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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

OS HOMENS E OS SAPATOS DE TACÃO ALTO


Acho que os sapatos de salto alto estilizam a figura e confirmariam o ditado que reza "para estar bela, é preciso sofrer". E digo "bela" porque, salvo raríssimas exceções, os sapatos de salto alto costumam ser usados na atualidade por mulheres... ainda que nem sempre foi assim. Para responder a pergunta que intitula este artigo teríamos que descobrir primeiro quando começaram a ser usados. Pois vamos a isso...

Quando os homens deixamos  de usar os sapatos de salto alto?
Os primeiros a utilizar calçados com salto foram os arqueiros a cavalo persas. E não tinha nada a ver com um acessório para realçar a beleza do corpo humano, senão que o calçado com salto permitia "ancorar-se" ao estribo de seus cavalos e, desta forma, centrar-se em disparar seus arcos com as duas mãos.

E como chegaram a Europa? No final do século XVI, a Pérsia encontrava-se dividida pelas lutas entre as diferentes facções que queriam tomar o poder. Quando Abas I, o Grande, subiu ao trono em 1588 pacificou o reino e então se centrou em recuperar os territórios perdidos nas mãos dos uzbeques e do Império otomano enquanto duraram as disputas internas.
Quando os homens deixamos  de usar os sapatos de salto alto?
Um sapato persa masculino do século 17, feito com pele de cavalo.
O reinado de Abas, com seus sucessos militares e um eficiente sistema administrativo, elevou a Pérsia ao status de grande potência. Com o propósito de criar alianças com o inimigo comum -os otomanos-, ele enviou embaixadas às cortes européias.

Em 1599, Abas enviou uma missão diplomática que percorreria toda a Europa. Foi quando os embaixadores persas, além de lograr a assinatura de vários pactos para lutar contra os otomanos, deixaram um fascínio pela cultura e a moda persa.
Quando os homens deixamos  de usar os sapatos de salto alto?
Louis XIV usando seus saltos de marca registrada em um retrato de 1701 de Hyacinthe Rigaud
Aqueles sapatos de salto, exóticos e viris para os europeus, se transformaram na sensação da aristocracia de toda a Europa. Ainda que não fossem muito práticos, por essa mania que o povo tem de imitar as modas dos poderosos, as pessoas comuns também começaram a usar o sapato de salto.

Foi então que a aristocracia, que não queria ser comparada a qualquer zébedeu, respondeu aumentando o salto até transformá-lo no que hoje chamaríamos de "alto" -uns 10 centímetros-. Os saltos se tornaram uma declaração de classe e riqueza, e as classes mais altas ficaram loucas por eles. Quanto mais alto e mais impraticável eles eram, mais rico e mais importante o usuário. Nada mostrava mais às pessoas quanto dinheiro ela tinha do que precisar de empregados para ajudá-la a andar.
Quando os homens deixamos  de usar os sapatos de salto alto?
Já no Século XVII, a França de Luis XIV, o rei Sol, passou a ser a primeira potência econômica e militar, além de ser a corte que marcava tendências. O rei Sol, verdadeiro Robert da época, promulgou um decreto que determinava que o salto alto de cor vermelha só era permitido à aristocracia... e essa foi a moda no resto de Europa. Os saltos se tornaram o auge da sofisticação e status. As mulheres se juntaram à loucura também, usando um sapato de salto alto com um dedo do pé afilado para fazer com que seus pés parecerem menores.
Quando os homens deixamos  de usar os sapatos de salto alto?
Com a Revolução francesa, na qual o descendente de Luís XIV perderia seu trono e sua cabeça, caía também o absolutismo, a monarquia, a moda ostentosa e junto os símbolos da aristocracia, como os sapatos de salto alto.

Avançando mais alguns anos e o movimento intelectual que veio a ser conhecido como o Iluminismo trouxe consigo um novo respeito pelo racional e útil e uma ênfase na educação em vez de privilégio, em nome da liberdade e da igualdade. A moda masculina mudou para roupas mais práticas, os saltos foram abolidos para sempre e as pessoas puderam andar normalmente mais uma vez.

VÍDEO
Foi o começo do que foi chamado a Grande Renúncia Masculina, que veria os homens abandonarem o uso de jóias, cores brilhantes e tecidos ostensivos em favor de uma aparência mais sóbria e homogênea. As roupas masculinas já não funcionavam tão claramente como um símbolo da classe social, mas enquanto essas fronteiras estavam sendo borradas, as diferenças entre os sexos se tornariam mais pronunciadas e o salto passou de vez a ser um acessório de uso quase exclusivamente feminino.


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