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terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Casa das Miçangas


Quem passar pela paisagem cinza da cidade de Detroit (Michigan, EUA) e se deparar com o complexo espelhado e colorido do MBAD African Bead Museum pode ter uma experiência reveladora. Ali, algo em torno de mil metros quadrados de área são o palco da expressão artística e dos sonhos de um homem chamado Olayme Dabls. Um cara que, ao invés de ficar reclamando que sua cidade era suja e feia, resolveu pôr as mãos à obra e tentar mudar alguma coisa.
Artista plástico mais do que completo, como vocês verão nesta matéria, Dabls começou a colecionar miçangas em 1980, após profunda pesquisa sobre o significado iconográfico destas pedrinhas na cultura africana.
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Em 1985, parte da ideia de expor uma variedade de miçangas ao público norte-americano mais como uma valiosa expressão cultural em termos étnicos, históricos e até mágicos do que um simples artefato, e funda o MBAD.
MBAD está localizado na parte oeste de Detroit, e possui um acervo incrível de arte africana que inclui escultura, tecidos e poesia, além da infindável quantidade de miçangas feitas a partir devidro, pedra, osso, madeira e chevron - as verdadeiras pedras preciosas de seu proprietário.
Mas sua graça não está nem nisso. É que, além de comportar obras de arte dentro, o edifício em si já é uma instalação artística - meticulosamente ornamentada por pedaços de espelho, ferro oxidado, madeira, pregos, e muitas miçangas. Dizem que o MBAD muda de cor, brilha e escurece conforme o clima de Detroit. As contas e espelhos da fachada refletem a luz dos dias, o breu da noite, a chuva e a neve quando chega, tornando cada vez que se observa a casa, única.
Ambos os materiais responsáveis por esse visual têm significados marcantes na cultura africana. Enquanto o espelho é visto como um receptáculo de energias e permite que o homem veja o que há por trás dele, as contas e miçangas são utilizadas para proteger crianças ou como amuletos de alguns grupos: "As chevron são as mais notórias do Continente, em alguns países apenas reis e nobres podem usá-las" - explica Dabls neste vídeo.
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Sem verba suficiente para tornar este museu uma instituição pública de funcionamento diário, Dablsteve de mexer seus pauzinhos novamente em 2010 para ampliar sua visibilidade.
Com o auxílio de amigos - tais quais Efe Bes, um artista bem doido que faz o "som ambiente" do museu em uma salinha adjacente tocando percussão - e uma turma de alunos de Arquitetura da Universidade de Michigan, Dabls dá início ao processo que a mídia de Detroit apelidou de "embelezamento" da área do MBAD. Com pouca grana, na cara e na coragem o resultado foi esse que vocês estão vendo.
IRON TEACHING ROCKS HOW TO RUST
Em suma, conforme vi numa matéria da HOUR DETROIT, a reforma estética do MBAD teve 5 frentes: nova fachada externa, o plantio de uma horta atrás da casa, a ocupação de um depósito abandonado, a pintura de um grande muro com frases escritas em diferentes línguas nativas africanas e culmina com a instalação externa Iron teaching Rocks How to Rust (em português livre "O ferro ensinando as pedras a enferrujar") - que é um exemplo físico para os argumentos de Dabls em sua trajetória.
Iron teaching rocks... simula uma sala de aula com pedras "sentadas" nas carteiras, supostamente, a ouvir uma aula ministrada por uma escultura de ferro enferrujado. Ao redor, um carro grafitado simboliza o transporte dos alunos até a escola e duas estruturas fazem as vezes de "diretoria" do colégio. Explica Dabls que, nesta metáfora, o ferro tenta ensinar as pedras a serem ferro (algo que elas não podem ser) e, só quando as pedras protestam, adquirem liberdade para serem o que realmente são, crescerem e triunfarem.
Esta metáfora de professor/aluno estaria atrelada aos processos da colonização européia na África e ao resgate da identidade cultural de um povo cujos ensinamentos riquíssimos ficaram à margem por muito tempo e, em muitos lugares do mundo, ainda passam batido. Não se esquece também de que o ferro é um derivado da pedra - e essa inversão de papéis tão característica do nosso tempo só vem à tona quando escancarada mesmo... Isso, quem me ensinou foi o Olayme Dabls.
www.ideafixa.com

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