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sábado, 16 de fevereiro de 2019

JAIME DA MANTA BRANCA - POETA POPULAR - NÃO VEJO SENÃO CANALHA


Sábado, 21.02.15
viladecano.blogs.sapo.pt 



Jaime Velez, mais conhecido por Jaime da Manta Branca, natural de Benavila, onde nasceu a 30 de Julho de 1894, veio muito novo, com 7 ou 8 anos, viver com a família para o Cano..

A vida de Jaime da Manta Branca seria uma vida como tantas outras, vergada ao peso do trabalho sob um sol escaldante... Seria, de facto,  uma vida sem história, se não tivesse nascido com ele o dom de versejar como quem fala.

E cantava, cantava sempre enquanto trabalhava, e nas feiras, nas tascas, ou ainda nos casamentos para que era especialmente convidado, a fim de os animar com o seu estro de repentista.

Foi no Cano, onde as casas eram baixinhas e de branca cal, e o sol abrasador, que o poeta ganhão se movia, improvisava e cantava.

A voz rouca e a faculdade de improvisador valeram-lhe a admiração de quantos o escutavam. O nosso poeta-ganhão cantava em tom de fado, e acompanhado à guitarra, utilizando um vocabulário regionalista, deste Alentejo que é, sem dúvida, a província portuguesa mais decantada em prosa e verso.

Paulatinamente a sua voz foi-se esbatendo, até que a 2 de Maio de 1955, na Vila de Cano, lugar que ele tanto amou, e no palheiro onde dormia, no Rossio, morria queimado o poeta ganhão que tragava copos de vinho para esquecer o trago amargo da vida...


NÃO VEJO SENÃO CANALHA
DE BANQUETE PARA BANQUETE,
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA
COME AÇORDAS SEM "AZÊTE"

Ainda o que mais me admira
E penso vezes a miúdo: (1)
Dizem que o Sol nasce para tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha,
Até diz que o põe à calha (2)
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA!

Quem passa a vida arrastado
Por se ver alegre um dia,
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no bote e "dête". (3)
Antes que o pobrezinho "respête" (4)
Tratam-no sempre ao desdém
E vê-se andar, quem muito tem,
DE BANQUETE PARA BANQUETE.

É um viver tão diferente
Só o rico tem valor.
E o pobre trabalhador
Vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
E a miséria o atrapalha;
Leva no peito a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA

Feliz de quem é patrão
E pobre de quem é criado
Que até dão por mal empregado
O poucochinho que lhe dão.
Quem semeia e colhe o pão
Não tem aonde se "dête", (5)
Só tem quem o "assujête" (6)
Para que toda a vida chore,
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM "AZÊTE" "

ANOTAÇÕES:
(1) a miúdo – a miúde.
(2) à calha – na rua.
(3) no bote e dête – nos copos respête – respeite
(5) dête - deite
(6) assujête – assugeite, subjugue.



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Monumento a Jaime da Manta Branca, inaugurado a 1 de Agosto de 1987

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