AVISO

OS COMENTÁRIOS, E AS PUBLICAÇÕES DE OUTROS
NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO ADMINISTRADOR DO "Pó do tempo"

Este blogue está aberto à participação de todos.


Não haverá censura aos textos mas carecerá
obviamente, da minha aprovação que depende
da actualidade do artigo, do tema abordado, da minha disponibilidade, e desde que não
contrarie a matriz do blogue.

Os comentários são inseridos automaticamente
com a excepção dos que o sistema considere como
SPAM, sem moderação e sem censura.

Serão excluídos os comentários que façam
a apologia do racismo, xenofobia, homofobia
ou do fascismo/nazismo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Quando a droga era uma coisa de elites...




    Álvaro de Campos em 1914, heterónimo de Fernando Pessoa legou-nos em poesia - o Opiário - um relato muito explícito sobre os efeitos do ópio e perfil do opiómano:

É antes do ópio que a minh' alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

    Ou ainda:

A vida a bordo é uma coisa triste
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
Eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

    Sem colocar a questão de saber se a biografia do autor explica ou não a sua obra, Pessoa, com o seu Opiário deu um grande contributo para avaliar o grau de conhecimentos que naquela época se tinha sobre a dependência de uma substância tão adictiva, o que se compreende melhor no contexto das relações privilegiadas que Pessoa manteve com personalidades ligadas a Macau e ao meio britânico, onde o consumo de ópio estava bastante arreigado.
   
 Fernando Pessoa conheceu de perto as vicissitudes a que se expõem os consumidores de ópio, o que lhe permitiu reconstituir com fidelidade a trajectória tipo do verdadeiro opiómano.
    
Também Mário de Sá Carneiro (1890-1916) deixou elementos suficientes nas suas obras ("Confissão de Lúcio", "Céu em Fogo", "Dispersão", "Indícios de Ouro") para se poder suspeitar que o interesse pela droga teria contribuído para acelerar "uma espécie de delírio poético" (Simões, 1940), prelúdio das fantasias auto-destrutivas, que se consumaram no suicídio quando tinha 26 anos de idade. 

No poema "Álcool" são os vocábulos 'droga', 'ópio', 'morfina' que, metaforicamente melhor exprimem o seu estado de espírito:

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio, nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

    Camilo Pessanha (1867 - 1926), um dos maiores poetas simbolistas portugueses, foi dependente do ópio até à hora da morte, aos 59 anos em Macau, vítima de tuberculose. 
Da sua obra, destaca-se o poema Branco e Vermelho, onde o poeta descreve o estado de privação dos opiómanos:

Até ao chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.

    De igual, o efeito de béance que o consumo do ópio provoca, é ilustrado nas seguintes estrofes:

Como um deserto imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.


    Camilo Pessanha assumiu publicamente a sua dependência, em carta dirigida a Trindade Coelho, parcialmente transcrita no "Diário de Notícias" onde o poeta confessava abertamente o seu vício: «de regresso a casa, deitei-me, segundo o costume ao comprido - perinde ac cadaver - remirar-me no bom acabamento da obra feita. 

Naturalmente, enquanto Águia de Prata ia preparando e dando-me a inspirar o inefável tóxico consolador produzia-se a pouco e pouco em mim esse delírio lúcido, dizem, da intoxicação pelos hipnóticos, em que sem perder a consciência da situação em que se está se evoca no espírito com absoluta fidelidade e perfeita nitidez, uma outra situação, em outro lugar ou em outro tempo, como se vivesse simultaneamente das vidas muito distantes uma da outra.»

www.fcsh.unl.pt

Sem comentários: