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domingo, 7 de agosto de 2011

NEM TODOS OS CÃES SÃO DE BARRO (4)





Quando olhava para os céus via um abismo azul que a atraía e talvez por isso sempre que assistia a um concerto de pássaros despertava para o desejo de voar.

Limitada aos seus gorgeios na procura quase obsessiva de apanhar um pássaro já tinha experimentado tudo - quase tudo.
Subiu árvores inventou destinos empoleirou-se nas escarpas quando o vento soprava forte nas piores estações - até no brilho lúcido dos olhos dos ratos quando indecifráveis trepavam paredes e desapareciam pelas fissuras do ar em movimento.

Um dia ouviu como nunca tinha ouvido vozes a espargirem sons como se fossem palavras a estilhaçar silêncios.

Agachou-se debaixo da figueira paciente como sempre não para voar mas para cumprir um desígnio - comer um pássaro.
Estava-lhe no sangue querer voar mesmo sem asas. Comer um pássaro.

Na verdade se os rios insistem correr para os mares porque não comer um pássaro fechar os olhos e voar a estilhaçar silêncios?

Agachada debaixo da figueira passou uma eternidade a ouvir gorgeios e a vê-los de ramo em ramo a comer figos e a tracejarem horizontes.

Entristecida sentiu-se uma gata a imaginar-se pássaro a regorgitar memórias que não passavam do chão.

Uma vez mais foi assim no êxtase de um belíssimo concerto de gaios e melros.
Inexplicavel mente sentiu um arrepio no corpo a invadir-lhe a alma - e foi assim num rasgo de lucidez que concluiu

a vida mesmo com fragilidades pode ser mais que o voo de um pássaro mesmo quando se juntam para cantar.

E foi assim que assumiu a sua condição.

Filou o auditório e lançou~se vertiginosa sobre um ratinho do campo que atento fruía do grupo coral.

Abocanhou-o sem o ferir.
Cabisbaixa transportou-o para o alpendre onde dormitava o Dique.
Miou com o rato na boca.
Chamava a atenção do Dique que se levantou com outros azuis nos olhos.
O Dique lambeu-lhe uma orelha abocanhou-a sem a ferir e transportou os dois para debaixo da figueira onde ainda permaneciam tenores a improvisar infinitos do belo canto que nos ensinavam a voar.

Deitámo-nos a ouvir o concerto dos pássaros
até adormecerem os ponteiros do relógio .




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