
Entrevista com Angeles Maestro
Assistimos a um refluxo da mobilização social apesar das condições económicas serem muito duras para os trabalhadores? A que se deve este refluxo?
Angeles Maestro (AM): De facto tem havido uma importante diminuição da mobilização operária e popular. As causas são complexas.
Por um lado está a brutal ofensiva de classe levada a cabo pela burguesia e os seus governos. Todos eles, na UE e no Estado espanhol, independentemente da sua cor política têm executado políticas que arrasam os direitos laborais. A situação em que vive a imensa maioria dos trabalhadores é quase de escravidão. Não há protecção sindical. Quem se arrisca em qualquer tipo de mobilização é despedido.
Quem tem um trabalho relativamente digno tem medo de o perder e a imensa maioria dos trabalhadores precários não tem qualquer possibilidade de luta.
Por outro lado, se as classes dominantes puderam executar essas políticas foi porque tinham a classe operária manietada. Por isso as desmobilizações são também o resultado da imensa derrota de classe perpetrada desde a Transição com a necessária colaboração das cúpulas das CC.OO. e da UGT, que não apenas pactuaram ou aceitaram durante décadas sem necessária luta as privatizações, as contra-reformas laborais, das pensões ou a dupla escala salarial mas – como é evidente – actuam como instrumentos da burguesia para debilitar ou desnaturalizar a mobilização social.
Um bom exemplo é a invenção da cimeira social (PSOE, IU, CC.OO., UGT e organizações satélites) definitivamente desacreditada pelas Marchas da Dignidade. Com isso tentaram iludir as pessoas reivindicando a «Europa Social», os «aspectos sociais» da Constituição espanhola ou o regresso ao «Estado de Bem-Estar» [1], apesar da evidência de quem impõe a aniquilação dos direitos laborais e sociais é a UE, através do Pagamento da Dívida e da engrenagem do Euro. Em situações de precaridade, como as que vive a imensa maioria da classe operária, não há alternativa senão actuar a partir de fora da empresa, procurando formas de solidariedade que permitam exercer a pressão necessária para ganhar as lutas. O lema «hoje por ti, amanhã por mim» pode originar instrumentos de organização e de actuação eficazes, que permitam voltar à construção da identidade de classe numa situação de proletarização massiva.
O grande desafio que a classe operária tem necessariamente que enfrentar – e que inclui o sindicalismo alternativo - não é só o de acabar com um sindicalismo pactuador que atraiçoou a sua classe. São indispensáveis novas formas de organização e de luta contra um patronato que actua impunemente para impor condições de trabalho cada vez mais próximas da escravatura.
Em situações de precaridade, como as que vive a imensa maioria da classe operária, não há alternativa senão actuar a partir de fora da empresa, procurando formas de solidariedade que permitam exercer a pressão necessária para ganhar as lutas. O lema «hoje por ti, amanhã por mim» pode originar instrumentos de organização e de actuação eficazes, que permitam voltar à construção da identidade de classe numa situação de proletarização massiva.
O bairro como lugar de encontro e organização pode ser o grande laboratório em que criem as estruturas que assegurem a continuidade da organização, a unificação das lutas e a necessária acumulação de forças para enfrentar as duras batalhas que se avizinham. A construção do poder popular é condição indispensável para acabar – não com a «casta» mas com o sistema – e construir a única alternativa real ao capitalismo: o socialismo.
INS: Foste uma das protagonistas na luta contra a privatização da saúde em Madrid. Em que ponto se encontra essa luta?
AM: A luta contra a privatização dos cuidados de saúde continua, ainda que esteja seriamente afectada pela falsa valorização, passada para a opinião pública pela «Maré Branca» e outros sectores da saúde, que a suspensão judicial de uma pequena porção da privatização era a paralisação de todo o processo. Essa percepção foi sustentada por todos os grandes meios de comunicação na medida que servia para desmobilizar as pessoas.
Também o combate pela saúde pública está debilitado – como outras lutas sociais – pela percepção instalada em muitos sectores populares que votando Podemos e arriando o PP e o PSOE dos Governos se resolvem os problemas.
INS: A Rede Roja não se apresentou como tal nem apoiou qualquer organização nas últimas eleições europeias. Porquê? AM: Nas últimas eleições europeias Rede Roja foi convidada a somar-se a uma candidatura que reeditasse o que foi em 2009 Iniciativa Internacionalista (IISP). Nós fazemos uma muito boa valorização do que representou II-SP e do seu êxito principal: tornar visível a necessária relação entre as esquerdas independentistas e a esquerda revolucionária no Estado espanhol. Isso foi tão importante que os seus resultados – necessidade de coordenar políticas face ao inimigo comum, o regime da Transição – continuam vigentes.
Cinco anos decorridos foram determinantes e as coisas mudaram. Agora é impossível que a esquerda coerente de qualquer nacionalidade ou estado da UE – precisamente numas eleições europeias – não coloque no seu programa o Não Pagamento da Dívida – tanto para o seu povo como para os restantes povos da Europa.
Pensámos que a falta de coragem, escondendo o determinante tema da Dívida e falando de reestruturações ou auditorias – exactamente o que fizeram a IU e o Podemos – era inaceitável e significava desaproveitar a grande ocasião de começar a assentar as bases de um novo internacionalismo como bandeira política comum dos povos da Europa, das UP, Esquerda Castellana, etc. Felizmente, essa posição foi partilhada por outras organizações em primeiro lugar Endevant, e depois.
Por um lado está a brutal ofensiva de classe levada a cabo pela burguesia e os seus governos. Todos eles, na UE e no Estado espanhol, independentemente da sua cor política têm executado políticas que arrasam os direitos laborais. A situação em que vive a imensa maioria dos trabalhadores é quase de escravidão. Não há protecção sindical. Quem se arrisca em qualquer tipo de mobilização é despedido.
Quem tem um trabalho relativamente digno tem medo de o perder e a imensa maioria dos trabalhadores precários não tem qualquer possibilidade de luta.
Por outro lado, se as classes dominantes puderam executar essas políticas foi porque tinham a classe operária manietada. Por isso as desmobilizações são também o resultado da imensa derrota de classe perpetrada desde a Transição com a necessária colaboração das cúpulas das CC.OO. e da UGT, que não apenas pactuaram ou aceitaram durante décadas sem necessária luta as privatizações, as contra-reformas laborais, das pensões ou a dupla escala salarial mas – como é evidente – actuam como instrumentos da burguesia para debilitar ou desnaturalizar a mobilização social.
Um bom exemplo é a invenção da cimeira social (PSOE, IU, CC.OO., UGT e organizações satélites) definitivamente desacreditada pelas Marchas da Dignidade. Com isso tentaram iludir as pessoas reivindicando a «Europa Social», os «aspectos sociais» da Constituição espanhola ou o regresso ao «Estado de Bem-Estar» [1], apesar da evidência de quem impõe a aniquilação dos direitos laborais e sociais é a UE, através do Pagamento da Dívida e da engrenagem do Euro. Em situações de precaridade, como as que vive a imensa maioria da classe operária, não há alternativa senão actuar a partir de fora da empresa, procurando formas de solidariedade que permitam exercer a pressão necessária para ganhar as lutas. O lema «hoje por ti, amanhã por mim» pode originar instrumentos de organização e de actuação eficazes, que permitam voltar à construção da identidade de classe numa situação de proletarização massiva.
O grande desafio que a classe operária tem necessariamente que enfrentar – e que inclui o sindicalismo alternativo - não é só o de acabar com um sindicalismo pactuador que atraiçoou a sua classe. São indispensáveis novas formas de organização e de luta contra um patronato que actua impunemente para impor condições de trabalho cada vez mais próximas da escravatura.
Em situações de precaridade, como as que vive a imensa maioria da classe operária, não há alternativa senão actuar a partir de fora da empresa, procurando formas de solidariedade que permitam exercer a pressão necessária para ganhar as lutas. O lema «hoje por ti, amanhã por mim» pode originar instrumentos de organização e de actuação eficazes, que permitam voltar à construção da identidade de classe numa situação de proletarização massiva.
O bairro como lugar de encontro e organização pode ser o grande laboratório em que criem as estruturas que assegurem a continuidade da organização, a unificação das lutas e a necessária acumulação de forças para enfrentar as duras batalhas que se avizinham. A construção do poder popular é condição indispensável para acabar – não com a «casta» mas com o sistema – e construir a única alternativa real ao capitalismo: o socialismo.
INS: Foste uma das protagonistas na luta contra a privatização da saúde em Madrid. Em que ponto se encontra essa luta?
AM: A luta contra a privatização dos cuidados de saúde continua, ainda que esteja seriamente afectada pela falsa valorização, passada para a opinião pública pela «Maré Branca» e outros sectores da saúde, que a suspensão judicial de uma pequena porção da privatização era a paralisação de todo o processo. Essa percepção foi sustentada por todos os grandes meios de comunicação na medida que servia para desmobilizar as pessoas.
Também o combate pela saúde pública está debilitado – como outras lutas sociais – pela percepção instalada em muitos sectores populares que votando Podemos e arriando o PP e o PSOE dos Governos se resolvem os problemas.
INS: A Rede Roja não se apresentou como tal nem apoiou qualquer organização nas últimas eleições europeias. Porquê? AM: Nas últimas eleições europeias Rede Roja foi convidada a somar-se a uma candidatura que reeditasse o que foi em 2009 Iniciativa Internacionalista (IISP). Nós fazemos uma muito boa valorização do que representou II-SP e do seu êxito principal: tornar visível a necessária relação entre as esquerdas independentistas e a esquerda revolucionária no Estado espanhol. Isso foi tão importante que os seus resultados – necessidade de coordenar políticas face ao inimigo comum, o regime da Transição – continuam vigentes.
Cinco anos decorridos foram determinantes e as coisas mudaram. Agora é impossível que a esquerda coerente de qualquer nacionalidade ou estado da UE – precisamente numas eleições europeias – não coloque no seu programa o Não Pagamento da Dívida – tanto para o seu povo como para os restantes povos da Europa.
Pensámos que a falta de coragem, escondendo o determinante tema da Dívida e falando de reestruturações ou auditorias – exactamente o que fizeram a IU e o Podemos – era inaceitável e significava desaproveitar a grande ocasião de começar a assentar as bases de um novo internacionalismo como bandeira política comum dos povos da Europa, das UP, Esquerda Castellana, etc. Felizmente, essa posição foi partilhada por outras organizações em primeiro lugar Endevant, e depois.
INS: É obrigatório referirmos o fenómeno PODEMOS e a ilusão que provocou em certos sectores progressistas a sua única aparição. Que apreciação faz a RR? Que percurso antevês?
AM: PODEMOS é, entre outras coisas, a expressão politico-eleitoral do esgotamento da IU que, apesar das cabriolas políticas dos últimos tempos, falando de «processos constituintes» e outros movimentos «desde baixo» demonstrou, já há anos, a sua incapacidade de encabeçar qualquer processo credível de ruptura com a engrenagem do poder, o que agora é compreendido pelas massas como um lastro. O peso da traição do PCE na Transição, a sólida aliança da Coligação com o aparelho das CC.OO. – que nem é abandonada depois do fáctico conluio com as contra-reformas do PSOE e do PP – o seu sistemático alinhamento com a aberração antidemocrática das políticas «antiterroristas» e da sua colaboração nas políticas privatizadoras e de especulação urbanística, corrupção incluída – de que é a cereja no bolo o seu voto no Ayuntamiento de Madrid de apoio à requalificação da Cidade Desportiva do Real Madrid, incapacitam-na de ser considerada como de uma esquerda coerente.
Perante a pressão do poder, a Esquerda Unida sempre se situou no «politicamente correcto» e na prática demonstrou que a sua verdadeira estratégia era tentar, custasse o que custasse, governar com o PSOE. O resultado é que boa parte do seu eleitorado considerou que é «mais do mesmo» e por isso é incapaz sequer de apontar os responsáveis de tanto desastre.
O voto massivo em PODEMOS – e o que venham a receber outras formações como a que é liderada por Ada Colau [fundadora de Plataforma de Afectados por la Hipoteca] ou outras – é a manifestação da aposta política das lutas sociais: conquistar o poder político através das urnas para lançar a sua «a camarilha» no caixote de lixo da história. Esse é o objectivo comum fundamental dos que neles votaram e votarão e para isso pouco importa o programa.
Esse voto representa o desespero de muita gente perante a ausência de futuro, sobretudo da juventude e a saturação dos sectores populares face à corrupção político-empresarial dos que lhes negam o essencial para viver.
Depois da poderosa mobilização motivada pelo 15M numa grande parte do Estado espanhol, que sem programa político exigia aos governantes que escutassem o povo, as Marchas da Dignidade encarnaram a ascensão do nível de ruptura e de organização que indicava um programa de ruptura – o Não ao Pagamento da Dívida – e que exigia aos governos da Troika que se fossem embora. Os cerca de dois milhões de pessoas de todos os pontos do Estado espanhol que abarrotaram as ruas de Madrid em 22 de Março não foram suficientes para os fazer sair. Ainda que se tenha dado um importante passo no caminho da construção unitária de poder popular em muitos bairros e povoações, a percepção da rua foi, uma vez mais, de impotência. O tema central é que não é suficiente afastá-los com o voto.
INS: Que trazem de novo e que futuro têm as Marchas da Dignidade?
AM: As Marchas estão a demonstrar que - face ao descrédito das CC.OO, e da UGT e à sua fraca capacidade de mobilização, alimentada diariamente pela infâmia do Pacto Social do PP negociando agora migalhas de 400 euros para 300.000 desempregados – as Marchas constituem um importante marco unitário da mobilização social.
A sua capacidade de mobilização passa por cima do tsunami eleitoral e são capazes de articular o instinto de uma parte importante do povo trabalhador que sabe que sem luta e sem força organizada não somos capazes de acabar com o poder que nos subjuga.
São capazes de ser mais coerentes que qualquer opção eleitoral ao unir as questões sociais como o trabalho digno, a habitação e os serviços públicos com um conteúdo político de ruptura com a UE, como exige o Não ao Pagamento da Dívida.
Conseguiram levantar estruturas territoriais em todas as nacionalidades e regiões do Estado espanhol, de que fazem parte a grande maioria do sindicalismo alternativo, incluindo, por exemplo a CNT.
Na sua última reunião estatal de 13 de Dezembro, as Marchas deram um importante passo apoiadas pelo sucesso das últimas mobilizações. Decidiram convocar novas mobilizações de todos os territórios em Madrid no próximo dia 21 de Março, com novos formatos ainda não decididos.
Também se decidiu que em todas as mobilizações se prepare uma Greve Geral (laboral, social e de consumo) a 22 de Outubro.
Uma Comissão estabelecerá os contactos a nível europeu para impulsionar mobilizações conjuntas contra o pagamento da dívida e contra os paraísos fiscais.
Também se decidiu, entre outros acordos, que as Marchas apoiarão as mobilizações que venham a ser convocadas contra as Manobras da OTAN em Outubro de 2015 e pela saída da Aliança Atlântica e o desmantelamento das Bases.
Estes importantes acordos abrem caminho, que já está a ser percorrido nos diferentes territórios, à criação dos Comités das Marchas, configurando-se com esse programa político e com o esforço permanente de unificação das lutas, como estruturas de poder popular.
INS: Então, que dizer a todos os que insistem numa grande coligação para derrotar o PP?
AM: O lema «todos contra o PP» – que foi apoiado pelo PSOE e IU, com todos os satélites (leia-se as Marés Sociais e a Cimeira Social) – está sendo aproveitado no campo eleitoral por PODEMOS, que os inclui na «camarilha».
O fenómeno PODEMOS está a passar-lhes por cima, reflectindo o descrédito que aquelas organizações têm vindo a acumular com as suas políticas em governos municipais e autonómicos e com a sua correspondente corrupção.
O tema central que é preciso explicar incansavelmente às pessoas é que as mudanças no poder político eleitoral não afectam no essencial a medula do poder real. À medida que as sondagens reflectem a subida eleitoral, PODEMOS e as suas alterações programáticas estão cada vez mais acomodados com o Poder, e tem-se a ideia do que pode suceder se eles chegarem a governar,
Ganhar umas eleições não é sinónimo de ter o Poder, nem pouco mais ou menos. Tampouco uma vitória eleitoral pressupõe alterações de fundo na correlação de forças que, para se consolidar, requer avanços decisivos a nível de organização do povo. E estes ainda se não verificaram com a profundidade suficiente.
Face aos riscos destas alterações poderem dar lugar a políticas contrárias aos interesses das classes dominantes – mais insuportáveis ainda em tempos de crise em que a margem de manobra dos governos é quase inexistente – as oligarquias do Estado e da UE têm duas opções preventivas. Ou desnaturalizar e domesticar os novos dirigentes, através de subornos ou ameaças de todo o tipo, ou impedir que cheguem ao poder através de governos de coligação, de tecnocratas ou directamente recorrendo a um golpe de Estado.
Sobre as denúncias de corrupção quero fazer algumas advertências que me parecem fundamentais:
1. Todas as denúncias, sem excepção, partem das estruturas do poder e respondem a lutas internas entre as diferentes fracções da burguesia e do poder político que esgrimem como armas de arremesso e que exprimem tanto o grau de decomposição do Estado como a debilidade interna das classes dominantes.
2. As acusações de corrupção dos políticos do sistema feitas por PODEMOS escondem que a grande corrupção das grandes empresas e dos bancos, consubstancial ao capitalismo, não poderia subsistir sem a submissão generalizada dos aparelhos do Estado aos seus interesses.
3. Essa ocultação não é casual e comporta consequências gravíssimas. Permite instalar na consciência das pessoas a ideia de que mudando as caras dos políticos se resolve o problema, escamoteando a necessidade iniludível de destruir as bases do poder real.
4. Um dos riscos maiores das novas experiências politico-eleitorais é crer que a história começa com elas e que a sua inocência – assegurada enquanto não tocarem no poder – é um talismã eterno. O poder vai utilizar todas as suas armas – e isto de «armas» inclui tudo – para impedir que as suas riquezas e privilégios sejam ameaçados. A memória da nossa história como classe operária e como povos é indispensável. Na Transição e posteriormente muitos líderes políticos e sindicais, com anos de prisão às costas, foram corrompidos ou não foram capazes de impedir que os interesses das classes dominantes se impusessem. O resultado mais dramático não foi só a vitória dos inimigos de classe mas também a destruição das organizações que representavam.
5. Assim, quem garante que a capacidade do poder de corromper dirigentes concretos de PODEMOS ou outros não se exerce e triunfa, como sucedeu até agora? A pergunta indispensável é: como vamos impedir que essa triste história se repita? Aqueles e aquelas que traíram a sua classe e os seus povos também eram jovens e também representavam «a mudança» e a «transformação social».
INS: No último documento político de Rede Roja insiste-se que a única opção é a saída da UE e do euro, e o Não ao Pagamento da Dívida. Os defensores do regime, e alguns que se vendem a si-mesmos como «anti-sistema», dizem, em contrapartida, que isso seria um desastre para a economia, que não é realista…
AM: A resposta a todos eles é que o que não é realista, o que é uma fraude política é dizer que vão parar todos os cortes, todas as privatizações ou que se vão reverter as reformas laborais sem recusar o pagamento da Dívida.O que as pessoas já sabem é que a dívida pública, que já é maior do que o PIB e atinge um bilião de euros, foi criada pela transferência massiva de dinheiro público para os bancos e as grandes empresas.
O que se oculta é que, não só a reforma do artigo 135º da Constituição mas também o Tratado de Estabilidade da Eurozona e as leis que o regulamentam como a Lei Orgânica 2/2012 impõem ferreamente a qualquer Governo do Estado espanhol, às CC.AA. e aos Ayuntamientos políticas de redução do deficit e da dívida incompatíveis com a manutenção dos serviços e do emprego público. Remeto os leitores para o Relatório da Rede Roja sobre o assunto [2].
As piruetas programáticas da IU, de PODEMOS, de GANHEMOS e de qualquer opção eleitoral que fale de «auditorias», de «reestruturações da Dívida» ou de qualquer outra denominação são fraudes que escondem o medo de dizer claramente a evidência: não há outra opção de enfrentar os cortes, as privatizações e a destruição de direitos laborais e sociais que negar o pagamento da Dívida e, portanto, sair da UE e do Euro.
E que, para isso, não é suficiente ganhar eleitoralmente o direito de formar Governo seja qual for o seu nível. O decisivo é construir o poder popular capaz de apoiar esse Governo – que tome as decisões correspondentes, e que isso exige escolher essas opções como reivindicação política a nível não apenas do Estado espanhol mas, como colocam as Marchas da Dignidade, construir um movimento internacionalista à escala europeia.
INS: Estamos, como quase sempre, perante a disjuntiva conhecida como «reforma ou revolução», mas parece impossível desenvolver a segunda sem um elevado número de revolucionários…
AM: O assunto hoje não é se somos mais, ou menos, revolucionários. É se a análise concreta da situação das classes dominantes no poder é sustentável ou não perante as necessidades vitais e estimulantes das pessoas. E neste quadro, que objectivamente é de uma grande instabilidade do poder estabelecido – que no seu conjunto é o Regime da Transição – o assunto central é como as organizações revolucionárias são capazes de colocar no seio do movimento popular as políticas que ultrapassam os limites das opções eleitorais.
Para isso, como coloca a Rede Roja, trata-se de acompanhar o processo de consciencialização das pessoas que inevitavelmente vai comprovar que – se bem que seja necessário acabar eleitoralmente com aqueles que representam o poder político/sindical surgido da Transição – para cumprir os seus objectivos, inclusive os mais elementares de lutar contra os «cortes», é preciso enfrentar toda a estrutura do poder.
O tema central, pois, não é a quantidade de revolucionários. Como se demonstrou noutros processos históricos, o tema central é em que medida a linha revolucionária – nos momentos de crise aguda do sistema como os tempos actuais – é capaz de analisar rigorosamente as contradições da estrutura do poder e ir interpretando e representando o sentimento das pessoas.
Quando a Rede Roja fala de «linha revolucionária» não se está auto-atribuindo o papel de «vanguarda esclarecida da revolução».
Está a colocar, por um lado, a necessidade ineludível do trabalho no movimento operário e popular – em cada bairro e em cada povoado – com o objectivo de construir a acumulação de forças e a organização capaz de enfrentar a inevitável confrontação de classe que se avizinha. Para isso, como disse, o trabalho no seio das Marchas da Dignidade é a chave para a construção de estruturas unitárias que possam ser o germe da organização do poder popular.
Por outro apela, e nisso estamos a trabalhar seriamente, à confluência entre as organizações revolucionárias – incluindo as esquerdas independentistas das nacionalidades – para articular formas eficazes de luta contra o inimigo comum: o Regime de Transição, a UE, e a OTAN. Tudo isso, assumindo o Direito dos Povos do Estado espanhol à sua autodeterminação, incluindo a sua independência.
Notas:
[1] http://redroja.net/index.php/noticias-red-roja/noticias-cercanas/1910-informe-de-red-roja-sobre-la-ley-organica-22012-el-final-de-cualquier-soberania-y-el-arma-de-destruccion-masiva-de-los-servicios-publicos.
[2] http://redroja.net/index.php/comunicados/831-el-mito-de-la-vuelta-al-estado-del-bienestar-otro-capitalismo-es-imposible.
Em: http://www.insurgente.org/
[1] http://redroja.net/index.php/noticias-red-roja/noticias-cercanas/1910-informe-de-red-roja-sobre-la-ley-organica-22012-el-final-de-cualquier-soberania-y-el-arma-de-destruccion-masiva-de-los-servicios-publicos.
[2] http://redroja.net/index.php/comunicados/831-el-mito-de-la-vuelta-al-estado-del-bienestar-otro-capitalismo-es-imposible.
Em: http://www.insurgente.org/

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