A recente vaga de refugiados que atinge parte do sul e do leste da Europa pode ser observada e interpretada sob diferentes ângulos, sob diferentes perspectivas, todas igualmente legítimas.
Em primeiro lugar, a perspectiva humanitária. As imagens mediáticas de multidões de adultos e crianças em trânsito por diferentes países, atravessando mares e fronteiras terrestres, num desespero e angústia inqualificáveis, despertam desde logo incómodo, perplexidade e exigem solidariedade. Sabemos que cada vida assim tão precariamente exposta transporta uma experiência de fuga a guerras, discriminações ou á pobreza sem futuro positivo imediato. Estes refugiados são na esmagadora maioria pessoas normais que buscam paz e segurança, futuro e dignidade, em países geográfica e culturalmente distantes.
É necessário considerar como uma tragédia este inesperado fluxo aparentemente com causas tão díspares, com origem apesar de tudo tão diversificada, e transportando tanta esperança. O destino sonhado, o El Dorado, é a Europa mais rica, e menos a sua periferia, mas também julgo ser as nações mais ricas do continente americano e da Oceânia. E países que construíram Schengen para limitar a emigração legal, apressam-se agora a edificar muros e cercas tentando impedir a emigração ilegal.
Em segundo lugar, a perspectiva política. A Europa comporta-se como um pigmeu político (ou palhaço) no contexto das potências mundiais. Apregoando internamente a coesão e a solidariedade, a União Europeia não controla porém os acontecimentos políticos, nem a estratégia de relacionamento com espaços contíguos. Afirmando em grandiloquentes tiradas a sua autonomia, a União Europeia desencadeou por intermédio do militarismo e egoísmo dos Estados Unidos, seu senhor, um caldeirão de instabilidade na sua fronteira sul. Alheia a circunstâncias geográficas e geoestratégicas a vulnerável União Europeia finge desconhecer que tem um deficit insuperável de fontes energéticas, e que o confronto com a Rússia, não a vergará antes prejudicará sem solução os interesses ocidentais.
Em terceiro lugar, a perspectiva global. Não haverá respostas satisfatórias ao fluxo incessante de refugiados a curto e médio prazo. Não defendo políticas de fronteiras abertas nem promessas fáceis de uma vida sem sobressaltos. Não será significativa a utilização e integração de algumas centenas de quadros qualificados dos países de emigração nas potencialidades dos países de exílio. Um advogado sírio recém-chegado trabalha na Alemanha por um euro a hora (quando o salário mínimo é de 8,5 euros a hora). Acumular-se-ão muitas frustrações, muitos desenganos, muitas incompatibilidades culturais e civilizacionais. Proceder-se-á a um retrocesso que pré-anuncia a guerra, a desconfiança, a divisão. As armas, novas armas, precedem a negociação dos interesses nacionais e a circulação de capitais. É um novo mundo para novos dirigentes e novas consciências.
Em quarto lugar, a perspectiva histórica. Alguns ficam muito incomodados com, a comparação. Lamento, mas é necessário referir. Em meados do século passado Portugal teve nos emigrantes os seus refugiados, percorrendo terras de Espanha, França, Alemanha, ilegalmente. Fugiam á guerra colonial e á pobreza limite. Também eles culturalmente eram diferentes dos habitantes dos países de destino. Vestiam diferente, rezavam diferente, linguajavam diferente. Também eles comeram o pão que o Diabo amassou. Neto de quem caminhou outrora nesses trilhos, tenho a convicção de que outros, os emigrantes de hoje, deviam ser mais respeitados e compreendidos. A xenofobia e radicalismo não contribuem para a solução.
cris-sheandbobbymcgee.blogspot.pt
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