo toda a pandilha que segue a tua cartilha. (Digo pandilha só para rimar).
Ah! e antes que me esqueça: leva também o Crespo e larga-o em Washington. Fazes-lhe um favor a ele,  que está mortinho por viver lá, e outro a muitos de nós, ou, pelo menos, a mim que já tenho, há muito, o enorme desejo de o ver pelas costas.
Segue o meu conselho e se, daqui por uns tempos, deres uma volta por cá, verás que até o ar se tornou muito mais respirável.

Terra dos espantos

O TEXTO DO CAMILO AQUI ABAIXO




A divisão no Conselho de Estado é o espelho da sociedade portuguesa: o país não quer mudar.
Esqueçam a questão da TSU. O problema de Portugal é outro. As informações passadas por quem esteve na reunião do Conselho de Estado mostram que os presentes partiram-se entre apoiantes das medidas do Governo e os que não concordam com elas (ver "Público" de ontem) independentemente do posicionamento ideológico. Ou seja, a fractura teve pouco a ver com a tradicional divisão entre Esquerda e Direita. O que reforça uma ideia: as mudanças que temos de fazer não agradam a ninguém. Nem à Direita (veja-se a inacreditável entrevista de Freitas do Amaral à SIC, na semana passada e as declarações de Bagão Félix nas últimas semanas) nem à Esquerda (cujo rol, de tão extenso, me dispenso de referir aqui). Porquê? À partida poder-se-ia pensar que a Esquerda estaria mais inclinada a defender aquilo que criou nos últimos 38 anos (com a ajuda de alguns governos de Direita): uma presença sufocante do Estado na sociedade, traduzida na absorção de 50% da riqueza que o país cria. Mas não é isso que se passa: a mudança assusta tanto a Direita como a Esquerda.

A divisão no Conselho de Estado é o espelho da sociedade portuguesa: o país não quer mudar. Porque a mudança implica dor (recessão, desemprego) e porque a mudança implica o fim de privilégios e influência de grupos e personalidades de peso na sociedade portuguesa. Tanto à Esquerda como à Direita. É isto que está a bloquear a modernização de Portugal: o medo da mudança. E é isso que nos está a empobrecer, afastando-nos do centro da Europa. Estamos a chegar àquele ponto em que a única esperança de mudança se transferiu de quem tem a obrigação de mudar o país (nós) para… a Troika. Pior atestado de incompetência não poderia haver.


Boletim meteorológico

Hoje, dia de me concretizar na corda tensa
Do animal com cio que resuma
A minha Eva quebrada ao espelho da evidência
De para além do espelho não haver Eva nenhuma;

Hoje, dia de escrever uma carta como um suicida
Que por sê-lo de facto nunca se chega a matar
E lê-la depois como uma novela muito aborrecida
Onde ninguém tem uma razão para se suicidar;

Hoje, dia de esclarecer este inútil mistério
Duma personalidade com a polícia à vista,
Deixando como um cartão-de-visita em qualquer ministério
A bomba da minha humanidade poética anarquista;

Hoje, dia da tua morte, sejas tu quem fores
Que morreste para que da guerra anónima que travámos
Ficasse como um arco-íris das nossas sete dores
Este poema, onda em que abraçados naufragámos;

Hoje, dia de Maria da Estrela ter toda a razão
quando me contava que havia uma ilha como um girassol
Que as feiticeiras faziam girar como um pião
Debaixo do mar em que eu me enrolava como num lençol;

Hoje, dia de vai haver a revolução
E todos em casa á espera da primeira granada
Que transforme este está para ser uma nação
No herói que não quer ser nação nem quer ser nada;

Hoje, dia de mudar de raça - trocar a branca pela violeta?
E sabendo o que sei de mim sendo de outra cor
Seres o príncipe que não importa de que planeta
Traz ao círculo da minha insónia a quadratura do teu amor.

                                        Esboço de Vasco Barreto

Miguel Macedo declarou duas residências, uma em Braga e outra em Algés

Ministro recebe subsídio apesar de passar a semana em casa própria na capital



A assessoria de imprensa do Ministério da Administração Interna afirma que o subsídio é legalA assessoria de imprensa do Ministério da Administração Interna afirma que o subsídio é legal (Nuno Ferreira Santos/Arquivo)
 O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, recebe todos os meses cerca de 1400 euros por subsídio de alojamento apesar de ter um apartamento seu na área de Lisboa onde reside durante toda a semana. A assessoria de imprensa do Ministério da Administração Interna (MAI) afirma que o subsídio é legal, uma vez que o governante tem a sua residência permanente em Braga.

São nove os governantes a quem foi atribuído, por despacho de 29 de Setembro do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, com o aval do ministro das Finanças, subsídio de alojamento por não terem “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km”. Mas Miguel Macedo é o único que na declaração de rendimentos que entregou ao Tribunal Constitucional apresenta duas moradas, uma em Braga, de onde é natural e por onde foi eleito, e a outra em Algés, nos arredores de Lisboa, onde tem casa própria e reside durante os dias da semana, confirmou a assessoria de imprensa. O seu rendimento bruto é de 4.240 euros.

A prática é legal, apesar de ser polémica e já ter sido suscitado dúvidas ao longo dos tempos, havendo um parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República de 1990 que se debruça sobre o que significa, afinal, ter “residência permanente”. O parecer conclui que Lisboa é, no caso dos titulares de cargos de Governo que não viviam na capital, “uma residência ocasional”, sendo a residência permanente “o local da residência habitual, estável e duradoura de qualquer pessoa, ou seja a casa em que a mesma vive com estabilidade e em que tem instalada e organizada a sua economia doméstica, envolvendo, assim, necessariamente, fixidez e continuidade”. A capital é, segundo o parecer, “apenas onde exercem funções governativas, que por natureza são temporárias em sociedades democráticas”. O parecer conclui ainda que ter casa própria na capital não é impedimento para recepção deste subsídio.

O diploma que fixa o subsídio é já de 1980 e justifica a concessão “com os encargos que resultam para os interessados, agravados pela rarefação de habitações passíveis de arrendamento na cidade”. O despacho de Setembro fixa o valor atribuído no “montante de 75% do valor das ajudas de custo estabelecidas para as remunerações base superiores ao nível remuneratório 18”, que estão definidas em 62,75 euros diários. Feitas as contas, este valor cifra-se em cerca de 1400 euros mensais.

O subsídio de alojamento foi também atribuído ao ministro da Defesa, Aguiar-Branco, a Juvenal Peneda (adjunto do ministro da Administração Interna), aos secretários de Estado Paulo Júlio, Cecília Meireles, Daniel Campelo e Marco António Costa e à subsecretária de Estado adjunta Vânia Barros, que dão moradas na região Norte e Centro. Segundo o jornalSol, no anterior Executivo o apoio era dado a 13 governantes e entre estes também havia três secretários de Estado com casa própria em Lisboa.

O TRABALHO E O "CANTE"


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