
Deliberação tomada por Tomás Correia trouxe custos para o banco
Os capitais próprios da associação mutualista do Montepio deslizaram em 2018. Uma das grandes razões foi uma nova norma contabilística. Banco Montepio representa 88% de todo o ativo
O património líquido do Montepio Geral – Associação Mutualista caiu em força no ano passado. Este indicador, conhecido como capitais próprios, tinha disparado em 2017, com a ajuda de uma decisão contabilística e fiscal, saindo do terreno negativo em que se encontrava.
Contudo, no ano passado, recuou para metade
Os capitais próprios de uma entidade representam a diferença entre o ativo, o que a empresa detém e os seus direitos, e o passivo, as suas responsabilidades. No caso da associação mutualista liderada por António Tomás Correia, reeleito no final do ano passado, os capitais próprios situaram-se, em 2018, nos 260 milhões de euros. Este valor compara com os 527 milhões de euros do ano anterior.
“Para esta redução, de 267 milhões de euros, contribuíram, essencialmente, o referido impacto negativo da aplicação da IFRS9, no montante de 129 milhões de euros, líquidos de impostos, os desvios atuariais [área seguradora], diferenças cambiais e alterações de justo valor, no montante global, líquido de impostos, de 131 milhões de euros”, avança a associação no relatório e contas consolidadas de 2018, que será votado no próximo dia 15 de julho, e que foi esta sexta-feira, dia 12, noticiado pelo Jornal de Negócios.
A IFRS 9 é a norma contabilística que altera a forma como as entidades têm de registar instrumentos financeiros e que teve impacto nas suas contas. O Banco Montepio e a associação não foram exceção.
As contas consolidadas da associação, com 613 membros, integram os balanços do Banco Montepio, sobretudo, mas também da Montepio Seguros (Lusitania, N Seguros, etc), a gestão de ativos mobiliários e imobiliários, as residências seniores e de saúde e ainda as novas residências para estudantes. Tomás Correia contesta a necessidade de apresentar contas consolidadas, dizendo que não refletem a situação do grupo mutualista, defendendo que interessa olhar para as contas individuais de cada entidade.
No caso dos números consolidados, o Montepio teve em 2017 uma “ajuda” vinda do Fisco. Em 2016, os capitais próprios eram negativos. O passivo superava em 251 milhões de euros o ativo. Só que a mutualista deixou, a meio de 2017, de cumprir as regras de isenção fiscal em sede de IRC – por conta de uma decisão da comissão de vencimentos que teve implicações fiscais. Com esse fim da isenção, a associação mutualista teve direito de reconhecer nas suas contas ativos por impostos diferidos de centenas de milhões de euros, o que deu um impulso positivo ao ativo e, daí, ao capital próprio, que disparou para 527 milhões em 2017.
Contudo, por conta dos impactos referidos pela mutualista, os capitais próprios consolidados passam para 260 milhões, “bem aquém” do registo anterior, como sublinha o conselho fiscal no seu parecer. Isto apesar de os resultados até terem sido positivos (passaram de 831 milhões, em 2017 – devido ao impacto da decisão fiscal – para 1 milhão, mas ficaram no verde).
"As atividades das empresas do Grupo Montepio continuaram fortemente condicionadas pelas muito baixas taxas de juro, pelo fraco nível de poupança, pelas contínuas exigências de buffers prudenciais, pelas sistemáticas alterações das normas contabilísticas, pela intensificação da concorrência e pelos desafios organizacionais e da transformação digital", defende Tomás Correia, na nota deixada no relatório e contas.
88% DO GRUPO É BANCO
Para os capitais próprios de 2018 da associação mutualista contribuíram o ativo líquido de 20,76 mil milhões de euros e o passivo de 20,5 mil milhões.
O ativo é sobretudo devido ao Banco Montepio. “O balanço do grupo bancário, com um ativo líquido de 18.351 milhões de euros, em 2018, conta com 88% do balanço consolidado do MGAM, de 20.761 milhões de euros”, indica o comunicado.
Tomás Correia é o líder da mutualista desde 2008, tendo no final do ano passado sido reeleito para continuar no cargo. Aliás, o facto de ter havido eleições - com acusações dos opositores face à sua idoneidade, que está neste momento a ser alvo de escrutínio pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões - é por si referido como tendo trazido dificuldades e exigido maior esforço dos trabalhadores. Em 2018, escreve, "ocorreu a eleição dos membros dos órgãos associativos do MGAM, para o presente mandato de 2019-2021, contribuindo para que o Grupo Montepio continuasse sob forte pressão mediática e intenso escrutínio em diversos meios, suscitando maior esforço e redobrado empenho de todos os colaboradores na concretização das suas missões".
expresso.pt
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