
Teresa Martins Marques
LaRochefoucauld bem nos avisou: “Les esprits médiocres condamnent d’ordinaire tout ce qui passe de leur portée.” A frase aplica-se como luva ao sucedido, em 1980, com o escritor José Rodrigues Miguéis, o cineasta Leonel Brito e o apresentador de televisão Carlos Pereira Cruz, quando este exercia as funções de director-coordenador da RTP1. Conhecido e reconhecido pelo público, sobretudo a partir de 1969, com o programa Zip- Zip, ao lado de Raul Solnado e Fialho Gouveia, a seguir ao 25 de Abril de 1974, Carlos Cruz foi nomeado para conselheiro de imprensa da Missão Portuguesa junto da ONU, função que desempenhou até 1979. Seria de esperar que, no âmbito destas funções, exercidas ao longo de cinco anos, no coração de Nova Iorque, soubesse que ali mesmo em Manhattan, vivia, desde 1935, um dos grandes escritores portugueses do século XX — José Rodrigues Miguéis. Nascido em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1901 viria a falecer em Nova Iorque, a 27 de Outubro de 1980, amargurado pelo boicote levado a cabo por Carlos Cruz, relativamente a uma brilhante iniciativa do então jovem cineasta Leonel Brito, no sentido de promover a Obra de José Rodrigues Miguéis. À data da morte, o escritor deixava-nos uma vasta obra de ficção narrativa e de crónica-ensaio e, como os nossos melhores, merecia o documentário-homenagem de Leonel Brito, em má hora vetado e boicotado por Carlos Cruz.

José Rodrigues Miguéis publicou no jornal O Diabo, em 20 de Janeiro de 1935, o primeiro conto neo-realista da literatura portuguesa, intitulado «O Acidente», que viria a integrar o volume de contos Onde a Noite se Acaba, publicado no Brasil, pelas Edições Dois Mundos, em 1946. Não obstante ocupar este lugar pioneiro do neo-realismo, Miguéis nunca seguiu o cânone rígido nem do neo-realismo, nem do presencismo, sendo a sua Obra coetânea de ambos os movimentos literários. Leitor atento de Camilo e de Eça, revela-se fino mestre da ironia e do humor, problematizando as contradições sociais, analisando o sujeito individualmente considerado, não raro em situações limite de amargura e de perda, em busca de identidade, oscilando entre a esperança e a desistência. São em número de seis os romances de JRM:
Uma Aventura Inquietante (1958), que sob um enredo policial denuncia as arbitrariedades da Justiça, revelando em simultâneo a “gastronostalgia” do expatriado na Bélgica, que só dá valor à Pátria quando se encontra longe dela; A Escola do Paraíso (1960), revelando algumas características do romance de formação, centrada na infância do herói, decorrida entre o fim da Monarquia e os alvores da República, concedendo particular destaque à figura materna e à cidade-berço; Nikalai!Nikalai! (1971), história pícara que retrata uma comunidade de russos brancos sediada em Bruxelas, após a revolução soviética, a qual pretende repor no trono o czar Nicolau II; O Milagre segundo Salomé (1975), grande fresco da sociedade lisboeta e da ambiência de degradação dos sonhos republicanos, culminando no golpe de 28 de Maio de 1926; O Pão Não Cai do Céu (1981), onde se destaca a figura do cigano, herói épico, símbolo unificador da luta pela terra e pela liberdade na planície alentejana; Idealista no Mundo Real (1986), problematizando as contradições de um jovem magistrado, colaborador da Seara Nova, em busca da identidade ideológica e social. Serão, contudo, a novela e o conto que tornarão JRM referência obrigatória entre os melhores no género:
Páscoa Feliz (1932) — Prémio da Casa da Imprensa — revela-se um dos mais penetrantes retratos da desagregação mental do sujeito até ao limite da loucura e do crime, temática que será retomada com menor dramatismo e expressividade na peça de teatro O Passageiro do Expresso (1960). A problemática da dissolução do sujeito, associada a elementos fantásticos, constitui a linha de força da narrativa «A Mancha não se Apaga» (Onde a Noite se Acaba, 1946). De Léah e Outras Histórias (1958) — Prémio Camilo Castelo Branco — destacam-se as narrativas «Léah» e «Saudades para a Dona Genciana». A primeira, oscilando entre a carta e o diário, constitui-se como solilóquio confitente de um tímido narrador, evocando a mulher amada e perdida; a segunda, considerada a obra-prima do conto migueisiano, construída sobre uma dupla sinédoque: Dona Genciana representando o espaço humano da Avenida (Almirante Reis), e esta, por sua vez, representando a cidade de Lisboa, vista disforicamente no passado e euforicamente no presente da rememoração, depreciadas ambas pela vivência, glorificadas pela memória, como testemunhas de um espaço-tempo-relíquia, que a saudade faz re(vi)ver. A condição do imigrante é eixo temático dominante nos contos de Gente da Terceira Classe (1962) a que não é alheia a experiência autobiográfica, verdadeira força motriz da Obra migueisiana, assumida explicitamente em Um Homem Sorri à Morte — Com Meia Cara, publicada sob forma serial no Diário de Lisboa, entre 19 de Julho e 17 de Outubro de 1958, e em livro no ano seguinte. Narrativa pungente, o sofrimento perante a ameaça do fim transmuta-se, pela coragem e pela vontade, em vitória da vida e da esperança. Pass(ç)os Confusos (1982) reedita alguns contos anteriormente publicados na imprensa, bem como o livro de contos Comércio com o Inimigo (1973). A produção genericamente considerada crónica foi reunida em três vols.: É Proibido Apontar — Reflexões de um Burguês I (1964); O Espelho Poliédrico (1973); As Harmonias do Canelão — Reflexões de um Burguês II (1974). Aforismos & Desaforismos de Aparício (1996, ed. Onésimo T. Almeida) reúne textos publicados no Diário Popular, sob o título Tablóides, subordinados a temáticas diversas na área político-cultural, de que se destacam os conceitos de liberdade e de arte, bem como o papel dos intelectuais nas sociedades modernas.

Se, porventura, Carlos Cruz tinha conhecimento da grandeza do escritor José Rodrigues Miguéis, a sua má decisão em relação ao filme que Leonel Brito pretendia fazer, não revelou qualquer apreço nem pelo escritor nem pelo cineasta. Vamos aos factos:
Em 4 de Janeiro de 1980, dez meses antes de falecer, José Rodrigues Miguéis teve a grata surpresa de receber uma carta do cineasta, fotógrafo, editor e engenheiro técnico Leonel Brito, transmontano nascido em 1941, em Moncorvo, terra dos antepassados de Jorge Luis Borges. O realizador era um admirador confesso de Miguéis e pretendia dar público testemunho dessa admiração, propondo deslocar-se a Nova Iorque para o entrevistar, tendo como finalidade a realização de um filme-documentário sobre a sua Vida e Obra:
Lisboa, 4 de Janeiro de 1980
Exmo Senhor José Rodrigues Miguéis
Sou produtor de programas para a Televisão. Faço neste momento uma série de 25 minutos sobre escritores do passado e do presente que, por uma razão ou outra, fogem aos circuitos literários de Lisboa, pela sua vida e/ou pela sua obra.
O primeiro filme da série foi Guerra Junqueiro, o segundo foi sobre Marmelo e Silva. Penso que dos vivos é urgente dar a conhecer, divulgar entre o público telespectador a obra de José Rodrigues Miguéis, pelo que ela tem sido ignorada, e pela sua importância na Literatura Portuguesa Contemporânea.
O projecto já mereceu o acordo do assessor cultural da RTP/1 Jorge Listopad. Falta acordo de José Rodrigues Miguéis.
O autor do texto, que também escreveu o de Guerra Junqueiro e o de Marmelo e Silva[1] e a adaptação para a televisão do livro de Camilo Castelo Branco A Queda de Um Anjo, é Rogério Rodrigues, jornalista do Diário de Lisboa. Para um melhor conhecimento de mim: realizei já “Gente do Norte” (Prémio Dom Quixote do Festival de Cinema da Figueira da Foz), um filme sobre uma vila transmontana, “Colonia e Vilões”, sobre a problemática madeirense, e mais recentemente “Encomendação das Almas” e “Vida e Obra de Artur Duarte”.
Espero com a maior brevidade possível resposta favorável.
Sem mais, com todo o respeito e consideração,
De V.Exa.
Atentamente
Leonel Brito[2]
Em 1980, o multifacetado jovem Leonel Brito — cineasta, fotógrafo, editor — é já um nome conhecido e reconhecido nos meios culturais de Lisboa. É um dos fundadores da cooperativa Cinequanon, em Maio de 1974, com outros notáveis nomes do cinema português, a saber António Macedo, Luís Galvão Teles, Fonseca e Costa e Luís Filipe Costa. Enquanto fotógrafo do jornal República, em colaboração com Fernando Assis Pacheco realizara, em 1974, a reportagem “Zona Quente em Terra Fria”. Em 1976, representou a Associação das Cooperativas e Organismos de Base da Actividade Cinematográfica, no Conselho Sectorial de Cinema ACOBAC), ocupando o lugar de conselheiro de David Mourão-Ferreira, então Secretário de Estado da Cultura.
O filme Gente do Norte, ou a História de Vila Rica (Cinequanon,1977) receberia o prémio Dom Quixote 77, da Federação Europeia de Cine-Clubes, no Festival da Figueira da Foz, cujo director era o grande cinéfilo José Vieira Marques. O mesmo filme recebeu ainda uma menção honrosa no Festival de Santarém. A revista francesa Cinéma 78 faz referência ao filme salientando a sua excelência e finura de atenção do realizador. Lauro António, Tito Lívio, Carlos Pessoa, Luís de Pina, enaltecem as suas qualidades na imprensa. «Gente do Norte» foi seleccionado para exibição na Cinemateca Nacional, tendo realizado o filme biográfico sobre Félix Ribeiro. Realizou ainda um filme biográfico sobre Artur Duarte, realizador dos clássicos «Costa do Castelo» e «O Leão da Estrela», apresentando uma retrospectiva sobre ele, na Biblioteca Nacional de Portugal.
O magnífico documentário de Leonel Brito “Colonia e Vilões” teve antestreia em 16 de Maio de 1978, na Sociedade Portuguesa de Autores, embora nunca tenha sido visualizado nos cinemas da ilha da Madeira, conquanto tenha obtido uma menção honrosa no Festival de Cinema de Santarém. Após contactos que eu mesma mediei com Carlos Barradas, dinamizador da plataforma digital «Aprender Madeira», integrada no âmbito do Dicionário Enciclopédico da Madeira, Colonia e Vilões (1978) foi inserido naquela plataforma, enriquecida por esta peça audiovisual da maior importância para o conhecimento da Madeira e em particular da experiência de colonia mantida pelo Estado Novo, na qual o caseiro ou vilão era um verdadeiro servo da gleba do senhorio. Lemos no texto de apresentação, naquela plataforma:
“Com imagens dos vales verdejantes da Ilha pontuada com extractos dos raríssimos filmes de Manuel Luís Vieira, o documentário produzido pela mestria de Leonel Brito oferece aos espectadores uma visão única e original sobre a História dos madeirenses, tendo como actor principal do documentário o vilão, pilar humano que lançou as fundações da ilha da Madeira, e que, desagrilhoado da colonia passou a poder ter voz na construção do seu futuro.” (http://aprenderamadeira.net/)
Leonel Brito esteve presente, em 1978, nas “Memórias do Cinema”, no Quarteto, em Lisboa, e nos festivais de Figueira da Foz, Santarém, Portalegre, Huelva, Benalmadena, bem como no Centre Georges Pompidou, em Paris. Participa em diversos ciclos em Lisboa: Biblioteca Nacional, Palácio Foz, Sociedade Portuguesa de Autores, Aula Magna da Reitoria. Está presente na ETNO 78 em Lisboa, no mesmo ano, na Mostra de Cinema Português em Poitiers e no Ciclo de Cinema do festival de Cannes. Participa ainda em Mostras de Cinema Português na Alemanha (Oberhausen), Guiné, Angola e Brasil.[3]
A carta que Leonel Brito enviou a José Rodrigues Miguéis era acompanhada da seguinte sinopse da autoria do jornalista Rogério Rodrigues[4]:
José Rodrigues Miguéis (nasceu em Lisboa, em 9 de Dezembro de 1901), um dos escritores ausentes há mais tempo do seu país (há mais quatro décadas, com algumas estadias[5] em Lisboa de permeio) é um dos escritores ignorados das novas gerações. E, no entanto, é talvez o ficcionista mais importante do que se designou chamar “realismo ético”, com uma obra repartida entre recordações da infância, da vida social de Lisboa, da Bélgica e da América do Norte.
Publicou o primeiro livro em 1932 — Páscoa Feliz. Os críticos lembraram Raul Brandão e o “realismo de recorte dostoievskiano”. Em 1958[6]ganharia o prémio Camilo Castelo Branco com Léah e Outras Histórias(reunião de contos e novela) e publicaria no ano seguinte o primeiro romance policial português de que já publicara em folhetim, alguns capítulos[7], muitos anos antes, em O Diabo — Uma Aventura Inquietante.
A escolha de José Rodrigues Miguéis corresponde a um desejo e a uma intenção (à semelhança com o que fizemos com Marmelo e Silva) de recuperar e divulgar nomes grandes da literatura portuguesa contemporânea que, por razões várias, são hoje praticamente ignorados[8]das novas gerações e não têm a cobertura crítica que mereceriam. Basta referir a quase ausência de bibliografia respeitante à vida e obra de José Rodrigues Miguéis.[9] Por outro lado, um filme sobre José Rodrigues Miguéis vem levantar necessariamente uma questão que envolve a problemática dos exilados, não só por motivos imediatamente políticos, presentes nos últimos 50 anos de literatura portuguesa — é o caso de Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro e outros.
Percorrer, pois, a obra e a vida de Rodrigues Miguéis é em parte ir levantar alguns anos negros e vivências que escapam às novas gerações. É ir tocar numa literatura que foge aos limites, porventura estreitos, de uma realidade nacional, vista com olhos de dentro.
Em suma, é ir falar de uma realidade a que uma prolongada ausência dá o necessário distanciamento crítico.
A possibilidade de fazer este filme passa, obviamente, por um encontro, demorado, com Rodrigues Miguéis, onde hoje trabalha e vive — Nova Iorque.[10]
Camille Miguéis, mulher do escritor, em carta para Jacinto Baptista, datada de 24 de Janeiro de 1980, diz-nos que o marido ficou muito entusiasmado logo no começo, mas que, no dia seguinte, talvez por causa da emoção teve uma indisposição cardíaca e sentiu-se muito pessimista sobre a possibilidade de ir avante com o projecto. Pensamentos premonitórios, de quem estava habituado a viver desiludido com a Pátria. Todavia, ao contrário do que Camille previra, Miguéis levou apenas cinco dias a responder à carta de Leonel Brito:
17 de Janeiro de 1980
Caro Amigo e Senhor
Só hoje respondo à sua carta de 4 — recebida a 12 — porque ela me veio encontrar numa fase de saúde precária. Dando-lhe assim a autorização que me pede — porventura desnecessária para o exercício da liberdade de apreciação e crítica.
Lendo a Sinopse que a acompanha, ocorre-me pedir-lhe que inclua no caso as minhas actividades políticas (se isso não lhe for inconveniente: não é da minha parte uma condição!)
Delas poderá ajuizar sumariamente pela biobibliografia que incluo em fotocópia, de leitura talvez difícil, mas que me poupa ao esforço de a refazer. Recebo muitos pedidos de informação, que me custam às vezes um trabalho considerável — mas nunca uma oferta de pagamento! — Observarei também que não me considero “praticamente ignorado” das novas gerações (a não ser dos muito ou voluntariamente ignorantes), a julgar pelas obras que me são oferecidas e pelos prémios e outras recompensas que tenho recebido. Os meus quinze volumes publicados, alguns a cinco ou mais edições, andam pelas muitas dezenas de milhares de livros em circulação, não falando das obras adquiridas pela Fundação C. Gulbenkian. É certo que se faz a meu respeito um silêncio suspeito (para não dizer um boicote) em certos meios e que me encontro hoje sem editor, dada a situação da Estúdios COR. E que V. Hugo, Baudelaire, Balzac, Stendhal foram ignorados ou menosprezados pelo pontífice da crítica francesa, Sainte-Beuve; embora eu não pretenda equiparar-me a tais génios! — Colaboro há anos no Diário Popular, Artes & Letras em especial com artigos e ensaios, Tablóides e contos e a Rádio Televisão Portuguesas têm-me aproveitado com frequência.
Das muitas entrevistas que tenho concedido, algumas nunca chegaram aos olhos do público. Há mais artigos de análise crítica a meu respeito nos Estados Unidos do que em Portugal e Brasil (mas no Brasil faz-se crítica mais erudita e aprofundada, quanto a mim, do que na nossa terra). A PIDE fez-me sair de Portugal todas as vezes que tentei lá ficar. Eu era, no dizer de um dos seus membros dirigentes, um indivíduo suspeito: «Ele anda lá por fora a desacreditar a Pátria!» Para o famigerado Capitão Lourenço eu era «um comunista perigoso» e não devia nem pensar em voltar ou a entrar em Portugal…! Creio que alguns dos nossos herdaram esta visão da PIDE!
Noto que já me excedi e entrei pelos caminhos da Biobibliografia! Acrescentarei apenas que se não voltei ainda a Portugal o devo à idade (79 anos em breve) às crises de saudade e aos custos incomportáveis. (Uma estada na Pátria custa-me mais do que todo o rendimento de uma obra que levei anos a compor…!) Mas residi aí em 1946–47 (um ano), de 1957 a 1959 (dois anos), de 1963 a 1964 (um ano); e fiz visitas de meses em 1952, em 1965, 67 e 69. Vivi um ano no Brasil de 49 a 50.
O que me diz dos seus trabalhos causou-me muita impressão. Faço votos pelo seu êxito continuado.
Com isto, creia-me muito grato e atento admirador.
José R. Miguéis[11]
A carta conclui-se com uma nota manuscrita. «Com perdão da pressa causadora de erros!»
Leonel Brito apressa-se a dar continuidade ao precioso diálogo epistolar:
Exmo Sr. José Rodrigues Miguéis
Em continuação dos contactos havidos anteriormente informamos que a nossa deslocação a NY, onde ficaremos de oito a dez dias, se efectuará no dia 28 de Março próximo.
Estamos em negociações com a TAP para a cedência de passagens, pois a RTP só cobre os custos correspondentes à realização do filme em Lisboa. Achamos, no entanto, que é um trabalho de grande importância pelo valor e gosto pela sua obra, e que ficaremos a todo o custo.
Vamos deslocar-nos três pessoas, e, no que respeita à nossa estadia em Nova Iorque, pedíamos a V. Exa umas pequenas informações. Pretendíamos alojamento o mais perto possível de sua casa e não de luxo — o correspondente mais ou menos às pensões aqui em Portugal. Caso pudesse ajudar-nos nestas informações de preços (em dólares) e sugestões, ficar-lhe-íamos muito gratos.
Sem outro assunto, e com os melhores cumprimentos, somos
De V.Exa
Atentamente
Leonel Brito
Para realizar o filme, seria preciso deslocar uma equipa de três pessoas a Nova Iorque, e Leonel Brito propunha-se rentabilizar o dinheiro previsto para a viagem realizando ainda outros projectos. O cineasta tivera conhecimento de que a bailarina e coreógrafa Olga Roriz iria fazer um espectáculo em Nova Iorque, prontificando-se a fazer uma reportagem sobre o evento. Tal como se dispôs a viajar até New Bedford para fazer outra reportagem sobre as comunidades portuguesa e luso-descendente. Tudo isto em apenas sete dias, aproveitando as viagens turísticas da Agência Abreu.
Note-se que Jorge Listopad, assessor cultural da RTP, já tinha aprovado o projecto, mas Carlos Cruz não se comoveu nem com a grandeza do escritor José Rodrigues Miguéis nem com a excelência e dinamismo da proposta do jovem cineasta Leonel Brito. Carlos Cruz pura e simplesmente indeferiu o projecto recusando autorizar a verba necessária para a sua realização. Miguéis morreu dez meses depois, em 28 de Outubro de 1980.
Em 2000 é atribuído a Carlos Cruz o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique. A sua carreira televisiva foi interrompida em 2003, devido ao escândalo do Processo Casa Pia, vendo o seu nome arrastado nos jornais, sob acusação de actividades pedófilas. Em 2015 é-lhe retirado o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique. Um colectivo de juízes condenou Carlos Cruz, o qual tendo cumprido a pena de prisão já saiu em liberdade. Ficou para nós a enorme pena de Carlos Cruz não ter cumprido o seu dever de viabilizar o notável projecto cinematográfico de Leonel Brito, para divulgação da Obra de um dos grandes escritores da literatura portuguesa. Em 1998, Diana Andringa conseguiria finalmente realizar o documentário “José Rodrigues Miguéis — Um homem do povo na história da República.” Participam neste filme, para além de Camille Miguéis, Eduardo Lourenço, Mécia de Sena, Teresa Mourão-Ferreira, Pilar Ribeiro, Baptista Bastos, George Monteiro, Gerald Moser, Maria de Sousa, Onésimo Teotónio Almeida e Teresa Martins Marques. Faltou no elenco José Rodrigues Miguéis, o actor principal, falecido dezoito anos antes, sem ver realizado o seu sonho, amargurado pela desconsideração vinda da Pátria que, com a sua pena, tão bem serviu.
Teresa Martins Marques
[1] Leonel Brito propôs à RTP um projecto de documentário O Adolescente Agrilhoado de Marmelo e Silva que produziu e realizou, tendo sido aprovado pela jornalista directora de programas Maria Elisa, tal como já o fora outro documentário de Leonel Brito sobre Félix Ribeiro, fundador da Cinemateca.
[2] Acervo de José Rodrigues Miguéis na John Hay Library, Brown University, EUA, do qual existe microfilme na Biblioteca Nacional de Portugal.
[3] Leonel Brito possui um vastíssimo trabalho filmográfico após 1980. Atemo-nos apenas ao que Miguéis conhecia dele.
[4] Acervo de José Rodrigues Miguéis. Microfilme na Biblioteca Nacional de Portugal.
[5] Miguéis manuscreveu, à margem: “demoradas! Um ano, dois anos, meses… A PIDE fazia-me sair!”
[6] Não em 1958, mas em 1959, a 11 de Junho, é-lhe entregue por Jaime Cortesão, na Casa da Imprensa, o prémio nacional de romance Camilo Castelo Branco, instituído pela primeira vez esse ano, atribuído por votação unânime do júri, composto por João Gaspar Simões, Jacinto do Prado Coelho, Mário Dionísio, Óscar Lopes e David Mourão-Ferreira como “o homem que ri, mas que exprime sempre as misérias individuais e colectivas, servido por uma rara sensibilidade e uma singular veia poética.”
[7] Miguéis corrigiu “alguns capítulos” escrevendo à margem -“integralmente”. Na verdade, o romance fora publicado integralmente em folhetim n’O Diabo, entre 1934 e 1936, com o pseudónimo Clarles Vander Bosh.
[8] Miguéis introduziu uma interrogação — ignorados?
[9] Miguéis manuscreveu “boicote político nas “extremas” — esquerda e direita”. A situação viria a melhorar significativamente, com os trabalhos, entre outros, de Onésimo Teotónio Almeida, Georges da Costa, Humberto de Aragão e de Teresa Martins Marques, que editou e prefaciou as Obras Completas do autor no Círculo de Leitores, entre 1994 e 1996.
[10] Miguéis tomou as seguintes notas manuscritas no final desta Sinopse, relativas às suas actividades, em forma de lembrete para o documentário: “Secção política: na Seara Nova original; Campanha antifascista de 1925 (Cortesão, Sérgio, Azevedo Gomes); na República (antiga), em O Diabo, de novo na Seara Nova. Liga da Mocidade Republicana. Nos anos de 1936 e seguintes: Grupo anti-fascista, Clube Operário Português (NY). Obras publicadas em livro; em folhetim no Diário Popular: O Pão não Cai do Céu (Alentejo); Programação do Caos (Filosofia em tom risonho); Tablóides em continuação semanal).
[11] Acervo de José Rodrigues Miguéis na John Hay Library, Brown University, EUA. Microfilme da Biblioteca Nacional de Portugal.
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