Esta frase soaria de forma estranha na boca de qualquer primeiro-ministro, não fosse esse primeiro-ministro chamar-se Pedro Passos Coelho. Assim, a acrescentar ao insistente e reiterado uso do “dourar a pílula” e a outras tiradas no mínimo desajustadas, tratando-se do minguado Pedro Passos Coelho que nunca nos habituou a proferir grandes inteligências, antes pelo contrário, o inusitado “comemos com um resgate” foi só e apenas mais do mesmo. Mas eliminando a estética institucional da coisa, e que a direita por norma tanto preza e tanto critica nos outros, e passando à substância, que é o que realmente aqui nos importa, talvez seja bom usar a expressão do primeiro-ministro para reflectir sobre quem é que de facto “comeu com o resgate” e, sobretudo, quem é que “comeu dele”.
Esta semana foi notícia algo que constituiu novidade para muita gente, mas certamente não para o PCP, que já o vem denunciando há anos nas suas múltiplas intervenções. Entre 2008 e 2014, o estado português – por via das políticas dos governos PS e PSD/CDS – injectou 19,5 mil milhões de euros na banca, valor correspondente a 11,3% do PIB. Como bem sabemos, como consta do argumentário do governo e até do próprio PS, foi necessário recorrer ao dito “resgate” porque “não havia dinheiro” – nunca há… – “para salários e pensões”, porque os cofres “estavam vazios”, e portanto havia que “salvar o país”, entenda-se, a banca, recorrendo a duros e pesados “sacrifícios” impostos aos do costume. Ora, está bom de ver quem é que, feitas as contas, “comeu com o resgate” e quem é que “comeu dele”. Uma coisa é certa: quem “comeu com ele”, no sentido de “sofrer com ele” não foi Pedro Passos Coelho, nem os seus amigos banqueiros. Mas quem “comeu dele”, quem se aproveitou dele e hoje aparece com ar ufano a gabar-se de “recuperação”, “crescimento” e “regresso aos lucros” na ordem dos muitos milhões de euros não deve ter sido, com toda a certeza, o comum dos contribuintes.
Via: Manifesto 74
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