48. Vocações
A Mariana era a sua namorada e ele um incorrigível brincalhão. Uma das suas brincadeiras preferidas era inventar mentiras das que se desfazem ao fim de cinco minutos ou que, quando se não se desmoronavam por elas, ele próprio se encarregava de o fazer. Qualquer situação servia para que ele inventasse uma mentira. Na santa ingenuidade da adolescência e até mesmo quando já era um pouco mais crescido achava que não fariam mossa, pelo que por vezes perdia a noção do alcance ou de como, com isso, poderia estar a magoar alguém. Até a ele mesmo. Naquele dia, disse a Mariana que não poderia ir buscá-la ao emprego porque iria para a piscina. Depois de uma troca de palavras mais ou menos inquisitórias de um lado e explicativas do outro, Mariana ficou a saber que no Instituto onde ele estudava havia uma piscina. Ficou a saber mas não acreditou.
Desciam com frequência dos Anjos ao Terreiro do Paço, a Almirante Reis, a Rua da Palma, viravam à Barros Queiroz, entravam no Largo de S. Domingos, acediam à Praça da Figueira pela rua do Brás e Brás, passavam pela esplanada da Suíça, desciam a rua da Prata, davam uma olhada ao Martinho e apanhavam o vapor no Terreiro do Paço. Era bom o passeio, tanto poderiam beber (ele, ela não gostava de álcool) uma ginjinha do Espinheira, comer uns passarinhos fritos no Petiscabebe, um bolo na Lua de Mel ou um café no Martinho da Arcada e, o que era melhor ainda, namoravam mais tempo do que se optassem pelos transportes públicos. Mas não naquele dia. Naquele dia, ele entrou na Igreja de S. Domingos, deu esmola aos três pobres que pediam à porta, rezou alguns minutos e, quando saiu, informou-a que o namoro teria de acabar ali. Ele seguiria a sua vocação, iria entrar no Seminário e esperava, um dia, vir a ser frade dominicano. Naquela tarde, ele em meditação de cabeça baixa, ela num mar de lágrimas, não viram o pôr-do-sol que dourava as águas do Tejo e transformava o mar da palha num mar de fios de ovos.
Nem quando começou a namorar com Mariana ele deixou de ir aos bailes do clube. Mariana não se importava e sugeriu-lhe, em tom de brincadeira, que ele tentasse um casting no Bolshoi. Ele contrapôs com o bailado da Gulbenkian onde, aliás, lhe contou que já estava inscrito. Não foi a gota de água. Outras se seguiram e Mariana desistiu. Não antes de o ter visto descer as escadarias do Instituto, com os longos cabelos, que ele usava naquela época, completamente molhados de mais uns mergulhos na piscina. Virou-lhe as costas e nem reparou que o pas-de-deux estava ser dançado pela esguia bailarina que o acompanhava. Mas uma coisa ela teve a certeza de ter reparado. Ele não vestia o hábito dominicano.
Texto e foto (Malta, La Valleta) do autor. Todos os direitos reservados.
Constantino guardador de vacas blog

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