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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Fábula – O HOMEM E A COBRA

por LuDiasBH

cobra
Estava certo fazendeiro perambulando pelo campo, quando à sua frente rastejou uma cobra. Antes que o pobre ofídio pudesse se esconder na moita mais próxima, viu-se presa a uma forquilha e jogada dentro de um saco. Como se a perda da sua liberdade não fosse o suficiente, ainda teve que ouvir os impropérios de seu captor:
– Ser vil, tu és o símbolo da maldade, só me resta condenar-te à morte.
– Senhor, se condenares todos os desagradecidos deste mundo, não sobraria a quem perdoar! – respondeu-lhe a cobra. – Se queres me matar, faze-o, mas saibas que quem carrega o símbolo da maldade não é a serpente, mas o homem.
– Tu assim o dizes para proteger-te, mas buscarei alguns juízes para provar-te a verdade. Vou começar pela vaca, que ali está. – argumentou o fazendeiro.
– O humano é o ser mais ingrato que conheço. – respondeu a vaca – Dediquei anos e anos de minha vida a este senhor, dei-lhe o meu leite e também meus filhos, mas agora que envelheci, ele me jogou de lado, nem mesmo me permite pastar no relvado.
– Eu sou um escravo da espécie. – acrescentou o boi – Dia e noite trabalho puxando o arado, e só recebo, como recompensa, varadas no lombo, sem nunca ouvir uma palavra de piedade ou amor.
– A minha vida é um martírio de dores. – testemunhou o burro – Vejam as minhas costas em chagas vivas, causadas pelas cargas que mal tenho forças para conduzir.
– Eu fui seu refúgio na tempestade, sombra no calor, pus flores na sua mesa e dei meus frutos como iguarias, mas agora que estou velha, a cada dia, ele manda que cortem um naco dos meus galhos para fazer lenha. – complementou a árvore.
Ignorando as palavras dos juízes escolhidos, o fazendeiro foi batendo na serpente dentro do saco, até que, num descuido, ela lhe picou a mão, matando-o.
Reflexão
Não resta dúvida de que a espécie humana é a mais ardilosa de todas. A capacidade de raciocinar, tanto a induz ao bem quanto ao mal. Ela é a única que perpetra a maldade, depois de cevá-la por muito tempo. E tanto pode agir por ímpeto como por perfídia. É capaz de elaborar os mais mirabolantes planos para levar vantagem, ainda que seja sobre os mais desfavorecidos e indefesos. Sua meta é o poder e a riqueza, ainda que para isso tenha que dizimar o que encontra à frente.
É, sobretudo, na convivência com as outras formas de vida, que se pode perceber a deslealdade, prepotência e crueldade de nossa espécie, em todas as suas camadas sociais e níveis de inteligência. Tanto nas grandes cidades quanto nos esquecidos rincões, nas mais variadas partes da Terra, é possível ver burros, cavalos e mulas com pesadas cargas às costas, com o lombo em carne viva. Cães velhos jogados nas ruas e escorraçados a pedradas. Gatos encurralados para jogo e delírio dos portadores de estilingues, assim como a malvadeza das rinhas de galo e aves. Touros mortos, paulatinamente, nas cruentas touradas, para divertir a plateia. Golfinhos perdendo a vida num verdadeiro mar de sangue. Caçadores matando as mães, muitas delas prenhes, deixando as crias à mingua. É impossível enumerar a maldade humana frente à sua desumanidade para com nossos irmãos de planeta.
Não apenas a fauna é vítima das atrocidades do homem, mas também a flora. Arrancam-se árvores pelos mais insignificantes objetivos e desalmadas mentiras. Para obter espaço para suas casas, as pessoas jogam por terra árvores centenárias e arrancam as frutíferas. Para vender madeira, destroem matas ciliares. Arrancam a vegetação nativa para plantar eucalipto, com a finalidade de obter lucro rápido. Fazendeiros extinguem matas nativas para plantar capim, pois a criação de gado traz lucros imediatos. Garimpeiros poluem os rios, cujas águas envenenam os animais e sua própria espécie. As queimadas destroem a fauna e a flora, e assim por diante…
Ser algum se encontra imune aos revezes da vida, à lei do retorno, ação e reação. Assim como fez a cobra de nossa fábula, a natureza não tarda em dar o troco. Já estão aí, cada vez mais potentes, o aquecimento global, a seca em várias partes do planeta e as enchentes noutras, a qualidade ruim das águas, o furor dos terremotos e ciclones, os severos deslizamentos de terra, a extinção de várias espécies… Nós merecemos!

virusdaarte.net

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