AVISO

OS COMENTÁRIOS, E AS PUBLICAÇÕES DE OUTROS
NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO ADMINISTRADOR DO "Pó do tempo"

Este blogue está aberto à participação de todos.


Não haverá censura aos textos mas carecerá
obviamente, da minha aprovação que depende
da actualidade do artigo, do tema abordado, da minha disponibilidade, e desde que não
contrarie a matriz do blogue.

Os comentários são inseridos automaticamente
com a excepção dos que o sistema considere como
SPAM, sem moderação e sem censura.

Serão excluídos os comentários que façam
a apologia do racismo, xenofobia, homofobia
ou do fascismo/nazismo.

domingo, 21 de agosto de 2011


O homem a quem chamaram cavalo


O homem a quem chamaram cavalo é o título de um filme do início dos anos 1970 realizado por Elliot Silverstein. Richard Harris protagoniza o papel de John Morgan, um aristocrata inglês que resolveu empreender uma viagem de caça ao oeste americano, em meados do século XIX. Acaba por ser capturado por uma tribo de índios Sioux que o transformam num autêntico cavalo de carga.

Ainda no século XVIII muitas tribos nativas da América do Norte não possuíam cavalos, um animal que havia chegado às Índias Ocidentais pela mão dos Espanhóis, no século XVI. O que é certo é que os mitos tornaram indestrutível o ícone “cavalo”, estereótipo que o tornou indissociável dos Índios da América do Norte.

O filme, uma das peças cinematográficas que melhor retrata a história da vida de uma tribo Sioux, atinge o seu ponto alto quando John Morgan é submetido ao arrepiante ritual iniciático integrado na Dança do Sol. Estes rituais foram proibidos pelas autoridades americanas depois do grande massacre de 29 de Dezembro de 1890 em Wounded Knee.

Tipicamente, este ritual durava quatro dias, destinado a acolher a renovação da Natureza após o Inverno. Cortavam uma árvore, que depois era erigida como poste sagrado à volta do qual a tribo dançava com os olhos postos no céu, acompanhado de jejum e práticas de transudação no interior das tendas, até ao clímax muito bem representado por Richard Harris na pele de John Morgan.

Reproduzindo o que era verdadeiro, vemos Richard Harris suspenso no poste por compridas cordas de fibras e agarrado por fortes ganchos, em forma de bico de águia, espetados nos peitorais, perfurando literalmente a carne. 
As amarras eram retesadas até que a pele dava de si, com o herói a cair no chão desfalecido e exausto de fome. Os dançarinos acreditavam assim ter absorvido a dor e o sofrimento da tribo pelo ano que havia de vir.

John Morgan, depois de ter sido capturado e escravizado, foi a pouco e pouco conquistando a admiração de toda a tribo, mercê da sua grande coragem e carisma. Depois de ter passado pelo tal sacrifício, ao qual resistiu heroicamente, acabou por se tornar líder da tribo.

Em 1890 surgiu uma espécie de profeta, um tal Wovoka, entre os Paiutes. O que propalava este visionário? Nada mais, nada menos, do que o retorno ao período em que os nativos americanos viviam livres da opressão do homem branco. Para que isso acontecesse apelava à realização de uma cerimónia sagrada, a dança dos espíritos, durante cinco dias. Este apelo espalhou-se rapidamente entre as tribos da Grande Planície. Assim, se reuniu uma delegação representante das várias tribos ainda existentes, chefiada pelo chefe dos Sioux, Touro Sentado, que se deslocou à tribo dos Paiutes, para se inteirarem das visões de  Wovoka.

Este acontecimento entretanto assumiu a forma de movimento, cujos contornos acabaram por gerar o pânico no seio dos colonos brancos. Entre os Sioux jovens, que usavam umas camisas a que chamavam “camisas dos espíritos”, circulava uma crença segundo a qual essas camisas os protegiam das balas disparadas pelas armas de fogo dos colonos brancos.

Pode adivinhar-se como tudo acabou: num massacre de mais de 300 “dançarinos dos espíritos” - homens, mulheres e crianças - da tribo dos Lakotas, em Wonded Knee. Este episódio histórico marca o fim da prática da dança dos espíritos.
Enquanto ali estive vi mais do que sou capaz de expressar e compreendi mais do que vi; pois estava a ver de uma maneira sagrada a forma de todas as coisas no espírito e a forma de todas as formas tal como devem viver em conjunto como um único ser. E vi que o aro sagrado do meu povo era um de muitos aros que formavam um círculo, amplo como a luz do dia e o resplendor das estrelas, e no centro crescia uma imensa árvore florida para abrigar todas as crianças de uma mãe e um pai. E vi que era sagrado.
         Alce Negro *

* Alce Negro (1863-1950)
, em Lakota - Hehaka Sapa, foi um célebre pajé e homem santo da tribo Sioux. Com apenas doze anos, participou na batalha de Little Big Horn (1876), em que os Sioux, liderados por Touro Sentado, infligiram séria derrota ao exército norte-americano, comandado pelo general Couster. Saiu ferido do massacre de Wounded Knee.

Sem comentários: