Enganados pelo miúdo
Na melhor tradição da literatura picaresca espanhola,
Francisco Nicolás Gómez Iglesias ultrapassou os limites que
celebrizaram personagens como "Guzmán de Alfarache" ou
"Lazarillo de Tormes". O "pequeno" Nicolás é hoje a
personagem mais famosa de Espanha, o jovem capaz de
irritar as mais altas instituições do país, o fabulador que
mostra que, com a dose adequada de descaramento, é
possível enganar políticos poderosos, empresários influentes
e representantes da sociedade civil.
À espera que a Procuradoria decida se apresenta queixa
formal e enquanto decorre a instrução judicial desencadeada
pela denúncia de um alegado prejudicado pelos seus atos,
Francisco Nicolás dedica o tempo a enaltecer a sua própria
figura, a ganhar dinheiro em entrevistas à TV e a alimentar
um ego descomunal, insuflado pela fama adquirida nas
últimas semanas.
Tudo isto quando tem apenas 20 anos.
A juíza que conduz o processo por alegada fraude,
instaurado por um cidadão a quem Francisco Nicolás exigiu
25 mil euros para mediar na adjudicação de um concurso
público, faz, em papel timbrado, a mesma pergunta que
milhões de cidadãos: "Esta instrutora não consegue
compreender como é que um jovem de 20 anos, apenas
com o seu palavreado, pode aceder às conferências, lugares
e atos oficiais a que assistiu." Parte da resposta é dada pelo
psiquiatra forense, que descreve o comportamento do
impostor como "uma florida idealização delirante de tipo
megalómano".
"Mas quem é este?"
De repente, toda a gente perguntava o mesmo:
"Quem é este que me cumprimenta com tanto à-vontade?
De onde vem?" Francisco Nicolás aparecia em todo o ato
institucional relevante que se celebrasse em Madrid,
saudando o ex-chefe do governo espanhol José María Aznar,
vigiando a mesa eleitoral do vice-presidente da patronal,
Arturo Fernández, que lhe chamava 'sobrinho', acompanhando
uma delegação comercial junto ao secretário de Estado do
Comércio, abrindo caminho para Ana Botella, presidente da
Câmara de Madrid e mulher de Aznar...
Sempre impecavelmente vestido, fez-se fotografar a
cumprimentar os novos reis, Felipe e Letizia, na receção que
se seguiu à sua coroação, convidado não se sabe por quem.
Tanto se apresentava na Câmara Municipal de Ribadeo
(Astúrias), a bordo de um automóvel oficial com escolta
policial, para anunciar una iminente visita do rei (falsa), como
ia à sede do sindicato Mãos Limpas com a tarefa - que dizia
ter sido um pedido do anterior rei, Juan Carlos I - de
persuadir aquela organização a retirar a queixa contra a
infanta Cristina por envolvimento nos negócios corruptos do
marido, Iñaki Urdangarín. Também se fez anunciar como
membro do Centro Nacional de Informações (CNI, serviço de
espionagem espanhol) ou enviado especial da
vice-primeira-ministra Soraya Sáenz de Santamaría.
Poucos se atreviam a questionar este prodígio da audácia,
dada a opacidade das suas influências e o secretismo dos
seus apoios. Quando a bolha rebentou, o Palácio da Moncloa
(sede do Governo), o CNI, a Casa do Rei, a Câmara de
Madrid, ministérios e instituições viram-se forçados a
desmentir perante 45 milhões de habitantes que
apadrinhassem aquela personagem. Grande parte dos
cidadãos duvida, porém, que este rapaz simpático, bem
apresentado e invejavelmente eloquente, tenha chegado tão
longe sem "mão amiga" que lhe ampare as costas.
Filho de uma família com escassos recursos, neto de um
coronel do exército, Nicolás, estudante de Direito,
ofereceu-se desde muito jovem para quaisquer tarefas na
Juventude do Partido Popular (direita, no poder). Fez-se
imprescindível e aparecia em toda a parte, tirando fotos com
gente famosa e publicando-as no Facebook. Conseguiu que
todos o conhecessem sem lhe atribuir proveniência, como
aqueles convidados dos casamentos que ninguém sabe se
vêm da parte do noivo ou da noiva.
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/enganados-pelo-miudo=f901159#ixzz3KwvicbUy
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