Um dia, em uma pequena ilha, os escravos se rebelaram contra
os senhores, tomaram controle de suas vidas e o mundo nunca mais
foi o mesmo. É impossível exagerar a influência da Revolução Haitiana
nos rumos da História ocidental.

O Haiti foi a segunda nação do hemisfério ocidental a se tornar
independente.
A Revolução Haitiana não ser parte do currículo obrigatório de
História é um absurdo. Ela foi um dos acontecimentos mais decisivos
e marcantes da história mundial. Sem conhecer a Revolução Haitiana, não
dá pra entender NADA sobre a História das Américas no século XIX.
Aliás, não dá pra entender nem mesmo a Revolução Francesa e as fraturas
internas do projeto liberal-iluminista. Tudo o que se tentou e
(mais importante) se deixou de tentar politicamente nas Américas foi em
função da Revolução Haitiana.
Em cada discussão, em cada conversa, em cada debate no Plenário, no
Chile e no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos, depois de muito
hesitar, alguém sempre mencionava o grande bicho-papão:
"Mas... e o Haiti?"
Sem ler a literatura da época, fica difícil de quantificar o quanto a simples
existência da revolução haitiana mudou tudo no curso da história política
e econômica das Américas.
Durante as guerras de independência latino-americanas, e durante os posteriores
debates abolicionistas, o Haiti era o grande bicho-papão:
debates abolicionistas, o Haiti era o grande bicho-papão:
Como fazer a independência sem haitizar o país?
Como dar liberdade aos negros de modo que não saíssem queimando
tudo e degolando os brancos? Na dúvida, melhor ser conservador, fazer
a coisa aos poucos.
É bom não facilitar com essa negrada bárbara.
A política brasileira do deixa-disso, do não fazer nada, do esperar pra
ver, que fez com que fôssemos a última nação livre do Ocidente a abolir
a escravidão, é consequência direta do medo que nossa elite tinha do Haiti.

Toussaint de L'Ouverture, chefe da revolução, foi um daqueles grandes
líderes que só aparecem de séculos em séculos. Derrotou os exércitos da
Grã-Bretanha, Espanha e França - algumas vezes lutando juntos contra ele.
Unificou e libertou seu país. Foi inteligente, sensato, conciliador, decisivo.
E, como tantos grandes homens (penso em Viriato, outro grande líder
esquecido), foi morto à traição, pois não conseguiam derrotá-lo no campo
de batalha.
Infelizmente, depois de sua morte, as coisas saíram do controle, houve
massacres indiscriminados e destruição extensiva de propriedades - justamente
os engenhos de açúcar que, por um lado, simbolizavam a escravidão
mas, por outro, representavam a riqueza do Haiti.
O país mergulhou no caos e na pobreza e, hoje, duzentos anos
depois, continua pobre e instável.
Mas livre.
papodehomem.com.br
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