O PAPEL DA RÁDIO E IMPRENSA CLANDESTINAS NO COMBATE À DITADURA SALAZARISTA
Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade
Estela Piteira Santos foi a primeira voz feminina da Rádio Voz da Liberdade, emitindo desde Argel. Fez questão de saudar os presentes com a mesma fala de há muitos anos, a primeira aos microfones da estação clandestina:
“Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade, em nome da Frente Patriótica de Libertação Nacional”.
Manuel Alegre foi director da Rádio Voz da Liberdade. Alegre, segundo Mesquita “a Voz da Liberdade”, desfiou estórias daquele tempo, por exemplo a primeira entrevista dada por Amílcar Cabral dirigida aos portugueses. Alegre lembrou ter Cabral assumido Camões, os Lusíadas, ousando dizer “aquilo que a esquerda portuguesa não assumia, por inibição”. Agostinho Neto, Samora Machel, Eduardo Mondlane também foram entrevistados por Manuel Alegre, vozes amplificadas por uma “rádio de indignação”, “um grito na noite contra a censura e contra o medo”.
A canção era uma arma, os microfones da RVL também, apontados a campanhas para a libertação dos presos políticos, revelando dados sobre a guerra colonial submersos pelos censores portugueses, recebendo correio de muitos exilados, interrogando-se todos os dias sobre as audiências. Quem os ouviria ao tempo, num tempo em que o audímetro era palavra desconhecida, e o “share” não interessava para vender anúncios, mas para propagandear a Liberdade?
Eram ouvidos país fora, melhor no Algarve e no Alentejo.
Por cá, quem arriscava a sintonia colocava um copo de água em cima do receptor, obediente à lenda de que o copo mais a água afugentavam as carrinhas detectoras da Pide.
Aurélio Santos, outro resistente, militante do PCP, que animou em Bucareste a Rádio Portugal Livre, lembrava outro truque: “havia quem pusesse o receptor junto às canalizações da água”. Se o truque não despistava os detectores, os canos sempre serviam de reforço de antena.
A aura clandestina alimenta-se de mitos, também, já se disse. Um deles criou-se em torno desta rádio em português, vinda lá de longe, da Roménia. Mas se em Portugal os portugueses pensassem que a rádio emitia nas barbas da PIDE, a mensagem ganhava coragem. Durante algum tempo, circulou o mito de que a Rádio Portugal Livre emitia desde a Serra da Estrela!
Os sons clandestinos que o éter vertia subvertiam mesmo a noção clássica que julgávamos assente, da actualidade, do que aconteceu nos momentos anteriores. A rádio clandestina noticiava greves promovidas em Portugal, e se só conseguia dar a notícia um mês depois, pouco importava: a notícia era actual, porque em Portugal não tinha havido qualquer notícia da greve.
A organização do PCP reflectia-se no próprio arquivo da estação: as entradas começavam todas por “L”, de luta: lutas dos estudantes, lutas dos camponeses, lutas dos metalúrgicos.
Havia a hora dos camponeses, também a Voz das Forças Armadas, que Santos afiançou ser ouvida até no remanso das casernas.
Donas de casa exiladas cerziam o éter de invectivas às donas exiladas em suas casas portuguesas, com certeza:
“Como dona de casa, daqui me dirijo a todas as donas de casa, exortando-as a que protestem nos mercados, nas lojas, e que façam sentir por toda a parte o seu descontentamento e revolta contra a actual carestia de vida. Exorto ainda a que se formem comissões de rua ou de bairro e também nas fábricas para organizar e coordenar este movimento de protesto que é necessário desencadear para o bem de todos nós”.
Os sons da rádio que se assumia como “Voz do Partido Comunista Português” perenizaram-se em cassete preciosa que o “partidão” editou logo após o murchar das rosas que a primavera marcelista não conseguira fazer brotar. O país calado abriu tímpanos para Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Álvaro Cunhal. Por cá, e para os de mais difícil sintonia, o “Avante” funcionava como spot impresso, publicitando os metros das ondas clandestinas: “Pelas ondas de 26,31 e 32 metros, das 15 e 10 às 15 e 40, ou pela onda de 31 metros das 22 e 15 às 22 e 45, já podemos escutar: “Atenção, povo português! Aqui Rádio Portugal Livre, uma Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional! ”
“Que todos divulguem a nova voz anti-fascista, de modo a poder ser escutada em todo o país” — pregoava-se em Abril de 1962.
Oito anos volvidos, a fidelidade às ondas esmorecera, razão para “O Militante”, boletim do Comité Central do PCP, puxar as orelhas aos de escuta mais relaxada:
“A justificação mais usada dos que não ouvem com regularidade a Rádio é a falta de tempo ou já sei o que vão dizer. A falta de tempo traduz uma falta de interesse e uma evidente subestimação do papel da Rádio do Partido. Os que dizem já sei o que vão dizer manifestam uma atitude de autosuficiência para com a nossa Rádio. Estas atitudes são incorrectas devendo fazer-se um esforço para as eliminar dentro do Partido”.
Escuta então como dever militante.
Carlos Brito andou pelos media clandestinos, mas em vez da voz leve que o vento leva tratou das letras de chumbo que se não cansaram de imprimir o “Avante”, o jornal clandestino de maior longevidade que há memória, mesmo que ninguém se tenha lembrado de o registar no “Guiness Book”.
A história do PCP até se pode fazer olhando às tiragens do “Avante”. Em 1936 foi tempo de deslumbramento para os tipógrafos clandestinos: dez mil exemplares de tiragem. No balanço eufórico passou a semanário em 1938, para logo a seguir ser silenciado três longos anos. Voltou então para não mais esmorecer até ao alvorecer dos cravos, vestindo-se depois, até aos dias hoje, com as roupas da legalidade.
Em 1942 imprimiam-se, por edição, 2.700 exemplares; no ano seguinte subiu aos três mil; em 1946 voltou aos dez mil, porque era tempo de pujança do partido, no pós-guerra. Álvaro Cunhal foi preso, acompanharam-no uma série de camaradas, a organização tremeu e o “Avante” deu sinal disso mesmo, baixando a tiragem para os cinco mil. Haveria de subir aos sete mil passados anos, número que se aguentou firme até ao 25 de Abril.
Imprimia-se em tipografias de cidade, e as que funcionavam com mais segurança eram as localizadas em prédios de habitação, de preferência com móveis grandes. O bojo destes permitiria guardar o rolo, as tintas, o papel, os chumbos.
Os chumbos que uma vez viraram soldadinhos falsos. Carlos Brito tratava de transferir uma tipografia clandestina para uma zona mais segura na cidade do Porto. Levava nesse dia uma caixa em madeira, com os chumbos dentro. Pesava que se fartava, a caixa embrulhada com papel de sapataria. Tanto pesava que Brito se fez de coxo. Deixou o táxi e parou numa farmácia, pedindo remédios para a “maleita” que lhe afectava o pé. Sentou-se esperando que lhe aviassem a receita. Apesar dos cuidados extremos, quando se levantou deixou a caixa na cadeira. Senhora solícita tratou de pegar na caixa de sapatos para a entregar ao desditoso “coxo”. É o pegas, que a caixa pesava toneladas!
A senhora fez a pergunta incómoda a Carlos Brito. Afinal, lá dentro não levava sapatos:
“São soldadinhos de chumbo para as crianças, minha senhora!”
O “Avante” era clandestino, parido por partido clandestino. Outros aproveitavam fissuras legais para editarem textos semi-clandestinos em nome de organizações semi-legais. Aconteceu com o “Boletim da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos”. O regime autorizara cidadãos reunidos em socorro de vítimas de catástrofes, haveria maior desdita que a Ideia de Liberdade agrilhoada nas masmorras da PIDE?
Eugénia Varela Gomes, Cecília Feio, Levy Baptista, Nuno Teotónio Pereira e Luís Moita criaram a comissão que aparecia no cabeçalho do boletim, este feito a cheirar ao carbono do stencil albergado em cozinha esconsa de escritório de advogado desactivado, para as bandas de Campo de Ourique.
“Denunciávamos, no boletim, os crimes de guerra praticados pelo exército português, divulgávamos as posições dos movimentos de libertação, estatísticas das baixas dos soldados portugueses, e vituperávamos a solidariedade da Nato e outras organizações para com a política colonial portuguesa” — lembrou Luís Moita.
Decidido pelos membros da Comissão que a guerra colonial era o calcanhar de Marcelo que haveria de pôr o regime a coxear, avançaram para outra publicação: o B.A.C., Boletim anti colonial. O grupo, respaldado por plêiade de católicos “altamente politizados”, sofrendo “enormíssimas influências marxistas”, conseguiu publicar sete números do B.A.C., para logo depois integrarem o contingente dos presos políticos de que a outra publicação tratava. O “Boletim da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos” haveria de despedir-se dos leitores já Abril dos cravos ia alto, com notícia requentada da prisão de Luís Moita e companheiros de jornada.
Lá por fora, ”estrangeirados” de nome Aquiles de Oliveira, Alberto Melo, Fernando Medeiros, Rodrigues dos Santos, Alfredo Margarido e Manuel Villaverde Cabral chegaram à conclusão, nos idos de 67, que a crítica ao regime salazarista padecia de “informação objectiva e firmeza ideológica”. Denunciaram a maleita nos “Cadernos de Circunstância”, impressos em Paris até 1970, aventura recordada no colóquio por Villaverde Cabral:
“Pretendíamos dar um contributo diferente à luta política, fornecer à oposição elementos de debate, se possível ancorados em estatísticas; uma missão mais informativa, mais de reflexão do que de propaganda” — sinalizou aquele docente universitário.
O primeiro número tratava da morte do Che, “capitán atado por la muerte”, pretexto para ferroadas várias aos partidos comunistas da América do Sul, Europa Ocidental também, máxima de Guevara transcrita para lembrar uma sua tese “demasiado simples, demasiado luminosa, límpida como todas as ideias generosas e objectivas”:
“Só há uma maneira de se opôr às ameaças crescentes do imperialismo e à ofensiva do seu agente mundial — os USA — é pegar em armas e criar no mundo um, dois, três novos Viêt-Nam!”
Cadernos fruto da sangria que tornava Portugal exangue de “trabalhadores intelectuais”, a circunstância mandaria que se escrevesse sobre “a violência na luta política e na vida quotidiana”, “os TUBARÕES e as sardinhas”, “o 3º plano de fomento”, “os investimentos estrangeiros em Portugal”.
Ou que se respigasse texto de Cohn-Bendit, onde se falava da universidade “termómetro da resistência contra a uniformização e a integração social”; onde se falava da revolução-miríade, “um luxo, um sonho” se os estudantes não fossem capazes de “virar o saber ao contrário”.
O “luxo” da revolução estudantil francesa era necessidade em Portugal, metamorfoseou-se em cravos vermelhos numa madrugada embalada por Zeca Afonso e Paulo de Carvalho, ia-se afogueando num Verão que foi Quente, cumpriu as urnas onde a democracia nasce feita voto, passou a celebração, depois evocação, depois amareleceu.
O colóquio de Coimbra, se serviu para debater o papel da rádio e imprensa clandestinas durante a noite negra, serviu também para lembrar aos mais distraídos o sagrado valor da Liberdade "a noiva eterna das almas juvenis, o ideal sublime por que combatem todos", conforme definição de outras clandestinidades, as que antecederam a aurora republicana de 1910.
Evocação que se quer tonitruante, que o amarelecer da memória lava mais rápido que o “OMO”. Manuel Alegre deixou repositório cáustico contra o que considera ser uma operação de branqueamento da ditadura:
“O 25 de Abril foi uma revolução triunfante que não soube fazer a pedagogia dos seus valores. Vencedora no plano político não substituiu — e ainda bem —, uma cultura oficial por outra cultura oficial. Mas permitiu que pouco a pouco a estratégia do revisionismo fosse fazendo o seu caminho. Ora, como disse alguém, a luta pelo poder é sempre uma luta entre a memória e o esquecimento. Neste últimos anos a memória perdeu algumas batalhas. Tem-se procurado branquear o fascismo e denegrir o 25 de Abril e a Resistência. E mais, tem-se tentado aos poucos reabilitar o Estado Novo e ilegitimar moralmente o 25 de Abril. No plano das ideias e até no da própria linguagem os ditadores passaram a ser tratados respeitosamente por professores; o regime fascista passou a ser o regime anterior. Nada disto é inocente nem acontece por acaso, e só é possível porque, como tive ocasião de dizer no congresso “Portugal: Que Futuro”, há em Portugal uma questão de regime, uma questão que resulta do facto de nem todas as forças políticas representativas se reconhecerem na matriz fundadora da democracia portuguesa.
Não é problema de somenos: há da parte de alguns dos principais beneficiários do regime democrático um divórcio afectivo e político com a natureza e o imaginário que estão na origem da liberdade portuguesa: a cultura da resistência, o imaginário do 25 de Abril.
Enquanto por exemplo em França há uma memória da resistência e uma cultura republicana que são património tanto da esquerda como da direita democrática, tal não acontece em Portugal. E não acontece porque, com raras excepções, entre nós, a memória da resistência começa e acaba na esquerda, tal como a relação afectiva com o 25 de Abril e o seu imaginário. É por isso que o revisionismo tem avançado nos últimos anos, mas não só. A estratégia do branqueamento e do esquecimento é fruto de um certo amorfismo e de uma certa distracção, fruto da ausência de uma persistente e continuada pedagogia dos valores cívicos e democráticos, fruto também de omissões e ambiguidades que os nostálgicos do passado interpretam por vezes como convite ao revanchismo. A tolerância é a superioridade moral da democracia, mas a tolerância não deve ser confundida com masoquismo; a verdade é que o fascismo existiu e a Resistência também; a verdade é que o 25 de Abril restituiu a liberdade aos portugueses, mesmo a liberdade de o discutir, denegrir e pôr em causa. Essa é a diferença do 25 de Abril e também a sua superioridade. E por isso é que, mesmo quando parece estar a perder é o 25 de Abril que está a tornar-se vencedor. Porque não substituiu um dogma por outro dogma, nem um pensamento único por outro pensamento único (…)”.
Hoje, aqui ao lado, na Europa que brasileiros e namibianos chamam de Primeiro Mundo, ainda há quem lute pela Liberdade com instrumentos iguais aos que ganharam corpo nas vozes de Manuel Alegre e Aurélio Santos, nas penas de Carlos Brito, Luís Moita, Villaverde Cabral. Há rádios clandestinas clamando pela Liberdade na Sérvia, mas as ondas da “B92” vão morrendo às mãos do sofisticado sistema de interferências do regime sérvio. Mas “o ideal sublime por que combatem todos” não se rende, e a Internet aí está, mesmo que arrogante, lembrando a todos que já foi tempo o tempo do panfleto, do stencil, da rádio da revolta em ondas hertzianas:
“Even revolutions aren’t what they used to be, since there is internet. The times of illegal printing-presses in wet cellars, seditious pamphlets spread by revolutionaries in dufle coats, are over” — lê-se hoje no cabeçalho de página da Net, rodapé de título: “The revolution in Serbia begins with a homepage on Internet”.
Se nos permitem terminar perguntando, quantos anos mais cedo teria chegado Abril se Carlos Brito tivesse um telemóvel, Estela Piteira Santos um modem, Manuel Alegre um fax, Mário Soares um bip, Álvaro Cunhal um PowerBook…?
“Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade, em nome da Frente Patriótica de Libertação Nacional”.
Manuel Alegre foi director da Rádio Voz da Liberdade. Alegre, segundo Mesquita “a Voz da Liberdade”, desfiou estórias daquele tempo, por exemplo a primeira entrevista dada por Amílcar Cabral dirigida aos portugueses. Alegre lembrou ter Cabral assumido Camões, os Lusíadas, ousando dizer “aquilo que a esquerda portuguesa não assumia, por inibição”. Agostinho Neto, Samora Machel, Eduardo Mondlane também foram entrevistados por Manuel Alegre, vozes amplificadas por uma “rádio de indignação”, “um grito na noite contra a censura e contra o medo”.
A canção era uma arma, os microfones da RVL também, apontados a campanhas para a libertação dos presos políticos, revelando dados sobre a guerra colonial submersos pelos censores portugueses, recebendo correio de muitos exilados, interrogando-se todos os dias sobre as audiências. Quem os ouviria ao tempo, num tempo em que o audímetro era palavra desconhecida, e o “share” não interessava para vender anúncios, mas para propagandear a Liberdade?
Eram ouvidos país fora, melhor no Algarve e no Alentejo.
Por cá, quem arriscava a sintonia colocava um copo de água em cima do receptor, obediente à lenda de que o copo mais a água afugentavam as carrinhas detectoras da Pide.
Aurélio Santos, outro resistente, militante do PCP, que animou em Bucareste a Rádio Portugal Livre, lembrava outro truque: “havia quem pusesse o receptor junto às canalizações da água”. Se o truque não despistava os detectores, os canos sempre serviam de reforço de antena.
A aura clandestina alimenta-se de mitos, também, já se disse. Um deles criou-se em torno desta rádio em português, vinda lá de longe, da Roménia. Mas se em Portugal os portugueses pensassem que a rádio emitia nas barbas da PIDE, a mensagem ganhava coragem. Durante algum tempo, circulou o mito de que a Rádio Portugal Livre emitia desde a Serra da Estrela!
Os sons clandestinos que o éter vertia subvertiam mesmo a noção clássica que julgávamos assente, da actualidade, do que aconteceu nos momentos anteriores. A rádio clandestina noticiava greves promovidas em Portugal, e se só conseguia dar a notícia um mês depois, pouco importava: a notícia era actual, porque em Portugal não tinha havido qualquer notícia da greve.
A organização do PCP reflectia-se no próprio arquivo da estação: as entradas começavam todas por “L”, de luta: lutas dos estudantes, lutas dos camponeses, lutas dos metalúrgicos.
Havia a hora dos camponeses, também a Voz das Forças Armadas, que Santos afiançou ser ouvida até no remanso das casernas.
Donas de casa exiladas cerziam o éter de invectivas às donas exiladas em suas casas portuguesas, com certeza:
“Como dona de casa, daqui me dirijo a todas as donas de casa, exortando-as a que protestem nos mercados, nas lojas, e que façam sentir por toda a parte o seu descontentamento e revolta contra a actual carestia de vida. Exorto ainda a que se formem comissões de rua ou de bairro e também nas fábricas para organizar e coordenar este movimento de protesto que é necessário desencadear para o bem de todos nós”.
Os sons da rádio que se assumia como “Voz do Partido Comunista Português” perenizaram-se em cassete preciosa que o “partidão” editou logo após o murchar das rosas que a primavera marcelista não conseguira fazer brotar. O país calado abriu tímpanos para Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Álvaro Cunhal. Por cá, e para os de mais difícil sintonia, o “Avante” funcionava como spot impresso, publicitando os metros das ondas clandestinas: “Pelas ondas de 26,31 e 32 metros, das 15 e 10 às 15 e 40, ou pela onda de 31 metros das 22 e 15 às 22 e 45, já podemos escutar: “Atenção, povo português! Aqui Rádio Portugal Livre, uma Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional! ”
“Que todos divulguem a nova voz anti-fascista, de modo a poder ser escutada em todo o país” — pregoava-se em Abril de 1962.
Oito anos volvidos, a fidelidade às ondas esmorecera, razão para “O Militante”, boletim do Comité Central do PCP, puxar as orelhas aos de escuta mais relaxada:
“A justificação mais usada dos que não ouvem com regularidade a Rádio é a falta de tempo ou já sei o que vão dizer. A falta de tempo traduz uma falta de interesse e uma evidente subestimação do papel da Rádio do Partido. Os que dizem já sei o que vão dizer manifestam uma atitude de autosuficiência para com a nossa Rádio. Estas atitudes são incorrectas devendo fazer-se um esforço para as eliminar dentro do Partido”.
Escuta então como dever militante.
Carlos Brito andou pelos media clandestinos, mas em vez da voz leve que o vento leva tratou das letras de chumbo que se não cansaram de imprimir o “Avante”, o jornal clandestino de maior longevidade que há memória, mesmo que ninguém se tenha lembrado de o registar no “Guiness Book”.
A história do PCP até se pode fazer olhando às tiragens do “Avante”. Em 1936 foi tempo de deslumbramento para os tipógrafos clandestinos: dez mil exemplares de tiragem. No balanço eufórico passou a semanário em 1938, para logo a seguir ser silenciado três longos anos. Voltou então para não mais esmorecer até ao alvorecer dos cravos, vestindo-se depois, até aos dias hoje, com as roupas da legalidade.
Em 1942 imprimiam-se, por edição, 2.700 exemplares; no ano seguinte subiu aos três mil; em 1946 voltou aos dez mil, porque era tempo de pujança do partido, no pós-guerra. Álvaro Cunhal foi preso, acompanharam-no uma série de camaradas, a organização tremeu e o “Avante” deu sinal disso mesmo, baixando a tiragem para os cinco mil. Haveria de subir aos sete mil passados anos, número que se aguentou firme até ao 25 de Abril.
Imprimia-se em tipografias de cidade, e as que funcionavam com mais segurança eram as localizadas em prédios de habitação, de preferência com móveis grandes. O bojo destes permitiria guardar o rolo, as tintas, o papel, os chumbos.
Os chumbos que uma vez viraram soldadinhos falsos. Carlos Brito tratava de transferir uma tipografia clandestina para uma zona mais segura na cidade do Porto. Levava nesse dia uma caixa em madeira, com os chumbos dentro. Pesava que se fartava, a caixa embrulhada com papel de sapataria. Tanto pesava que Brito se fez de coxo. Deixou o táxi e parou numa farmácia, pedindo remédios para a “maleita” que lhe afectava o pé. Sentou-se esperando que lhe aviassem a receita. Apesar dos cuidados extremos, quando se levantou deixou a caixa na cadeira. Senhora solícita tratou de pegar na caixa de sapatos para a entregar ao desditoso “coxo”. É o pegas, que a caixa pesava toneladas!
A senhora fez a pergunta incómoda a Carlos Brito. Afinal, lá dentro não levava sapatos:
“São soldadinhos de chumbo para as crianças, minha senhora!”
O “Avante” era clandestino, parido por partido clandestino. Outros aproveitavam fissuras legais para editarem textos semi-clandestinos em nome de organizações semi-legais. Aconteceu com o “Boletim da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos”. O regime autorizara cidadãos reunidos em socorro de vítimas de catástrofes, haveria maior desdita que a Ideia de Liberdade agrilhoada nas masmorras da PIDE?
Eugénia Varela Gomes, Cecília Feio, Levy Baptista, Nuno Teotónio Pereira e Luís Moita criaram a comissão que aparecia no cabeçalho do boletim, este feito a cheirar ao carbono do stencil albergado em cozinha esconsa de escritório de advogado desactivado, para as bandas de Campo de Ourique.
“Denunciávamos, no boletim, os crimes de guerra praticados pelo exército português, divulgávamos as posições dos movimentos de libertação, estatísticas das baixas dos soldados portugueses, e vituperávamos a solidariedade da Nato e outras organizações para com a política colonial portuguesa” — lembrou Luís Moita.
Decidido pelos membros da Comissão que a guerra colonial era o calcanhar de Marcelo que haveria de pôr o regime a coxear, avançaram para outra publicação: o B.A.C., Boletim anti colonial. O grupo, respaldado por plêiade de católicos “altamente politizados”, sofrendo “enormíssimas influências marxistas”, conseguiu publicar sete números do B.A.C., para logo depois integrarem o contingente dos presos políticos de que a outra publicação tratava. O “Boletim da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos” haveria de despedir-se dos leitores já Abril dos cravos ia alto, com notícia requentada da prisão de Luís Moita e companheiros de jornada.
Lá por fora, ”estrangeirados” de nome Aquiles de Oliveira, Alberto Melo, Fernando Medeiros, Rodrigues dos Santos, Alfredo Margarido e Manuel Villaverde Cabral chegaram à conclusão, nos idos de 67, que a crítica ao regime salazarista padecia de “informação objectiva e firmeza ideológica”. Denunciaram a maleita nos “Cadernos de Circunstância”, impressos em Paris até 1970, aventura recordada no colóquio por Villaverde Cabral:
“Pretendíamos dar um contributo diferente à luta política, fornecer à oposição elementos de debate, se possível ancorados em estatísticas; uma missão mais informativa, mais de reflexão do que de propaganda” — sinalizou aquele docente universitário.
O primeiro número tratava da morte do Che, “capitán atado por la muerte”, pretexto para ferroadas várias aos partidos comunistas da América do Sul, Europa Ocidental também, máxima de Guevara transcrita para lembrar uma sua tese “demasiado simples, demasiado luminosa, límpida como todas as ideias generosas e objectivas”:
“Só há uma maneira de se opôr às ameaças crescentes do imperialismo e à ofensiva do seu agente mundial — os USA — é pegar em armas e criar no mundo um, dois, três novos Viêt-Nam!”
Cadernos fruto da sangria que tornava Portugal exangue de “trabalhadores intelectuais”, a circunstância mandaria que se escrevesse sobre “a violência na luta política e na vida quotidiana”, “os TUBARÕES e as sardinhas”, “o 3º plano de fomento”, “os investimentos estrangeiros em Portugal”.
Ou que se respigasse texto de Cohn-Bendit, onde se falava da universidade “termómetro da resistência contra a uniformização e a integração social”; onde se falava da revolução-miríade, “um luxo, um sonho” se os estudantes não fossem capazes de “virar o saber ao contrário”.
O “luxo” da revolução estudantil francesa era necessidade em Portugal, metamorfoseou-se em cravos vermelhos numa madrugada embalada por Zeca Afonso e Paulo de Carvalho, ia-se afogueando num Verão que foi Quente, cumpriu as urnas onde a democracia nasce feita voto, passou a celebração, depois evocação, depois amareleceu.
O colóquio de Coimbra, se serviu para debater o papel da rádio e imprensa clandestinas durante a noite negra, serviu também para lembrar aos mais distraídos o sagrado valor da Liberdade "a noiva eterna das almas juvenis, o ideal sublime por que combatem todos", conforme definição de outras clandestinidades, as que antecederam a aurora republicana de 1910.
Evocação que se quer tonitruante, que o amarelecer da memória lava mais rápido que o “OMO”. Manuel Alegre deixou repositório cáustico contra o que considera ser uma operação de branqueamento da ditadura:
“O 25 de Abril foi uma revolução triunfante que não soube fazer a pedagogia dos seus valores. Vencedora no plano político não substituiu — e ainda bem —, uma cultura oficial por outra cultura oficial. Mas permitiu que pouco a pouco a estratégia do revisionismo fosse fazendo o seu caminho. Ora, como disse alguém, a luta pelo poder é sempre uma luta entre a memória e o esquecimento. Neste últimos anos a memória perdeu algumas batalhas. Tem-se procurado branquear o fascismo e denegrir o 25 de Abril e a Resistência. E mais, tem-se tentado aos poucos reabilitar o Estado Novo e ilegitimar moralmente o 25 de Abril. No plano das ideias e até no da própria linguagem os ditadores passaram a ser tratados respeitosamente por professores; o regime fascista passou a ser o regime anterior. Nada disto é inocente nem acontece por acaso, e só é possível porque, como tive ocasião de dizer no congresso “Portugal: Que Futuro”, há em Portugal uma questão de regime, uma questão que resulta do facto de nem todas as forças políticas representativas se reconhecerem na matriz fundadora da democracia portuguesa.
Não é problema de somenos: há da parte de alguns dos principais beneficiários do regime democrático um divórcio afectivo e político com a natureza e o imaginário que estão na origem da liberdade portuguesa: a cultura da resistência, o imaginário do 25 de Abril.
Enquanto por exemplo em França há uma memória da resistência e uma cultura republicana que são património tanto da esquerda como da direita democrática, tal não acontece em Portugal. E não acontece porque, com raras excepções, entre nós, a memória da resistência começa e acaba na esquerda, tal como a relação afectiva com o 25 de Abril e o seu imaginário. É por isso que o revisionismo tem avançado nos últimos anos, mas não só. A estratégia do branqueamento e do esquecimento é fruto de um certo amorfismo e de uma certa distracção, fruto da ausência de uma persistente e continuada pedagogia dos valores cívicos e democráticos, fruto também de omissões e ambiguidades que os nostálgicos do passado interpretam por vezes como convite ao revanchismo. A tolerância é a superioridade moral da democracia, mas a tolerância não deve ser confundida com masoquismo; a verdade é que o fascismo existiu e a Resistência também; a verdade é que o 25 de Abril restituiu a liberdade aos portugueses, mesmo a liberdade de o discutir, denegrir e pôr em causa. Essa é a diferença do 25 de Abril e também a sua superioridade. E por isso é que, mesmo quando parece estar a perder é o 25 de Abril que está a tornar-se vencedor. Porque não substituiu um dogma por outro dogma, nem um pensamento único por outro pensamento único (…)”.
Hoje, aqui ao lado, na Europa que brasileiros e namibianos chamam de Primeiro Mundo, ainda há quem lute pela Liberdade com instrumentos iguais aos que ganharam corpo nas vozes de Manuel Alegre e Aurélio Santos, nas penas de Carlos Brito, Luís Moita, Villaverde Cabral. Há rádios clandestinas clamando pela Liberdade na Sérvia, mas as ondas da “B92” vão morrendo às mãos do sofisticado sistema de interferências do regime sérvio. Mas “o ideal sublime por que combatem todos” não se rende, e a Internet aí está, mesmo que arrogante, lembrando a todos que já foi tempo o tempo do panfleto, do stencil, da rádio da revolta em ondas hertzianas:
“Even revolutions aren’t what they used to be, since there is internet. The times of illegal printing-presses in wet cellars, seditious pamphlets spread by revolutionaries in dufle coats, are over” — lê-se hoje no cabeçalho de página da Net, rodapé de título: “The revolution in Serbia begins with a homepage on Internet”.
Se nos permitem terminar perguntando, quantos anos mais cedo teria chegado Abril se Carlos Brito tivesse um telemóvel, Estela Piteira Santos um modem, Manuel Alegre um fax, Mário Soares um bip, Álvaro Cunhal um PowerBook…?
Dinis Manuel Alves
www.mediatico.com.pt
"Eles lutavam pela independência, eu estava ali a mais", recorda Vasco Lourenço
O português foi um dos militares que organizou o golpe de 25 de Abril. Na altura, a guerra colonial não tinha fim à vista. Por isso, o capitão decidiu deitar abaixo o regime em nome do prestígio das Forças Armadas.
Antes de ir para a guerra na Guiné-Bissau, em 1969, o militar português Vasco Lourenço propôs um lema para o seu batalhão: "contrariados, mas vamos". Porém, o lema não foi aprovado.
Portugal combateu contra os movimentos de libertação africanos durante 13 anos. À semelhança do que acontecera na Índia portuguesa, o regime ditatorial parecia lutar teimosamente contra o inevitável – a concessão dos territórios no chamado Ultramar.
Muitos militares começam a conspirar, Vasco Lourenço era um deles. Para o então capitão, a solução para o conflito colonial só podia ser política. Mas, em 1973, o Governo português publicou um decreto que facilitava o acesso aos quadros permanentes das Forças Armadas, antevendo assim a continuação do esforço de guerra. Foi o princípio do fim.
Vasco Lourenço insurgiu-se contra o decreto. Começou a conspirar contra a ditadura fascista e convenceu os colegas de que era necessário recuperar o prestígio das Forças Armadas junto da população, que associava os militares ao regime ditatorial. Segundo Vasco Lourenço, só havia uma forma de fazer isso: derrubar o Governo.
DW África: Houve algum episódio que o tenha marcado particularmente quando combateu na Guiné-Bissau?
Vasco Lourenço (VL): Houve uma situação que alterou radicalmente a minha maneira de estar perante a guerra e perante o próprio país. Em determinado momento, descobri uma rede de informações no seio da população e de elementos de milícias guineenses que lutavam comigo em operações militares.
Portugal combateu contra os movimentos de libertação africanos durante 13 anos. À semelhança do que acontecera na Índia portuguesa, o regime ditatorial parecia lutar teimosamente contra o inevitável – a concessão dos territórios no chamado Ultramar.
Muitos militares começam a conspirar, Vasco Lourenço era um deles. Para o então capitão, a solução para o conflito colonial só podia ser política. Mas, em 1973, o Governo português publicou um decreto que facilitava o acesso aos quadros permanentes das Forças Armadas, antevendo assim a continuação do esforço de guerra. Foi o princípio do fim.
Vasco Lourenço insurgiu-se contra o decreto. Começou a conspirar contra a ditadura fascista e convenceu os colegas de que era necessário recuperar o prestígio das Forças Armadas junto da população, que associava os militares ao regime ditatorial. Segundo Vasco Lourenço, só havia uma forma de fazer isso: derrubar o Governo.
DW África: Houve algum episódio que o tenha marcado particularmente quando combateu na Guiné-Bissau?
Vasco Lourenço (VL): Houve uma situação que alterou radicalmente a minha maneira de estar perante a guerra e perante o próprio país. Em determinado momento, descobri uma rede de informações no seio da população e de elementos de milícias guineenses que lutavam comigo em operações militares.
Na Guiné-Bissau, o batalhão de Vasco Lourenço escreveu num monumento: "Por aqui passámos, fazendo a guerra à procura da paz"
Descobri que não havia nenhuma operação que fizéssemos em que eles não enviassem alguém ao Senegal, do outro lado da fronteira, a informar sobre o que íamos fazer. E descobri que o chefe dessa rede de informações, um milícia chamado Bori, tinha morrido numa emboscada, mesmo ao meu lado, cerca de quinze dias antes de eu descobrir a rede.
Isso chocou-me profundamente. Dei por mim a questionar-me e a pensar: "Que raio de guerra é esta em que um indivíduo acaba por ser morto pelos próprios companheiros? E aí, depois de alguma discussão com os meus alferes e furriéis sobre estes pontos de vista, cheguei à conclusão que quem estava certo eram eles, que estavam a lutar pela independência e pela liberdade.
Eu é que estava errado e estava ali a mais. É evidente que esta perceção não caiu do céu, já se vinha formando há bastante tempo. Mas é aí que se dá o clique e percebo que, de facto, a guerra é injusta e ilegítima. E que não posso participar mais naquela guerra.
DW África: Temia-se na Guiné-Bissau uma segunda Índia?
VL: Era diferente. Na Índia, era absolutamente utópico pensar em resistir naquelas condições à invasão que a União Indiana fez. Portanto, houve a derrota militar. Depois, houve a atitude miserável do Governo, que atacou os militares como bode expiatório do que se tinha passado.
Na Guiné-Bissau era diferente. Essa derrota militar não se daria como se deu na Índia, porque, em termos militares, o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) não tinha forças para derrotar daquela maneira as forças portuguesas.
Os guineenses tinham zonas que controlavam bastante bem e a que nós tínhamos imensa dificuldade em chegar, principalmente a partir do momento em que perdemos o apoio da Força Aérea. Mas eles também não conseguiam desalojar-nos da generalidade dos sítios onde estávamos. Portanto, a guerra, em termos militares, poder-se-ia ter prolongado bastante. Não, o problema era político.
DW África: Temia-se na Guiné-Bissau uma segunda Índia?
VL: Era diferente. Na Índia, era absolutamente utópico pensar em resistir naquelas condições à invasão que a União Indiana fez. Portanto, houve a derrota militar. Depois, houve a atitude miserável do Governo, que atacou os militares como bode expiatório do que se tinha passado.
Na Guiné-Bissau era diferente. Essa derrota militar não se daria como se deu na Índia, porque, em termos militares, o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) não tinha forças para derrotar daquela maneira as forças portuguesas.
Os guineenses tinham zonas que controlavam bastante bem e a que nós tínhamos imensa dificuldade em chegar, principalmente a partir do momento em que perdemos o apoio da Força Aérea. Mas eles também não conseguiam desalojar-nos da generalidade dos sítios onde estávamos. Portanto, a guerra, em termos militares, poder-se-ia ter prolongado bastante. Não, o problema era político.
DW África: E era uma teimosia…
VL: Era a política. Repare, nunca as Forças Armadas declararam a guerra em qualquer sítio do mundo. Quem declara a guerra são os políticos.
Portugal estava surdo, cego e mudo aos ventos da História. Achavam que estávamos orgulhosamente sós. Sós, mas orgulhosamente. Andávamos a defender os valores que eles achavam ser os valores da civilização cristã e ocidental. Estávamos sozinhos, porque éramos nós que determinávamos quais eram esses valores e assumíamo-nos, isolados, como os seus defensores.
VL: Era a política. Repare, nunca as Forças Armadas declararam a guerra em qualquer sítio do mundo. Quem declara a guerra são os políticos.
Portugal estava surdo, cego e mudo aos ventos da História. Achavam que estávamos orgulhosamente sós. Sós, mas orgulhosamente. Andávamos a defender os valores que eles achavam ser os valores da civilização cristã e ocidental. Estávamos sozinhos, porque éramos nós que determinávamos quais eram esses valores e assumíamo-nos, isolados, como os seus defensores.
A generalidade dos países ditos nossos aliados apoiava os nossos adversários, direta ou indiretamente. O próprio Papa [Paulo VI] recebeu os líderes dos movimentos de libertação. Portanto, a questão era essencialmente política. É isso, aliás, que está na origem do 25 de Abril.
DW África: Recorda-se de algum episódio que espelhe as dificuldades de organizar o golpe de Estado?
VL: Eu posso-lhe contar vários. Mas há um que mostra como tínhamos de ir tateando… Numa reunião clandestina [em dezembro de 1973], há um major de Cavalaria que se levanta e diz: "Eu ouvi aqui falar em direito à autodeterminação e independência… Mas isso é traição! Eu estou aqui a mais." Ficámos todos a olhar: "O que é isto? De onde caiu este pássaro?" Ele percebeu a situação dramática em que estava e, até pelas características dele, um homem extraordinariamente conservador, mas honesto de princípio, diz: "Eu dou a minha palavra de honra. Vou-me embora mas não conto nada do que aqui se passou".
Eu, que estava a moderar a reunião, olhei rapidamente para a malta e digo: "Podes ir embora, mas lembra-te da promessa que acabaste de fazer. Se abrires a boca, qualquer dia chocas aí com uma coisa fria ou com uma coisa quente sem saberes de onde vem. Vê lá o que é que vais fazer." Ele responde: "Não, eu dou a minha palavra de honra que não digo nada".
DW África: Recorda-se de algum episódio que espelhe as dificuldades de organizar o golpe de Estado?
VL: Eu posso-lhe contar vários. Mas há um que mostra como tínhamos de ir tateando… Numa reunião clandestina [em dezembro de 1973], há um major de Cavalaria que se levanta e diz: "Eu ouvi aqui falar em direito à autodeterminação e independência… Mas isso é traição! Eu estou aqui a mais." Ficámos todos a olhar: "O que é isto? De onde caiu este pássaro?" Ele percebeu a situação dramática em que estava e, até pelas características dele, um homem extraordinariamente conservador, mas honesto de princípio, diz: "Eu dou a minha palavra de honra. Vou-me embora mas não conto nada do que aqui se passou".
Eu, que estava a moderar a reunião, olhei rapidamente para a malta e digo: "Podes ir embora, mas lembra-te da promessa que acabaste de fazer. Se abrires a boca, qualquer dia chocas aí com uma coisa fria ou com uma coisa quente sem saberes de onde vem. Vê lá o que é que vais fazer." Ele responde: "Não, eu dou a minha palavra de honra que não digo nada".
Isto mostra, de facto, as dificuldades que nós tivemos. Vamos discutindo a necessidade de um programa político…
Temos a noção de que, quando fizermos um golpe de Estado, temos que apresentar um programa político, porque senão era só mudar as moscas e o resto ficava na mesma. Depois, escolhemos os generais Costa Gomes e Spínola para os convidar para liderarem o movimento – na condição de aceitarem o programa político que aprovámos – e, a seguir, dá-se o voto de confiança à comissão coordenadora e à direção (o Vítor Alves, o Otelo e eu próprio) para levarem à prática estas decisões.
Depois, sou posto fora do circuito, com uma situação rocambolesca, porque sou "raptado" pelos meus camaradas para demonstrarem que eu até queria ir, eles é que não me deixavam. Depois estive preso. Mas, de facto, é extraordinariamente complicado.
DW África: O que previa o programa político do Movimento dos Capitães no capítulo da descolonização?
VL: Direito à autodeterminação e independência. Isso depois é alterado no dia 25 de Abril à noite por pressão do general Spínola. É uma das falhas que o processo teve e que vem a ter consequências dramáticas para Portugal e para os portugueses.
Porque quando o programa é difundido e a nossa posição favorável à autodeterminação e independência dos povos, que tinha sido discutida com o próprio general Spínola, foi substituída por qualquer coisa do estilo "continuação de uma política ultramarina que leve à paz", muito "soft", os movimentos de libertação recrudesceram no esforço de guerra. E, entre o 25 de Abril e o fim da guerra, nós portugueses sofremos mais de 400 mortes.
DW África: Foi preso a 9 de março de 1974 e estava nos Açores quando foi o 25 de Abril. Como recebeu a notícia?
VL: Tinha combinado com o Otelo o envio de um telegrama em código para a sogra do Melo Antunes. Precisamente para despistar. E, no dia 24, foi recebido um telegrama com o código que eu tinha mandado ao Otelo "Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25.0300. Um abraço, primo António".
Depois, sou posto fora do circuito, com uma situação rocambolesca, porque sou "raptado" pelos meus camaradas para demonstrarem que eu até queria ir, eles é que não me deixavam. Depois estive preso. Mas, de facto, é extraordinariamente complicado.
DW África: O que previa o programa político do Movimento dos Capitães no capítulo da descolonização?
VL: Direito à autodeterminação e independência. Isso depois é alterado no dia 25 de Abril à noite por pressão do general Spínola. É uma das falhas que o processo teve e que vem a ter consequências dramáticas para Portugal e para os portugueses.
Porque quando o programa é difundido e a nossa posição favorável à autodeterminação e independência dos povos, que tinha sido discutida com o próprio general Spínola, foi substituída por qualquer coisa do estilo "continuação de uma política ultramarina que leve à paz", muito "soft", os movimentos de libertação recrudesceram no esforço de guerra. E, entre o 25 de Abril e o fim da guerra, nós portugueses sofremos mais de 400 mortes.
DW África: Foi preso a 9 de março de 1974 e estava nos Açores quando foi o 25 de Abril. Como recebeu a notícia?
VL: Tinha combinado com o Otelo o envio de um telegrama em código para a sogra do Melo Antunes. Precisamente para despistar. E, no dia 24, foi recebido um telegrama com o código que eu tinha mandado ao Otelo "Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25.0300. Um abraço, primo António".
Eu tinha-lhe mandado um texto que era "Tia Aurora segue". Depois, ele teria de pôr o local para onde seguiria um avião na data/hora que ele depois colocaria. "Um abraço, primo António", eu tinha posto. Portanto, o que ele preencheu foi só "Estados Unidos da América 25.0300", que era dia 25 às três da manhã.
DW África: O 25 de Abril correspondeu às suas expectativas?
DW África: O 25 de Abril correspondeu às suas expectativas?
VL: Dir-lhe-ei que sou otimista. Em termos militares, correspondeu. A minha reação imediata quando ouvi "Aqui Posto de Comando" no Rádio Clube Português [o anúncio dos militares revolucionários, que acabavam de assumir o controlo da rádio] foi "ganhámos!". Estava convencido que íamos ganhar.
Além disso, a reação de apoio que tivemos foi incomensuravelmente maior do que aquela de que estávamos à espera, o que nos influenciou decisivamente. Depois, na sua generalidade, as consequências corresponderam ao que eu ambicionava: a solução para a guerra colonial, o direito dos povos à autodeterminação e independência, e, em Portugal, a instalação de uma democracia política, a criação de uma sociedade muito mais justa, mais desenvolvida e o sair do isolamento internacional em que nós estávamos. Infelizmente, isso hoje está tudo a perder-se.
DW África: Ao olhar para o Portugal de hoje, foi esta a democracia que queria quando organizou o golpe de Estado?
VL: A de hoje não. Hoje somos um protetorado, um país ocupado por forças estrangeiras – pela Alemanha principalmente.
Depois, somos um país que foi assaltado por elementos que ocuparam o poder que se mostram como herdeiros dos elementos que foram vencidos no 25 de Abril e atuam como estando a querer vingar-se do que aconteceu no 25 de Abril. Estão a destruir tudo o que podem destruir que cheire a 25 de Abril. Estão a fazê-lo como capatazes das forças estrangeiras. Tem que ver com a situação internacional que se vive, onde o poder financeiro assume, de facto, o domínio da situação e está a destruir por completo tudo aquilo que foi alcançado pela luta dos cidadãos de todo o mundo nestes últimos 200 anos.
Hoje, em Portugal, temos a democracia formal, mas isso não chega. A Justiça não funciona. Todos os avanços que se deram na saúde, educação, segurança social estão a desaparecer. E, por isso mesmo, este não era de maneira nenhuma o país que eu ambicionava quando arranquei para o 25 de Abril.
DW.DE
Falsificação da História - O «exemplo» de uma tese
por MÁRIO PÁDUA
Judith Manya (JM), francesa, defendeu em 19 de Novembro de 2004 a sua tese de doutoramento a que deu o título «O PCP e a questão colonial 1921-1974». O seu trabalho mereceu um prémio da Fundação Mário Soares e não sem razão.
A posição ideológica da autora face ao fascismo fica bem definida ao apadrinhar a incrível fórmula de Manuel de Lucena, embora tal opinião, segundo ela, não tenha conseguido a unanimidade da comunidade científica. Para Manuel de Lucena «o salazarismo é um fascismo sem movimento fascista».
Todavia querendo mostrar a sua imparcialidade recorre bastante ao «Avante!» e a outros documentos do Partido. Citando o «Avante!», série II, n.º 10 de Agosto de 1935: «A nossa posição face a uma nova partilha dos territórios africanos pelo imperialismo europeu é a posição de todo o leninista: lutar contra o imperialismo capitalista, pela libertação dos povos coloniais e em favor do reconhecimento a estes povos do direito a se governarem a si próprios», como analisa a autora esta afirmação? Insinuando oportunismo: «O PCP… de um anti-colonialismo “aproximativo” nos anos 20… em 1935… desenvolveu uma nova argumentação, embora pudesse chocar os seus aliados».
MUEDA - MOÇAMBIQUE
Mais à frente tira conclusões de um artigo do «Avante!», série II, n.º 49, 1.ª semana de Setembro de 1937, sob o título: «Império colonial, império de fome», onde se lê: «Existe maior afinidade entre vós e os Negros, que entre vós e os vossos exploradores brancos. Uni-vos aos Negros, esclarecei-os e lutai juntos pela defesa dos vossos interesses. Combatei unidos os vossos exploradores».
Este apelo, animado do espírito de unidade entre trabalhadores e dirigido ao operariado branco, podia sem dúvida encontrar grandes dificuldades de concretização dada a estrutura de classes numa região em que praticamente todos os brancos gozavam de uma posição privilegiada, mas se há nele ingenuidade também patenteia internacionalismo. JM conclui: «não era de modo nenhum questão de levar à organização política ou associativa das massas africanas: era preciso levar os colonos brancos a guiar os indígenas e a trabalhar mão na mão com eles num combate anti-salazarista».
A propósito do III Congresso do PCP (Novembro de 1943) ela reproduz vários trechos das teses debatidas: «Portugal é ao mesmo tempo uma nação oprimida e um Estado opressor»; «os movimentos nacionais nas colónias portuguesas ainda não adquiriram a forma organizada»; «nós, comunistas, não estabelecemos diferenças de direitos entre “pretos” e “brancos”, entre as populações “atrasadas” das colónias portuguesas e as massas da metrópole reduzidas à escravidão»; «nós, comunistas portugueses, reconhecemos aos povos coloniais o direito de se constituírem em estados independentes»; «nas circunstâncias presentes, esta “concessão” (da independência) representaria a queda das colónias portuguesas sob o domínio de outro imperialismo».
VÍDEO - EMBOSCADA GUINÉ
JM comenta a última frase: «concluir a imaturidade das massas africanas», «Álvaro Cunhal …digno herdeiro do PCP de Bento Gonçalves do “partido bolchevique”…» afirma que «nas colónias há muitas tribos e grupos proto-nacionais que falam idiomas e dialectos diferentes». E JM acusa Álvaro Cunhal de considerar «os povos coloniais como na idade do neolítico ou da Idade Média» e que segundo ele portanto «não há independência sem Nação». JM digna-se então dar lições a Álvaro Cunhal: «o esquecimento dos preceitos marxistas por Cunhal».
A quem ganharia a independência nessa época? À burguesia branca colonialista desejosa de perpetuar o trabalho forçado? Aos impérios vizinhos muito mais poderosos?
Nenhuma força nativa com um mínimo de organização reivindicava então a independência.
Contradições
Em seguida respiga uma declaração do Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista (CNUAF) «o futuro governo provisório defenderá a unidade de Portugal com as colónias» para a associar a uma notícia do «Avante!», série VI, n.º 58, 2.ª quinzena de Julho de 1944 que intitula «O CNUAF tem um programa».
E a propósito garante: «(o PCP) mostrava a maior facilidade em renunciar às suas reivindicações anti-coloniais e outras»… Afirma ainda que «esta renúncia não representou um enorme sacrifício para a direcção do Partido».
No entanto contradiz-se ao reconhecer: «o PCP tentou fazer aceitar algumas reivindicações em favor dos povos coloniais mas falhou dada a versão final adoptada».
Ignora as imposições das organizações e personalidades que só aceitavam trabalhar com o PCP sob condições.
Falando do MUNAF, JM mergulha nas bases políticas relativas às colónias (1944) onde são consignados: o «desenvolvimento da instrução e da cultura», a «promulgação de medidas de defesa dos indígenas». É evidente que não era o nosso programa integral, mas não podíamos isolar-nos. No entanto o PCP nunca renunciou às suas ideias sobre o colonialismo e sempre o proclamou na sua imprensa, como ela aliás refere adiante.
A frase do «Avante!», série VI, n.º 128, 1.ª quinzena de Dezembro de 1948: «os imperialistas americanos tornam-se progressivamente donos das riquezas coloniais de Portugal. Isso corresponde a um pequeno capítulo da obra de traição nacional» deve ser interpretada como a constatação de um processo de submissão que atingia Portugal e as colónias e não como a frustração por se entregarem as riquezas a outros imperialistas, como JM sugere.
Quando O Militante, série III, n.º 33, Novembro de 1944 apela ao desenvolvimento sob o título: «Estabeleçamos a organização do Partido nas colónias» e mais adiante reconhece …«devemos reconhecer que sinceramente o problema da organização do Partido nas colónias portuguesas nunca foi seriamente encarado e continua uma enorme lacuna em toda a actividade do Partido em geral», confirma o apreço que o Partido atribuía ao problema cuja solução não progredia por causa de grandes dificuldades que se esforçou por ultrapassar.
VÍDEO CENAS DA GUERRA
JM usa esta auto-crítica para sentenciar: «o fim não visava criar nem desenvolver um movimento anti-colonial africano nem mesmo PC africanos, mas estender o PC da metrópole às colónias».
E para prová-lo cita o PCP: «as primeiras experiências de lutas de massas dos trabalhadores indígenas sob a direcção do nosso Partido» (…caso da greve dos padeiros de Luanda) ...«Valentes trabalhadores africanos! atentos às vossas lutas o PCP está disposto a apoiar-vos e a orientar-vos, o partido dos trabalhadores brancos e de cor, o partido daqueles que são oprimidos e roubados como vós sois…uni-vos aos trabalhadores brancos, explorados e oprimidos… (um governo) que possa trabalhar para a felicidade de todos sem distinção de raça nem de cor» (relatório ao IV Congresso 1946).
Presunção e preconceito
As realidades nessa época não podem ser avaliadas à luz da evolução posterior em que surgiram os dirigentes africanos.
A partida de Pedro Soares, destacado dirigente do PCP, para Moçambique por três anos, merece-lhe a ignóbil menção de viagem «por razões profissionais». Quanto à existência de outros militantes, por exemplo, em Angola, invoca uma testemunha favorável à sua tese: «alguns funcionários públicos que se diziam comunistas mas eram intelectuais». Sobre as prisões e torturas de que foram vítimas passa uma esponja.
Vasco Cabral informa-a da existência de uma comissão do MUD Juvenil na Casa dos Estudantes do Império (CEI) sob o modelo de célula, composta por Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Guilherme Espírito Santo e ele próprio. JM não hesita em rejeitar a afirmação porque: «nenhuma outra fonte veio corroborar as suas afirmações e além disso a postura do MUD Juvenil em 1953 vai contra isso».
Na conclusão de um dos seus capítulos procura amesquinhar o Partido – embora deixe escapar aqui e ali exemplos que a desmentem: «(o PCP)…cantonou-se então à simples reafirmação nos seus textos do direito à independência e à denúncia da política colonial do Estado Novo»… e afirma atrevidamente: «teria podido todavia militar a favor de uma acção unitária semi-legal na metrópole e preparar ao mesmo tempo a luta armada nas colónias».
Interpreta maldosamente uma declaração de Dias Lourenço: «no seio do MUD Juvenil, os Africanos participavam nas comissões nos seus lugares de estudo»… «como os portugueses, em função das diversas universidades».
Apoia-se nessa frase para confirmar críticas de militantes africanos: ...(o PCP) «nunca compreendeu o “sentimento nacional” que os animava».
Acusação que faz eco de outras. Para um comunista nessa época, militar num partido comunista qualquer era um imperativo. A alguns dos nossos camaradas custava compreender que os jovens oriundos das colónias e que se aproximaram do PCP no fim dos anos 50 e nos anos 60, não estivessem dispostos a lutar ao lado dos comunistas portugueses como estes faziam nas colónias.
Esses nossos simpatizantes participavam em algumas das iniciativas do PCP, mas o seu objectivo principal era mobilizar os seus conterrâneos para a futura luta que já se adivinhava e queriam também definir as metas para o post-independência.
No caso daqueles com quem eu contactava, o Partido, através do João Honrado, depressa percebeu e aceitou a situação. JM afasta esse trabalho na clandestinidade que deu não poucos quadros, formados na CEI, em contacto com comunistas portugueses.
Mas a autora é incansável: «o PCP parecia dormir sobre os seus louros e satisfazer-se com a sua posição “histórica” de 1943». «No V Congresso do PCP em 1957 Jaime Serra sob o pseudónimo de Freitas reconheceu o direito à independência imediata e sem condições das colónias da África Portuguesa».
E JM ironiza: «Se esta fórmula já tinha surgido em 1934, desta vez o texto não se perdeu nos meandros da história, tornou-se referência na matéria» …«tinha concluído ser necessária a criação de Partidos comunistas autónomos nas colónias, mas refutado a auto-organização dos militantes coloniais na metrópole». Como expus atrás, a última frase não passa de uma mentira.
VÍDEO - ALUNOS NUM TRABALHO DE 3 SEMANAS
«Quanto à realização dos objectivos do partido nas colónias o balanço continua magro» – julga JM. Não lhe importam os militantes presos e torturados em África, sobre os quais podia, se quisesse, obter informação detalhada. Não percebeu tão pouco que a situação nas colónias – dada a clivagem racial quase coincidente com a classe – onde dominavam relações de produção semi-esclavagistas ditava a fase de libertação nacional e não favorecia a criação de um partido comunista baseado em militantes europeus.
E termina o capítulo com um julgamento completamente fora da realidade para quem viveu a luta antifascista antes do 25 de Abril: «foi com a imagem de um combatente que pouco combateu que o Partido se envolveu no processo revolucionário e de descolonização depois da formação da Junta de Salvação Nacional baseada no programa do MFA».
Massacres são «exacções»
JM relata que em Setembro de 1960 num artigo intitulado «Como Salazar responde aos legítimos representantes do povo de Angola», o Partido apoiou as reivindicações do MPLA ao governo português: «a total e incondicional amnistia de todos os prisioneiros políticos, a retirada das forças armadas portuguesas, a convocação em fins de 1960 de uma mesa redonda para negociar o fim do domínio colonial.»
Para neutralizar essa posição JM vai buscar o programa de 1958 de Humberto Delgado retomado em seguida pelo Movimento Nacional Independente (MNI) em que defendia a unidade do império. Todavia vê-se obrigada a reconhecer que «o Partido lembrou, além disso, que os nacionalistas se lançavam na luta armada para conquistar a independência após a recusa de Salazar em convocar uma mesa redonda».
E, em Fevereiro de 1961 – diz ela – «ele (...o PCP) apelou igualmente aos soldados, marinheiros e aviadores a desobedecer» e JM completa «terminou o artigo pelas palavras de ordem que ia martelar até 1974»: «Nem mais um soldado para as colónias!». «Regresso das tropas!». «Negociações com os verdadeiros representantes dos povos das colónias!». «Abaixo a guerra colonial!».
O que suscita suspeitas a JM é que o PCP não fazia referência à revolta da Baixa de Cassange desencadeada em Novembro-Dezembro de 1960 e que teve o seu apogeu no começo de 1961. Desta vez porém – o contrário seria excessivo – limita-se a considerar que «as suas informações vinham primeiro que tudo da rede do MPLA ou de brancos liberais das associações luandenses». O termo «liberais» visa desvalorizar as ligações ao PCP.
No entanto reconhece: «Em Março de 1961 o PCP apelou ao levantamento em massa contra a ditadura fascista para obter o fim da “guerra injusta contra o heróico povo de Angola”».
Contrariando afirmações anteriores escreve: «de resto o desencadear da luta armada pelos militantes que o Partido tinha conhecido (MPLA, PAIGC, FRELIMO) …contrariamente ao PC francês que se mostrou estranho ao FLN argelino…».
Como se relacionara então o PCP com os militantes das colónias? Eufemisticamente chama-lhe encontros – o que na clandestinidade tinha significado: «os encontros entre Africanos e Portugueses continuavam apesar do MUD Juvenil já não existir». «Eles contactavam através do “sector anti-colonial” do PCP e do seu jornal “Anti-colonial”».
Um jornal clandestino não é fácil de imprimir e difundir. Facto para ela irrelevante.
Reconhece que «O PCP no seu opúsculo “O PCP e a guerra colonial” editado em Fevereiro de 1961» recapitula as informações já divulgadas nos seus comunicados e imprensa regular sobre as exacções perpetradas em S. Tomé 1953; Bissau 1959; Icolo Bengo 1960; Luanda 1961) e sobre a existência de campos de prisioneiros em Timor e Angola… defendeu pois o direito à auto-determinação e independência para as colónias portuguesas”». Notar que esta insigne defensora dos colonizados classifica os massacres de «exacções».
JM refere o manifesto de Octávio Pato «Contra o oportunismo», apresentado em Agosto de 1961 no tribunal da Boa-Hora: «li uma tarjeta da Organização Regional da Beira Litoral do nosso Partido, datado de Maio, no qual a libertação de Angola era defendida pela sua capacidade em “tornar um mercado para os nossos amigos”»…«e proponho que esta grave manifestação de oportunismo seja criticada e discutida na nossa imprensa». Como se vê há comunistas que erram e que por isso são censurados, mas a autora só retém o erro para denegrir o Partido que o rejeitou.
E resume: «publicou (o PCP) numerosas denúncias e ajudou à publicação do jornal Anti-colonial. Todavia se planificou e realizou a evasão de Agostinho Neto e de Vasco Cabral em Junho de 1962, as suas implicações concretas na luta anti-colonial verificaram-se no conjunto limitadas»
Esquece a formação de quadros, a importância do jornal Anti-colonial, a fuga dos dois dirigentes africanos – um dos quais foi o fundador da Nação angolana – a informação ao povo português sobre a guerra e os massacres, etc., etc..
Ignorância e má-fé
A acusação seguinte revela imensa ignorância ou má-fé: «contrariamente ao que acreditam muitíssimas testemunhas dessa época, mesmo nas fileiras do PCP, as evasões de militantes africanos ou de opositores portugueses não comunistas que queriam escapar às perseguições ou ao exército ..., muito pouco ficaram a dever às redes do Partido». Só quem nem uma pálida ideia tem das regras na clandestinidade pode estranhar essa cautela.
Censura o «destruído» PCP por não proporcionar a saída aos milhares de refractários?
Não passava pela cabeça de nenhum antifascista exigir ao Partido a sua transferência para França...
Passemos ao tema da deserção. A nossa doutora estigmatiza: «o Partido defendia a organização de deserções colectivas quando numerosos militantes da Oposição pediam a deserção individual. O Partido perdeu assim o seu crédito junto da juventude».
VÍDEO REPÓRTERES RTP A BRAÇOS COM A CENSURA
Vejamos o comunicado do Comité Central do PCP que ela reproduz («Avante!», série VI, n.º 382, Setembro de 1967): «os militantes comunistas devem trabalhar para estimular e organizar as deserções. Mas eles próprios não devem desertar ou somente se acompanharem uma deserção colectiva ou se correrem o risco eminente de serem feitos prisioneiros sob pretexto da sua actividade revolucionária. O CC considera que numerosas deserções de membros do Partido, ainda que integradas na resistência e protesto contra o governo, não foram favoráveis ao desenvolvimento e à organização do movimento revolucionário. Se todos os elementos revolucionários abandonassem as Forças Armadas estas converter-se-iam num instrumento dócil e mais eficaz da política fascista».
O teor do comunicado não vai contra as deserções de que se registou grande número em Portugal, não nas colónias, onde seria um acto com poucas garantias de sobrevivência salvo perto de certas fronteiras. Os refractários, isto é, aqueles que não se apresentavam à convocação para o serviço militar e que podemos assimilar a desertores foram já avaliados em centenas de milhar.
Essa fuga enfraqueceu o regime, mas não é menos óbvio que os comunistas fizeram um trabalho de conscencialização importante na guerra.
Sobre a entrevista que lhe dei ela avalia mal o significado das minhas palavras: «em Luanda só a iniciativa pessoal me permitiu preparar a minha deserção». Mas com que outras iniciativas devia eu contar? Se muitas vezes ela conclui que o Partido está arrasado, noutras parece esperar dele um poder providencial.
Quanto à minha ajuda profissional como médico ao PAIGC, visto que o MPLA não tinha ainda condições para incluir nessa altura um desertor nas suas fileiras, omite-a.
Depois de mais uma anunciada derrocada do PCP, JM promove outras organizações para o substituir: a OCMLP (Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa), a URML (União Revolucionária Marxista-Leninista). E exulta: «Esta corrente marxista-leninista possuía uma capacidade fenomenal de mobilização nos círculos estudantis». Sobre o carácter efémero dessas grandes organizações não se pronuncia.
VÍDEO INAUGURAÇÃO DO MONUMENTO AOS MORTOS
Alonga-se sobre a FPLN (Frente Popular de Libertação de Portugal), descreve os seus principais membros, as tempestades internas com os esquerdistas e com o general Delgado, a chamada reorganização em Setembro de 1970 durante a qual os dissidentes em memorando reprovam ao PCP «os seus métodos antidemocráticos, a travagem de núcleos da FPLN no interior de Portugal, o de tentar apropriar-se da rádio Voz da Liberdade e de ter imposto Pedro Soares à Conferência de Roma de solidariedade com Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe (Junho de 1970)». Quando quem foi expulso da FPLN e da sua rádio foi o PCP.
Manobras e calúnias
Ensaia ainda uma intriga em torno das «más relações entre o PCP e o MPLA», por causa de falhas no fornecimento de armas ao MPLA por Moscovo, más relações de que não apresenta porém provas credíveis.
Aplica-se em seguida a enlamear e rebaixar a acção da ARA (Acção Revolucionária Armada): «(o PCP) impulsionou (a ARA)... alguns anos demasiado tarde para remediar ao divórcio que surgiu entre ele (o PCP) e uma grande parte da juventude portuguesa».
JM retoma assim o fio do discurso: «O sobressalto obriga o PCP a constituir a ARA». E neste capítulo JM demonstra mais uma vez a sua capacidade para inverter a realidade: «A ARA não suplantou necessariamente os seus dois rivais. No entanto a implantação do PCP (simpatizantes ou militantes) revelava-se mais extensa geograficamente do que a da LUAR e das BR (Brigadas revolucionárias) que se concentravam nas três grandes cidades». Por outro lado «as acções da ARA conheceram através do PCP uma repercussão nitidamente mais importante».
Procura infundir no leitor a impressão de que ARA, LUAR e BR eram quase a mesma coisa em termos de actividades, beneficiando a ARA da publicidade pelo PCP.
Porém quando contabiliza as acções dos três grupos atribui à LUAR o ataque ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, nenhuma acção às BR e uma extensa lista para a ARA, desde a destruição à bomba de três dezenas de helicópteros e aviões militares até numerosas outras acções contra a guerra.
VÍDEO HERÓIS DE NAMBUDE
De mau grado, JM desabafa: «Para surpresa geral o PCP assumiu a paternidade da ARA». De facto para quem tinha sucessivamente anunciado o enfraquecimento do PCP, a sua morte, a perda de prestígio, a alienação da juventude, etc., foi uma desagradável surpresa. Depois de vários malabarismos faz subentender uma calúnia: «Jaime Serra foi membro do comando central da ARA e com esse título publicou o livro»… «Pode ser considerado como a voz oficial do Partido pois que era ainda militante do partido nesse ano». Jaime Serra continua a orgulhar-se da sua qualidade de militante, ao contrário do que a frase «era ainda» sugere. Trata-se de uma manobra desonesta para desligar o Partido da ARA. De resto para analisar a ARA, selecciona cuidadosamente os membros que se demitiram do PCP.
Insensível ao ridículo acha que o PCP devia determinar a sua actividade pela opinião dos estranhos e procede a um julgamento de intenções.
Para cúmulo da desfaçatez, arvora-se em defensora da pureza comunista: «esta leitura da história do PCP até à véspera da Revolução de 25 de Abril de 1974 conduzida através do estudo da política colonial do partido ilumina a dificuldade dele desenvolver uma política comunista e uma real linha anti-colonial. A análise das suas posições sobre as colónias revela uma sucessão de “fracassos históricos” perceptíveis no carácter hesitante dos princípios afixados e timorato quanto às acções realizadas».
Não foi porém essa a resposta da História e em particular dos dirigentes africanos que dirigiram a luta dos respectivos povos.
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As «eleições» e a guerra
Nas «eleições» de 1969, a guerra colonial, então particularmente acesa em Moçambique e na Guiné, foi o principal separador das posições das duas agregações oposicionistas – a CDE reproduzia o posicionamento do PCP e apostava forte na denúncia máxima e possível da guerra colonial com partido implícito pelos movimentos de libertação; a CEUD evitava referir o tema e quando este era incontornável procurava um posicionamento não radical sobre a guerra e punha em cima da mesa a quimera retórica de defesa de «autonomias». Nas «eleições» seguintes, as de 1973, já a oposição se apresentou unificada e o posicionamento acerca da guerra colonial, entretanto agravada, retomou o essencial das posições da CDE de 1969.
A guerra colonial era, para o regime, a grande questão política tabu. Caetano, por convicção e pela pressão dos ultras nacional-colonialistas entrincheirados atrás do Presidente Tomás, continuava o dogma-mito herdado de Salazar: «não discutir o Ultramar», continuar a guerra. Então, colocar sequer a questão da guerra colonial, discutindo saídas para ela, mesmo que tímidas, configurava uma traição à pátria. Tal não era sequer permitido durante as «campanhas eleitorais» (se tal fosse feito, e normalmente era-o no último discurso, o representante das «autoridades» intervinha e fazia terminar a sessão, a que se seguia, por regra, uma carga policial). Mas Caetano não só prosseguiu a guerra colonial, como o fez recorrendo a «operações sujas» e outras em larga escala perante o progressivo agravamento das situações militares em Moçambique e na Guiné, gerando uma dinâmica de «tudo ou nada». E, nesta via, aprofundou-se a «fusão», na máquina de guerra colonial, entre a polícia política (PIDE) e o exército colonial. Logo no início de 1969, pouco tempo depois de Caetano suceder a Salazar, o então líder da Frelimo (Moçambique), Mondlane, foi assassinado na Tanzânia através de uma encomenda-bomba, o que desencadeou não só uma crise na Frelimo como uma atribulada luta pela sucessão na liderança. E, no ano seguinte, Kaulza de Arriaga (comandante-chefe) montou uma das operações militares mais gigantescas e recheadas em meios humanos e militares ocorridas na guerra colonial, a operação «nó górdio». Em resultado final, a Frelimo expandiu a sua área de intervenção guerrilheira em Moçambique. Na Guiné, Caetano deu luz verde a Spínola e à PIDE para uma das mais vastas e custosas operações de tentativa de aliciar e corromper uma das frentes do PAIGC, ocorridas no norte no «chão manjaco», e que terminou em Abril de 1970 quando os guerrilheiros atraíram a uma cilada um grupo de elite dos oficiais do exército português, massacrando-o. Spínola e a PIDE, com o acordo prévio de Caetano, reagiram no final de 1970 através de uma operação com grandes meios («mar verde») de invasão da Guiné-Conacry e que tinha, entre os objectivos, assassinar o Presidente deste país (Sekou Touré) e colocar um «partido amigo» no poder, assassinar Amílcar Cabral e o núcleo dirigente do PAIGC (sediado em Conacry), destruir a força aérea e a frota naval guineense, libertar os prisioneiros militares portugueses. Só o último objectivo foi alcançado (mas a troco de um número ainda maior de «comandos africanos» deixados no terreno e posteriormente fuzilados). Em 1973, como culminar de uma operação de infiltração da PIDE, foi conseguido o velho objectivo de assassinar Amílcar Cabral. A este desaire, a perda do seu líder carismático, o PAIGC respondeu, através de novo e sofisticado armamento, com a prática neutralização do domínio do espaço aéreo pelo exército colonial e declarar a independência unilateral da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecida por dezenas de países membros da ONU.
VÍDEO - GUERRA NA GUINÉ
Todos estes factos, na sua maioria iniciativas de «guerra suja» desenvolvidas em íntima colaboração entre a PIDE e as forças armadas e apoiadas por Caetano, pelos seus fracos ou nulos resultados, quando não fazendo pender a balança da guerra ainda mais para o lado dos guerrilheiros, tornaram grande número de oficiais profissionais não só descrentes quanto à possibilidade de saídas para a guerra e colocando as derrotas no horizonte, como receptivos a uma argumentação política contra a guerra colonial e que recebiam de duas fontes: uma, a das «campanhas» da CDE de 1969 e 1973 (e dos congressos da «oposição democrática» realizados nos mesmos anos em Aveiro); outra, a influência e agitação de muitos oficiais milicianos colocados na guerra colonial e que tinham adquirido posições frontais relativamente a estes conflitos nas referidas «campanhas da CDE» e nas lutas estudantis. O MFA e a Revolução foram questões de decantação e tempo. Afinal, a campanha contra a guerra colonial, limitada mas valentemente veiculada pela CDE, sobretudo nos «períodos eleitorais» de 1969 e 1973, que a CEUD não quis em 1969 e Caetano mandou a PIDE reprimir sempre, acabou por chegar aos seus destinatários principais – os capitães e majores que faziam a guerra em África, transformando, num curto período de tempo, oficiais colonialistas em militares revolucionários.
Nota pela memória:
Um dos paradoxos cruéis deste contexto vivi-o em proximidade. Colocado em 1969 no «chão manjaco» da Guiné, lidei e tornei-me amigo do oficial mais brilhante da «nata militar» que Spínola tinha ali colocado na atrás referida operação de corrupção do PAIGC (Major Passos Ramos, oficial de Artilharia e do Corpo de Estado Maior). Era, não só um dos oficiais mais brilhantes do exército português, um homem culto, generoso e cordial, como um oposicionista declarado ao fascismo e ao colonialismo. Enquanto na metrópole decorriam as «eleições de 69», sempre que nos encontrávamos em Teixeira Pinto, trocávamos as informações que cada um tinha disponíveis pelo correio com as famílias ou obtidas em férias sobre o andamento da campanha da CDE. Metidos no mato profundo da Guiné, alimentávamos assim uma espécie de tertúlia oposicionista que acompanhava a luta dos que na metrópole defrontavam o regime na «farsa eleitoral» e demarcados dos crentes nas «boas intenções» de Caetano. Passos Ramos foi um dos oficiais portugueses barbaramente chacinados pelo PAIGC em Abril de 1970 perto do Pelundo. Como profissional militar de elite, cumpria ordens de chefias que lhe repugnavam politicamente. Era contra a guerra e fazia a guerra, como tantos outros até que a resolução da contradição levasse à conquista do Carmo. Estando desarmado, Passos Ramos, juntamente com mais três outros oficiais, baqueou de uma forma indigna que nenhum homem merece – arrastado, esfaqueado, retalhado e metralhado – às mãos do inimigo que profissional e militarmente queria vencer servindo um regime que politicamente combatia. Não só as revoluções, também a guerra procura devorar os melhores.
Um dos paradoxos cruéis deste contexto vivi-o em proximidade. Colocado em 1969 no «chão manjaco» da Guiné, lidei e tornei-me amigo do oficial mais brilhante da «nata militar» que Spínola tinha ali colocado na atrás referida operação de corrupção do PAIGC (Major Passos Ramos, oficial de Artilharia e do Corpo de Estado Maior). Era, não só um dos oficiais mais brilhantes do exército português, um homem culto, generoso e cordial, como um oposicionista declarado ao fascismo e ao colonialismo. Enquanto na metrópole decorriam as «eleições de 69», sempre que nos encontrávamos em Teixeira Pinto, trocávamos as informações que cada um tinha disponíveis pelo correio com as famílias ou obtidas em férias sobre o andamento da campanha da CDE. Metidos no mato profundo da Guiné, alimentávamos assim uma espécie de tertúlia oposicionista que acompanhava a luta dos que na metrópole defrontavam o regime na «farsa eleitoral» e demarcados dos crentes nas «boas intenções» de Caetano. Passos Ramos foi um dos oficiais portugueses barbaramente chacinados pelo PAIGC em Abril de 1970 perto do Pelundo. Como profissional militar de elite, cumpria ordens de chefias que lhe repugnavam politicamente. Era contra a guerra e fazia a guerra, como tantos outros até que a resolução da contradição levasse à conquista do Carmo. Estando desarmado, Passos Ramos, juntamente com mais três outros oficiais, baqueou de uma forma indigna que nenhum homem merece – arrastado, esfaqueado, retalhado e metralhado – às mãos do inimigo que profissional e militarmente queria vencer servindo um regime que politicamente combatia. Não só as revoluções, também a guerra procura devorar os melhores.
(Adaptado de um post publicado no Água Lisa)
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