As fábulas de Leonardo da Vinci
Não deveria surpreender a informação de que além de pintor, engenheiro, projetista, músico, matemático e anatomista, Leonardo da Vinci também fora escritor, mas é uma faceta das mais enigmáticas do gênio italiano. Ele criava fábulas para si mesmo, num misto criativo entre a fantasia e a reflexão filosófica. Esquadrinhando o acervo da vasta produção de esboços do artista, há várias anotações de enredos com mariposas, aranhas, pedras, que mostram sua reflexão aguda sobra a natureza humana e de sua busca por flagrantes de sabedoria. No contexto em que foram produzidas, as criações dizem tanto sobre como da Vinci refletia a vida quanto como se digladiava com os próprios demônios internos.
Durante a renascença, a Itália era um dos terrenos mais prolíferos e desenvolvidos artisticamente do mundo ocidental. E Leonardo foi, nesse meio efervescente, o mais produtivo e múltiplo homem de seu tempo, dotado de uma variedade absurda de dons e potencial de produção incomparável. Contudo, é difícil criar um perfil psicológico preciso dele, pois não era comum a documentação biográfica, não havia imprensa propriamente dita na época, circulando fatos prosaicos do dia a dia, portanto, sua figura é construída por um sutil processo dedutivo e de inferências a partir de suas obras e cronologia.
Quanto às fábulas, esse modelo de narrativa em que animais ganham vida, passam por sérias dificuldades que levará o leitor a deduzir ou ser instruído em uma “lição de moral”, era um modelo de narrativa popular que gozava de grande prestígio com a redescoberta da cultura greco-latina (Esopo, a maior e mais antiga referência de fábulas da história, era grego, do século V a.C.). Assim como todo poeta queria produzir uma epopeia que marcasse o a grandiosidade de sua época, nada mais natural que um artista criasse fábulas que refletissem tanto suas reflexões acerca de seu tempo e sociedade quanto de sua própria condição. É o que se deduz da produção de Leonardo, que registrou suas histórias durante o período dos anos 1487-1494, quando trabalhava a serviço de Ludovico Sforza, duque de Milão, como arquiteto militar (quando concebeu alguns sistemas de segurança como escadas, fosso e um castelo inteiro).
Essa foi a fase de menor produtividade artística do gênio, embora tenha mostrado e desenvolvido seu talento em outras frentes. Especula-se que essa distância de seus projetos pessoais o tenha angustiado e seja a fonte subjetiva das reflexões expostas nas fábulas que criou, à margem dos projeto feitos para o Duque Sforza. Muitos de seus registros são, aparentemente, projetos nunca desenvolvidos de fábulas, ou apenas a moral sobre a qual pudesse planejar uma narrativa. É discutível o valor literário de suas ideias e mesmo dos contos acabados. Algumas versões publicadas dessa produção do italiano fazem certas adaptações estilísticas para tornar mais legíveis e interessantes os contos. O conjunto completo e traduzido das fábulas e lendas de Leonardo da Vinci tem 3 edições em português. A mais bela, voltada para o público infantil (com as histórias adaptadas) é editado pela SM: Fábulas, Alegorias , Adivinhações. Já a Hedra tem uma versão fiel aos originais e com apontamentos críticos e explicativos: SATIRAS, FABULAS, AFORISMOS E PROFECIAS.
Veja algumas de suas fábulas:
2. A língua mordida pelos Dentes
Um rapaz que tinha o vício de falar mais do que devia.
- Que língua! – Suspiravam, um dia, os dentes. – Nunca está quieta! Nunca se cala!
- Que estão vocês a murmurar? – Replicou a língua com arrogância. –Vós, os dentes, não sois mais do que servos unicamente encarregados de mastigar os alimentos que eu escolho. Entre nós não há nada em comum e não vos permito que se metam nos meus assuntos.
Deste modo, o rapaz continuava a dizer coisas que não vinham a propósito, enquanto a língua, feliz, conhecia todos os dias novas palavras. Um dia, o rapaz depois de ter feito uma tolice autorizou que a língua dissesse uma grande mentira. Mas os dentes, obedecendo ao coração, morderam-na. A língua ficou corada de sangue e o rapaz, arrependido, corou de vergonha. Desde aquele dia a língua tornou-se cautelosa e prudente e antes de falar pensava duas vezes.
Após ter explorado a casa toda, por dentro e por fora, uma aranha resolveu esconder-se no buraco da fechadura.
Que esconderijo ideal! Pensou ela. Quem jamais havia de imaginar que ela estava ali? E além disso podia espiar para fora e ver tudo o que acontecia. Ali em cima disse ela para si mesma, olhando para o alto da porta:
- Vou fazer uma teia para moscas ali embaixo. – olhando a soleira, observou: - Farei outra para besourinhos ali. Ao lado da porta, vou armar uma teiazinha para os mosquitos.
A aranha estava exultante. O buraco da fechadura proporcionava-lhe uma nova e maravilhosa sensação de segurança. Era tão estreito, escuro, e era revestido de ferro. Parecia-lhe mais inexpugnável que uma fortaleza, mais garantido que qualquer armadura. Imersa nesses deliciosos pensamentos, a aranha ouviu o som de passos que se aproximavam. Correu de volta para o fundo de seu refúgio. Porém a aranha esquecera-se de que o buraco da fechadura não havia sido feita para ela. Sua legítima proprietária, a chave, foi colocada na fechadura e expulsou a aranha.
- Vou fazer uma teia para moscas ali embaixo. – olhando a soleira, observou: - Farei outra para besourinhos ali. Ao lado da porta, vou armar uma teiazinha para os mosquitos.
A aranha estava exultante. O buraco da fechadura proporcionava-lhe uma nova e maravilhosa sensação de segurança. Era tão estreito, escuro, e era revestido de ferro. Parecia-lhe mais inexpugnável que uma fortaleza, mais garantido que qualquer armadura. Imersa nesses deliciosos pensamentos, a aranha ouviu o som de passos que se aproximavam. Correu de volta para o fundo de seu refúgio. Porém a aranha esquecera-se de que o buraco da fechadura não havia sido feita para ela. Sua legítima proprietária, a chave, foi colocada na fechadura e expulsou a aranha.
4. A Aranha e as Uvas
Uma aranha observou durante dias a fio os movimentos dos insetos, e notou que as moscas ficavam em torno de um grande cacho de uvas muito doces.
- Já sei o que fazer – disse ela para si mesma.
Subiu para o alto da parreira e, por meio de um tênue fio, desceu até o cacho de uvas, onde instalou-se num pequenino espaço entre duas frutas. De dentro do esconderijo começou a atacar as pobres moscas que vinham em busca de alimento. Matou muitas delas, pois nenhuma suspeitava que houvesse ali uma aranha. Porém em breve chegou a época da colheita. O fazendeiro foi para o campo, colheu o cacho de uvas e atirou-o para dentro de uma cesta, na qual se viu espremido junto com os outros cachos.
- Já sei o que fazer – disse ela para si mesma.
Subiu para o alto da parreira e, por meio de um tênue fio, desceu até o cacho de uvas, onde instalou-se num pequenino espaço entre duas frutas. De dentro do esconderijo começou a atacar as pobres moscas que vinham em busca de alimento. Matou muitas delas, pois nenhuma suspeitava que houvesse ali uma aranha. Porém em breve chegou a época da colheita. O fazendeiro foi para o campo, colheu o cacho de uvas e atirou-o para dentro de uma cesta, na qual se viu espremido junto com os outros cachos.
As uvas foram a armadilha fatal para a aranha impostora, que morreu exatamente como as moscas que enganara.
Projetos de contos:
2. Em uma disputa com a água em uma panela , o fogo diz que a água não deve ficar acima de fogo, que é o rei dos elementos, e tenta conduzir a água da panela fervendo . A água, pagando o fogo a honra de sua obediência, desce e se afoga no fogo.
3. Uma árvore cítrica cresceu orgulhosa de sua beleza, e desdenhava as plantas ao seu redor, eles as tinham removido. Mas o vento, agora golpeá-la diretamente, desenraíza-a e a lança para o chão.
4. Quando a figueira não tinha fruto , ninguém olhava para ela. Quando procurou elogios por dar frutos, as pessoas a curvam e quebram.
5. O caranguejo se escondeu debaixo de uma rocha para pegar um peixe que entrara lá. Contudo, o fluxo das águas faz com que as rochas se choquem violentamente e o caranguejo é esmagado entre elas.
6. A caneta acha a companhia do tinteiro necessária e útil , pois um sem o outro não vale muito .
7. Quanto mais longe a bola de neve rola para baixo da montanha coberta de neve , mais ela aumentou seu volume.
semema.com
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