Começou mal na perspetiva de César o primeiro contato entre ambos. Depois de uma formal apresentação, Manuel, assim se chamava o português, foi rápido a explicar-lhe a situação, que era de pegar ou largar. Com ele, seriam três  as pessoas a viver na casa, portanto pagaria um terço da renda, um terço das despesas fixas e de, três em três semanas, ficaria encarregue de limpar a parte comum da casa.
            Balbuciou qualquer coisa do género que não estava habituado a fazer limpezas ao que obteve uma resposta acompanhada de um sorriso que poderia sempre pagar a 20€ à hora para que alguém as fizesse por ele. Para além disso começava amanhã a trabalhar num hotel como empregado de limpeza. «Amanhã?» – interrompeu – «Mas nem tenho tempo de me ambientar, de conhecer a cidade!»
            Com toda a paciência Manuel explicou-lhe que não tinha vindo fazer turismo e que no telefonema feito, César  lhe tinha pedido para lhe arranjar emprego rapidamente. Iria começar por baixo e depois era uma questão de esforço e de trabalho da parte dele. Questionou-o acerca dos seus conhecimentos linguísticos e, ao saber que dominava o francês e o inglês, acrescentou: «ótimo; inglês, francês, português, acrescente que sabe alguma coisa de espanhol e que anda a treinar o italiano, agarre-se a estas duas línguas nos tempos livres. Já agora vai ter que aprender sueco».
            A conversa decorria já a caminho de casa. Manuel comunicou-lhe que iria trabalhar para um hotel de luxo, que tinha uma estação de metro junto à casa e outra em frente do hotel, pelo que quinze minutos o separavam do trabalho, que precisava de ser pontual e concluiu: «Abra os ouvidos e feche a boca. Ande com os olhos bem abertos e aprenda rápido os costumes e a maneira de ser deles».
            Finalmente chegaram a casa. Estava aquecida, algo que o alegrou pela primeira vez nesse dia. Manuel mostrou-lhe o apartamento, indicou-lhe o quarto onde iria ficar e finalizou:«Amanhã, tem que estar no hotel às seis da manhã.» Perante o olhar incrédulo do outro acrescentou: «Vai trabalhar por turnos que mudam semanalmente.  Amanhã como é o primeiro dia vamos sair juntos e estar lá mais cedo. Acordo-o às cinco».
            César começou a pensar que às cinco era a hora a que ele normalmente se deitava e enquanto sentia de novo em si crescer uma grande pena pela sua situação, ouviu: «Está-me a dever 60€, duas horas de trabalho e a gasolina». Tentou replicar e ouviu:«Se tivesse vindo de táxi, pagaria pelo menos 150€, para a próxima já saberá utilizar os transportes públicos».
César recolheu ao quarto arrependido da sua decisão repentina de emigrar. O seu ouvido sempre fora seletivo, ouvia apenas o que lhe interessava. Desta vez tinha-se enganado, onde tinha ouvido apenas “ganha-se muito dinheiro na Suécia”, talvez devesse ter ouvido trabalho árduo, clima severo e penoso, invernos intermináveis, mudança de vida brusca e radical. Deitou-se tentando conciliar o sono com a profunda irritação que se tinha instalado dentro de si. Pareceu-lhe que ainda não tinha adormecido quando Manuel o acordou, eram cinco horas de uma fria manhã do outono sueco.
O mal estar cavado até ao fundo de si durou o tempo do inverno nórdico. À medida que a temperatura aumentava, que o número de horas de luz solar progredia, a sua disposição melhorava. Tinha entrado no ritmo de trabalho dos suecos, progrediu significativamente no domínio do espanhol e do italiano e já compreendia e se fazia entender em sueco, o que o levou a deixar o trabalho da limpeza no hotel, passando para a recepção e para o bar, onde ganhava mais e tinha direito a uma percentagem maior nas gorjetas.
Por vezes, ele próprio ficava admirado consigo. Afinal conseguia ser disciplinado e trabalhador. Tinha aprendido rapidamente o modo de ser franco e direto daquele povo disciplinado e organizado e ao qual, habilmente, tinha conseguido juntar o seu jeitinho desenrascado de safar as situações mais difíceis, algo que o tinha transformado em meia dúzia de meses num funcionário muito bem cotado.
Tinha conseguido estabelecer uma boa relação com Manuel e com Sofia, a outra ocupante da casa, sempre bem disposta e que funcionava como a referência e a quem os dois obedeciam. Ao princípio, foram estas vozes portuguesas  e os petiscos pátrios que o mantinham à tona de água. Com o tempo, devagar, os seus horizontes foram-se alargando, começando a sair e a conviver com os nativos.
Sofia tinha uma teoria para a mudança de César. Costumava dizer que ele era um típico português que só funcionava bem quando integrado numa máquina organizada e disciplinada. «Tal como eu», acrescentava. E dava o exemplo do apartamento em que todos deixavam tudo para a última,  tentando passar o trabalho uns para os outros. «Mas, no trabalho somos bem vistos. Os outros não estão para nos aturar e precisamos de ganhar a vida, é o que é». Com uma gargalhada terminava: «No trabalho cada um de nós vale por mais de um; em casa, os três juntos não valemos mais do que um e meio».
O mau-estar, a auto-comiseração, a piedade que sentia em relação a si tinham desaparecido. Começou a telefonar regularmente aos pais, ato que passou a ser quotidiano quando estes aprenderam a usar o computador para poderem comunicar. Sentia até saudades da sua pátria, que tantas vezes denegrira enquanto nela vivia. Essas transformações iam surgindo par a par com outra proposição contrária: a de que iria fazer vida naquele frio país.
Entretanto, a amizade que tinha começado com Ebba, uma típica sueca loura e de olhos azuis, tinha evoluído para um compromisso mútuo. César tinha-se apaixonado e, pela primeira vez, estava disposto a construir uma vida partilhada com outra pessoa.
Passou outro ano. Ebba habitava agora a casa de Manuel e partilhava o quarto com César. Ele agora desejava acima de tudo ser pai e de construir uma família com a sua querida sueca.
Quase três anos depois de ter chegado a Estocolmo, numa suave tarde do curto verão nórdico, César concretizou o seu desejo, Ebba tinha-lhe dado um filho.
            Faltava ainda algo para deixar César reconciliado com a vida. Nesse Natal, teve a companhia dos pais, que vieram conhecer o pequeno Oliver e a nora Ebba. Então e pela primeira vez desde que se lembrava, César apreciou minuto a minuto a companhia dos pais.
            Para sua surpresa, Tomás, o pai, dominava minimamente a língua inglesa – mais tarde este explicou-lhe que tinha andado a estudar inglês pela internet – e mostrava-se bastante conversador, principalmente com a nora. O pai aproveitou para dar grandes passeios pela cidade e nem os nevões e o frio o demoviam.
A mãe Albertina … bem … essa foi igual a si própria, esteve durante um mês agarrada aos caracóis louros que cresciam abundantemente na cabeça do seu neto e que este, como por artes de magia, deixava que a avó explorasse livremente, ao contrário do que acontecia quando era a mãe a tentar afagar-lhe a cabeça. César percebeu que o seu tempo tinha passado, fora substituído por Oliver.
            No regresso a Portugal, Albertina apresentou-se no trabalho, orgulhosa, com o computador cheio de fotografias da família e principalmente do neto, para mostrar às amigas. «Vejam bem este lourinho, cheio de caracóis, parece um anjo», exclamava radiante. Depois acrescentava com um grande sorriso a atravessar-lhe o rosto: «Valeu a pena esperar todos estes anos, para ter o neto mais bonito do mundo».
            Quando lhe perguntavam pelo filho, respondia que estava bem, como nunca tinha estado e mudava de conversa, que ia sempre parar ao neto. Quando numa dessas rápidas trocas de assunto, a sua melhor amiga lhe viu as as lágrimas a chegarem-lhe aos olhos, Albertina desesperadamente disse-lhe: «Sabes, o César não volta mais».

Praça do Bocage