São Brás de Alportel pode não ser o mais imediato destino turístico algarvio, mas esta vila situada entre a serra e o mar possui muitos encantos escondidos. Os estrangeiros têm vindo a descobri-los e a potenciá-los. Está na hora dos portugueses fazerem o mesmo
Toda a gente sabe que os ingleses sempre gostaram do Algarve. O sol, a praia, a comida, o custo de vida, são inúmeras as razões para que os súbditos de Sua Majestade venham gozar a reforma junto ao mar. Mas já nem só de ingleses e do litoral vive a região, sendo cada vez mais os estrangeiros que se afastam do Oceano em direção ao interior, rumo a aldeias e vilas onde o tempo não parou, mas que continuam a conservar muitas das características que o turismo de massas parece ter engolido.
Como São Brás de Alportel. Um pouco por toda a vila vêem-se pequenos grupos de estrangeiros, sobretudo dinamarqueses. A maioria fica instalada na antiga Pousada de Portugal, edifício que depois de três anos de gestão do grupo Pestana e quatro de abandono, por falta de viabilidade financeira, funciona desde 2014 como um aparthotel de 34 quatros comercializado no mercado dinamarquês. Formam uma espécie de comunidade, mas não se fecham em casa. Frequentam as lojas, os cafés e os restaurantes.
Frank e Veronique não são dinamarqueses, mas também eles têm ajudado a dinamizar a terra. A história não é original (um dia vieram de férias e apaixonaram-se pelo Algarve interior), mas vale a pena ser contada, até porque dessa paixão nasceu um dos mais bonitos alojamentos de charme da zona: Farmhouse of the Palms. Belgas, a viver em Antuérpia, trabalhavam ambos na banca e a vida não lhes corria propriamente mal, ainda assim não hesitaram em deixar tudo para trás quando encontraram a casa dos seus sonhos, uma antiga quinta senhorial com 200 anos. Fica localizada a poucos minutos da vila, na colina Cerro do Botelho, com vista panorâmica sobre o vale e sobre São Brás.
Meteram mãos à obra e fizeram um Bed & Breakfast tão simples quanto sedutor. "Este o quarto mais pequeno" diz-nos Frank, mostrando uma das habitações no piso térreo. Poderia ser uma suíte, uma boa suíte, em muitos hotéis. Cinco quartos no total com terraço privativo e uma decoração (aparentemente) simples, onde sobressai o uso da pedra, a madeira, o branco. Há várias camas, redes e áreas lounge espalhados e uma piscina forrada com mosaico preto. Por momentos julgamo-nos na Grécia, em Itália. Um erro. Portugal, o Algarve interior é isto.
O mesmo Algarve que Gudrun Tschiggerl procurou. Uma austríaca que está em Portugal há 36 anos, foi diretora de hotel em Lisboa, trabalhou também no litoral algarvio, mas há alguns anos encontrou em Fonte da Mesquita, a cinco minutos de São Brás, o seu refúgio. Recuperou um antigo lagar de azeite e transformou-o num restaurante que junta técnicas contemporâneas com os sabores e saberes da região, como um bife de atum, um lombo de bacalhau ou um chambão de borrego à moda de África com especiarias e abóbora assada. Muitos dos clientes também são estrangeiros e trazem consigo guias para fazer caminhadas. Um dos percursos passa mesmo pelo restaurante. Nove quilómetros por entre rosmaninhos e alfarrobeiras, numa explosão de verde que apanhará desprevenidos todos aqueles que acharem que o azul é a cor oficial da região.
Mas nem só de forasteiros se faz São Brás de Alportel. Bem pelo contrário. É neste cruzamento entre os que vêm de fora e a essência da terra que está muito do encanto da vila. É um ponto de confluências. Bem no centro a estrada nacional N2 (que liga Chaves a Faro, o norte ao sul do país) cruza-se com a N270, via que tanto nos pode levar para Loulé como para Tavira. Sobe-se ao Miradouro do Alto da Arroteia, a 368 metros de altitude e vê-se o mar, o barrocal, a serra do Caldeirão. "Porta aberta à Serra, janela sobre o mar" é um dos slogans, um dos lemas da vila.
É verdade que há primeira vista não parece haver muito para fazer, um imponente centro histórico, uma obra arquitetónica de grande vulto, mas uma visita mais atenta mostra que São Brás é muito mais do que um mero ponto de passagem. Uma incursão a pé, pelo Museu do Trajo, ideal para conhecer a história e etnografia da região; pela Guiso, loja de artesanato com seis meses criada por Sónia Martins, uma designer que se dedicou a divulgar, vender e também produzir pulseiras, colares, sabonetes ou malas em cortiça; pelo moderno restaurante Ysconderijo, de um jovem casal da terra; ou pela Casa da Barreira, um café/mercearia à antiga que serve tapas e vende licores, doces, azeite, mel, marmelada e ainda carteiras e cestos à mão. Alguns em cortiça.
A cortiça está ainda muito presente no dia a dia, apesar de já não serem um dos maiores produtores do mundo, como no século XIX. É possível fazer várias rotas à descoberta desta tradição ou mesmo comprar um mala, um guarda-chuva ou um boné feitos neste material, na Pelcor. Uma loja que já teve alguns dos seus produtos expostos no MoMA, em Nova Iorque, provavelmente o mais famoso museu de arte contemporânea do mundo. Não há melhor material do que as nossas tradições








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