Eugenia "made in USA"
Do outro lado do Oceano Pacífico, nos EUA, a purificação teve os seus defensores. Os cientistas estavam sobretudo preocupados em limpar a raça humana de qualquer "poluição genética". Bastava impedir que os cidadãos "menos aptos" tivessem filhos, nem que para isso tivessem de os esterilizar.
Esta selecção reprodutiva, aplicada para preservar certos grupos humanos, ou algumas das suas características, ficou conhecida como "eugenia" (do greco "eugénés", que significa "bem nascido"), com a sua prática a ser defendida em finais do século XIX pelo antropólogo britânico Francis Galton. Todavia, esta ideia jamais foi aplicada, a nível legislativo, em terras de Sua Majestade. Simplesmente, a tradição democrática no Reino Unido parecia demasiado forte para tamanho "nonsense". Era o poder político a opor-se aos cientistas.
Mas o "disparate" pareceu não encontrar uma oposição tão veemente nos EUA, onde encontrou ecos legislativos. De tal modo que até a poderosa família Rockefeller sustentou, financeiramente, institutos científicos que apoiavam a prática da eugenia.
Um dos primeiros promotores da eugenia em terras do Tio Sam foi o pai do telefone, o inventor Alexander Bell. Enquanto vendia o seu aparelho pelo país, Bell dedicou-se a estudar a taxa de surdez no território americano, concluindo que a deficiência se transmitia de pais para filhos. A sua solução para o problema consistia em proibir o casamento entre pessoas surdas.
Talvez esta conclusão se devesse ao medo de Bell de que o seu invento não fosse apreciado por todos, mas a verdade é que ideias como a sua começaram a ganhar mais ouvintes.
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Em 1896, surgiram as primeiras leis que proibiam o casamento de quem fosse "epiléptico, imbecil ou de espírito fraco". Entretanto, doenças como a esquizofrenia e a desordem bipolar foram diagnosticadas como hereditárias, promovendo a ideia de que era necessário impedir a sua passagem às gerações seguintes.
O devaneio extremou-se quando a esterilização forçada dos indivíduos com estes sintomas foi legalizada em 1907, no estado do Indiana. Uma trintena de outros estados seguiu o exemplo.
O passo seguinte foi a segregação racial, com base no argumento de que os cidadãos "inaptos" (como passaram a ser denominados), vinham da classe social mais pobre, constituída em grande parte pela população negra e imigrantes.
A miscigenação entre brancos e negros foi proibida nalguns estados, enquanto uma hierarquia de nacionalidades passou a guiar a entrada de estrangeiros no país. Os mais desejáveis vinham do Norte da Europa, enquanto quem era da zona mediterrânica, ou da Ásia, arriscava-se a ter que apanhar o barco de regresso a casa.
Influenciado com o que estava a ser feito além Atlântico, Adolph Hitler decidiu importar o modelo para a Alemanha Nazi. A diferença consistiu na sua massificação.
Mais de 400 mil alemães foram esterilizados, seguindo-se a eutanásia forçada de dezenas de milhares de idosos e doentes crónicos. A "ciência racial" acabou por atingir uma escala macabra com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, através do genocídio de cerca de 17 milhões de judeus, eslavos, ciganos, homossexuais, entre outros. O Holocausto, o símbolo maior deste período negro da história da civilização humana, ganhou assim forma.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a denúncia pública da barbárie Nazi, a eugenia caiu em desgraça, com a comunidade científica a opor-se-lhe frontalmente. Todavia, a esterilização forçada ainda se manteve até à década de 70, do século passado, em países como os EUA e a Suécia.
A ideia de "purificar a raça humana" acabou por se tornar num sinónimo de abominação, com a ciência a protagonizar um dos seus maiores momentos de desacerto. Era a prova de que nem todo o (suposto) progresso científico pode ser aceite como uma evolução social.
obviousmag.org
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