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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A ESPARRELA DA RELIGIÃO

A esparrela da religião
O debate sobre o uso dos burquínis prossegue em simultâneo com a guerra na Síria. Naturalmente, é mais fácil opinar sobre os primeiros do que sobre a segunda, de que a maioria de nós não sabe pronunciar sequer os nomes dos grupos em confronto. A confusão é tanta e tão tamanha que a Turquia, por exemplo, decidiu bombardear ao mesmo tempo o ISIS e os tipos que combatem o ISIS - os curdos.
Entretanto, na Europa, no Sul de França, e na consequência do recente atentado em Nice onde foram mortas 86 pessoas e feridas mais de 400, somado ao recrudescimento do radicalismo islâmico particularmente forte naquela região, algumas câmaras avançaram com a proibição do burquíni nas praias, considerado este como uma provocação e uma forma de afirmação ostentatória da menoridade das mulheres e da ignomínia que significa a exibição do seu corpo.
Rapidamente a questão se transformou num debate sobre direitos, com a evocação da islamofobia a ganhar terreno (e claro que as relações do país com a Arábia Saudita ou o encerramento o ano passado de uma praia francesa ao público pelo rei saudita, incluindo a mulheres que nem de burqa, vieram mais uma vez a lume). Como sempre achei desde o início, o tiro arriscava-se a sair pela culatra.
O burquíni, que é de facto a afirmação de um estatuto inaceitável para as mulheres (que o digam as marroquinas e tunisinas que vêm alertando para as ligações perigosas entre o burquíni e o aumento do islamismo radical nos seus países), rapidamente se transformou, aliada a propaganda à ignorância, numa peça de roupa como as outras, comparável aos fatos de mergulho ou de surf, sem diferenças substantivas com as sete saias da Nazaré, T-shirt molhadas ou os hábitos das pobres freiras (que há muito tempo, talvez desde a morte de Teresa de Calcutá, não via serem referidas com tanto respeito e consideração).
Era previsível. O Ocidente, habituado - e bem - às suas liberdades e garantias, tem dificuldade em perceber que um traje de praia possa não ser um traje de praia, apesar de há muito René Magritte ter acrescentado ao seu quadro "A Traição das Imagens", ceci ce n'est pas une pipe.
Pois é isso mesmo: o burquíni não é um fato de banho. O burquíni não é uma peça de roupa para mulheres obesas, tímidas ou com epidermes sensíveis ao sol. O burquíni é uma peça de roupa para mulheres a quem Alá, ou os homens da família, disseram que seria vergonhoso mostrarem um centímetro que fosse do seu corpo, com excepção das mãos, pés e rosto e já vão com sorte porque há famílias e países onde nem isso (assim sendo, parece-me de uma futilidade absoluta, para além de uma especiosa lógica, vir falar de mulheres livres que vestem o que quiserem e é lá com elas...).
Dito isto, sejamos pragmáticos: a quem interessa a proibição do burquíni? Pelos vistos à propaganda insidiosa do islamismo radical que já começou a vencer com títulos como: "Mulher muçulmana é obrigada a despir-se em público!" Permitam-se que seja menos inocente. Se as fotografias da praia em Cannes não foram encenadas (e outras se seguirão certamente, assim dure o Verão e a época balnear...), muito o parecem ter sido. Uma mulher muçulmana, verdadeiramente respeitadora dos princípios em que assenta o uso de um burquíni, nunca aceitaria despir em público a roupa que a cobria, ser fotografada e correr mundo com partes do corpo à mostra. Onde quero chegar? Que antes de ser religioso, o problema é político, como a cena de Cannes demonstra. Ao insistir na religião, o Ocidente mete os pés pelas mãos, descura o problema político e entala-se alegremente.
Proibir trajes de praia é um disparate que só favorece a vitimização e dá argumentos ao inimigo (sim, porque há um inimigo, não tenhamos ilusões delicodoces).
Entretanto, parafraseando Kafka, "A Síria continua em guerra, à tarde, piscina". Para quem pode, de bikini.

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