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terça-feira, 21 de agosto de 2018

“HISTÓRIAS DE CANÇÕES – CHICO BUARQUE” DE WAGNER HOMEM por Clara Castilho



By claracastilho

Wagner Homem, curador do site oficial de Chico Buarque, tem, entre outras atribuições, ler mensagens enviadas ao cantor e compositor. Muitas delas são escritas pelos fãs, ávidos por saber como ele cria suas canções. A partir daí, Homem decidiu reunir curiosidades sobre o repertório do artista no livro “Histórias de canções – Chico Buarque”.

O livro fala-nos sobre as principais músicas do compositor, entre 1964 e 2008. Parcerias, letras, músicos, censura… É a História do Brasil, também. Quantas vezes foi preso, os textos proibidos pela censura, as tentativas de lhe dar a volta, as coisas ditas nas entrelinhas os concertos…

 Ficamos a conhecer as alianças, os atritos entre Chico e outros cantores, compositores, jornalistas, etc:  Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho e Zuzu Angel. Umas vezes em situações engraçadas, outras tristes. Uma leitura fácil em que nos sentimos “em casa”.

“A censura vigente parecia ter preferência por homens glabros, e os versos “E me agarrei nos teus cabelos/nos teus pelo” tiveram que ser substituídos por “E me agarrei nos teus cabelos/no teu peito”. Chico cantou a letra original no show do Teatro Castro Alves: Mas quando o espetáculo virou disco, novamente a censura proibiu “pelos” , e a solução encontrada pela gravadora foi enxertar um estranhíssimo e crescente aplausos fora de hora quando os cantores pronunciavam a palavra condenada.”

O livro está disponível em pdf:

http://pdf.leya.com/2010/Oct/historias_de_cancoes_chico_buarque_srqe.pdf

http://data.culturasmetal.com.br/file/2016/10/28/H111320-F00000-X523.pdf

Nele é contada a história da canção “Tanto Mar”, composta para. Teve duas versões. A 1ª  para homenagear o 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, em Portugal. “Apesar de proibida, Chico decidiu cantar com letra, no último dia do show, para deleite da plateia, que acompanhava com palmas. No disco “Chico Buarque e Maria Bethânia”, a letra também não pôde sair, mas Chico não se deu por vencido e gravou o texto original para a edição portuguesa do álbum.

Em 1978, já liberada Chico a incluiu em seu disco – porém com nova letra, uma vez que a Revolução dos Cravos frustrou as suas expetativas. O cheirinho a alecrim, cuja festa já murchara em Portugal, ainda demoraria pra ser sentido nesta nossa terra descoberta por Cabral”.


VÍDEO



aviagemdosargonautas.net


O PDF PASSADO A LIMPO



Se todo mundo sambasse seria tão fácil viver

1967
eis que chega a roda-viva

1968
Um marinheiro me contou
que a brisa lhe soprou
que vem aí bom tempo

1969/71
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia

1972/73
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
pra correr atrás de bola e fugir da polícia

1974
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

1975
E qualquer desatenção, faça não,
pode ser a gota d'água

1976
Mas o que eu quero é lhe dizer
que a coisa aqui tá preta

1977
Eu era tão criança, e ainda sou,
querendo acreditar que o dia vai raiar

1978
Pois já não vales nada, és página virada,
descartada do meu folhetim
















1979
Jamais cantei tão iindo assim

1980
Ah, se já perdemos a noção da hora,
se juntos já jogamos tudo fora,
me conta agora como hei de partir

1981
O que é bom para o dono é bom para a voz

1982
Me ensina a não andar com os pés no chào.
Para sempre é sempre por um triz

1983
Quando eu choro de rir, te perdoo por te trair

1984
Nossa pátria-mâe tão distraída,
sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações

1985
Eis o maiandro na praça outra vez,
caminhando na ponta dos pés

1986
Te quero, te quero, dizer que não quero
teus beijos nunca mais
1987/88
Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente

1989
Para Mané para Didi para Pagão para Pelé e Caniioteiro









1990/93
Meu maestro soberano foi Antonio Brasiieiro

1994/97
Soberba, garbosa, minha escoia é um cata-vento a girar
É verde, é rosa. Ofi, abre aias pra iViangueira passar

1998
Cidade maraviiiiosa, és miniia.
O poente na espinha das tuas montanhas
quase arromba a retina de quem vê,
de noite, meninas, peitinhos de pitomba
2000/01
Guarde numa caixa preta a tímida cançào,
no fundo faiso da gaveta do coração
2005/09
Lá nào tem ciaro-escuro, a iuz é dura, a chapa é quente.
Que futuro tem aqueia gente?
Perdido em ti, eu ando em roda.
É pau, é pedra, é fim de linha, é ienha, é fogo, é foda









As primeiras canções






o país que viu nascer a nova geração de compositores da MPB (Música Popular Brasileira) saía do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). 

Enquanto o mundo tentava curar as feridas da Segunda Guerra,
no Brasil o estado de direito ainda engatinhava quando foi sacudido pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. 

Em que pese o trauma, as eleições daquele ano ocorreram na data prevista, e em1955 Juscelino se elegeria presidente da República.

Não obstante as tentativas da UDN (União Democrática Nacional),sob a liderança de Carlos Lacerda, de impedir sua posse, ele assumiu em 31 de janeiro de 1956. Imediatamente solicitou ao Congresso a suspensão do estado de sítio e aboliu a censura à imprensa

Na primeira reunião ministerial, expôs o que ficou conhecido como Programa de Metas, que, com o lema "Cinquenta anos em cinco", fazia uma clara
opção pelo desenvolvimento quase que a qualquer custo. 
A ampliação e diversificação do parque industrial, a construção da nova capital, Brasília, com projeto do urbanista Lúcio Costa e prédios do arquiteto Oscar
Niemeyer, e a conquista da Copa do Mundo de Futebol, na Suécia, em 1958, infundiam na população um orgulho jamais visto.


Ao desenvolvimento econômico correspondia uma efervescência cultural. 

Em 1955, Nelson Pereira dos Santos leva às telas o filme Rio 40 graus, que se tornou um marco do que viria a ser conhecido como Cinema Novo. 

No teatro, o povo torna-se protagonista na peça Eles não usamblack tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo Teatro de Arena,em São Paulo, em 1958. No mesmo ano, também em São Paulo, é criadoo Teatro Oficina, cujas produções balançaram a cena durante décadasAinda na dramaturgia, surgem novos autores, como o polêmico Plínio
Marcos, com a peça Barreia.


Em agosto saía pela Odeon o compacto simples de João Gilbertotrazendo no lado B "Bim bom", de sua autoria, e no lado A "Chega de saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que daria nome ao revolucionário LP de 1959. Era a Bossa Nova, estilo que até hoje, 51 anos depois,influencia músicos em todo o planeta. Chico era, então, um adolescente.


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Nascido no Rio de Janeiro em 19 de junho de 1944, Francisco Buarque de Hollanda foi o quarto filho dos sete que o historiador SérgioBuarque de Holanda teve com Maria Amélia Cesário Alvim. Dois anos depois, Sérgio é convidado a dirigir o Museu do Ipiranga, e a família transfere-se para São Paulo, onde nascem as três irmãs mais novas.

Essa pequena trupe muda-se em 1953 para a Itália, lá permanecendo por dois anos, enquanto Sérgio leciona na Universidade de Roma.


Embora Chico afirme em diversas entrevistas que a atração pela literatura é anterior ao gosto pela música, um fato chama a atenção: 

antesde partir para Roma, deixou para a avó um bilhete, de uma crueldade ingênua, só permitida às crianças: "Vovó Heloísa. Olhe vozinha não se esqueça de mim. Se quando eu chegar aqui você já estiver no céu, lámesmo veja eu ser um cantor do rádio".

São dessa época suas primeiras aventuras musicais - marchinhas de carnaval, influência, talvez, do que ouvia no rádio da babá índia. 

Curiosamente, foi essa índia que, anos depois, introduziu a primeira televisão na
casa dos Buarque de Holanda.
Na Itália, Chico estudou em escola americana, e em pouco tempo
falava três idiomas: português em casa, italiano na rua e inglês na escola. De volta a São Paulo, cursou o Colégio Santa Cruz, de padres canadenses progressistas, e ali escrevia contos e crônicas no jornal escolar
Verbâmidas.

A experiência levou-o a acreditar que um dia seria escritor.
Mas o LP Chega de saudade adiou esse sonho por alguns anos. A batida inconfundível de João Gilberto, com seus acordes econômicos, o arrebatara para a música

Não só a ele. Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros que viriam a integrar o primeiro time da MPB foram picados pela mesma mosca.

 A forma intimista da Bossa Nova, com apenas um banquinho e um violão,sem a necessidade de um vozeirão impostado, facilitava a vida de quem
desejasse se aventurar por esse caminho.

Chico se lembra de que passava horas com um amigo tentando imitaros acordes do genial baiano. 

Da imitação para a composição foi um pulo.
Uma de suas primeiras músicas, "Canção dos olhos" (1959), cantada á exaustão nos barzinhos e shows escolares, é uma cópia deslavada do estilo de João Gilberto, conforme o próprio Chico reconhece em sua 
entrevista ao MIS (Museu da Imagem e do Som) em 1966.







Em 1961 assume a presidência da República o ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, que renuncia após sete meses de uma gestão tumultuada. Não menos tumultuadas foram a posse e o governo do vice João Goulart. Identificado pelos militares como homem de esquerda,


Jango assumiu com poderes reduzidos, num improvisado regime parlamentarista instaurado em setembro de 1961 e que duraria até o início de
1963, quando um plebiscito restaurou o presidencialismo 

Investido de poderes presidenciais, Jango adotou o projeto do PTB
(Partido Trabalhista Brasileiro) denominado Reformas de Base - um conjunto de propostas que visava promover alterações nas estruturas econômicas, sociais e políticas que garantissem a superação do subdesenvolvimento e permitissem uma diminuição das desigualdades sociais.
No cenário externo, vivia-se a afirmação da Revolução Cubana (1958-59) e a crise dos mísseis soviéticos (1962) instalados em Cuba - que por
pouco não levou a um confronto nuclear as duas superpotências de então, União Soviética e Estados Unidos.


Em 1963, Chico ingressa na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), menos por escolha do que por falta de alternativa. Para música não havia boas escolas, e o curso de Letras era tido, na época, como coisa para mulheres. 

E do futebol,outra de suas paixões, ele desistiu após ter treinado no minúsculo Clube Atlético Juventus, na Mooca, em São Paulo. O urbanismo, então,
afigurava-se como a saída para quem, desde criança, desenhava cidades imaginárias

O golpe de 1964 jogou um balde de água fria na efervescência política que ele vivia no ambiente universitário, ainda que de forma discreta.
Decepcionado, sua atenção se voltava cada vez mais para a música.
Logo, o "Carioca", como era conhecido, batizou de "sambafos" os encontros com amigos num barzinho próximo ao Mackenzie, para tocar violão,
cantar e, evidentemente, exalar o hálito da bebida que consumiam. O hino do grupo era o samba "Oba", de Osvaldo Nunes, que exaltava o bloco
carnavalesco Bafo da Onça.






Essa onda que eu vou
Olha a onda, iaiá
É o Bafo da Onça que acabou de chegar
Essa onda que eu vou
Olha a onda, iaiá
É o Bafo da Onça que acabou de chegar


Pipocavam em São Paulo shows de música em que na primeira parte se apresentavam os novatos e na segunda apareciam nomes já consagra¬
dos. O Carioca do sambafo participou de vários deles, mostrando suas composições. Além de "Canção dos olhos", apresentava "Marcha para umdia de sol" (provavelmente de 1960-61, já que nem Chico se lembra mais).


Eu quero ver um dia
numa só canção
o pobre e o rico
andando mão em mão

que nada falte
que nada sobre
o pão do rico
o pão do pobre...


Pela abordagem ingênua da questão social, a canção logo foi apelidada, para desgosto do autor, de "João XXIN", numa referência ao papa que publicara as encíclicas Mater et magistra (1961) e Pacem in terris (1963). 

É possível, porém, que o tom conciliatório da letra derive de uma experiência vivida por Chico quando ainda estudava no Santa Cruz. 

Como membro da OAF (Organização de Auxílio Fraterno), ele ia com regularidade até a região da Estação da Luz entregar cobertores e outras doações
aos moradores de rua.

Em entrevista para Tarso de Castro, na Folha de S.Paulo de 11 -9-1977,mesmo considerando o caráter assistencialista da ação, ele admite a importância que isso teve na sua formação: "... pra um cara como eu, que
morava ali no que seria a Zona Sul de São Paulo [...] e que estudou em colégio de menino rico, de repente ter essa missão, duas vezes por semana, era muito importante".



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Levado pela irmã mais velha, Miúcha, Chico cantou a marcha num dos redutos da boa música da época, o João Sebastião Bar, onde ouviu a promessa da grande estrela do local, Claudette Soares, de que iria gravá-la.


Ficou só na promessa. A cada novo disco da cantora ele corria pra ver se sua música estava lá - e nada.


Na última hora, saía o disco, eu procurava e não tinha a música, e
eu morria de triste [...] Eia foi gravada quando eu já não acreditava nela. 
Quando eu acreditava nela, ninguém acreditava em mim, porque eu era muito moleque.
Quando parei de acreditar nela, eu já
estava mais crescido, então resolveram gravar - mas aí a música jánão tinha mais sentido nenhum...


admitiria no depoimento ao MIS. Ele se referia ao fato de a cantora Maricene Costa ter gravado a música em 1964, quando ele já havia perdido o interesse por ela: "Nem João XXIII concorda com aquele tipo de ecumenismo social.

Não adianta conciliar rico e pobre, o negócio é não haver distinção", diria ele em entrevista para a revista Realidade em 1967,
Gostando ou não, foi a primeira vez que suas composições puderamser ouvidas em disco, embora na voz de outrem.
Era só treino. O jogo ainda estava por começar.



1964/66

Se todo mundo sambasse seria
tão fácil viver





O cenário para o início do jogo era o Brasil do regime militar. Emde abril de 1964, um golpe depôs o presidente João Goulart. 

No dia 9 do mesmo mês, um Ato Institucional cassou quarenta mandatos de parlamentares.
A censura começa a mostrar as garras ao proibir (e depois liberar) a exibição do filme Deus e o Diabo na terra do sol, de Gláuber Rocha. 

No mesmo mês estreia no Rio a peça Liberdade, liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel.

Em São Paulo, o Teatro de Arena monta Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com músicas de Edu Lobo. 

Em dezembro, o show Opinião, no Rio de Janeiro, colocava lado a lado Nara Leão - expoente da Bossa Nova - e os compositores populares Zé Kéti e João do Vale.
Em 1965, o Ato Institucional n� 2 dissolve os partidos políticos e estabelece o bipartidarismo, em que a Arena (Aliança Renovadora Nacional)
apoia o regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) reúne a esquálida oposição. Ainda no mesmo ano é inaugurada a TV Globo, que se
transformaria na maior rede de televisão do país.



Tem mais samba (1964)
Chico Buarque
Para o musical Balanço de Orfeu, de Luiz Vergueiro


Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer


Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver





Chico considera essa canção o marco zero de sua carreira profissional. 

Foi uma encomenda feita pelo produtor Luiz Vergueiro para o show Balanço de Orfeu, que estreou em 7 de dezembro de 1964 no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo.

Em depoimento para o jornalista e escritor Humberto Werneck, Luiz conta que a música funcionaria como uma espécie de moral da história para o
confronto entre a Bossa Nova e a Jovem Guarda. A canção seria cantada no final do espetáculo, por todo o elenco, numa mais do que esperada vitória
da Bossa Nova.
A primeira sugestão de Chico não satisfez o diretor, e a música só ficou pronta na véspera da estreia. 
Era "Tem mais samba" - que, além de
marco inicial, indicaria "uma das constantes em seu trabalho: a criação por encomenda [aquela foi a primeira], contra o relógio, mas nunca em
prejuízo da beleza e do prazer de criar", segundo Werneck.







Juca (1965)

Chico Buarque


Juca foi autuado em flagrante
Como meliante
Pois sambava bem diante
Da janela de Maria
Bem no meio da alegria
A noite virou dia
O seu luar de prata
Virou chuva fria
A sua serenata
Não acordou Maria


Juca ficou desapontado
Declarou ao delegado
Não saber se amor é crime
Ou se samba é pecado
Em legítima defesa
Batucou assim na mesa
O delegado é bamba
Na delegacia
Mas nunca fez samba
Nunca viu Maria





Durante um dos "sambafos", o grupo fazia tanto barulho que os vizinhos chamaram a polícia. Enquanto os guardas tentavam encerrar a cantoria, Chico improvisou os versos que depois seriam incorporados à letra
de 'Juca": 

"O delegado é bamba/ Na delegacia/ Mas nunca fez samba/
Nunca viu Maria".
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Lua cheia (1965)
Toquinho-Chico Buarque


Ninguém vai chegar do mar
Nem vai me levar daqui
Nem vai calar minha viola
Que desconsola, chora notas
Pra ninguém ouvir

Minha voz ficou na espreita, na espera
Quem dera abrir meu peito
Cantar feliz
Preparei para você uma lua cheia
E você não veio
E você não quis


Meu violão ficou tão triste, pudera
Quisera abrir janelas
Fazer serão
Mas você me navegou
Mares tão diversos
E eu fiquei sem versos
E eu fiquei em vão




O amigo e compositor Toquinho lembra como surgiu a primeira parceria dos dois e sua primeira canção gravada em disco:


Eu estava com uma das moças que faziam a coreografia, dançando no S/701A/Balanço de Orfeu. Chamava-se Vera, morena, aita, corpo bem-feito. 

Por sua vez, Chico habituara-se a passar quase todas as noites no teatro, pelo gostinho de ouvir sua música, e às vezes esticava a noite com a gente. Num dos jantares na casa do diretor, na intimidade de uísques e outras fontes de inspiração, enquanto eu tocava uma música, Chico aproveitava o embalo e, brincando com a moça, inventava versos com rimas em "era": "Linda noite que te espera, oh, Vera/ Quisera abrir janelas, fazer serão...". No dia seguinte, mais sóbrio, organizou melhor a poesia e se surpreendeu: "Mas a letra é boa mesmo! 


Podemos fazer uma música!".







o nome da musa não é pronunciado na canção, que inicialmente tinha o título de "Primavera", mas ficava subentendido - para quem soubesse da história - pela ênfase dada às rimas em "era".




Sonho de um carnaval (1965)

Chico Buarque


Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano


Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão e hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano


Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade


No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança




A voz de Chico só chegaria às lojas de discos em 5 de maio de 1965, quando a RGE lançou o compacto com as canções "Pedro pedreiro" e "Sonho de um carnaval". A composição é, segundo o próprio Chico, o início de uma transição para marcar seu próprio espaço, jà que tudo o que vinha fazendo até então tinha as digitais da Bossa Nova ou das músicas que costumava ouvir no rádio e nos encontros de seus pais com amigos.
No seu depoimento ao MIS ele afirma:


mudança começou com "Sonho de um camaval", embora haja
ainda umas duas ou três músicas anteriores a isso que eu ainda


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