O personagem nasceu a 25 de Fevereiro, apto a despertar o queixume dos autores, que haviam filhado um ser mudo, sem choro e sem birra — um tormento, porque antes dele a motivação fugira solteira, desatada no fogo lento da casa, após o que decretaram (sem que se entregassem às mãos um do outro) a obrigatoriedade de recuperar o mistério para o amor, e não existe segredo maior do que um filho.
Cinquenta anos depois, graças à renovação absoluta das células que o compõem, este homem não se reconheceria a si mesmo se lhe mostrassem, tão eternas, as bochechas e os caracóis de boneco com o rabo na alcofa a encarar o fotógrafo. Era já um outro ser, em tudo distinto desse que primeiro se viu fazer no mundo, tornado especialista, nas rádios urbanas, em amores nevados de perdidos e achados. Indiferente, por mutação celular, ao pai que fugira da mãe que encolhera, mísera, a um canto na sala de estar.
Agora vemos o personagem vestido de camurça dos pés ao pescoço, num jeito seco de quem não tem que pensar, caminhando pela calçada de uma cidade de luz que apenas incide até meia parede, onde mulheres postas no volteio das janelas exibem gatos penteados à medida das suas maquilhagens.
Desapareceu ontem, na Rua dos Lírios, pelas dez horas, vestia camisola e calça escura de camurça, acabado de sair da mudança de pele. A família deseja o seu regresso, por todas as razões e por nenhuma. Se o encontrar, telefone. Oferecemos recompensa.
O personagem passa junto e nem os gatos o reconhecem. Passara na mesma janela dobrando a esquina todos os dias nos meses anteriores, sem hora certa, a caminho de. As outras células e a pele vazia acenariam às mulheres e ao seu colo de gatos; este de agora diz, pela primeira vez, bom dia. Quem é este homem?
ao menos por um dia.
Deixar cair, com a pele, a velha escama
e esperar por uma nova no que sobra.
Depois, voltar a ser o homem-alegria
desconhecido, até, de quem o ama.