No tempo do "selou" (Orelhas de Burro)
Hoje, já não é assim. Há menos dinheiro, sai-se menos. E, há muito, sai-se diferente. Foi deixando de haver hábitos de conversa. A maioria foi perdendo o costume de reunião nos cafés a seguir ao jantar, às Sextas e aos Sábados à noite. Mas, naquela altura, tocava a reunir por volta das dez. No Verão, na esplanada; no Inverno, lá dentro. Para quem gostava, a cerveja ia jorrando lado a lado com as novas da semana. Ainda não havia esse sucedâneo de cerveja e substituto de conversas a que hoje se chama “shot”. Fumava-se onde calhasse. O tabaco ainda só fazia mal aos doentes. Outro tempo, outro formato.
No daquele, depois dos copos e da conversa, ia-se para a discoteca. Os que queriam ir, por volta da meia-noite. Os que acabavam por querer, por volta das duas, depois do café fechar. Os primeiros a chegar escolhiam onde sentar-se nas mesas que ainda houvesse livres num ambiente à meia-luz e ao meio-som, geralmente com uma cassette em fundo. Conversava-se. Prestava-se atenção a quem chegava. Acendia-se um e outro cigarro. Cumprimentava-se este e aquela. Pedia-se um vodka laranja, um gin com pisang ambon, uma batida de coco, uma cuba livre, uma Coca-Cola, uma cerveja. E esperava-se.
Finalmente, “abria” a pista. Mandava o figurino que fosse Quase sempre uma mistura de qualquer coisa a lembrar o espacial, uns acordes de Art of Noise, luzes ao ritmo de disparos laser de filme de ficção científica, umas guitarradas dos Led Zeppelin e uns arrojos, por exemplo, da 5ª do Beethoven ou, por influência de Stanley Kubrick, do “Assim falava Zarathustra”, do Richard Strauss.
A seguir, segundo um formato que vigorou durante algum tempo, havia um “antes” e um “depois”. No “antes”, mais comercial e mais funky, que era quando o pessoal ia “pápista”, ouviam-se nomes como& the Gang, Ray Parker Jr., Cha Kool ka Khan, Baltimora, Billy Ocean, Kajagoogoo, P Lion ou Daryl Hall & John Oates. O “depois” era mais Rock e mais “Som da frente”, com U2, The Smiths, The Clash, Iggy Pop,The The, The Jesus and the Mary Chain, Echo and the Bunnymen, The Cure, Propaganda.
E, entre este “antes” e este “depois”, naturalmente que havia um “no meio”. Para muitos e muitas, era a motivação maior para sair de casa e o combustível que os fazia saltaricar “no antes”, posicionando-se estrategicamente para o soleníssimo convite cuja rapidez era imperativa para quem não quisesse ver o seu par a dançar com outro ou outra ou, pior ainda, aos beijos: os “slows” (“selous” em português), Que deixaram de ser momento obrigatório no final dos anos 80.
Lembrei-me disto a propósito da voz que hoje se calou. Whitney Houston, rainha dos prémios, Rainha do romantismo pinga-amor para parte da minha geração e um terror da pirosice dos “selous” para a restante. Que descanse em silêncio.
blog O país do burro
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