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sexta-feira, 22 de abril de 2016

GPS avariado


Filipe Diniz

Não é seguramente por acaso que o diário da SONAE, há anos, dá uma página semanal ao deputado europeu dr. Assis, que nela espalha a sua afrivolada prosa.
Por isso não é de admirar que o dr. Assis repita com prolixa pompa e circunstância a pesporrente afirmação: «Portugal [deve manter-se] atrelado e cada vez mais dependente na integração capitalista europeia», o que propicia os resultados que estão à vista.


O GPS (Global Positioning System) em causa é um sistema de localização de um ponto na superfície da Terra. Vem aqui a propósito das prosas semanais no jornal da SONAE do deputado do PS no PE Francisco Assis. Não sendo tematicamente muito variadas nem particularmente entusiasmantes – em geral até são de aflitiva banalidade – todas partilham o mesmo subtexto: indicar em que lugar do espectro político Assis considera que se situa – com uma margem de erro considerável.

A última (Público, 14.04.2016) sendo preenchida com uma esforçada engraxadela a Marcelo Rebelo de Sousa, não foge a essa característica.

À boleia do discurso do PR no Parlamento Europeu Assis puxa o lustro às suas opções de fundo: «não é boa qualquer solução que desvalorize a nossa inclusão no núcleo central do projecto europeu», afirmação – na forma e no conteúdo comum de Soares a Cavaco e agora a Marcelo – que significa manter Portugal atrelado e cada vez mais dependente na integração capitalista europeia. Manifesta a convicção de que tal «ideal» une Marcelo e Costa.
E deixa a esperança de que tal consenso desagrade aos «partidos de extrema-esquerda que integram a actual maioria parlamentar».

No período que antecedeu a formação do actual Governo a direita agitou freneticamente o espantalho da «esquerda radical». Agora é a «extrema-esquerda».
Se a designação de «extrema-esquerda» dirigida ao BE não é mais do que um absurdo, dirigida ao PCP é um insulto. Pretende associar o PCP à imagem do aventureirismo esquerdista, praticado por pequenos grupos isolados e semiclandestinos, em tantos casos convergindo com a direita num anticomunismo exacerbado.

Houve tempo em que uma das designações que lhe era atribuída era a de «extraparlamentar». Para azar de Assis, as forças a que chama de «extrema-esquerda» têm uma significativa representação e actividade parlamentar – no caso do PCP conjugada com um esforço persistente de mobilização e luta de massas dos trabalhadores e do povo.
Onde Assis quer chegar percebe-se bem: eleito Marcelo, está na hora de reclamar o prosseguimento em força da política que há mais de 38 anos afunda o País.
No seu GPS avariado chama-lhe «consenso social-democrata». O nome mais comum é política de direita. E o povo está farto dela.

Este texto foi publicado no Avante nº 2.212 de 21 de Abril de 2016.

www.odiario.info

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