O que teriam vindo europeus pré-cristãos e pagãos buscar nas Américas? Além de metais preciosos, que segundo a lenda, Salomão e navegantes hebreus teriam vindo buscar na Amazônia, numa colônia no Rio Solimões, certamente a sabedoria dos mistérios indígenas seria uma motivação.
INDIOS DA AMÉRICA DO NORTE
Os indios norte americanos desenvolveram-se como caçadores nómadas,hábeis tanto em territórios planos e secos, presentes no interior e oeste americano, quanto em aldeias estáveis em florestas densas nos EUA do lado atlântico e no Canadá. Algumas etnias indígenas norte-americanas desenvolveram escrita própria. O assunto é extenso, então me limito a analisar somente um caso, o dos índios Mandan.
Quando os exploradores ingleses e espanhóis chegaram ao Velho Oeste dos EUA encontraram uma etnia chamada Mandan, que ainda tem sobreviventes vivos. O que impressionou os europeus foi que este povo tinha pele clara e alguns tinham olhos claros. Um irlandês que estava numa expedição teria reconhecido palavras galesas (do País de Gales, Inglaterra) entre as palavras mandans. Um desenhista fez o retrato de uma índia alourada de olhos azuis, que posto abaixo. Os estudiosos atuais negam que isto seja devido a uma visita e miscinegação européia, pois "não há evidência de estadia de europeus antes de Colombo". Eu pergunto: mas isto não é uma evidência?
índia Mandan desenhada no início do século XIX
Nem todos os Mandan eram louros, entretanto, somente um grupo. Segundo os Mandan, um ancestral seu chamado "Chifre-Vermelho", há muitas gerações, havia feito contato com viajantes estranhos, altos e ruivos, que diziam ter vindo do mar. Um dos exploradores ingleses da época colonial aventou a hipótese de que os Mandan teriam se miscigenado com uma população galesa imigrante, pois havia a lenda no País de Gales de um clã que deixou a Ilha Britânica no ano de 1123 DC e seguiu uma rota marítima viking, em direção às Terras do Ocidente. Alguns mandans foram fotografados e, ainda no século XX, viam-se os sinais fenotípicos de mistura com tipo caucasiano europeu.
índia Mandan Cacique Mandan
Além deste fato fantástico (que leva à seguinte questão: por que europeus viajaram em busca dos Mandan, justo no outro lado seco e poeirento da América, se havia tantos índios e lugares mais aprazíveis do lado leste dos EUA?), o que vai nos interessar, ainda comentando a colocação do Kaliks sobre o duplo, é a religião dos Mandan (que é viva até hoje, nas reservas):
Os Mandans acreditam que acima de tudo, está Wakantaka, o Grande Espírito, que costuma aparecer sob a forma de um Búfalo. Acreditam que o Cosmo é feito de vários planos, um sobre o outro, e que o xamã entra em transe e vai subindo, de um para o outro (nada diferente dos nossos índios daqui). E acreditam que o ser humano tenha quatro almas - na verdade, quatro corpos - pois para o índio é estranho que o branco pense que temos um corpo e uma alma ou espírito incorpóreos. Ou seja, para os índios, tanto a alma quanto o espírito são corpos, são corpóreos, e, portanto, sõ temos corpos, diferentes corpos. E este modo de ver se parece muito com o modo oriental, principalmente hindu, que fala dos Sharira, ou Sthula, ou Rupa, palavras em sãnscrito que significam "corpo". E quando falamos, na antropofia, assim como na teosofia, em corpo físico, corpo etérico, corpo astral ou corpo do Eu (raramente usado entre antropósofos, mas não seria incorreto), estamos nos alinhando com este modo de ver indígena-hindu. Então, para os Mandan, temos quatro corpos, além do físico. Acima do físico, um corpo menos físico que é ligado à terra onde nascemos, que é adquirido quando nascemos e devolvido quando morremos à Mãe Terra - que tem este nome mesmo, "Mãe". E temos mais outros tres corpos que pertencem ao vento, aos pássaros e ás estrelas, respectivamente. Se parece muito com a visão TupiGuarani. Os Mandan achavam importante que a distinção entre estes corpos fosse vivida e compreendida, e isto não podia ser compreendido intelectualmente, mas por experiencia. Eles eram, ou ainda são (?), educados a pensar que um homem não é um corpo físico, mas um homem é um arranjo de vários corpos um acoplado ao outro, sendo um deles imortal. E daí é que vinha a coragem dinte da morte e da dor física que o branco invasor não compreendia nos índios. A coragem diante da morte em batalha vinha do fato de que o índio compreendia que ele é imortal, e matar o seu corpo, ou mutilá-lo não é atingi-lo em seu cerne. Mas o índio não suporta o sofrimento decorrido de separa-lo de sua cultura e de sua terra, porque ele se sente parte disto, e isto é matá-lo, e isto ele teme.
O índio norte-americano não foi passivo e feminino quanto o sul-americano: correu sangue
Agora um parenteses. Desde as tribos norte-americanas da região do atual México e América Central, veio subindo América acima o hábito de se praticar rituais com uma planta que, aí sim, penso que um europeu pagão daria tudo para ter, uma planta mágica. Uma planta mágica dada pela Mãe Terra, que na verdade era uma mulher-estrela que se sacrificou e veio a existir sob a forma de planta. Quando esta planta mágica é ingerida, num rito complexo, a pessoa tem os seus corpos dissociados, ou seja, ela se separa em seus componentes, é des-integrada, experiencia que é ao mesmo tempo prazerosa e terrivelmente dolorosa, uma experiencia iniciática. E assim, a pessoa percebe sua ligação com a Terra, através do seu corpo-duplo ligado à terra, a sua ligançaõ com seus ancestrais, pois há um corpo onde isto está registrado, e a sua ligação com o Cosmo inteiro e com o Grande Espírito. A desintegração incompleta é normal em todas as pessoas, diziam os xamãs Mandans. Assim, uma pessoa comum fala uma coisa, pensa outra e quer outra. E isto é uma doença normal. Mas a desintegração produzida pela planta é radical e total, como um estado de loucura - ela acentuava mil vezes a cisão interna comum do ser humano. A pessoa para chegar a este grau de percepção teria que ser um xamã, um pajé, e muita coragem, e havia ritos destinados a isto. Entre os Mandan, que nem sempre usavam esta planta, mas tinham outras plantas equivalentes com o mesmo uso, os ritos iniciáticos nos pareceriam terríveis e todo jovem, até certa idade, deveria passar por alguns deles, pelo menos os comuns: um deles consistia em dependurar o jovem em ganchos pela pele das costas, depois de um jejum de quatro dias, e depois decepar o seu dedo mindinho com um machado. Ele teria então a experiencia da desintregração de seus corpos-almas e a certeza de sua identidade como parte do Todo Wakantaka, como parte da Mãe Terra, dos ancestrais e do solo sagrado, experiencia mediada pela Mulher Peyote, que é o espírito da planta mágica, cuja foto mostro abaixo:
Peyote, Lophophora williamsii
Arqueólogos encontraram sinais do uso do Peyote em inscrições no deserto do Arizona e no México em datas superiores a 3 mil AC. É considerada a planta mais poderosa do mundo em termos "alucinogénicos". Para um xamã, não são alucinações o que a planta produz, mas a libertação na tela mental de imagens ocultas ancestrais que o Peyote, uma entidade em si, mostra. Podemos imaginar uma comunidade de galeses (ou seja, celtas de religião druídica), hereges à conversão cristã medieval, fugindo para uma comunidade indígena na América, em busca de uma vida tranquila, por um lado, mas de sabedoria, por outro. Estas pessoas européias compreenderiam perfeitamente o imaginário de um índio, pois, diferentes do europeu moderno e catolicizado, ainda não tinham perdido o élan mágico celta que formou o substrato do espírito europeu antigo. Este élan mágico foi totalmente reprimido até ser sufocado, pela Igreja e depois pelo racionalismo moderno, gerando uma mentalidade arrogante e estreita, que é o qeu se chama Cristandade Moderna-Ocidental, que resultou no espírito do colonizador. A planta mágica só crescia aqui, não seria possível levá-la também, a não ser como extrato seco para uso temporário.
AGORA, O OPOSTO, NA AMÉRICA DO SUL
Enquanto o Peyote é uma planta mágica do deserto, que cresce em lugares secos, ermos, quentes de dia, gelados de noite, com pouca chuva, aqui na América do Sul a "rainha das plantas mágicas' é uma que só cresce na floresta equatorial e tropical, na abundância de chuvas e de matas e de formas de vida animal que a polinizam, na verdade é um gigantesco cipó: o Yagé.
Banisteriopsis caapi, o Yagé ou Ayahuasca
O Peyote induz a um estado introspectivo, no qual o xamã permanece horas a fio na mesma posição, parado, vivenciando a desintregração de suas almas-corpos e, ao mesmo tempo, sua conexão com as coisas e seres. É uma experiência "para dentro". O Yagé, ao contrário, induz a uma experiência dionísica estática, um êxtasis, de cores, sons e formas, no qual o xamã tem vontade de dançar, cantar, vomitar, correr, pular, saltar, rir, gritar, voar, ele é dilacerado para fora. Os indígenas Desana, citados ontem, utilizam o Yagé para vivenciarem os seus duplos, suas conexões com os seres e os mahsé. As duas plantas são utilizadas para ritos iniciatórios, assim como para reverenciar os mortos, para curar doenças, para se comunicar com os espíritos das plantas e dos animais para se pedir alguma coisa, para os espiritos que regem a chuva, etc, etc..Da mesma forma que o índio norte americano, o pajé sul-americano afirma que o que vê e ouve não é o que o caraíba chama de "alucinação", mas são entidades reais que se revelam como são, uma vez que a planta mágica separa os corpos, abre as almas, desfaz a racionalidade normal e libera o inconsciente, como diria Jung. Os psicólogos não compreendem, por exemplo, como é possível que diferentes indivíduos que experimentam a planta, inclusive brancos, vêem a mesma coisa, infalivelmente jaguares e cobras, por exemplo. Eu experimentei e vi, como parte da minha pesquisa de campo, em 2003. Atualmente, o uso do Yagé ou Ayahuasca se tornou uma religião de brancos, o Daime, muito mal compreendida pelo espírito racional do europeu moderno, mas que seria muito bem compreendida pelo antigo celta pagão. Não quero dizer com isto que todos deveríamos agora consumir Ayahuasca para sermos brasileiros, mas sim que deveríamos ter uma profunda compreensão do que significa este tipo de religiosidade, que é resgatada, em nossa cultura moderna sul americana. Talvez fique mais fácil compreendermos um outro mistério aqui ligado à sul América: o fato de múmias egipcías terem impregnação de folhas de coca, planta que só cresce nos altiplanos da América do Sul....Bem, eles vieram aqui buscar.
A EXTIRPAÇÃO DA RELIGOSIDADE INDÍGENA JUNTO COM OS ÍNDIOS DAS AMÉRICAS
A identidade da alma brasileira foi reprimida, ou camuflada, assim como a identidade da alma latino-americana como um todo , pela cultura dominante do colonizador. Exceções a isto ocorreram no México, por exemplo. O México é um país indígena. Sempre menosprezado pelo norte-americano, desde a colonização inglesa, como "terra indígena", dominada pela Espanha. Tanto que os EUA simplesmente tomaram quase metade do México para si, o que hoje seriam 4 estados do sul dos EUA. Nos filmes sobre o "álamo", o mocinho branco americano é atacado por selvagens mexicanos morenos que querem impedi-los - veja que atrevimento! - deles tomarem a terra deles. Por causa deste trauma do século XIX, o povo mexicano sempre viu com desconfiança a idéia de que sua identidade é "ocidental" e "branca" - que é assumidamente a norte-americana -, e fez questão de assumir, o mexicano, o seu lado puramente "americano", ou seja, indígena. E isto dura até hoje e se vê na arte mexicana, na música, na religião, e em pintores como Frida Kahlo, Diego Rivera e os nacionalistas del Mexico. Em outros paises, como Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela, vingou a filosofia de Sarmiento, um dos presidentes da Argentina que tinha afinidade com as idéias pré-nazistas do francês Gobineau (que veio ao Brasil e do que viu aqui deduziu a questão da pureza racial ariana e do mal que faria a mistura de raças). Sarmiento escreveu sobre a mistura racial e pureza racial nas Américas de fala espanhola - ele mesmo era de família hispânica tradicional, embora pobre. E quando se tornouu presidente da Argentina, no meio do século XIX, implantou uma "limpeza étnica" que consistia, por exemplo, na caça e extermínio de indígenas dos pampas, liberando as terras para as estâncias. Implantou um programa de facilitação aos imigrantes europeus e dificultamento para ascenção de negros.
Militares argentinos, divertindo-se caçando índios
Por isto, países como a Argentina e Chile, até hoje, têm menos índios do que teriam, são os sobreviventes. E a identidade nacional destes países, assim como no Brasil, foi construída artificialmente a partir do processo de "branquização", que consistiu no estimulo da imigração "desde que não de origem africana e oriental". E as elites brancas assumiram cargos de poder e a dianteira intelectual e assim determinaram a identidade nacional afim à européia. Por isto, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, e até mesmo em Manaus, há teatros e prédios que imitam Paris, pois o progresso destes países (ideal positivista republicano do século XIX) só ocorreria se houvesse uma Europa implantada aqui. O índio, antigo habitante do paraíso das Américas, foi relagado à condição de pária, semelhante ao Dalets da India, um pedinte de esmolas nas grandes cidades, ou sub-empregado, ou um exilado no que sobrou de sua própria terra, até que algum governante decida tomá-la novamente (como ocorre agora no governo Dilma). E a população americana, em geral, demontra o quanto foi bem sucedido o processo de branquização do século XIX, ao declarar-se "ocidental" e seguir os padrões culturais do colonizador e reagir com estranhamento à afirmação: "Voce não é ocidental".
Madona - pintor indígena Juan de La Cruz, Equador
Quem somos? Não somos quem comumente pensamos que somos, nem somos quem disseram quem somos.
Na mensagem anterior a esta, falei da vertente negra da Alma brasileira, na Umbanda. Agora, nesta falei da vertente indígena,
que tem como uma de suas manifestações a religiosidade do ayaohuasca. Na verdade, somos isto, e muito mais...
Aikó Porã
Wesley
www.pindorama.art.br
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