Afundou dois navios em Portugal em nome da defesa das baleias
Paul Watson em 1979
É um dos mais memoráveis episódios da história do ativismo ambientalista na defesa dos oceanos. Na viragem da década de 70 para 80, o canadiano Paul Watson declarou guerra aos caçadores de baleias e afundou dois navios em Portugal.
A operação marcou o início das missões da Sea Shepherd. Aqui se relata o que aconteceu. E o autor da proeza conta tudo ao JN.
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Dizia-se que o arpão daquele navio já tinha dizimado mais de 25 mil baleias mas ninguém sabia exatamente quem seria o seu proprietário. Chegavam denúncias, daqui e dali, dando conta das suas implacáveis ações e dos seus arrepiantes métodos de extermínio. A tripulação do navio Sierra chacinava famílias inteiras de baleias, incluindo as crias, e o seu procedimento era aniquilar todo ou qualquer cetáceo que se lhe deparasse. A meio da década de 70 torna-se no alvo prioritário dos ambientalistas.
Em 1977, Paul Watson, então com 27 anos, abandona a Greenpeace, que ajudara a fundar, por estar "cansado de conversas estéreis" e pouca ação concreta. Sem um tostão no bolso, desata a procurar financiamento para a compra de uma embarcação que lhe permita cumprir o seu objetivo de vida: combater os inimigos dos animais marinhos. Consegue-o através de Cleveland Amory, um escritor que consagra a sua vida à defesa dos direitos dos animais e preside a Fund For Animals. Watson compra a Westella, uma antiga traineira britânica de 60 metros, e rebatiza-a de Sea Shepherd. "Foi o primeiro navio da História a dedicar-se exclusivamente à defesa da vida marinha", dirá anos mais tarde.
Paul Watson reforça o casco com 100 toneladas de cimento armado para que o navio funcione como quebra-gelo numa campanha contra a caça de focas no Canadá em março de 79. Depois disso, coloca um anúncio no Boston Globe para recrutar tripulação disposta a lançar-se ao mar à procura do Sierra. Aparecem 19 homens de várias nacionalidades, a maioria estudantes e apaixonados da natureza. Partem pelo Atlântico rumo aos Açores. Estão uns dias na cidade da Horta até receberem a informação de que o Sierra zarpara do Senegal rumo ao norte. Levantam âncora sem demoras. A 16 de julho de 1979, o alvo mais apetecido é finalmente avistado a 200 milhas a oeste de Leixões. Paul Watson esfrega as mãos e faz logo questão de mostrar que não está ali com rodriguinhos.
"Sem mais nem para quê começaram com tentativas de abalroação, fazia muito mau tempo, viajávamos há 22 dias, tínhamos saído do Senegal com pouco mais de 20 baleias e estávamos em pleno alto mar. Vimo-nos seriamente em perigo e tentamos fugir", relata ao JN, dias depois, o assustado chefe de máquinas do Sierra, um português chamado Luís Mendes. Sentindo-se perseguido e hostilizado, o Sierra procura abrigo ao porto de Leixões, destino já planeado para descarregar a carne de baleia e transbordá-la para um navio frigorífico com destino ao Japão. Será a sétima vez que o Sierra encosta em Leixões para descarregar baleias mortas.
PAUL WATSON, O "BOM PIRATA"
Sempre perto para evitar fugas, o Sea Shepherd dá entrada em Leixões às 10 horas do dia 17 de julho. Atraca na Doca 1 para reabastecer e a sua tripulação fica a controlar o Sierra através de binóculos. Paul Watson pressente que o inimigo, parado meia milha a oeste do molhe, se prepara para fugir e avisa a sua equipa de que irá passar ao ataque. Com receio do que aconteça, 17 tripulantes abandonam o navio. Às 13.30 horas, Watson liga os motores e arranca sem avisar a capitania.
"Eram verdadeiros piratas com asas postiças de anjos. Surgiram-nos com lenços na cabeça e com fitas nos cabelos, como os antigos piratas", contou depois o tripulante português do baleeiro. Sem cerimónias, o Sea Shepherd embate de proa contra a amura de bombordo do Sierra, provocando-lhe um rasgão vertical de dois metros próximo da proa e amolgando-a numa extensão de dez metros. Esse primeiro choque visa destruir o canhão arpoador. Ato contínuo, o Sea Shepherd faz uma larga curva de 360 graus a bombordo e volta com a proa apontada a meio do casco do Sierra, a estibordo, embatendo a 30 nós uma segunda vez a meia nau e causando danos no compartimento de carga e sistema de refrigeração.
"FAZEMOS ISTO PORQUE É A COISA CERTA A FAZER"
Sem demoras, e com o Sierra atordoado e seriamente danificado, Watson abala para norte, tentando escapar para Inglaterra. A corveta Limpopo da Marinha de Guerra Portuguesa lança-se em sua perseguição. Pelas 18 horas, os militares portugueses apanham o navio dos ambientalistas a cinco milhas de águas territoriais espanholas e obrigam-no a regressar a Leixões. Paul Watson é levado à capitania e assume a façanha. Horas depois, o comandante Albuquerque da Capitania do Porto de Leixões diz à imprensa que Watson e companhia não escondem que a ação foi propositada e deliberada "e não só o confessam prontamente como fazem disso ponto de honra".
Imobilizado junto às docas, o Sierra aproveita para descarregar 280 toneladas em fardos de 10 quilos da carne de baleia que fora produto da safra. Paul Watson é libertado e diz aos jornalistas portugueses que o ato serviu para "chamar a atenção da opinião pública mundial para o extermínio das baleias". O caso ganha repercussão internacional. Por cá, o Diário de Notícias fala num "acontecimento invulgar e desconcertante".
Seguem-se meses de confusão jurídica e pedidos de indemnizações. Em novembro, o Tribunal de Matosinhos decreta que o Sea Shepherd ficará retido como garantia de pagamento de indemnizações aos armadores do Sierra. Segundo Watson, as autoridades só libertariam o Sea Shepherd mediante o pagamento de 750 mil dólares - e isto para um navio que custara 120 mil.
Inconformado perante a possibilidade de ver a sua embarcação nas mãos de baleeiros - "a ideia era-me insuportável", confessará mais tarde - Watson telefona a Peter Woof, que se encontra na Escócia, e desafia-o a encontrarem-se em Leixões para tentarem recuperá-lo. O plano é este: entrar no navio na madrugada de 29 de dezembro, ligar os motores e fugir sorrateiramente. O plano falha: quando sobem a bordo do Sea Shepherd reparam que tudo havia sido roubado durante aqueles cinco meses ancorado em Leixões. A aparelhagem náutica, os radares, 80 toneladas de combustível, as mantas, os acessórios de cozinha e até as instalações elétricas - tudo fora surripiado por mãos alheias.
Furiosos, os dois ambientalistas passam ao plano B. Na noite de 31 de dezembro, em plena passagem de ano, por volta da meia-noite, voltam com uma chave inglesa e lanternas e abrem as duas válvulas de fundo na casa das máquinas, uma a bombordo e outra a estibordo. "Uma coluna de cinco metros de água jorrou com violência e quando saímos já tínhamos água acima dos tornozelos. Sentia o coração apertado, o seu destino estava traçado", confessará Watson décadas mais tarde. O Sea Shepherd afunda-se em poucas horas enquanto Portugal brinda com espumante e come uvas passas.
No dia seguinte, o comandante da Polícia Marítima de Leixões, Bessa Gil, comenta com a imprensa que "o caso está envolto de um certo mistério". E ninguém sabe dos autores da proeza. Peter Woof atravessa o rio Minho a nado e escapa para Espanha. Paul Watson consegue ludibriar os guardas fronteiriços, foge para Inglaterra, e convoca uma conferência de imprensa para assumir a operação.
"Terror dos baleeiros sepultado em Leixões - os navios baleeiros de todo o mundo podem agora respirar de alívio", publica "O Primeiro de Janeiro" na sua primeira página de 3 de janeiro de 1980.
Entretanto, o Sierra tinha sido deslocado para os estaleiros da Lisnave, em Almada, para "reparações na ordem dos 25 milhões de escudos" como referiam os jornais da época portugueses. No dia 11 de janeiro de 1980, atravessa o Tejo e lança âncora na Doca do Jardim do Tabaco, em Lisboa. Está pronto para voltar à faina e prepara-se para levantar ferro e zarpar no último dia de fevereiro.
O Sierra afunda-se em dez minutos, tempo suficiente para serem evacuadas as 4 ou 11 pessoas (as versões variam) que estão a bordo
Na madrugada de 6 de fevereiro, alguém mergulha no Tejo e coloca uma mina magnética no porão do Sierra, a meia nau. Segue-se uma explosão e um rombo de seis metros no casco. O Sierra afunda-se em dez minutos, tempo suficiente para serem evacuadas as 4 ou 11 pessoas (as versões variam) que estão a bordo. Nenhuma fica ferida.
Nesse dia, Paul Watson está numa sala de tribunal no Quebeque, Canadá, para prestar declarações sobre uma campanha contra a caça às focas. "Claro que eu fui logo o suspeito número 1, mas haverá melhor álibi do que estar nesse dia numa sala de tribunal?", comentará anos mais tarde.
Dois dias depois, os jornais noticiam que "um ativista ecológico que pediu para não ser identificado declarou à agência UPI estar absolutamente certo de que a explosão que afundou o Sierra não foi um acidente". "Posso dar 100% de garantias de que a explosão foi provocada", afirmou.
Apesar de ter regressado algumas vezes a Portugal nos anos seguintes, quase três décadas depois do incidente, em junho de 2009, Paul Watson é detido no aeroporto da Madeira quando se dirige para uma reunião da Comissão Baleeira Internacional. "Mas duas horas depois disseram-me que eu podia ir embora porque o mandado de detenção em meu nome afinal já tinha expirado", conta agora ao JN.
Em 2012, no livro "Entretien avec un pirate", de Lamya Essemlali, Paul Watson afirma: "Eu nasci para afundar o Sierra. Se eu não tivesse feito mais nada, colocar um fim à carreira desse navio teria sido suficiente para dar sentido à minha vida".
Paul Watson, o "bom pirata"
O portuense Pedro Teixeira de Sá é um apoiante da Sea Shepherd e vê Watson como "o homem certo para liderar a luta ao inimigo dos mares"
A "Time Magazine" elegeu-o como um dos grandes heróis da ecologia do século XX e o "Guardian" distinguiu-o como uma das "50 pessoas que podem salvar o planeta".
"A maior prioridade da minha vida sempre foi acabar com a matança de baleias e golfinhos em todo o planeta", escreveu há poucas semanas no seu Facebook. Paul Watson, 65 anos, é o rosto da Sea Shepherd, uma ONG que se dedica à proteção dos oceanos.
Há mais de 40 anos que o ambientalista canadiano luta pela defesa do ecossistema marítimo. E é destemido nos seus propósitos: já afundou deliberadamente uma dezena de navios baleeiros e mandou muitos mais para o estaleiro. Ao longo de quatro décadas e mais de 200 missões envolveu-se em centenas de confrontos, sabotagens, navios abalroados, batalhas navais épicas. Foi ameaçado de morte, agredido por caçadores de focas, processado e preso. Tudo em nome da defesa das baleias, dos golfinhos ou das focas. Agora está na lista vermelha da Interpol e vive exilado em França.
Numa conversa por Skype com o JN, Paul Watson sublinha: "Tudo o que fazemos é ser uma organização contra a caça furtiva e que vai atrás de atividades ilegais". Ou seja, a Sea Shepherd não é um bando de arruaceiros que anda por aí a divertir-se com contendas navais. "Nós defendemos o cumprimento das leis. Existem leis e essas leis não são cumpridas", explica-nos. "E a Sea Shepherd faz com que os outros cumpram as leis". "Nós nem sequer devíamos estar a fazer isto. Os governos é que deviam. Mas se não o fazem, fazemo-lo nós", já afirmou anteriormente.
Para além dos afundamentos de navios, as suas estratégias de luta envolvem perseguições a alta velocidade, choques e abalroamentos, sabotagem e destruição do material de pescadores, cortes de redes ou o bloquear de hélices de navios. Tais métodos levaram-no a ser muito criticado, começando pela própria Greenpeace e passando por governos como o do Japão, que o acusam de ser um "eco terrorista". Paul Watson não acha piada a essa acusação. "Um eco terrorista é alguém que aterroriza o meio ambiente e eu não trabalho para uma Shell ou uma Monsanto".
Paul Watson tem perfeita noção de que a Sea Shepherd chateia muita gente. "Tornámo-nos peritos nisso", escreveu há uns meses."E isso até é bastante simples de conseguir: basta dizer a verdade e confrontar as pessoas, as grandes empresas e os governos responsáveis pela sistemática e gananciosa exploração do meio ambiente e da natureza". Para mais, ele marimba-se para as críticas. "Nunca tive a intenção de ganhar um concurso de popularidade". E lembra que está ao serviço dos animais marinhos e não dos homens.
Não se atacam pessoas e não se negoceia com o inimigo
Paul Watson não quer saber do que pensam dele - foca-se mais nos resultados: nos últimos dez anos, por exemplo, acredita que salvou a vida a mais de 6 mil baleias. E em quase 40 anos as missões da Sea Shepherd nunca provocaram mortes ou feridos.
Aliás, os voluntários só entram nos navios da Sea Shepherd depois de assinarem um documento em que se assumem preparados para a dar a própria vida para salvar uma baleia. E as regras são duas: não se atacam pessoas (mas o material de pesca ilegal pode e deve ser atacado) e não se negoceia com o inimigo. Neste momento estão 150 voluntários nos navios da Sea Shepherd. Há mais de cinco mil interessados em lista de espera.
Neste momento estão 150 voluntários nos navios da Sea Shepherd. Há mais de cinco mil interessados em lista de espera
A sua organização é financiada por dezenas de milhares de doações particulares e conta com o apoio de nomes como o Dalai Lama, Mick Jagger, Sean Penn ou bandas como os Red Hot Chili Peppers ou Smashing Pumpkins.
A sua determinação e carisma também suscitam enorme fascínio em muita gente rendida a um certo romantismo de pirata defensor dos oceanos.
Em Portugal também tem apoiantes. O portuense Pedro Teixeira de Sá é um deles. É mergulhador e publicou recentemente o livro "Aventuras subaquáticas". Promete doar as receitas das vendas à Sea Shepherd que, na sua opinião, "é uma espécie de Amnistia Internacional dos oceanos". "O Paul Watson é o sucessor legítimo do Jacques Cousteau no exemplo, na coragem, na estratégia e no empenho que coloca nas batalhas que trava", diz ao JN. Para o mergulhador português, o ambientalista canadiano "tem a classe do Sinatra, a coragem do Lennon e o espalhafato do Morrison". "É um cocktail perfeito e o homem certo para liderar a luta ao inimigo dos mares, que é inimigo de nós todos", remata.
Chamam-lhe amiúde "o bom pirata" - e ele parece gostar do epíteto. A bandeira da Sea Shepherd até é uma adaptação da clássica dos piratas. Inclui um golfinho e um cachalote para simbolizar a morte infligida aos mamíferos marinhos. Há ainda o tridente de Neptuno (o Deus do mar) e o cajado do pastor porque a missão é "proteger os rebanhos do mar".
Ao longo do século XX foram mortas pelo menos 2.9 milhões de baleias nos mares do planeta. O número deverá ser ainda maior porque existirão muitos casos que nem sequer foram registados. A caça comercial da baleia é proibida desde 1986, altura em que entrou em vigor uma moratória internacional. Hoje, a caça às baleias é mantida por quatro países: Japão, Noruega, Islândia e Dinamarca.
O Japão é provavelmente o maior inimigo da Sea Shepherd. Os japoneses caçam baleias aproveitando uma tolerância da Comissão Baleeira Internacional que permite a captura do cetáceo em nome das pesquisas científicas. É isso que o Japão alega mas tal não passa de uma fachada - e isso até já foi decretado pelo Tribunal Internacional de Justiça e pela Comissão Baleeira Internacional. A caça ocorre normalmente entre dezembro e finais de fevereiro nos mares do sul e é aí que a Sea Shepherd enfrenta os baleeiros japoneses. A frota de Paul Watson abalroa os navios inimigos, tenta bloquear-lhe as hélices, impedir o reabastecimento de combustível ou obstruir as rampas por onde são puxadas as baleias mortas. O Japão diz que Watson é um "eco terrorista". E quer vê-lo atrás das grades.
Os confrontos entre a Sea Shepherd e os baleeiros japoneses que têm ocorrido na última década até já deram origem a uma série televisiva de grande popularidade nos Estados Unidos: "Whale Wars". O programa, que mostra o dia a dia da tripulação da Sea Shepherd, já chegou a ser considerado como "o único reality show com substância".
O Japão é ainda alvo do repúdio mundial pela tradicional matança do golfinho na ilha de Taiji, uma prática denunciada pela Sea Shepherd desde 2003. O massacre de golfinhos foi exposto a uma escala ainda maior em 2010, quando o filme "The Cove" ganhou o Oscar de melhor documentário.
A matança de golfinhos em Taiji recorre ao chamado "drive hunting", um método que consiste em juntar uma série de navios em redor de um grupo de cetáceos e provocar ruídos debaixo de água de maneira a criar um muro de som que assusta e confunde os bichos para progressivamente conduzi-los até à costa e aí aprisioná-los, com uma rede, numa determinada área para assim começar a matança. O método é igualmente utilizado no outro lado do planeta onde também ocorre outra das grandes lutas da Sea Shepherd: a matança de baleias-piloto e golfinhos nas Ilhas Faroe.
As Ilhas Faroe são uma região autónoma da Dinamarca e situam-se no Atlântico Norte, entre a Escócia e a Islândia. "É o mais perigoso e cruel local do planeta para os cetáceos", considera Paul Watson. Todos os anos celebra-se uma tradição na qual baleias-piloto ou golfinhos são esventrados vivos por centenas de pessoas com arpões e facas. A sinistra tradição provoca imagens impressionantes: o sangue dos animais pinta o mar de vermelho. "É um espetáculo macabro", comenta Watson, que acusa a Dinamarca de conivência e cumplicidade ao enviar os seus recursos militares para defender a matança e prender os ativistas da Sea Shepherd.
Watson traça um paralelismo entre a comunidade japonesa de Taiji e a população das Ilhas Faroe. "São ambas um embaraço para a espécie humana e partilham o mesmo luxo doentio de matar famílias inteiras de seres vivos inteligentes e socialmente complexos. Ambas alegam o direito cultural em exterminar golfinhos. E ambas derramam sangue para os oceanos, enchem o ar com os gritos de morte dos golfinhos e ainda têm a ousadia de chamar terroristas a todos aqueles que se opõem a estas chacinas".
A Sea Shepherd atua ainda um pouco por todo o mundo na defesa de tartarugas, tubarões, focas e muitas espécies ameaçadas ou alvo de pesca ilegal. Tem cada vez mais apoiantes e em setembro chegará mais um navio.
Paul Watson foi detido na Alemanha em maio de 2012 e dois meses depois soube que iria ser extraditado para o Japão. Cortou o bigode, enfiou uma peruca e fugiu de carro até à Holanda onde um navio o esperava. Atravessou o Atlântico e depois o Pacífico. Esteve 15 meses em parte incerta no alto mar até conseguir ter garantias de poder desembarcar nos Estados Unidos. Hoje vive exilado em França mas continua a dirigir todas as operações. Abandonar a causa "nunca foi uma opção" porque "baixar os braços não faz parte da minha filosofia". E deixa o aviso: "Jamais abdicarei perante os bárbaros e os burocratas".
O Japão colocou-o na lista vermelha da Interpol e em maio de 2012 foi detido na Alemanha. Conseguiu fugir e hoje vive exilado em França, de onde falou com o JN através do Skype.
Paul Watson lembra que a sua organização apenas procura que se cumpram as leis contra o extermínio dos oceanos e promete não desistir na sua luta. Diz que não pensa na vitória ou na derrota porque o que lhe interessa é fazer o que acha certo. E acredita que todos juntos possamos encontrar respostas impossíveis para os problemas impossíveis.
Costuma dizer que protestar é um ato demasiado submissivo. A melhor estratégia é a intervenção e a ação direta?
Certo. Nós defendemos o cumprimento das leis. Existem leis e essas leis não são cumpridas. Nós podíamos salvar os oceanos, podíamos salvar as baleias, fazer muitas coisas, se tivéssemos simplesmente a motivação económica e política para cumprir as leis. É por isso que a Sea Shepherd não protesta, a Sea Shepherd faz com que os outros cumpram as leis. Mas essas leis estão a prejudicar interesses muito ocultos, os mesmos interesses ocultos que controlam os políticos. E é por isso que nos perseguem. Realmente, eu acho isto muito engraçado: eu fui colocado Lista Vermelha da Interpol pelo Japão, um país que foi indiciado pelo Tribunal Internacional de Justiça, e que se constatou em desrespeito do Tribunal Federal Australiano e que é contra os regulamentos da Comissão Baleeira Internacional. São uma organização criminosa mas têm o poder de me chamar eco-terrorista. Eu nunca causei ferimentos a uma única pessoa, seguramente nunca matei ninguém, então não vejo porque é que entro nessa lista. Aliás, sou a única pessoa na história da Interpol a estar na lista vermelha por tentativa de abordagem a um navio.
Foi detido na Alemanha mas fugiu e agora vive em França. Sente que se hoje sair daí corre o risco de ser novamente detido?
Não sei se poderei ou não ser detido. E nem sei se algum país pode decidir se ainda aplica, ou não, a lista vermelha. Mas também não tenho garantias. Tenho garantias da França e dos Estados Unidos. Mas, enfim, se eu decidir ir para Portugal, Espanha ou Itália, eu não sei o que acontecerá. Portanto, não vale a pena o risco. O Japão é um país muito poderoso e muito persuasivo quando lida com outros governos. É por isso que eles conseguem continuar a sua flagrante atividade ilegal sem qualquer oposição. Isso é sintomático do poder que eles têm.
Como é que as autoridades francesas lidam com a sua presença aí?
Agora vivo em França e não tenho tido qualquer problema porque a França, tal como os Estados Unidos, percebe que as acusações do Japão são falsas e nada válidas. Já os alemães decidiram que... enfim, sabe, isto é interessante: quando eu fui detido na Alemanha, a polícia foi solidária, o promotor foi solidário, o juiz foi solidário. Ainda lá fiquei durante dois meses mas a dada altura recebi uma telefonema de um apoiante nosso que trabalha no Ministério da Justiça a dizer-me que na segunda-feira seguinte me iriam prender para me enviarem para o Japão. Foi por isso que eu fugi. Eu tinha o apoio da polícia, do tribunal, do procurador e do juiz. Mas não tinha da ministra da Justiça. Ela até ignorou uma petição de 400 mil assinaturas [em meu apoio] e simplesmente tomou essa decisão.
O Japão alega que caça baleias para pesquisas científicas. O que o leva a acreditar que não estão a falar a verdade?
Eles podem dizer aquilo que quiserem mas o Tribunal Internacional de Justiça já analisou o caso e concluiu que não há qualquer credibilidade nessa justificação dos japoneses e que a suposta investigação científica não passa de uma máscara para as suas operações comerciais. A Comissão Baleeira Internacional tem a mesma opinião e também considera que as operações japonesas de caça à baleia são ilegais. Não me parece que possam existir mais dúvidas perante a clareza destas condenações do Tribunal Internacional de Justiça e da Comissão Baleeira Internacional. Ambos dizem que as operações do Japão são ilegais.
Essa caça à baleia existe porque há um mercado de carne de baleia, é isso?
Nem é por causa da carne porque menos de 1% da população japonesa come carne de baleia. Na realidade, trata-se mais de um sistema que existe no Japão: quando te retiras da política recebes logo a seguir um bom emprego altamente remunerado na burocracia do governo. E neste caso em particular é o Institute for Cetacean Research. Toda a operação de caça às baleias existe para que estas pessoas possam manter os seus empregos bem remunerados. E também ajuda que os primeiros ministros da indústria de caça à baleia sejam os amigos destas pessoas. É puramente uma decisão política.
Um dos objetivos da Sea Shepherd é provocar o máximo de prejuízo possível na indústria baleeira japonesa.
Bem, o que temos feito ao longo dos últimos dez anos no oceano Antártico é impedi-los de atingir as suas quotas de matança. Nós já reduzimos as suas quotas para 30% e, num ano, abaixo de 10%, o que lhes custou 200 milhões de dólares em perdas. Então, concluímos que este é o método mais eficiente para lidar com isto: bloquear a sua capacidade de gerar lucros e fazer dinheiro. O que temos andado a fazer é bloquear a rampa de lançamento da popa dos navios baleeiros impedindo-os de carregar as baleias mortas - se eles não conseguirem carregar as baleias mortas, eles não podem matar outras. Isso tem sido muito eficaz. Mas esta última temporada não foi propriamente uma vitória. Este ano, eles foram contra o veredicto do Tribunal Internacional de Justiça e acabaram por matar 333 baleias. Antes disso matavam até 1035 baleias (por ano), então pelo menos conseguimos que esse número diminuísse. Mas este ano não conseguimos interferir porque eles expandiram a sua zona de matança para uma área três vezes maior e ao mesmo tempo reduziram as suas quotas de matança para 333 baleias. Ou seja, eles deram-nos menos tempo de ação e numa área muito maior e nós não tivemos navios capazes de lidar com isso. Contudo, em Setembro vamos lançar o nosso novo navio - o "Ocean Warrior" - que é um navio de patrulha de longo alcance e mais rápido que os navios arpoadores japoneses. E assim estaremos em condições de intervir na próxima temporada.
Como é que os baleeiros japoneses reagem no mar alto quando se deparam com os vossos navios?
A reação deles é fugir. Primeiro eles tentam impedir que nos aproximemos do navio-fábrica (que armazena todas as baleias caçadas pelos outros) e mandam navios arpoadores, que são retirados das próprias operações de caça à baleia, para nos atrasarem e impedir que encontremos o navio-fábrica. Mas eles tendem a fugir, tendem a tomar medidas defensivas. Só que as nossas equipas são bastante inflexíveis e nós não recuamos. Em 2013, por exemplo, conseguimos impedir as operações de reabastecimento de combustível dos baleeiros. Tudo o que fazemos é ser uma organização contra a caça furtiva e que vai atrás de atividades ilegais. Agora, neste preciso momento, o nosso navio Steve Irwin está a perseguir um caçador furtivo chinês em águas chinesas, já mesmo em direção ao porto, e nós até temos provas das suas atividades ilegais. Estamos a cooperar com o governo chinês, dissemos-lhe "olhem, sabem, o uso destas redes de deriva é ilegal desde 1992, nós apanhámos este tipo a usar essas redes e vocês têm a responsabilidade de cumprir o vosso compromisso perante as Nações Unidas". A China está a levar isso muito a sério.
Quantas baleias a Sea Shepherd salvou nas suas operações?
Só nos últimos 10 anos salvamos seguramente mais de seis mil baleias.
Outro caso particularmente preocupante é o que se passa com os tubarões, certo?
A pesca do tubarão está realmente fora de controlo. Todos os anos se matam entre 50 a 90 milhões de tubarões principalmente para a comércio da barbatana de tubarão. Os tubarões estão em sérios apuros e a nossa posição é a de que o tubarão é uma espécie-chave. Destruir o tubarão vai causar danos irreparáveis nos ecossistemas oceânicos. E é absolutamente imperativo que nós abrandemos isto. O tubarão moldou a evolução dos oceanos durante 400 milhões de anos. Todos os peixes nos oceanos têm a sua velocidade, as suas cores, a sua camuflagem, e tudo isso foi influenciado pela presença de tubarões. É provavelmente uma das espécies mais importantes no oceano, e destrui-la da maneira como fazemos é ecologicamente irresponsável.
Parece haver uma certa dificuldade em sensibilizar as pessoas para a defesa dos tubarões. Para todos os efeitos, continuam a ser olhados como bichos maus e perigosos como se fossem inimigos do homem.
Muitas pessoas têm medo de tubarões. Mas se olharmos para as estatísticas vemos que a média de pessoas mortas por tubarões é cerca de 7 por ano. Ora, tendo em conta que centenas de milhões de pessoas entram nos oceanos todos os dias, esse é um número muito pequeno. As avestruzes matam uma centena de pessoas por ano e ninguém tem medo de avestruzes. Como eu já disse algumas vezes, jogar golfe é mais perigoso do que surfar, porque há mais pessoas a morrer todos os anos atingidas por um relâmpago ou picadas por abelhas nos campos de golfe do que surfistas mortos por tubarões. Ou seja, é preciso mais coragem para jogar golfe do que para entrar no mar onde estão os tubarões. Claro que foi graças a filmes como "Tubarão" ou programas de televisão como "Shark Week" e outros do género que se criou este monstro. Mas se tivermos em conta que os tubarões matam sete pessoas em média por ano enquanto nós matamos perto de 90 milhões de tubarões por ano, temos de começar a pensar sobre quem será o verdadeiro monstro.
Segundo alguns indicadores, Portugal é dos países com maior consumo per capita de peixe no mundo. Até existem alguns dados que dizem que somos o terceiro povo que mais come peixe, a seguir ao Japão e à Islândia. Dito isto, que mensagem quer deixar aos portugueses?
Por acaso pensava que os espanhóis comiam mais, mas até pode ser isso. Bom, deixo a mesma mensagem que digo a toda a gente: nós estamos a pescar em demasia. Se os peixes desaparecem, os oceanos morrem. E se os oceanos morrem nós também morremos porque não conseguiremos viver sem um oceano saudável. Desde 1950 que vemos uma diminuição de 40% da população de fitoplâncton nos oceanos. O fitoplâncton fornece entre 50% e 70% do oxigénio que respiramos. Uma das razões para essa diminuição de fitoplâncton tem a ver com o facto de matarmos as baleias e outros animais que fornecem os nutrientes para o fitoplâncton. As baleias são como se fossem os agricultores dos oceanos, elas fornecem nitrogénio e ferro para o fitoplancton através do seu material fecal. Durante milhões de anos, os ecossistemas nos oceanos funcionaram perfeitamente até começarmos a interferir há cerca de dois séculos. Nós começámos por diminuir a diversidade e 40% do peixe que agora é retirado dos oceanos nem sequer é comido pelas pessoas, é enviado para galinhas, porcos, ovelhas, e outros animais. E cerca de 45% do peixe é pescado ilegalmente e grande parte nem sequer é declarado. Na última cimeira do clima, em Paris, eu apresentei um documento intitulado "Soluções para as mudanças climáticas" com um conteúdo que ninguém quer ouvir. Uma dessas soluções é a seguinte: temos de parar com as operações de pesca industrial, temos de parar com os subsídios governamentais para a pesca industrial. E temos de fazer cumprir as leis contra a pesca ilegal porque se não o fizermos, e segundo dois dos maiores especialistas na área - Boris Worm e Daniel Pauly - em 2048 não haverá mais pesca industrial porque já não haverá peixe para mais ninguém. Ou seja, se nos preocupamos com o futuro, precisamos desesperadamente de uma moratória na pesca industrial. E provavelmente teremos de nos adaptar a uma dieta cada vez mais baseada em vegetais.
Sente-se otimista?
Eu sou sempre optimista. A razão de sê-lo remonta a 1973 quando trabalhei com o American Indian Movement durante a ocupação de Wounded Knee no Dakota do Sul. Entramos em conflito com o governo dos EUA e eles disparavam vários tiros durante a noite para a aldeia onde estávamos. Eu fui ter com o Russell Means, o líder do American Indian Movement, e disse-lhe: "Russel, nós não temos qualquer hipótese de ganhar contra o governo dos EUA, por que é que continuamos com isto?". A resposta dele acabou por guiar-me toda a vida. Ele respondeu assim: "Nós não fazemos isto porque vamos ganhar ou porque vamos perder. Nós não nos focamos na vitória ou na derrota. Nós focamo-nos simplesmente no fazer. E nós fazemos isto porque é a coisa certa a fazer. É a única coisa a fazer - e é a coisa mais justa". Portanto, o que nós fazemos é basicamente tentar encontrar respostas impossíveis para problemas impossíveis. E eu acredito que possamos encontrar essas respostas impossíveis para os problemas impossíveis.
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