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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nem tudo está perdido. Podem crer




(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 25/09/2015)

A União Europeia desmorona-se, porque, na realidade, nunca existiu. Os “mercados” deixaram de ser abstracções entediantes para se tornarem nos vampiros da canção: estão em todo o lado, tudo devoram e não deixam nada.
Que vai restar daquilo que, apesar de tudo, conseguimos, nestes quarenta anos? Pouco. A mística que nos envolveu e nos fez agir, logo após Abril de 74, foi persistentemente esbatida, com a nossa total indolência. A vitória do capitalismo mais predador, da substituição do humanismo por uma ordem que minimiza a cultura e dá premência ao dinheiro, domina Portugal e o mundo. A União Europeia desmorona-se, porque, na realidade, nunca existiu. Os “mercados” deixaram de ser abstracções entediantes para se tornarem nos vampiros da canção: estão em todo o lado, tudo devoram e não deixam nada.
Portugal está à beira de qualquer coisa, e ninguém sabe bem de quê. Mas o panorama não augura nada de bom. Os partidos que se têm alternado no poder são uma miséria política, moral, social e filosófica. As vozes isoladas, que recalcitram contra este amorfismo, são perseguidas, saneadas, ou tidas como obsoletas. O dr. Passos Coelho, desabusado e sem pingo de vergonha, disse: “Nós nunca seremos oposição ao País!” Como o País somos todos nós, o que ele tem sido é exactamente o contrário do que afirma. Ouvimo-lo, naqueles comícios gritados, nas televisões e nos jornais caracterizados por uma docilidade comprada, e não acreditamos que ainda haja um tipo desta natureza.
Um imbecil dessa estirpe chamou aos velhos “peste grisalha” e ninguém da classe dirigente o exautorou e apontou à execração pública. Concordaram. Os velhos, são, aliás, o alvo preferencial de uma casta ignóbil, apoiada pelo dr. Cavaco e estimulada por Passos Coelho e os seus. A ignorância campeia alegremente. Os apedeutas, como os chamava um grande jornalista português, no tempo em que os havia, e que não eram “professores doutores”. Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina. Nunca o aforismo teve aplicação tão acertada e justa como hoje.
Há um mundo de decência, de integridade e de consideração que está a ser sovado por oportunistas estipendiados pelas forças do mando e do comando. Repito o que tenho dito: os escritores portugueses que, nas épocas mais ignominiosas, mantiveram a honra do convento, sabendo que, para isso, desafiavam o poder absoluto, punham a vida em perigo e as funções em risco – calam-se; outro, menoríssimo, recebe das mãos do inimigo um penduricalho envergonhante; e aqueles, ainda, que se calam perante a indignidade.
A pátria é o mais atroz lugar de exílio, para fazer uma paráfrase de um belo livro de Daniel Filipe: “Pátria, Lugar de Exílio.” Os refugiados do nosso tempo, aos milhares de milhares, também somos nós. Vivemos na falsa prosperidade e mergulhamos numa infelicidade dolorosa. Não protestamos contra esta desdita, somos manipulados, indolentes e adormecidos por quem sabe o que quer, e o que quer são os novos escravos de uma civilização que o deixou de ser.
A fatalidade parece que nos anatemiza. Falei no Daniel Filipe, parceiro, companheiro e amigo, grande poeta esquecido como tantos outros grandes. Morreu de desgosto, de mágoa infinita e de espanto. Eu estava no Brasil, quando soube da sua morte, por um artigo comovente de Miguel Urbano Rodrigues, no Estado de São Paulo: “Daniel Filipe, Cronista sem Coluna.” Seria bom que um editor recuperasse as crónicas dele, “Discurso sobre a Cidade” e reeditasse a sua poesia. Assim digo porque gente desta estirpe faz falta e sempre rasga um pouco do véu que nos tolda.
Mas o grau de futilidades e de indiferenças que nos cerca é demasiado poderoso, sei isso muito bem. Contudo, nem tudo será sempre assim. As pequenas possibilidades oferecidas serão, um dia, muito maiores. Nem tudo está definitivamente perdido. Podem crer.

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