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domingo, 23 de outubro de 2016

Abdelkader Taleb Omar: “Não é uma ameaça, ou a ONU se move ou a guerra Marrocos vai explodir”


Primer ministro de la RASD, Abdelkader Taleb Omar.- VIRGINIA UZAL

O PRIMEIRO-MINISTRO DA REPÚBLICA ÁRABE SAHARAUI DEMOCRÁTICA, ABDELKADER TALEB OMAR, ADVERTE QUE O ESPAÇO PARA A DIPLOMACIA SE ESTÁ A ESGOTAR E CONVOCA A COMUNIDADE INTERNACIONAL A INTERVIR JUNTO DE MARROCOS PARA EVITAR DERRAMAMENTO DE SANGUE.

DAKHLA (Campo de Refugiados saharauis em Tindouf (Argélia) .– O primeiro-ministro da RASD (República Árabe Saharaui Democrática) Abdelkader Taleb Omar em resposta à primeira pergunta do jornalista lança o aviso: “ou a ONU se mexe ou o conflito vai explodir“. Este é um dos poucos elementos de pressão que a Frente Polisario pode fora de portas. E assim o tem feito. No entanto, Taleb Omar diz que agora é diferente e explica que o caminho diplomático que surgiu com o cessar-fogo de 1991 está quase esgotado.
Recebe o Público num edifício dos campos de refugiados em Dakhla. É cordial e agradece o apoio recebido pela sociedade civil espanhola e também dos jornalistas que vieram cobrir a décima terceira edição do Festival Internacional de Cinema – Fisahara, mas rapidamente entra no assunto. Insiste que hoje as tropas de Marrocos e da Frente Polisario estão à pouco mais de 120 metros entre eles. Até agora ninguém disparou, apesar do Reino Alauita ter violado o acordo de paz de 1991. Mas a paciência de um povo exaurido e condenado a viver na sala de espera da vida, tem um limite. A questão é até quando.

Há dois anos você disse que abril 2015 era o prazo para a ONU para redirecionar o conflito. Se não reorientasse a Frente Polisário poderia voltar às armas. Passou um ano e meio desde então. À primeira vista, tudo parece igual.

Há mudanças. Marrocos tem mostrado a sua fraqueza, expulsando o pessoal civil da MINURSO (Missão das Nações Unidas para um referendo no Sahara Ocidental), solicitou a entrada na União Africana após 32 anos de ausência, e violou o acordo de paz de 1991. A violação do acordo de paz levou que as tropas marroquinas e saharauis estejam a apenas 120 metros de distância. A qualquer momento tudo pode acontecer. É que já não há mais espaço de manobra.
O caminho que se iniciou em 1991 está à chegar ao fim. Ou temos um resultado com um processo pacífico da independência do Sahara Ocidental ou, se irá regressar novamente às armas. Estamos nessa situação. Algo tem que acontecer. É urgente que a ONU esteja ciente disso e se mova antes que o pior aconteça. As coisas estão a atingir limites onde eles têm de inclinar-se para uma posição ou outra.

A eficácia de uma ameaça de guerra desce quanto mais vezes for utilizada. E a Polisário tem repetido um slogan semelhante

Mas a situação é. assim As tropas de ambos os países estão muito próximas. Marrocos sempre fez crer que colaborava com a MINURSO, mas agora foi desmascarado e deixou claro que não quer um referendo sobre a independência do Sahara. Antes sempre disse que respeitava o direito internacional. Agora as coisas já estão claras para todos. Ou a ONU toma posições claras e ou Marrocos vai passar as linhas vermelhas que marcaram e a Polisário estará livre de responder. A nossa resposta será como temos tido recentemente: colocar o exército lá e avisar Marrocos que, se isso acontecer, haverá guerra. É uma demonstração de que os saharauis podem passar à acção.
“Marrocos não é uma grande potência. A história dos saharauis pode ser comparada com a história de muitos países, como Timor e Indonésia ou a Argélia e a França “

Não seria um bluff? Como um método de pressão?

Não. Os fatos estão lá. Há 120 metros de distância. Ou a ONU faz alguma coisa ou os saharauis estão dispostos a ir para a guerra.

Você acredita realmente que a Frente Polisario pode ir à guerra contra uma grande potência militar como Marrocos?

Marrocos não é uma grande potência. A história dos saharauis pode ser comparado com a história de muitos países, como Timor e a Indonésia ou a Argélia e a França. Eram poucos cidadãos comparativamente com as potências colonizadores, mas estes países ganharam graças à sua resistência e conseguiram impor os seus direitos legítimos à liberdade. O Sahara pode não ser a exceção. Hoje todo o mundo reconhece o nosso direito à autodeterminação e nenhum país reconhece a soberania marroquina sobre o Sahara. É uma força de ocupação. A questão é clara no direito internacional. Marrocos está lá à força. Os saharauis estão a sofrer mas estão unidos e determinados.

Mas reconhece que no papel parece uma derrota certa. Podem correr este esse risco?

Nós não partimos de algo teórico. Estivemos 16 anos na guerra contra Marrocos e nós estamos aqui. Os saharauis tinham milhares de prisioneiros de guerra marroquinos, recuperamos material de guerra e a e história assim o prova. Os saharauis têm demonstrado a sua capacidade de resistir. E podemos repeti-la. Estamos agora mais numerosos, mais experientes, mais conhecidos em todo o mundo. Antes ninguém sabia de nós e não tínhamos experiência.

Esta linha mais dura tem a ver com a eleição do novo presidente?

Nós somos uma organização com uma agenda política acordada por todos os membros. Os líderes podem vir ou ir, mas há uma agenda política. Você pode mudar o estilo, mas a política, não. São as condições e o desenvolvimento do conflito que estão a criar essas mudanças, não pessoas.

Fiquei muito surpreso que uma das condições para concorrer à presidência era ter sido dirigente durante a guerra.

A Polisário considera que ainda estamos num período de luta pela libertação. Para a libertação necessita-se a preparação do Exército e um dirigente militar com a experiência necessária. Portanto, é um requisito para este período de luta em que estão os saharauis. Por, isso escolheram um dirigente com experiência militar. Embora existam outras opções diplomáticas, não se descarta que todos devemos estar prontos para a guerra e, por isso, um dirigente com experiência.

E não é uma limitação ao direito de eleger um presidente de todos saharaui?

São os congressistas da Polisario que escolhem isto para mostrar que se mantêm esta linha de luta de libertação. O presidente é o comandante supremo das forças militares da Polisario. Um chefe deve saber dirigir e estar à altura ao nível militar. O exemplo não é que o líder deve comandar e estar em casa, mas sim que deve estar na frente das tropas militares. Somos um movimento de libertação que incentiva as pessoas com o seu próprio exemplo.
“A Polisario acredita que ainda estamos num período de luta pela libertação. Para a libertação necessita-se a preparação do Exército e um dirigente militar com a experiência necessária.”

Uma das grandes novidades neste conflito é a eleição do novo secretário-geral da ONU, o português, António Guterres. Foi aos campos de refugiados, o que é a sua opinião?

Ele esteva aqui e pensamos que se mostrou sensível às pessoas em dificuldades. Encontrou-se com os refugiados e com a gente. Era uma pessoa simpática, extrovertida, não colocou obstáculos entre ele e as pessoas. Esperamos que este espírito e personalidade se transforme em política.

Em Espanha, parece que a investidura de Mariano Rajoy está esclarecida. Irão pedir uma reunião com o novo governo para que coloque o foco sobre o conflito do Sahara durante a sua presidência no Conselho de Segurança?

Estamos muito interessados com o que acontece na Espanha, porque o que acontece lá nos afeta. Os governos passados têm-nos decepcionado. Tanto o PSOE e o PP e o PP pior que o PSOE. É uma realidade. Temos esperança de que as coisas vão melhorar devido às novas forças políticas que se expressam mais a favor do povo saharaui. No entanto, nós queremos sempre o melhor para a Espanha porque quando melhoram notamos e se pioram também. Quando a crise começou notou-se um grande declínio da ajuda. Nós desejamos o melhor para a Espanha e que tenha um governo o mais rapidamente possível.

É se o mesmo cenário se repete? Será que apoiam a oposição e não o governo?

O Partido Popular falou de forma excelente sobre nós enquanto esteve na oposição. Iam fazer o melhor dos melhores, mas já no poder fizeram outra coisa.

E com Unidos Podemos e cidadãos? falaram?

Todos expressaram posições excelentes em favor da causa saharaui. Tanto Unidos Podemos como Ciudadanos. Isso encoraja-nos, mas também esperamos que se concretize mais. A Comissão de Justiça aprovou a resolução para considerar os saharauis como os de países que tem uma relação histórica com a Espanha, como países da América Latina ou a Guiné. Esse é um passo positivo, mas exigimos que sejam reconhecidas as instituições e a situação geral do povo saharaui e não que só nos reconheçam individualmente.
” Estamos muito interessados com o que acontece na Espanha, porque o que acontece lá nos afeta. “

A Polisario receia que esta pode ser uma faca de dois gumes e um poderoso incentivo para deixar estes campos?

Essa diáspora já existe e sofre devido à documentação. As pessoas têm as suas aqui, e depois voltam. A decisão da Comissão de Justiça facilita a comunicação, mobilidade e estamos confiantes de que não vai significar uma separação. Nós não temos nenhum problema com a dupla nacionalidade. Os saharauis no exterior ajudam as suas famílias aqui e ajudam a reconhecer a causa saharaui noutros lugares. Vemos isso como um ponto positivo que reforça a luta saharaui. Aqueles que têm nacionalidade espanhola não arrancaram as suas raízes saharauis.

Um dos problemas que existe desde que o PP é é a alta taxa de recusas por parte de Espanha de vistos para atenção médica. Já se descobriu porquê?

É devido aos cortes que foram feitos na Espanha. Pode estar relacionada com a crise e as medidas que o governo PP impôs. Esperamos que, quando a situação melhore em Espanha, isto seja corrigido. E também coincidiu com a chegada do PP e as suas posições de linha dura em alguns aspectos. Antes o PSOE facilitava a obtenção de vistos de saúde e fortalecia a cooperação económica e ajuda humanitária aos saharauis. É uma diferença radical entre o PP e o PSOE, embora as posições políticas vão no mesmo sentido.

Será que a Frente Polisário não tem nenhuma responsabilidade? Não houve nunca medo que fossem para a Espanha por motivos de saúde e nunca mais voltassem?

Nenhum. Nós somos os mesmos Polisario. Agimos da mesma forma com os governos do PP como do PSOE. O que mudou são os governos da Espanha, não a Polisario. E não, não temos medo. Se a Polisario tivesse esse medo não facilitaria ou passaportes e autorizações. A Polisário continua a apresentar listas e pedidos para que as pessoas saiam. As pessoas que têm o passaporte vão e veem. É a mostra de que nós consideramos a nacionalidade como um elemento muito positivo. Nós encorajamos Espanha a facilitar vistos. Aqui todos são livres de se deslocar. As pessoas ficam aqui pela sua própria convicção e nada mais.
Via: POR UN SAHARA LIBRE http://bit.ly/2evTy0j
abrildenovomagazine.wordpress.com

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