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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Enganados pelo miúdo - Francisco Nicolás, de 20 anos, abalou a sociedade espanhola ao ludibriar diversas personalidades. Da n.º 2 do Governo ao rei, todos caíram.

Enganados pelo miúdo




Francisco Nicolás, de 20 anos, abalou a sociedade espanhola ao ludibriar diversas personalidades. Da n.º 2 do Governo ao rei, todos caíram.
Enganados pelo miúdo
 
Na melhor tradição da literatura picaresca espanhola, 
Francisco Nicolás Gómez Iglesias ultrapassou os limites que 
celebrizaram personagens como "Guzmán de Alfarache" ou 
"Lazarillo de Tormes". O "pequeno" Nicolás é hoje a 
personagem mais famosa de Espanha, o jovem capaz de 
irritar as mais altas instituições do país, o fabulador que 
mostra que, com a dose adequada de descaramento, é 
possível enganar políticos poderosos, empresários influentes 
e representantes da sociedade civil.
À espera que a Procuradoria decida se apresenta queixa 
formal e enquanto decorre a instrução judicial desencadeada 
pela denúncia de um alegado prejudicado pelos seus atos, 
Francisco Nicolás dedica o tempo a enaltecer a sua própria 
figura, a ganhar dinheiro em entrevistas à TV e a alimentar 
um ego descomunal, insuflado pela fama adquirida nas 
últimas semanas. 
Tudo isto quando tem apenas 20 anos. 
A juíza que conduz o processo por alegada fraude, 
instaurado por um cidadão a quem Francisco Nicolás exigiu 
25 mil euros para mediar na adjudicação de um concurso 
público, faz, em papel timbrado, a mesma pergunta que 
milhões de cidadãos: "Esta instrutora não consegue 
compreender como é que um jovem de 20 anos, apenas 
com o seu palavreado, pode aceder às conferências, lugares 
e atos oficiais a que assistiu." Parte da resposta é dada pelo 
psiquiatra forense, que descreve o comportamento do 
impostor como "uma florida idealização delirante de tipo 
megalómano".
"Mas quem é este?"
De repente, toda a gente perguntava o mesmo: 
"Quem é este que me cumprimenta com tanto à-vontade? 
De onde vem?" Francisco Nicolás aparecia em todo o ato 
institucional relevante que se celebrasse em Madrid, 
saudando o ex-chefe do governo espanhol José María Aznar, 
vigiando a mesa eleitoral do vice-presidente da patronal, 
Arturo Fernández, que lhe chamava 'sobrinho', acompanhando 
uma delegação comercial junto ao secretário de Estado do 
Comércio, abrindo caminho para Ana Botella, presidente da 
Câmara de Madrid e mulher de Aznar... 
Sempre impecavelmente vestido, fez-se fotografar a 
cumprimentar os novos reis, Felipe e Letizia, na receção que 
se seguiu à sua coroação, convidado não se sabe por quem. 
Tanto se apresentava na Câmara Municipal de Ribadeo 
(Astúrias), a bordo de um automóvel oficial com escolta 
policial, para anunciar una iminente visita do rei (falsa), como 
ia à sede do sindicato Mãos Limpas com a tarefa - que dizia 
ter sido um pedido do anterior rei, Juan Carlos I - de 
persuadir aquela organização a retirar a queixa contra a 
infanta Cristina por envolvimento nos negócios corruptos do 
marido, Iñaki Urdangarín. Também se fez anunciar como 
membro do Centro Nacional de Informações (CNI, serviço de 
espionagem espanhol) ou enviado especial da 
vice-primeira-ministra Soraya Sáenz de Santamaría.
Poucos se atreviam a questionar este prodígio da audácia, 
dada a opacidade das suas influências e o secretismo dos 
seus apoios. Quando a bolha rebentou, o Palácio da Moncloa 
(sede do Governo), o CNI, a Casa do Rei, a Câmara de 
Madrid, ministérios e instituições viram-se forçados a 
desmentir perante 45 milhões de habitantes que 
apadrinhassem aquela personagem. Grande parte dos 
cidadãos duvida, porém, que este rapaz simpático, bem 
apresentado e invejavelmente eloquente, tenha chegado tão 
longe sem "mão amiga" que lhe ampare as costas.
Filho de uma família com escassos recursos, neto de um 
coronel do exército, Nicolás, estudante de Direito, 
ofereceu-se desde muito jovem para quaisquer tarefas na 
Juventude do Partido Popular (direita, no poder). Fez-se 
imprescindível e aparecia em toda a parte, tirando fotos com 
gente famosa e publicando-as no Facebook. Conseguiu que 
todos o conhecessem sem lhe atribuir proveniência, como 
aqueles convidados dos casamentos que ninguém sabe se 
vêm da parte do noivo ou da noiva.


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/enganados-pelo-miudo=f901159#ixzz3KwvicbUy

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