No final da década de 1950, a Marinha de Guerra Portuguesa não dispunha dos meios navais apropriados para a participação, militarmente válida, numa guerra do tipo da que veio a verificar-se nas colónias portuguesas em Africa; em particular, não dispunha de lanchas e navios de pequenas dimensões, adequados à navegação nas extensas redes fluviais daquelas colónias, de que a Guiné constituía o exemplo mais flagrante.
Por razões diversas, sobretudo devido à desproporção das forças em presença e à distância a que se encontravam esses territórios, também não teve a capacidade para se opor com êxito, embora com honra, à invasão que se verificou, em 1961, nos territórios de Goa, Damão e Diu.
Será, no entanto, interessante recordar que em 1975, dispondo de meios navais muito mais modernos e potentes, não esteve igualmente em condições de evitar a invasão de Timor pela Indonésia, pelo que se impõe, desde já, a constatação de que a existência dos meios sem as condições e a vontade política de os utilizar de pouco ou nada serve.
Programa de reequipamento naval
Foi, na índia que começou o que se pode considerar como a viragem no que respeita aos meios navais a utilizar na defesa das águas interiores, quando, em 1959, se adquiriram, em Inglaterra, três lanchas de casco de fibra de vidro - a Antares, a Siríus e a Vega.Construídas pelos estaleiros James Taylor a partir de cascos Halmatíc destinados a embarcações de recreio, foram armadas com uma peça de 20 mm e enviadas directamente para a Índia, para substituir velhas lanchas de madeira que tinham sido utilizadas pela Royal Air Force durante a II Guerra Mundial no salvamento de pilotos abatidos sobre as águas da Mancha e cedidas a Portugal em 1946. Na época, tal aquisição constituiu ousadia da Marinha Portuguesa, pois, com o comprimento de 15,7 metros, eram os maiores cascos de plástico a ser utilizados como navios de guerra, ainda antes de outras marinhas muito mais evoluídas aceitarem embarcações salva-vidas de casco de plástico a bordo dos seus navios.
Afundada, em Dezembro de 1961, a Vega, em Diu, pela acção da aviação indiana, e auto-afundada a Siríus, em Goa, conseguiu a Antares, que se encontrava em Damão, alcançar Carachi, no Paquistão, após ousada travessia, sendo em seguida transportada para Portugal. Após reparação dos danos sofridos nessa longa odisseia, acabou por ser enviada para Moçambique, prestando aí serviço até ao seu abate, em 1975.
Estas lanchas constituem o início do enorme programa de construção de vários tipos destes navios, de diversas dimensões, que se prolongará praticamente até depois do 25 de Abril e que será o objecto de outro capítulo, especialmente destinado a esta verdadeira «poeira naval».
Mas o esforço de construção de novas unidades navais não se poderia limitar às pequenas, pois era evidente o estado de decadência e de pouca adequação à nova situação, criada pelo início da Guerra Colonial, da totalidade dos navios de maior porte de que dispunha a Marinha de Guerra.
Assim, embora o esforço financeiro a que obrigou fosse muito elevado, foi contratada, em 1964, a feitura, num estaleiro francês de Nantes, de quatro fragatas idênticas às francesas da classe Commandant Riviére, navios com características de habitabilidade indicadas para actuação em climas tropicais. Vieram, assim, a ser construídas as fragatasComandante João Belo, Comandante Hermenegildo Capelo, Comandante Roberto Ivens eComandante Sacadura Cabral, a primeira das quais entrou ao serviço em 1967 e a última em 1969, pelo que a substituição das velhas fragatas de origem inglesa só veio a ficar terminada em 1970. De referir que, ao mesmo tempo, foram encomendados em Nantes, mas noutro estaleiro, quatro submarinos da classe Albacora navios que, à semelhança dos até então existentes, não tinham qualquer possibilidade de participação na Guerra Colonial.
Em situação semelhante vieram a encontrar-se as três fragatas construídas em Portugal a partir de 1960, segundo o projecto das fragatas americanas da classe Dealey, que, terminadas já no final da década, não podiam ser utilizadas fora do âmbito da NATO, independentemente de não terem as características mais indicadas para actuarem nas colónias.
A falta notória de meios navais de algum porte levou ainda à construção, na Alemanha e em Espanha, de nova classe de navios, as seis corvetas da classe João Coutinho, segundo projecto nacional do contra-almirante Rogério de Oliveira, desenvolvido em seguida no estaleiro alemão Blohm & Voss. Muito menos equipados do que as fragatas da classeComandante João Belo, em particular no que dizia respeito à artilharia principal e ao armamento anti-submarino, desnecessários na maioria das situações previsíveis de encontrar em África, e com guarnições muito mais reduzidas, estes navios constituíam solução muito mais económica para o controlo das águas das colónias portuguesas do que a que era obtida com o recurso às fragatas da classe Comandante João Belo. Os seis navios entraram ao serviço entre 1970 e 1971, já na fase final da Guerra Colonial.
Perante o relativo êxito daquela classe de navios, foi ainda decidida a construção de mais quatro corvetas da classe Baptista de Andrade, igualmente em Espanha, com projecto baseado no das corvetas João Coutinho, mas muito mais armadas e sofisticadas, as quais entraram ao serviço a partir de 1973, pelo que desenvolveram acção muito reduzida na Guerra Colonial, tendo, no entanto, participado nas tarefas da descolonização.
De tudo o que foi anteriormente dito, é possível confirmar a impreparação da Marinha de Guerra Portuguesa para enfrentar uma guerra como aquela que veio a declarar-se nas colónias de África, no que diz respeito a meios navais. E se relativamente à construção de lanchas e de pequenos patrulhas a resposta foi relativamente rápida e, como veremos noutro capítulo, mesmo abundante, por recurso quase exclusivo aos estaleiros nacionais, o mesmo não se pode dizer no que respeita aos navios de maior porte, as fragatas e as corvetas, encomendadas em estaleiros estrangeiros não por incapacidade técnica dos nacionais, mas pela falta de capacidade de elaborar projectos e de os concluir em tempo útil, relativamente a tal número de navios. Contudo, esta situação retardada pela dificuldade em congregar os ingentes recursos financeiros que exigiu, só veio a ter resultados práticos, no que concerne à utilização efectiva dos navios em África, a partir dos últimos anos da década de 60.
Como se disse, a Marinha não estava preparada para as tarefas impostas pelo desencadear da guerra de guerrilha em três frentes de combate, mas, apesar disso, no campo das embarcações de menor porte, genericamente designadas por lanchas, foi possível, num espaço de tempo relativamente curto, projectar e construir em Portugal um assinalável número de embarcações dos mais diversos tipos e dimensões. Podemos agrupar as novas lanchas em dois grandes tipos: de fiscalização e de desembarque, estas últimas intimamente relacionadas com a criação, a partir de 1961, dos primeiros destacamentos e companhias de fuzileiros, até certo ponto a forma prática como a Marinha quis participar mais activamente numa guerra que, pelas suas características, se travava longe dos meios navais de que então dispunha.
As lanchas de desembarque
A necessidade de construir lanchas de desembarque é consequência directa da criação das primeiras unidades de fuzileiros, em 1961.
Tentada a aquisição de embarcações em segunda mão, verificou-se rapidamente não ser possível obtê-Ias em razoável estado de manutenção, pelo que rapidamente se pensou em fazê-Ias em estaleiros nacionais. Embora as lanchas, em particular as de menores dimensões, fossem de construção relativamente simples, para ganhar precioso tempo foi seguido o caminho de adquirir os desenhos das utilizadas durante a II Guerra Mundial e desenvolver o seu projecto de execução em estaleiros nacionais.
Foram construídos três subtipos de lanchas: as pequenas (LDP), as médias (LDM) e as grandes (LDG) e, dentro destes grandes subtipos, constituídas classes que se distinguiam por algumas das suas características ou até pelo tipo de utilização a que se destinavam, em particular as chamadas lanchas logísticas. Ao longo dos anos, houve, por vezes, lanchas que mudaram de classe já depois de terem entrado ao serviço, chegando mesmo a ser criada uma classe que acabou por ser integrada noutra.
Nas lanchas pequenas há a assinalar as classes LDP 100, LDP 200 e LDP 300 e, nas lanchas médias, criaram-se as classes LDM 100, LDM 200, LDM 300 e LDM 400. As que inicialmente constituíram a classe LDM 500 acabaram por ser integradas na classe LDM 300. Distribuídas pelas três colónias, foi sobretudo para a Guiné que foi enviada a maioria: 51. Angola recebeu 15 e Moçambique 7, todas para o lago Niassa, ficando ainda algumas em Portugal, para treino dos fuzileiros.
As lanchas de desembarque grandes eram verdadeiros navios, embora as formas dos seus cascos, com fundo chato, não lhes concedessem as melhores características para as travessias oceânicas. Foram construídas em 1965 quatro da classe Alfange nos ENM, a que se seguiram outras duas, em 1969 nos mesmos estaleiros. Com excepção daCimitarra, enviada para Moçambique, as outras estiveram quer em Angola, quer na Guiné, por vezes em mais do que uma das colónias.
As lanchas das classes LDM dispunham da metralhadora Oerlikon de 20 mm a ré, e as LDG, inicialmente artilhadas com duas metralhadoras também de 20 mm., vieram, numa segunda fase, a ser modificadas com a instalação de duas peças Bofors de 40 mm.
No total, foram construídas entre 1961 e 1976, as últimas das quais só ficaram prontas após a descolonização, 97 lanchas das quais 26 LDP, 65 LDM e 6 LDG.
O número total de lanchas construídas para enfrentar as tarefas que surgiram com o desencadear da Guerra Colonial foi, portanto, de 153 unidades, o que pode ser considerado um esforço verdadeiramente excepcional, quando se levar em conta que em cerca de 15 anos se passou da situação de verdadeira indigência para a de relativa suficiência deste tipo de embarcações.
Lanchas em Angola
Com a abertura da frente leste, em 1966, tornou-se necessário aproveitar os extensos rios para apoiar a manobra logística das forças e reforçar os meios de fiscalização junto às fronteiras. A partir desse ano, colocaram-se três lanchas nesta vasta área. A primeira, uma LDP, foi transferida, nos finais de 1966, de Santo António do Zaire, no Norte de Angola, para Lumbala, junto ao rio Zambeze, no saliente do Cazombo, percorrendo 1300 km por caminho de ferro e 350 por estrada. Para o seu transporte a lancha foi cortada ao meio, sendo reconstituída no local de destino. Ainda nesta zona, enviou-se uma lancha de transporte para Caripande. Em Maio de 1967, calhou a vez a outra LDP ser transportada por estrada, de Luanda até ao Chiume, no rio Cuando, num percurso de 1800 km.
Em Maio de 1968, foi levada, por terra, a LDP 105, de Moçâmedes para o rio Cuíto, no Sudeste de Angola. Entre o porto de Moçâmedes e Serpa Pinto, o transporte fez-se por via férrea, e daqui em diante, na distância de 220 km, em coluna militar especialmente organizada para esse fim. A missão foi confiada a uma companhia de engenharia, que disponibilizou os homens e os meios necessários, entre os quais, tractor e plataforma adequados, máquina de terraplanagem, viatura basculante e motoniveladora. Entre pessoal do Exército e da Marinha, seguiram na coluna cerca de trinta homens homens.
A marcha fez-se pela picada já existente, tendo demorado três dias e duas noites, e a passagem da plataforma carregada com a lancha obrigou ao reforço de seis pontes de madeira, com especial destaque para a do rio Cuatiri. A velocidade média da progressão da coluna cifrou-se, no final, em 4 km/h, o que dá ideia das dificuldades e dos obstáculos que foi necessário vencer. Ainda assim, não ocorreu qualquer contacto com guerrilheiros, apesar das expectativas criadas com a invulgar coluna de transporte.
Após a chegada ao Cuíto Cuanavale, a lancha foi posta a flutuar no rio Cuíto, guarnecida por pessoal de Marinha, constituindo um destacamento avançado da companhia de fuzileiros que, depois, ficou sedeada em Vila Nova da Armada, junto ao mesmo rio.
Lanchas no Lago Niassa
EM 1964, foram colocadas no Lago Niassa as primeiras embarcações da Marinha, a LFPCastor e duas lanchas de desembarque médio (LDM). Seguiram-se, em 1966, as LFPRegulus, Marte e Mercúrio, mais duas LDM e uma LDP.
Em 1967, chegam as últimas, as LFP Saturno e Urano, e mais uma LDM. No total, a Marinha dispôs, no Lago Niassa, de cinco LFP, quatro LDM e três LDP.
As primeiras lanchas foram desembarcadas no porto do Lumbo, junto à ilha de Moçambique, e as últimas no porto de Nacala.
Depois seguiram por via férrea até à estação do Catur, a cerca de 500 km da costa, sendo aqui transferidas para «zorras» de transporte e fazendo o restante percurso por terra, na extensão de cerca de 250 km, em zona de grande actividade da guerrilha, até Vila Cabral, e depois, até ao porto lacustre de Meponda, onde foram lançadas à água.
João Falcão de Campos
GUERRA COLONIAL: AS ACÇÕES ENCOBERTAS (1)
Quarenta anos após o término do ciclo imperial português extra-europeu, em especial a sua fase final e de agonia com a guerra colonial de 1961 a 1963, -comemora-se, portanto, este ano -, pouco se conhece ainda as acções e actividades, tidas como legais, mas praticamente se desconhece o seu aspecto "clandestino", por vezes, com cunho de heroicidade, e, inclusive com estórias na História de verdadeiras artes da guerra daqueles que são pequenos e se engrandecem, mas também com comportamentos desumanos e sórdidos, fomentadas por verdadeiros monstros, que estiveram à frente do exercício do poder político e militar.
Alguns deles, infiltraram-se no interior do movimento militar que derrubou o Estado Novo e garimparam, batendo com palmadas sonoras no peito, a sua adesão "desde pequeninos" aos ideais de democracia e liberdade.
Com cumplicidades ou não alçaram-se em demiurgos e paladinos dos ideais de Abril e viveram como nababos, tendo ascendido, na sua carreira política e militar, no regime de Salazar e Caetano, à custa das suas reais malfeitorias.
Nessa guerra, tem, no entanto de se diferenciar, ainda que de maneira grosseira, dois aspectos:
A sua imagem superficial que vai perdurar entre os portugueses ficará associada aos homens de camuflado, movimentando-se na selva, nas savanas, nas bolanhas, nas lalas, às reportagens e às imagens de mortos e feridos no terreno, que foram mostradas na imprensa e na televisão ao longo dos anos.
A evolução de helicópteros e aviões em voos amplos ou rasantes entre árvores da grande floresta tropical e as movimentações de navios e barcos da Marinha nos rios caudalosos e lamacentos africanos continuarão a ficar na retina e na consciência dos portugueses ao longo das décadas. No fundo, a visão de uma guerra aberta e de uniforme, no caso, o camuflado.
Cerca de um milhão de portugueses passaram pelas Forças Armadas portuguesas nos “anos de brasa” da guerra colonial. Destes, perto de 800 mil estiveram integrados em unidades e destacamentos nos três Teatros Operacionais (TO) da Guiné, Angola e Moçambique.
Nas recordações de guerra que esses homens transmitiram ao longo dos últimos 40 anos, e transmitem ainda hoje, a sua memória entranha-se no combate em selva cerrada ou savana aberta, visível, estendendo-se à vivência no quartel de arame farpado, às caminhadas derreantes feitas pelo mato. Perdura, ainda hoje, para muitos milhares, nos medos, nas insónias, nos gritos de dor, no choro convulso pela morte do camarada e amigo. Esta é a recordação do português comum.
Mas os promotores da guerra colonial fomentaram outras guerras, planearam outros combates, mais ou menos silenciosos, enquadrados e fechados, propositadamente engendrados em manigâncias clandestinas, assentes em poucos homens, envoltos em práticas consideradas, em certas ocasiões, imorais e repugnantes, como já referimos, que a chancela da hierarquia e da má consciência do regime deposto em 25 de Abril impunha e impôs sob a ameaça da repressão do tribunal marcial ou da pura prisão.
Esse “outro lado” da guerra, o seu lado, por vezes muito humano, mas a maior parte das vezes obscuro, este está truncado e esbatido, ainda hoje, pela falta de informação transparente, precisa.
Parece, segundo as opiniões de alguns, que se pretende fazer crer que nunca existiu. Apesar das evidências.
Guardam-se ainda hoje, fechados, em relatórios, dossiês, informações como se o mundo colonial português ainda permanecesse em plena actualidade.
Mas não, esse lado da actividade política portuguesa, nos nossos dias, pertence ao passado.
O mundo imperial lusitano desfez-se devido aos ventos da História.

Nasceram novos países. A guerra colonial faz parte do seu passado histórico, como pertence igualmente ao Portugal, agora europeu.
As vivências, as experiências, os dados documentais desse tempo são ou devem ser, portanto, hoje, património comum, sejam quais forem as interpretações, os pontos de vistas e mesmo os preconceitos.
De uma perspectiva histórica, representam uma época que tem de ser enquadrada do ponto de vista da evolução da sociedade humana. É precisamente dessa perspectiva que se tem de divulgar o que aconteceu.
Parece, segundo as opiniões de alguns, que se pretende fazer crer que nunca existiu. Apesar das evidências.
Guardam-se ainda hoje, fechados, em relatórios, dossiês, informações como se o mundo colonial português ainda permanecesse em plena actualidade.
Mas não, esse lado da actividade política portuguesa, nos nossos dias, pertence ao passado.
O mundo imperial lusitano desfez-se devido aos ventos da História.

Nasceram novos países. A guerra colonial faz parte do seu passado histórico, como pertence igualmente ao Portugal, agora europeu.
As vivências, as experiências, os dados documentais desse tempo são ou devem ser, portanto, hoje, património comum, sejam quais forem as interpretações, os pontos de vistas e mesmo os preconceitos.
De uma perspectiva histórica, representam uma época que tem de ser enquadrada do ponto de vista da evolução da sociedade humana. É precisamente dessa perspectiva que se tem de divulgar o que aconteceu.
Foi um período histórico, que pode ter ainda resquícios nos dias de hoje, e que devemos denunciar, mas esse tipo de poder e dominação já não corresponde às condições mais avançadas que actualmente se defende e preconiza.
O importante é procurarmos saber o que representou, o que foi importante para a evolução societária e impedir que haja retrocesso na construção harmoniosa da comunidade inter-povos. Por isso, é necessário saber cada vez mais do que sucedeu e como sucedeu.
A lei do segredo, no entanto, continua a vigorar na cabeça – e nos cofres – de muitas pessoas. Os seus relatórios fecham-se, ainda hoje, em oportunos arquivos secretos. Ou então, embora já desclassificados, não são de fácil acesso ou procura. Cria-se, ainda hoje, trinta anos após o fim da guerra, a ideia de que esses assuntos não estão ainda *maduros* para vir à luz do dia.
Todavia, esse “outro lado” da guerra colonial existiu. Teve relevo, teve princípio, meio e fim, abalou, por vezes, estruturas e mexeu mesmo com a vida de vários povos.
A guerra “secreta” passou da fronteira do Império colonial em África ou Ásia e “enfiou-se” pelo emaranhado da intriga e da acção “musculada”, mesmo terrorista, algures noutras terras do Continente africano na altura já auto-determinado das potências europeias.
O pequeno Portugal da Europa actuou, clandestina e furtivamente, um pouco pela restante África para evitar a desagregação da Nação do Minho a Timor.
Por vezes apenas com a diplomacia, com o jogo de bastidores, mas noutras com a dureza da acção feroz e massacradora em nome de outrem.
Cinicamente desmentida depois, apesar da evidência. Para os próceres do regime do Estado Novo, a Nação Portuguesa nunca faria destruições noutros Estados, nunca interviria, terroristicamente, noutras paragens. Claro que nem nos seus territórios faria tais barbaridades.
Fê-lo realmente e esses actos estão referenciados em documentos elaborados pelos próprios executores.
As investigações, ainda que incompletas e parcelares, assim, o demonstram, os documentos cimentam a realidade dessas actividades “encobertas”.
As investigações, ainda que incompletas e parcelares, assim, o demonstram, os documentos cimentam a realidade dessas actividades “encobertas”.
Há um pudor estranho em falar delas. Há, sibilinamente, uma hipocrisia em manter as informações escondidas.
Hoje, reafirma-se, pertencem à História.
Hoje, reafirma-se, pertencem à História.
Mas, no interior de uma parte do novo regime democrático ainda não está madura a mentalidade.
Continua a olhar-se com uma visão de antanho. O tempo, contudo, já se encarregou de as esvaziar de uma eventual carga social tida como desagradável, ou do que era pudibundo, ou, mesmo, de um rótulo secreto que hoje já é inútil, mas persiste nas altas esferas.
É tempo de as trazer à luz do dia, com o interesse que merecem, de as interpretar, de as comentar, de as criticar, ou até de as perceber.
As Forças Armadas portuguesas e a polícia política do regime derrubado em 25 de Abril de 1974 actuaram, em sintonia, para efectuar dezenas de “operações encobertas” que visavam evitar a evolução dos movimentos independentistas nas antigas colónias portuguesas.
Certos oficiais das Forças Armadas portuguesas do antigo regime, principalmente, dos escalões mais elevados na sua hierarquia ou colocados em postos de alto comando, participaram no seu planeamento em estreita colaboração com os hierarcas da PIDE/DGS.
Contudo, alguns dos homens que participaram nessas operações eram membros menores das Forças Armadas, que se encontravam nas antigas colónias a prestar o serviço militar obrigatório, e nelas foram incluídos por uma certa cumplicidade ou passividade ou então por ordens taxativas vindas de cima, que implicavam obediência.
E estes, ou nelas participavam, ou seriam presos e considerados traidores à Pátria.
Esses “agentes especiais” ocasionais, os ainda vivos, são hoje pacatos cidadãos que seguem uma vida normal, que nada os distingue dos restantes que por eles passam.
No entanto, na sua juventude, por vontade própria ou força das circunstâncias, esses homens estiveram no centro de “furacões” militares, na pele de “operacionais de acções secretas” de grande fibra e coragem pessoal, ou simplesmente em discretos “agentes” de serviço ocasional.
A operação “encoberta” mais espectacular ocorreu na Guiné-Conacri em Novembro de 1970, chamada operação “Mar Verde” e a mais profunda e continuada deu-se no Malaui entre 1968 e 1974, podendo ser comparada às que vemos nos dias de hoje nos ecrãs representando o mítico “agente secreto” de um filme norte-americano.

O que se descreve a seguir foi recolhido nos Arquivos da PIDE/DGS, dos Arquivos de AOS e MC, que se encontram na Torre do Tombo, em Arquivos militares, em notícias de imprensa e baseados em relatos de alguns dos protagonistas.
Naturalmente, muito do que vai ser escrito e citado é retirado de dados ou informações parcelares ou incompletas, até porque os dossiês policiais ou militares ou desapareceram, ou foram, parcial ou totalmente, destruídos ou, simplesmente, ainda continuam sobre a chancela de “secretos”.
Alguns dados são inéditos, outros já tinham sido revelados parcialmente noutras ocasiões ou já eram conhecidos anteriormente.
Iremos referenciá-las em diferentes textos, com os números até 13, com o mesmo título este é o primeiro, pois trata-se da introdução.
GUERRA COLONIAL: AS ACÇÕES ENCOBERTAS (2)
“OS NOSSOS HOMENS NO MALAUI”
Começaremos, precisamente, pela aventura - clandestina - prolongada, a mais prolongada accão encoberta, que intervieram vários oficiais da Reserva Naval e da Legião Naval de Portugal ao serviço da Marinha do Malaui.
Ela começou, precisamente, em 1968 e acabou em 1974.
Teve vários protagonistas ao longo desses anos.
Mas, o ineditismo recaiu sobre o primeiro.
E isto porque ele foi, por assim dizer, “O nosso primeiro homem no Malaui”.
O lago Niassa servia (e serve) de grande bacia de transporte para três países, hoje todos os independentes: Tanzânia, Malaui e Moçambique.
Com a independência da Tanzânia e o início da guerra de guerrilhas em Moçambique, o lago Niassa, o terceiro maior de África, com 8,4 milhões de quilómetros quadrados, adquiriu, a partir de 1964, uma nova importância estratégico-militar.
A Tanzânia, antigo Tanganica, emergiu na sua independência como país anti-colonialista militante, tornando-se refúgio e base de apoio dos movimentos independentistas das antigas colónias portuguesas.
Por seu turno, o Malaui, antiga Niassalândia, buscou uma solução de meio termo, optando por relações bilaterais continuadas com Portugal, não hostilizando o seu vizinho moçambicano, governado por um sistema colonial, por onde passava a maior parte da sua ligação ao mar.
Permitia, ao mesmo tempo, uma certa guarida, mas muito controlada e sempre vigiada, à guerrilha.
Portugal procurou, pois, atrair, - e conseguiu-o -, para o seu lado, o líder do país, Hastings Kamuzu Banda, cujo cônsul honorário em Moçambique era o engenheiro Jorge Jardim, um aventureiro, que estivera no governo de António Salazar, como subsecretário de Estado, e se radicara em Moçambique, adquirindo uma preponderância que esteve sempre ligada à sua capacidade de se interligar com o ditador em Lisboa e com a sua polícia política.
(Jardim é o exemplo de como a estrutura dirigente do regime se envolvia numa nebulosa de aventureirismo, que raiava um marginalismo político assumido.
Na realidade, o engenheiro Jorge Jardim tinha um “orçamento” estatal que só ele geria, sem prestar contas, o qual, segundo o falecido marechal Costa Gomes, que foi comandante-chefe das Forças Armadas em Moçambique, atingia “um oitavo do Orçamento de Estado para as Forças Armadas”.
O seu único interlocutor real era o chefe do governo, primeiro, António Salazar, segundo Marcelo Caetano.
Os chefes militares permitiram que Jardim interferisse no planeamento e acções castrenses, inclusive em actos de claro abandalhamento da ética militar.
São numerosos os casos citados por protagonistas operacionais na guerra que eram orientados por Jardim à revelia da estrutura das Forças Armadas).
A nível militar, no caso do Lago Niassa, as autoridades coloniais decidiram dar-lhe uma maior capacidade em presença naval e ali estabelecer uma base de média envergadura com pequenos portos-quartéis de fácil e rápida navegação.
Três povoações vieram a ficar conhecidas nessa época para as tropas coloniais: Meponda, Cobué e Metangula.
Assim, em Novembro de 1965, a partir de Lumbo (Moçambique) iniciou-se uma operação de transporte terrestre até ao Lago Niassa das Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), Marte e Mercúrio, de 44 toneladas de deslocamento cada uma.
Foi uma viagem épica, não só destas lanchas mas de outras, nomeadamente de desembarque, que, infelizmente, está nos domínios dos relatórios militares.

Fotos retirados do blog Pica na Orelha (picaorelha.blogspot.com)
Estas embarcações vieram a juntar-se às LFP Regulus e Castor, que, desde 1963, se encontravam baseadas em Metangula.
Pouco depois, na baía de Metangula, chegaram a estar atracadas ao seu cais seis lanchas de fiscalização pequenas (LFP): Castor, Regulus, Marte, Mercúrio; Saturno e Urano.
Além das tropas normais de quadrícula do Exército, começaram a actuar na zona ribeirinha unidades de fuzileiros especiais.
Todavia, sob o ponto de vista estratégico, o regime colonial começou a planear forma de actuação que fosse além das suas águas territoriais.
Foi, deste modo, que, quer o Comando Naval em Moçambique, quer a própria rede de informações do governo de Salazar, através de Jardim, pensaram e levaram a cabo uma operação para “entrar” num certo controlo da movimentação da guerrilha e vigiar as águas dos dois outros países.
O “receptáculo” ideal para a movimentação naval era (e foi), precisamente, o Malaui.
Começaram negociações para “fazer passar” uma das lanchas para o vizinho Malaui. Elas chegaram a bom porto em 1968. O alvo da troca foi a lancha Castor.
A lancha seria transferida para Nkata-Bay, a povoação, na parte malauiana do Lago Niassa, onde se instalaria a primeira unidade militar naval daquele Estado anglófilo.
Foi preparada uma cerimónia especial para, em Metangula – a designação oficial da povoação era Augusto Cardoso -, se organizar, formalmente, a transferência da embarcação para o Estado do Malaui, sob a forma de empréstimo.
Assim a 5 de Agosto de 1968, numa cerimónia em Augusto Cardoso, representantes de Portugal e do Malaui assistiram à entrega da Lancha de Fiscalização Pequena (LFP) de nome “Castor” que foi baptizada com o nome de “John Chilembwe”.
Aparentemente, tratava-se de uma actividade enquadrada numa cooperação bilateral entre Portugal e o Malaui, na realidade estava já em fase adiantada uma das mais bem sucedidas operações secretas efectuadas pelo regime colonial português.
Nos arquivos nacionais consultados não foi possível encontrar relatórios ou documentos oficiais sobre esta operação e os seus protagonistas, que terminou com o 25 de Abril de 1974.
Em concreto, no Arquivo de Marinha, instalado na antiga Fábrica da Cordoaria, em Lisboa, para consulta, não existem quaisquer relatórios de Estado da operação.
Arquivado apenas um documento oficial - o que podemos consultar - que relata o acto de transferência da embarcação de uma entidade portuguesa para a do Malaui.
Nos documentos da PIDE/DGS, guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, não se conseguiu obter documentação sobre aquela operação.
No documento depositado no Arquivo da Marinha, reporta-se, assim, o acto legal de transferência da embarcação: “a 5 de Agosto de 1968, em Augusto Cardoso/Metangula, e conforme notas diplomáticas tomadas entre Portugal e o Malawi”, foi a lancha de fiscalização “Castor”, da Armada Portuguesa, transaccionada “por empréstimo”.
Participaram nesta transacção, pela parte portuguesa, o então comodoro Tierno Bagulho, Comandante Naval de Moçambique, e “em representação” do governo do Malawi, Aleke Banda, ministro da Economia e presidente do Malawi Youngers Pionners. Tudo muito formal.
(Tierno Bagulho, que ascendeu depois a almirante e ocupou o cargo de Presidente do Supremo Tribunal Militar, foi um dos três oficiais-generais das Forças Armadas portuguesas, que se recusaram em Março de 1974, após o “golpe das Caldas”, a participar no chamado “beija-mão” ao então Presidente do Conselho de Ministros Marcelo Caetano. Os outros dois foram os generais Costa Gomes e António de Spínola, que exerciam, então, respectivamente os cargos de Chefe e Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas portuguesas. Os três já faleceram).
Mas, na pasta onde se encontra o documento, está arquivado um relato sucinto, privado, feito nos anos 80, para a comissão COLOREDO (a Comissão que recolheu dados e informações sobre a actividade nas antigas colónias), do primeiro comandante da lancha sob a orientação malauiana, um oficial da Reserva Naval portuguesa que “se passou para o outro lado”, que nos dá algumas pistas sobre o que estava em jogo.
Manuel Alexandre de Sousa Pinto Agrelos, engenheiro de profissão, que era o comandante português da lancha “Mercúrio”, tornou-se, para os efeitos desejados, “um desertor”, ainda antes da transacção, e assistiu à entrega já como oficial da Marinha do Malaui.
Na cerimónia de Metangula, o oficial português, que mandou arriar a bandeira, chamava-se Francisco Freire e “o oficial malauiano que a recebeu e mandou içar fui”, referencia Agrelos no seu relato.
NRP Mercúrio, ainda com bandeira portuguesa no Niassa
Descreve que a lancha foi baptizada com o nome de John Chilembwe, um herói do Malawi.
Agrellos assinala, mesmo, no seu depoimento escrito, que Chilembwe foi, na visão do outro lado, “o primeiro africano malauiano a mandar cortar a cabeça a um branco”, segundo recordação transmitida pelo próprio.
Com o comandante da lancha seguiram o marinheiro telegrafista Mário Fernandes e o cabo fogueiro Martinica, que foram graduados, respectivamente, em segundo e primeiro sargentos da Marinha de Guerra do Malaui.
O resto da guarnição pertencia aos Young Pioneers, uma espécie de “guarda pretoriana” do regime ditatorial de Hastings Banda.
Agrellos faz questão de assinalar, no seu breve relatório, que, entre os presentes, na cerimónia de entrega estava o engenheiro Jorge Jardim, que ali se encontrava com o estatuto de cônsul honorário do Malaui em Moçambique.
Jardim ficou a ser o garante do pagamento do salário a Manuel Agrellos, que o depositava numa conta especial de um banco, a que o comandante da lancha tinha acesso.
Manuel Agrellos continuava, no entanto, a depender da hierarquia da Marinha de Guerra portuguesa e era a esta que ele prestava contas.
Mas, Jorge Jardim tornava-se, na prática, o interlocutor das “informações” que o oficial português da Marinha do Malaui lhe fornecia e transmitia às autoridades coloniais em Moçambique e a Lisboa.
Na sua nova função, Manuel Agrellos foi, algo mais, que um simples oficial comandante de uma pequena lancha.
Na realidade, tornou-se no Ministro da Marinha malauiana. Sem qualquer apoio, sem experiência, ele montou toda a estrutura de informação que veio a servir os seus sucessores.
O “agente especial” português participou em reuniões do Conselho de Ministros do Malaui e teve vários encontros com o então Chefe de Estado do país Hastings Banda.
Movimentava-se, perfeitamente, no interior da elite dirigente daquele país, vizinho de Moçambique. Frequentava, inclusivé, os Clubes chiques, onde predominavam os “assessores” anglo-saxónicos.
Do ponto de vista estratégico-militar, com a lancha, Agrelos controlava, em grande medida, todo o movimento de embarcações que andavam, de um lado para outro, no Lago Niassa. Incluindo, portanto, as que serviam de apoio logístico à FRELIMO.
Manuel Agrellos teve contactos, de diferentes tipos, mais “profundos” ou mais “ligeiros”, com altos dirigentes da FRELIMO, incluindo Eduardo Mondlane, mas o actual Presidente da Federação Portuguesa ainda não se prontificou até agora a fazer as revelações do “muito que soube”.
No relatório que entregou à COLOREDO, ele revela um dos aspectos menos conhecidos da “parceria” que envolvia a passagem da embarcação que comandava para o país: a flotilha de lanchas de Metangula passava a ser abastecida em gasóleo vindo do Malaui.
A Lancha de Desembarque Média (LDM), que ia buscar o combustível, levava um logótipo da SONAP e os membros da guarnição “fardas” da mesma companhia petrolífera portuguesa.
Hastings Banda era um parceiro privilegiado do regime português em Moçambique, mas tinha de se manter discreto, mostrar aos países vizinhos anti-colonialistas que não tinha relações directas com o Exército colonial luso.
Agrelos foi, durante muito tempo, um enigma para muitos dos “brancos” que gravitavam, de uma maneira ou doutra, nas mesmas funções no interior das Forças Armadas do Malawi, principalmente os ingleses.
Quem seria aquele branco, que se apresentava completamente desligado das Forças Armadas portuguesas, e que falava fluentemente inglês?
(Agrellos, que esteve ao serviço da TAP como comandante e instrutor, pertence a uma família de proprietários rurais da zona do Vinho do Porto, que fora educado culturalmente, num ambiente anglófilo aburguesado daquela região do país. Exerce o cargo de Presidente da Federação Portuguesa de Golfe e a direcção da sua congénere europeia).
Com o tempo, aceitaram-no e começou a frequentar os selectos clubes “europeus” mantidos, apesar da independência, naquela antiga colónia.
A sua missão “tipo James Bond” decorreu, pacificamente, até que terminou a sua comissão de serviço em 1969.
Manuel Agrellos pertenceu ao 9/o Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval (CFORN). Foi alistado a 3 de Setembro de 1966 e ascendeu a aspirante a 15 de Março de 1967.
O jovem primeiro oficial comandante da lancha “John Chilembwe” terminou “a sua comissão” em 1969, e através de Jorge Jardim, Hasting Banda e o governador colonial português concordaram com a continuidade de outros oficiais portugueses.
Assim, o “agente especial” Agrellos deu lugar a outro oficial da Marinha da Reserva Naval que prosseguiu a missão.
O “nosso homem no Malaui” transmitiu o facho ao seu sucessor, e depois outros se seguiram até ao 25 de Abril de 1974.
Jorge Jardim, o cônsul de Banda em Moçambique, manteve-se como o “pivô” de toda a comunidade da informação portuguesa (e não só) na região que a fazia chegar ao seu destino. Naturalmente, como contrapartida, garantia a estabilidade do regime do ditador malauiano.
Todavia, a função de “agente James Bond” português esteve quase a terminar em tragédia.
Quando se dá o 25 de Abril em Portugal, o papel de Ministro da Marinha exercido por portugueses já tinha desaparecido. As relações eram agora mais distantes.
Nesta altura, eram dois os oficiais portugueses a comandar idêntico número de lanchas. Além da Castor, estava emprestada uma segunda lancha a “Regulus”, que foi rebaptizada de Chiluza.
Os seus comandantes eram agora oficiais fuzileiros. O primeiro, mais antigo, já veterano de guerra era o segundo-tenente Lhano Preto que dirigia a John Chilembwe, o segundo mais “marreta” e com “pouco tempo de mato” era o subtenente, mas tarde promovido a segundo-tenente Berbereia Ribeiro Moniz.
Os dois pertenciam ao 9º Destacamento de Fuzileiros Especiais
As lanchas navegavam agora com cadetes dos Youngers Pioneers, que se adestravam para exercerem o comando. Havia um certo distanciamento de Blantyre das autoridades moçambicanas. Os tempos estavam a mudar.
A revolução portuguesa transtornou definitivamente os planos de Hastings Banda. O regime português democrático passou a ser olhado de soslaio. E os oficiais portugueses constataram essa mudança.
Em Julho são chamados à capital malauiana. Recebem a indicação da embaixada portuguesa de que o melhor é voltar a ter um passaporte português e se preparar para o pior. Aliás, um dos oficiais, Lhano Preto neste período esteve retido momentaneamente, mas foi mandado seguir para Monkey Bay.
Quando chegaram ao local verificaram que as lanchas tinham desaparecido. Vieram a saber que os cadetes as fizeram seguir para uma baia mais a sul, onde se esconderam.
Lago Niassa, onde se vê o cais da base de Metângula
Foi nesta situação de ambiguidade que o comandante da esquadrilha o então primeiro-tenente de Marinha Ribeiro Ferreira (hoje vice-almirante reformado) decidiu zarpar para resgatar os oficiais que julgava detidos e em má situação.
Em acto belicoso, entrou em Monkey Bay, preparado para uma batalha naval com o apoio de duas lanchas de fiscalização, uma pequena lancha de fiscalização de pesca, uma Lancha de Desembarque Média e um destacamento de fuzileiros.
Não foi preciso usar a força. Afinal, os oficiais portugueses já estavam em liberdade e aguardava na praia de Monkey Bay a chegada da frota para se fazer a transferência pacífica das lanchas ao serviço do Malawi.
Os “agentes” portugueses regressaram às suas unidades.
Deixaram de ser pagos por contas “secretas” às ordens de Jorge Jardim. Este passava a fora da lei. Refugiara-se no Malawi. Era agora “persona nom grata” do novo regime português.
Ainda foi organizada uma reunião em pleno Lago Niassa com um general do Exército português, visando, possivelmente, uma “solução” branca independente para Moçambique, mas os tempos deixaram de ser de feição para o engenheiro agrónomo, que não fizera a tropa, mas gostava de fazer as guerras de forma dissimulada e com um poder acrescido que a vivência directa com António Salazar lhe dera.
Os “nossos homens” no Malawi, alguns ainda vivos, são hoje pacatos cidadãos que recordam essas memórias.
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2 comentários:
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