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As crianças na propaganda fascista italiana
(anos 1920-1940)
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Fascismo desde o berço
O regime de Mussolini, que durou de 1922 a 1943, utilizou maciçamente a propaganda. Como regime assumidamente totalitário, dedicou especial atenção às crianças, que quis formar física e espiritualmente para construir o homem novo, l’uomo fascista. Os pequeninos eram a massa ideal de que se fariam esses novos homens fascistas, os futuros guerreiros do Império de Itália. A propaganda tomou directamente as crianças como alvo, mas utilizou-as também amplamente como tema.
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| “Benito Mussolini ama muito as crianças. Os meninos de Itália amam muito o Duce” (página do livro da primeira classe da escola elementar). |
A Obra Nacional Balilla (imitada em Portugal pela Mocidade Portuguesa), órgão do Partido Nacional Fascista, arregimentava as crianças e adolescentes dos dois sexos a partir dos 4 anos de idade. Os rapazes Balilla vestiam farda de camisa negra e calção verde e, desde muito cedo, recebiam doutrinação política e formação paramilitar. As meninas Balilla, denominadas Piccole italiane (Pequenas Italianas), vestiam camisa branca e saia negra. O lenço azul era comum.
Com diferenças de vocabulário e estilo, os comunistas soviéticos também arregimentavam as crianças. Aí, os Balillas chamavam-se Pioneiros. Na Coreia do Norte ou em Cuba ainda hoje existe a organização dos Pioneiros.
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| Postal de propaganda de 1939 |
CRIANÇAS!
Vós sois a aurora da vida
Vós sois a esperança da Pátria
Vós sois sobretudo o Exército de amanhã
Mussolini
Se Mussolini amava as crianças, era natural que estas lhe retribuíssem esse sentimento, como não parece restar dúvida em face deste desenho de A. Micheli, capa do livro Duce Nostro, de 1933. Meia dúzia de pimpolhos, incluindo um bebé, disputam um retrato do amado Duce – uma espécie de super-pai, que o título do livro assimila ao Padre Nostro, o Pai Nosso que está no céu.
A Oração do Balilla
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Do Livro da Quinta Classe
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La preghiera del “Balilla”
Padre nostro che sei nei cieli…
Signore, benedici e proteggi sempre la mia Italia,
nella sua Romana Chiesa, nei suoi uomini di comando,
nelle sue madri, nei suoi guerrieri, nei suoi lavoratori,
nell’oro delle sue messi.
Benedici i Sovrani, i Principi, il Duce nostro
Benedici i Sovrani, i Principi, il Duce nostro
nella grande fatica che Egli compie;
e poiché l’hai donato all’Italia, fallo vivere a lungo
per l’Italia e fa che tutti siano degni di lui
che non conosce riposo vero se non quando
è in mezzo a noi fanciulli e ci sorride con il suo luminoso sorriso.
Benedici la mia famiglia, la mia scuola, i miei maestri,
Benedici la mia famiglia, la mia scuola, i miei maestri,
la mia divisa d’onore e di promessa.
Concedimi una grazia: dare alla Patria il braccio,
Concedimi una grazia: dare alla Patria il braccio,
l’anima e, ove occorra, la vita.
Sia benedetto il tuo Santo Nome.
Sia benedetto il tuo Santo Nome.
Pai Nosso, que estás no céu...
Senhor, abençoa e protege sempre a minha Itália,
na sua Igreja Romana, nos seus homens de comando,
nas suas mães, nos seus guerreiros, nos seus trabalhadores,
no ouro das suas searas.
Abençoa os Soberanos, os Príncipes, o Duce nosso,
na grande tarefa que ele cumpre;
e uma vez que o ofereceste à Itália, fá-lo viver longamente
pela Itália e faz com que sejamos todos dignos dele
que não conhece verdadeiro repouso senão quando
está no meio de nós, crianças, e nos sorri com o seu sorriso luminoso.
Abençoa a minha família, a minha escola, os meus mestres,
a minha divisa de honra e promessa.
Concede-me uma graça: dar à Pátria o braço,
a alma e, onde necessário, a vida.
Seja bendito o teu Santo Nome.
Balillas de mama
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Postais ilustrados dos anos 20, de Aurelio Bertiglia, o ilustrador especialista em fascismo infantil. |
Enquanto um Balilla fardado recebe “aprovisionamento” ao colo de Rosina, outro puxa um canhão de brinquedo. No berço, dois bebés burgueses brincam com o cãozinho e, segundo a legenda, exultam quando vêem chegar o rei com Benito (Mussolini) e o papá.
A consciência política dos bebés fascistas era muito precoce.
Estes miúdos Balilla limparam o nariz a uma bandeira vermelha rasgada.
Estes miúdos Balilla limparam o nariz a uma bandeira vermelha rasgada.
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Postal ilustrado de Alberto Bertiglia. |
Pimpolhos de dois ou três anos, com fez de Balilla, fazendo a saudação romana. O primeiro ainda não tem camisa negra, mas o último até já é medalhado.
Supostos mini-fãs do fascismo em pose para o álbum de família
Na escola primária a saudação romana era obrigatória.
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Capa de livro da segunda classe da escola elementar |
A doutrinação começava na escola elementar
Na capa deste livro da primeira classe, o edifício da escola é um fascio littorio, o emblema do fascismo.
Os Balillas mais novitos chamavam-se filhos ou filhas da loba. Em Portugal copiou-se para lusitos, primeiro escalão da Mocidade Portuguesa. Repare-se no M de Mussolini no peito. Na farda da Mocidade Portuguesa, o S de Salazar situava-se na fivela do cinto.
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O queixo em riste era um ex-libris do Duce. Os miúdos acima parecem imitá-lo.
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Soldadinhos de calção
Como o Duce amava muito os meninos italianos, preparou-os para a guerra.
Como o Duce amava muito os meninos italianos, preparou-os para a guerra.
As crianças foram iniciadas no manejo das armas, meio a brincar, meio a sério. Havia uma espingarda Balilla de fulminante, com baioneta de fantasia, como a que se vê na capa de um caderno escolar de 1936, ano da invasão da Etiópia pela Itália.
“Vós sois o exército de amanhã”
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| Jovens Balilla aprendem a marchar a passo romano, instruídos por camisas negras. |
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| Balillas fardados numa ilustração do livro da segunda classe da escola elementar. |
Balillas encarrapitados num M gigante esperam a chegada do Duce pela estrada, em Aosta, 1939. Na imagem seguinte, uma parada de Balillas e Pequenas Italianas, em Turim, 1939.
Uma pedrada desvirtuada
Balilla deve o seu nome a um herói infantil do século XVIII, um rapaz genovês que arremessou uma pedra contra soldados austríacos que ocupavam a sua cidade. Desse gesto patriótico o fascismo reteve sobretudo o elemento belicoso da pedrada, legítima defesa que transformou em símbolo de ilegítima agressão, primeiro contra os adversários políticos nacionais e, depois, contra os etíopes, os gregos, os albaneses, os russos e outros povos europeus e africanos.
Balilla deve o seu nome a um herói infantil do século XVIII, um rapaz genovês que arremessou uma pedra contra soldados austríacos que ocupavam a sua cidade. Desse gesto patriótico o fascismo reteve sobretudo o elemento belicoso da pedrada, legítima defesa que transformou em símbolo de ilegítima agressão, primeiro contra os adversários políticos nacionais e, depois, contra os etíopes, os gregos, os albaneses, os russos e outros povos europeus e africanos.
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| A pedrada de Giovanni Battista Perasso, dito o Balilla, mitificada pela propaganda fascista. |
A propaganda fascista de tema infantil não se destinava só aos jovens, tinha uma função importante junto dos adultos. A atenção votada pelo regime à juventude, as qualidades positivas associadas à infância e os valores familiares, como a disciplina, a obediência e a autoridade paterna, eram sugeridos por essa propaganda e utilizados na tentativa de coonestar, humanizar e legitimar o fascismo. Também a rebeldia juvenil interessava ao regime, mas canalizada para os seus fins políticos.
Quando em 1932 o industrial Agnelli lançou, com o apoio de Mussolini, o pequeno Fiat 508 de preço acessível, o nome escolhido para o modelo foi Balilla. A publicidade do automóvel explorou a deixa e produziu este cartaz. A figura do rapazinho inspira-se no herói do século XVIII, mas a camisa negra adequa-o à simbologia fascista. A importação de carros estrangeiros foi então proibida, para eliminar a concorrência. Esse gesto proteccionista e hostil ao estrangeiro está também insinuado no cartaz.
Nos anos 30, Mussolini decidiu massificar a propaganda radiofónica e fazer chegar os seus discursos a cada lar italiano. Foi encomendado um aparelho de rádio de preço político, mais acessível às bolsas populares. Era produzido por vários fabricantes e foi denominado Radio Balilla, ostentando o símbolo do fascismo, o fascio littorio. Ao centro, uma foto publicitária realizada para o seu lançamento em 1937.
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Bebés de cacete em punho
O menino de carinha laroca e barrete (fez) de Balilla, segura na mão um cacete, então usado pelos squadristi, os caceteiros adultos que espancavam os opositores do regime fascista e escaqueiravam as suas sedes e casas.
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O comportamento brigão era estimulado e canalizado pelo Estado fascista, que pensava a prazo na guerra.
O grito de guerra fascista A noi! (A nós!) teve a sua origem em 1918, durante a Grande Guerra. Significava algo como “a vitória é nossa”.
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Postal ilustrado de Aurelio Bertiglia, 1923.
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“Eis-nos aqui…
cheios de ardor
cheios de amor
pela Ítala terra.”
Um fascistazinho rico, de cassetete chic, polainas e cigarro na mão! Aí vai o campeão, “pronto para a represália, pronto para a expedição” (uma expedição de pancada nos adversários políticos).
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Postal ilustrado de Antonio Rubino, que foi director da revista fascista de histórias aos quadradinhos Il Balilla.
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Jornada do Brinquedo Italiano
Este cartaz de uma exposição de brinquedos inaugurada em Junho de 1934 pelo general fascista Starace combina o elemento lúdico-infantil com a agressividade racista e colonialista, então dirigida contra a Etiópia, que no ano seguinte seria invadida pela Itália.
Pinóquio vira fascista
Criado em 1881 por Carlo Collodi, Pinóquio tinha várias qualidades que os fascistas tentaram explorar em seu proveito: era italiano, extremamente popular e amado pelo público infantil e adulto. Por isso fizeram dele Balilla, caceteiro e colonialista. Logo em 1923, publicaram-se as Aventuras e expedições punitivas de Pinóquio fascista, em cuja capa se pode ver um Pinóquio squadrista (membro de um esquadrão punitivo fascista), de camisa negra e fez de borla pendente, armado de um cacete, fazendo ingurgitar óleo de rícino a um comunista de barrete frígio vermelho. Numa das suas expedições, Pinóquio fascista destruiu a tipografia onde era impresso um lunario (almanaque) comunista.
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Pinóquio Balilla
O travesso e disparatado Pinóquio não queria entrar para a organização Balilla, mas foi aliciado a aderir por um pedaço de chocolate e a possibilidade de ver cinema grátis. Uma vez membro, o fantoche tornou-se num Balilla entusiasta e até conseguiu a adesão à organização fascista juvenil de dois seus comparsas rebeldes (vestígios da raposa e do gato de Collodi). Esta história é relatada em Pinóquio entre os Balillas. Novas travessuras do célebre fantoche e seu arrependimento, publicada em 1927, cuja capa se vê abaixo.
O travesso e disparatado Pinóquio não queria entrar para a organização Balilla, mas foi aliciado a aderir por um pedaço de chocolate e a possibilidade de ver cinema grátis. Uma vez membro, o fantoche tornou-se num Balilla entusiasta e até conseguiu a adesão à organização fascista juvenil de dois seus comparsas rebeldes (vestígios da raposa e do gato de Collodi). Esta história é relatada em Pinóquio entre os Balillas. Novas travessuras do célebre fantoche e seu arrependimento, publicada em 1927, cuja capa se vê abaixo.
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Fascistização da banda desenhada
Após a Grande Guerra, a banda desenhada conheceu forte expansão em Itália. Logo no começo de 1923, os fascistas reagiram, lançando Il Balilla, revista de histórias aos quadradinhos centradas em personagens heróicas italianas. Em 1927 surgiu La Piccola Italiana, destinada às meninas. Mas a banda desenhada de origem americana recolhia as preferências do público infantil, especialmente nos anos 30, quando foram lançadas as primeiras revistinhas com as falas em balões, em lugar das tradicionais legendas sob as imagens. A revista Topolino, tradução italiana de Mickey Mouse, apareceu em 1932 e teve êxito imediato. Em 1935, surgiu o semanário I Tre Porcellini (Os Três Porquinhos), outro grande sucesso. Todavia, a crescente popularidade dos comics americanos e dos bonecos de Walt Disney – apesar da amizade pessoal deste por Mussolini – começou a tornar-se num problema político. Foram lançadas várias revistinhas com personagens italianos, mas a bonecada de Disney e as histórias de cowboys e super-heróis americanos ameaçavam “perverter” os princípios formadores da nova geração.
Em 1935, o Topolino já intercalava no seu conteúdo propaganda fascista e historietas italianas para contrabalançar a influência estrangeira. Em 1938, após a publicação de um manifesto de Marinetti sobre literatura juvenil, todas as bandas desenhadas de origem estrangeira foram proibidas, com excepção do Topolino, por decisão pessoal de Mussolini. Durante a II Guerra Mundial o próprio Topolino foi extinto (1941), sendo substituído por Toffolino, revista cujo protagonista era não um rato, mas um rapazinho italiano, cujas histórias eram edificantes do ponto de vista do fascismo. Por fim os próprios balões foram banidos, substituídos pelas velhas legendas, e a banda desenhada foi completamente italianizada. Em 1943, com a queda de Mussolini e o começo do desembarque Aliado, desapareceram todas as revistas infantis, incluindo Il Balilla.
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Desenhos de Antonio Rubino, ao tempo director da revista. Rubino foi o pai da banda desenhada com camisas negras.
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A revista Il Balilla foi lançada em 1923, ainda antes da organização de juventude do mesmo nome, que só foi criada em 1926.
Na capa deste número de 1929, pequenos Balillas armados de mocas e espadas escorraçam uma bruxa da floresta e colocam sobre o peito um cartaz com que a bruxa os pretendia afugentar, contendo uma caveira e a inscrição “Perigo de Morte”.
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Nesta história, meninos Balilla num avião pilotado por um boneco levam a “chama eterna” de Roma e do Duce para a antiga Leptis Magna, na Líbia, sob o signo da renovação das glórias do passado e do cumprimento dos objectivos que o destino cometia aos soldados do Império Romano renascido. Não se vê um africano em parte alguma.
A Líbia (nome que data de 1934) tem um território seis vezes superior ao da Itália e foi sua colónia de 1912 a 1943.
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Desenhos de A. Burattini.
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A revista Topolino (Rato Mickey), que a partir de 1932 divulgava em Itália as figuras do império de fantasia Disney, inseria também historietas edificantes com um personagem infantil italiano, fardado de Balilla.
Neste número de 1935, o Balillino – assim se chamava, para não haver dúvidas – lida com um touro que ameaçava uma pequena beldade.
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No interior do Topolino era intercalada propaganda política, como retratos e citações de Mussolini. Neste caso, o Duce justifica a chamada da juventude italiana às armas (guerra da Etiópia) como um caso de “suprema necessidade”, tratando-se de assegurar “a potência e a glória da Pátria”.
Por baixo, mais um aventura do Balillino, sempre solícito a socorrer uma menina e a evitar pneus furados.
Por baixo, mais um aventura do Balillino, sempre solícito a socorrer uma menina e a evitar pneus furados.
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No final dos anos 30, o regime fascista iniciou uma campanha de ódio contra os judeus residentes em Itália. Sob pressão da Alemanha nazi, foram aprovados diversos decretos, expulsando os jovens judeus das escolas, proibindo o casamento entre “arianos” e “semitas” e demitindo os judeus dos empregos públicos (1938). Em 1940, Mussolini fez saber que todos os judeus teriam de abandonar a Itália. Seguiram-se os internamentos em campos de concentração e, a partir de 1943, na Itália ocupada pelos nazis, as deportações para campos de extermínio alemães.
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Neste número da revista Il Balilla de Janeiro de 1939, conta-se a história do “pobre judeu” Assalonne Mordivò, que chorava na rua, dizendo-se reduzido à miséria. Um rapazinho condoído, Pierino, ofereceu-lhe o seu farnel. Mas eis que um Balilla aparece junto de Pierino e desmascara o falso pobre, que escondia sacos de ouro sob o capote. Corrido a pontapé pelo Balilla, o judeu não parou até à fronteira, deixando cair as suas moedas de ouro pelo caminho.
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Crianças na propaganda de guerra imperialista
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Em 1935, Mussolini decidiu invadir a Etiópia, também dita Abissínia. Os fascistas proclamaram que os italianos tinham direito a um grande império colonial, para levar o facho da civilização romana a paragens bárbaras onde, diziam, ainda predominava a escravatura. Assim começou a breve, mas sangrenta aventura da “África Oriental Italiana”, juntando a Etiópia à Somália italiana e à Eritreia. O Império durou cinco anos e a guerra provocou mais de 500.000 mortos, muitos deles alvos de gazeamento em larga escala pela artilharia e pela força aérea italianas.
As crianças italianas foram alvo da intensa propaganda de guerra imperialista, como se constata pelos livros e cadernos escolares fabricados pelo Estado fascista. Mas as imagens infantis foram também largamente utilizadas na propaganda de guerra destinada sobretudo a um público adulto.
O ilustrador infantil e entusiasta do fascismo Aurelio Bertiglia, acima já referido, produziu em 1935 uma colecção de postais de propaganda intitulada La Conquista dell’Etiopia que adiante se expõe na totalidade.
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Em 1935, Mussolini decidiu invadir a Etiópia, também dita Abissínia. Os fascistas proclamaram que os italianos tinham direito a um grande império colonial, para levar o facho da civilização romana a paragens bárbaras onde, diziam, ainda predominava a escravatura. Assim começou a breve, mas sangrenta aventura da “África Oriental Italiana”, juntando a Etiópia à Somália italiana e à Eritreia. O Império durou cinco anos e a guerra provocou mais de 500.000 mortos, muitos deles alvos de gazeamento em larga escala pela artilharia e pela força aérea italianas.
As crianças italianas foram alvo da intensa propaganda de guerra imperialista, como se constata pelos livros e cadernos escolares fabricados pelo Estado fascista. Mas as imagens infantis foram também largamente utilizadas na propaganda de guerra destinada sobretudo a um público adulto.
O ilustrador infantil e entusiasta do fascismo Aurelio Bertiglia, acima já referido, produziu em 1935 uma colecção de postais de propaganda intitulada La Conquista dell’Etiopia que adiante se expõe na totalidade.
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A nova bandeira dos etíopesUm ras (príncipe) e outros meninos etíopes, alguns armados, prostram-se diante da bandeira da sua nova pátria, a Itália de Mussolini. Os meninos das cubatas exultam e agitam bandeiras tricolores.
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Mulherzinhas etíopes de palmo e meio saúdam o soldadinho porta-bandeira italiano, enquanto um Balilla (de costas) recebe a rendição de outros meninos. Uma invasão idílica, sem os muitos milhares de mortos por gaseamento e bombardeamento da população civil.
Mulherzinhas etíopes de palmo e meio saúdam o soldadinho porta-bandeira italiano, enquanto um Balilla (de costas) recebe a rendição de outros meninos. Uma invasão idílica, sem os muitos milhares de mortos por gaseamento e bombardeamento da população civil.
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Mais realismoUm pouco menos idílica é esta corrida a pontapé que um ras etíope leva, com os seus fiéis guerreiros em debandada. Os soldadinhos de camisa negra nunca perdem o sorriso, como se tudo não passasse de uma brincadeira.

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Aqui vai outro ras em fuga, de nada lhe valendo a insígnia da Cruz Vermelha, perfidamente usada como escudo. A caixa de balas dum-dum (proibidas pela Convenção de Haia de 1899) também ostenta igual camuflagem. A baioneta de um pimpolho fascista avança para os fundilhos de um soldadinho etíope caído.
Aqui vai outro ras em fuga, de nada lhe valendo a insígnia da Cruz Vermelha, perfidamente usada como escudo. A caixa de balas dum-dum (proibidas pela Convenção de Haia de 1899) também ostenta igual camuflagem. A baioneta de um pimpolho fascista avança para os fundilhos de um soldadinho etíope caído.
Um exército de bons samaritanos
Com os maus postos em fuga, é a altura de os invasores servirem o arroz e o cereal ao povo. Um pequeno camisa negra até pôs o avental. Dois meninos etíopes parecem incrédulos com a fartura.
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Supressão da escravaturaAqui se explica que os fascistas foram à Etiópia para quebrar as grilhetas do povo escravizado. “Onde tremula a bandeira italiana, aí está a liberdade!” – afirma o edital colado na parede.
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“Carinha negra” foi uma canção criada em 1935 como meio de justificação e mobilização para a invasão da Etiópia, ocorrida meses depois. Refrão: “Carinha negra, bela abissínia, espera, espera, que a hora se avizinha. Quando estivermos juntos de ti, nós te daremos outra lei e outro rei.” O elemento feminino da canção também era suposto ter um efeito mobilizador sobre o soldado italiano, numa mescla de fantasia erótica e política.
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Fascismo para a Etiópia
Uma menina loura de saia plissada, segurando o fascio littorio, saúda à romana os meninos etíopes, enquanto um avião militar italiano sobrevoa a cena, pelo sim pelo não.
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O mapa do Império
De novo a menina loira de saia plissada, com dois soldadinhos e um camisinha negra, ajudados por um menino etíope, a pintarem o mapa da Etiópia, Somália e Eritreia com as cores italianas.
Os cadernos escolares durante a guerra da Etiópia
Os livros para crianças e os livros escolares em particular foram na Itália fascista um veículo de propaganda maciça entre os jovens. Também os cadernos escolares, concebidos pelo Estado, de capas ilustradas a cores e contendo textos curtos, atingiam um público infantil vastíssimo em todo o país. Algumas capas relatavam a vida de Mussolini, outras tinham Balillas por protagonistas, outras ainda enalteciam figuras históricas. Umas despertavam o sentimento bélico, outras elogiavam comportamentos juvenis que os fascistas tinham por exemplares.
A guerra de agressão à Etiópia, um dos dois únicos países de África que na primeira metade do séc. XX escapavam ao colonialismo, foi oportunamente aproveitada em 1935-1936 como assunto de doutrinação para os cadernos escolares.
A guerra de agressão à Etiópia, um dos dois únicos países de África que na primeira metade do séc. XX escapavam ao colonialismo, foi oportunamente aproveitada em 1935-1936 como assunto de doutrinação para os cadernos escolares.
A guerra imperialista da Etiópia foi nesses cadernos justificada com considerações humanitárias, como a abolição da escravatura.
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O tema da educação do indígena africano era muito glosado nos cadernos escolares, provando as intenções civilizadoras do invasor. Neste caderno mostra-se “a primeira escola indígena sob a bandeira tricolor italiana”.
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A valorização e integração disciplinada dos jovens etíopes segundo modelos organizativos europeus (fascistas) era outro objectivo proclamado do invasor. Aqui se mostra um desfile de “Balillas” indígenas, dispensados da camisa negra.
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Também a libertação da mulher etíope servia para justificar a invasão. Na capa deste caderno escolar italiano é relatado o “estranho rito matrimonial” de uma tribo da Etiópia. O homem comprava a mulher num ajuste com a mãe dela. A esposa, resistindo com unhas e dentes ao marido imposto, era chicoteada por este até à “submissão total ao seu legítimo senhor”.
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Subitamente, neste caderno escolar a mensagem torna-se muito diferente.
O objectivo dos fascistas italianos na África Oriental revela-se numa imagem e na sua legenda: SUBMISSÃO.
O objectivo dos fascistas italianos na África Oriental revela-se numa imagem e na sua legenda: SUBMISSÃO.
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Imagens infantis na propaganda da II Guerra Mundial
Em 1941-1942, o nosso já conhecido artista Aurelio Bertiglia criou uma colecção de postais ilustrados de figuração infantil em apoio do Eixo nazi-fascista. Já tinha feito algo semelhante durante a Guerra de 1914-1918, mas em apoio do lado oposto, dada a opção da Itália de então pelos Aliados.
Diga-se que as crianças foram sistematicamente utilizadas em todos os países ditos civilizados pela publicidade comercial e pela propaganda de quase todas as cores políticas durante o século XX. O ilustrador Bertiglia, em particular, explorou o filão durante quase meio século, nas suas várias modalidades, e produziu muitas centenas de postais ilustrados com crianças.
A série seguinte de imagens dispensa grandes comentários. O flagrante despudor na exploração da imagem infantil para propaganda de guerra diz muito sobre o seu autor, sobre o fascismo e sobre uma certa mentalidade da época, talvez não tão distante de nós quanto se poderá pensar.
Em 1941-1942, o nosso já conhecido artista Aurelio Bertiglia criou uma colecção de postais ilustrados de figuração infantil em apoio do Eixo nazi-fascista. Já tinha feito algo semelhante durante a Guerra de 1914-1918, mas em apoio do lado oposto, dada a opção da Itália de então pelos Aliados.
Diga-se que as crianças foram sistematicamente utilizadas em todos os países ditos civilizados pela publicidade comercial e pela propaganda de quase todas as cores políticas durante o século XX. O ilustrador Bertiglia, em particular, explorou o filão durante quase meio século, nas suas várias modalidades, e produziu muitas centenas de postais ilustrados com crianças.
A série seguinte de imagens dispensa grandes comentários. O flagrante despudor na exploração da imagem infantil para propaganda de guerra diz muito sobre o seu autor, sobre o fascismo e sobre uma certa mentalidade da época, talvez não tão distante de nós quanto se poderá pensar.
Neste postal, soldados meninos italianos, alemães e japoneses correm a pontapé os meninos ingleses da Europa, África e Ásia. Repare-se no guarda-chuva dos soldadinhos ingleses, um estereótipo usado como troça.
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Um carro nazi-fascista, composto do fascio littorio e de rodas com a cruz gamada, segue pela ilusória Via da Vitória, onde é proibido o trânsito de peões. O soldadinho inglês (de guarda-chuva) e o grego, a suar as estopinhas, ficam a comer o pó levantado, supostamente derrotados.
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O menino nazi põe o açaimo no leão britânico ferido, enquanto o menino italiano lhe corta as garras e o japonês se prepara para lhe cortar a cauda. O inglesinho tem a sua bandeira partida na cabeça e o guarda-chuva em fanicos.
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Com Londres em ruínas, sobrevoada pela aviação alemã, os meninos do Eixo, marchando a passo de ganso, espezinham meninos ingleses caídos no chão, um deles com um guarda-chuva espetado no rabo. A violência e o sadismo selvagem da imagem chocam especialmente pelo elemento infantil envolvido na representação.
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.Numa das imagens mais obscenas produzidas por Bertiglia, os meninos do Eixo tripartido empurram para o precipício uma apavorada menina inglesa (de guarda-chuva) com um cãozinho grego pela trela. Um tiozinho Sam e um ursinho soviético (junto a uma garrafa de vodka vazia) observam a cena com presumível estupor.
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De um sadismo não menos obsceno é esta imagem dos bombardeamentos de Londres pelos nazis. De calças na mão, os meninos ingleses (incluindo um bobby infantil, sob um guarda-chuva roto) estão apavorados. São representadas vários tipos de civis e apenas se entrevê um soldado meio tapado, o que revela gáudio pelo ataque aéreo contra a população urbana.
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25 de Abril de 1945
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O 25 de Abril é a festa da libertação da Itália, como a de Portugal.
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Neste dia festejou-se nas ruas de Itália o fim do fascismo. Crianças subiram aos tanques ao colo dos pais.
© Recolha, texto e edição de José Barreto.
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Fontes: todas as imagens foram colhidas na internet e são presumivelmente do domínio público. As imagens de livros e cadernos escolares italianos provêm de DIA Banca dati di immagini per la Didattica,http://www.indire.it/archivi/dia/index.php
malomil.blogspot.pt






































































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