By claracastilho
Wagner Homem, curador do site oficial de Chico Buarque, tem, entre outras atribuições, ler mensagens enviadas ao cantor e compositor. Muitas delas são escritas pelos fãs, ávidos por saber como ele cria suas canções. A partir daí, Homem decidiu reunir curiosidades sobre o repertório do artista no livro “Histórias de canções – Chico Buarque”.
O livro fala-nos sobre as principais músicas do compositor, entre 1964 e 2008. Parcerias, letras, músicos, censura… É a História do Brasil, também. Quantas vezes foi preso, os textos proibidos pela censura, as tentativas de lhe dar a volta, as coisas ditas nas entrelinhas os concertos…
Ficamos a conhecer as alianças, os atritos entre Chico e outros cantores, compositores, jornalistas, etc: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho e Zuzu Angel. Umas vezes em situações engraçadas, outras tristes. Uma leitura fácil em que nos sentimos “em casa”.
“A censura vigente parecia ter preferência por homens glabros, e os versos “E me agarrei nos teus cabelos/nos teus pelo” tiveram que ser substituídos por “E me agarrei nos teus cabelos/no teu peito”. Chico cantou a letra original no show do Teatro Castro Alves: Mas quando o espetáculo virou disco, novamente a censura proibiu “pelos” , e a solução encontrada pela gravadora foi enxertar um estranhíssimo e crescente aplausos fora de hora quando os cantores pronunciavam a palavra condenada.”
O livro está disponível em pdf:
http://pdf.leya.com/2010/Oct/historias_de_cancoes_chico_buarque_srqe.pdf
http://data.culturasmetal.com.br/file/2016/10/28/H111320-F00000-X523.pdf
Nele é contada a história da canção “Tanto Mar”, composta para. Teve duas versões. A 1ª para homenagear o 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, em Portugal. “Apesar de proibida, Chico decidiu cantar com letra, no último dia do show, para deleite da plateia, que acompanhava com palmas. No disco “Chico Buarque e Maria Bethânia”, a letra também não pôde sair, mas Chico não se deu por vencido e gravou o texto original para a edição portuguesa do álbum.
Em 1978, já liberada Chico a incluiu em seu disco – porém com nova letra, uma vez que a Revolução dos Cravos frustrou as suas expetativas. O cheirinho a alecrim, cuja festa já murchara em Portugal, ainda demoraria pra ser sentido nesta nossa terra descoberta por Cabral”.
VÍDEO
aviagemdosargonautas.net
O PDF PASSADO A LIMPO
Se
todo mundo sambasse seria tão fácil viver
1967
eis que chega a roda-viva
1968
Um
marinheiro me contou
que a
brisa lhe soprou
que
vem aí bom tempo
1969/71
Apesar
de você, amanhã há de ser outro dia
1972/73
Deus
me deu pernas compridas e muita malícia
pra
correr atrás de bola e fugir da polícia
1974
Você
não gosta de mim, mas sua filha gosta
1975
E
qualquer desatenção, faça não,
pode
ser a gota d'água
1976
Mas o
que eu quero é lhe dizer
que a
coisa aqui tá preta
1977
Eu era
tão criança, e ainda sou,
querendo
acreditar que o dia vai raiar
1978
Pois
já não vales nada, és página virada,
descartada
do meu folhetim
1979
Jamais cantei tão iindo assim
1980
Ah,
se já perdemos a noção da hora,
se juntos já jogamos tudo fora,
me conta agora como hei de partir
1981
O que é bom
para o dono é bom para a voz
1982
Me ensina a não andar com os pés no chào.
Para sempre é sempre por um triz
1983
Quando eu choro de rir, te perdoo por te
trair
1984
Nossa pátria-mâe tão distraída,
sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações
1985
Eis o maiandro na praça outra vez,
caminhando na ponta dos pés
1986
Te quero, te quero, dizer que não quero
teus beijos nunca mais
1987/88
Preciso não dormir até se consumar o tempo
da gente
1989
Para Mané para Didi para Pagão para Pelé
e Caniioteiro
1990/93
Meu
maestro soberano foi Antonio Brasiieiro
1994/97
Soberba,
garbosa, minha escoia é um cata-vento a girar
É
verde, é rosa. Ofi, abre aias pra iViangueira passar
1998
Cidade
maraviiiiosa, és miniia.
O
poente na espinha das tuas montanhas
quase
arromba a retina de quem vê,
de
noite, meninas, peitinhos de pitomba
2000/01
Guarde
numa caixa preta a tímida cançào,
no
fundo faiso da gaveta do coração
2005/09
Lá
nào tem ciaro-escuro, a iuz é dura, a chapa é quente.
Que
futuro tem aqueia gente?
Perdido
em ti, eu ando em roda.
É
pau, é pedra, é fim de linha, é ienha, é fogo, é foda
As
primeiras canções
o país
que viu nascer a nova geração de compositores da MPB (Música
Popular Brasileira) saía do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961).
Enquanto o mundo tentava curar as feridas da Segunda Guerra,
no Brasil
o estado de direito ainda engatinhava quando foi sacudido pelo suicídio
do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.
Em que pese o
trauma, as eleições daquele ano ocorreram na data prevista, e em1955
Juscelino se elegeria presidente da República.
Não
obstante as tentativas da UDN (União Democrática Nacional),sob a
liderança de Carlos Lacerda, de impedir sua posse, ele assumiu em 31 de
janeiro de 1956. Imediatamente solicitou ao Congresso a suspensão do
estado de sítio e aboliu a censura à imprensa
Na primeira reunião
ministerial, expôs o que ficou conhecido como Programa de Metas,
que, com o lema "Cinquenta anos em cinco", fazia uma clara
opção
pelo desenvolvimento quase que a qualquer custo.
A ampliação e
diversificação do parque industrial, a construção da nova
capital, Brasília,
com projeto do urbanista Lúcio Costa e prédios do arquiteto Oscar
Niemeyer,
e a conquista da Copa do Mundo de Futebol, na Suécia, em 1958,
infundiam na população um orgulho jamais visto.
Ao
desenvolvimento econômico correspondia uma efervescência cultural.
Em
1955, Nelson Pereira dos Santos leva às telas o filme
Rio 40 graus,
que se tornou um marco do que viria a ser conhecido como Cinema Novo.
No teatro, o povo torna-se protagonista na peça
Eles não usamblack
tie,
de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo Teatro de Arena,em São
Paulo, em 1958. No mesmo ano, também em São Paulo, é criadoo Teatro
Oficina, cujas produções balançaram a cena durante décadasAinda na
dramaturgia, surgem novos autores, como o polêmico Plínio
Marcos,
com a peça
Barreia.
Em
agosto saía pela Odeon o compacto simples de João Gilbertotrazendo
no lado B "Bim bom", de sua autoria, e no lado A "Chega
de saudade",
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que daria nome ao revolucionário LP
de 1959. Era a Bossa Nova, estilo que até hoje, 51 anos depois,influencia
músicos em todo o planeta. Chico era, então, um adolescente.
11
Nascido no
Rio de Janeiro em 19 de junho de 1944, Francisco Buarque de
Hollanda foi o quarto filho dos sete que o historiador SérgioBuarque de
Holanda teve com Maria Amélia Cesário Alvim. Dois anos depois,
Sérgio é convidado a dirigir o Museu do Ipiranga, e a família transfere-se
para São Paulo, onde nascem as três irmãs mais novas.
Essa
pequena trupe muda-se em 1953 para a Itália, lá permanecendo por dois
anos, enquanto Sérgio leciona na Universidade de Roma.
Embora
Chico afirme em diversas entrevistas que a atração pela literatura é
anterior ao gosto pela música, um fato chama a atenção:
antesde partir
para Roma, deixou para a avó um bilhete, de uma crueldade ingênua,
só permitida às crianças: "Vovó Heloísa. Olhe vozinha não
se esqueça
de mim. Se quando eu chegar aqui você já estiver no céu, lámesmo veja
eu ser um cantor do rádio".
São dessa
época suas primeiras aventuras musicais - marchinhas de carnaval,
influência, talvez, do que ouvia no rádio da babá índia.
Curiosamente, foi
essa índia que, anos depois, introduziu a primeira televisão na
casa dos
Buarque de Holanda.
Na Itália,
Chico estudou em escola americana, e em pouco tempo
falava
três idiomas: português em casa, italiano na rua e inglês na escola. De
volta a São Paulo, cursou o Colégio Santa Cruz, de padres canadenses
progressistas, e ali escrevia contos e crônicas no jornal escolar
Verbâmidas.
A experiência levou-o a acreditar que um dia seria escritor.
Mas o LP
Chega de saudade
adiou esse sonho por alguns anos. A batida inconfundível
de João Gilberto, com seus acordes econômicos, o arrebatara para
a música
Não só a
ele. Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros que viriam a integrar
o primeiro time da MPB foram picados pela mesma mosca.
A forma
intimista da Bossa Nova, com apenas um banquinho e um violão,sem a
necessidade de um vozeirão impostado, facilitava a vida de quem
desejasse
se aventurar por esse caminho.
Chico se
lembra de que passava horas com um amigo tentando imitaros acordes
do genial baiano.
Da imitação para a composição foi um pulo.
Uma de
suas primeiras músicas, "Canção dos olhos" (1959),
cantada á exaustão
nos barzinhos e shows escolares, é uma cópia deslavada do estilo de
João Gilberto, conforme o próprio Chico reconhece em sua
entrevista
ao MIS (Museu da Imagem e do Som) em 1966.
Em
1961 assume a presidência da República o ex-governador de São
Paulo, Jânio Quadros, que renuncia após sete meses de uma gestão
tumultuada. Não menos tumultuadas foram a posse e o governo do vice João
Goulart. Identificado pelos militares como homem de esquerda,
Jango
assumiu com poderes reduzidos, num improvisado regime parlamentarista
instaurado em setembro de 1961 e que duraria até o início de
1963,
quando um plebiscito restaurou o presidencialismo
Investido
de poderes presidenciais, Jango adotou o projeto do PTB
(Partido
Trabalhista Brasileiro) denominado Reformas de Base - um conjunto de
propostas que visava promover alterações nas estruturas econômicas,
sociais e políticas que garantissem a superação do subdesenvolvimento e
permitissem uma diminuição das desigualdades sociais.
No
cenário externo, vivia-se a afirmação da Revolução Cubana (1958-59) e a
crise dos mísseis soviéticos (1962) instalados em Cuba - que por
pouco não
levou a um confronto nuclear as duas superpotências de então,
União Soviética e Estados Unidos.
Em
1963, Chico ingressa na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo), menos por escolha do que por falta
de alternativa. Para música não havia boas escolas, e o curso de Letras
era tido, na época, como coisa para mulheres.
E do futebol,outra de
suas paixões, ele desistiu após ter treinado no minúsculo Clube
Atlético Juventus, na Mooca, em São Paulo. O urbanismo, então,
afigurava-se
como a saída para quem, desde criança, desenhava cidades
imaginárias
O golpe de
1964 jogou um balde de água fria na efervescência política que
ele vivia no ambiente universitário, ainda que de forma discreta.
Decepcionado,
sua atenção se voltava cada vez mais para a música.
Logo, o
"Carioca", como era conhecido, batizou de "sambafos"
os encontros com
amigos num barzinho próximo ao Mackenzie, para tocar violão,
cantar e,
evidentemente, exalar o hálito da bebida que consumiam. O hino do grupo
era o samba "Oba", de Osvaldo Nunes, que exaltava o bloco
carnavalesco
Bafo da Onça.
Essa
onda que eu vou
Olha
a onda, iaiá
É
o Bafo da Onça que acabou de chegar
Essa
onda que eu vou
Olha
a onda, iaiá
É
o Bafo da Onça que acabou de chegar
Pipocavam
em São Paulo shows de música em que na primeira parte se
apresentavam os novatos e na segunda apareciam nomes já consagra¬
dos. O
Carioca do sambafo participou de vários deles, mostrando suas composições.
Além de "Canção dos olhos", apresentava "Marcha
para umdia de
sol" (provavelmente de 1960-61, já que nem Chico se lembra
mais).
Eu
quero ver um dia
numa
só canção
o
pobre e o rico
andando
mão em mão
que
nada falte
que
nada sobre
o
pão do rico
o
pão do pobre...
Pela
abordagem ingênua da questão social, a canção logo foi apelidada, para
desgosto do autor, de "João XXIN", numa referência ao
papa que
publicara as encíclicas
Mater et magistra
(1961) e
Pacem in terris (1963).
É
possível, porém, que o tom conciliatório da letra derive de uma experiência
vivida por Chico quando ainda estudava no Santa Cruz.
Como membro da
OAF (Organização de Auxílio Fraterno), ele ia com regularidade até a
região da Estação da Luz entregar cobertores e outras doações
aos
moradores de rua.
Em
entrevista para Tarso de Castro, na
Folha de S.Paulo
de 11 -9-1977,mesmo
considerando o caráter assistencialista da ação, ele admite a importância
que isso teve na sua formação: "... pra um cara como eu, que
morava ali
no que seria a Zona Sul de São Paulo [...] e que estudou em colégio
de menino rico, de repente ter essa missão, duas vezes por semana, era
muito importante".
14
Levado
pela irmã mais velha, Miúcha, Chico cantou a marcha num dos redutos da
boa música da época, o João Sebastião Bar, onde ouviu a promessa da
grande estrela do local, Claudette Soares, de que iria gravá-la.
Ficou só
na promessa. A cada novo disco da cantora ele corria pra ver se sua música
estava lá - e nada.
Na
última hora, saía o disco, eu procurava e não tinha a música, e
eu
morria de triste [...] Eia foi gravada quando eu já não acreditava nela.
Quando eu acreditava nela, ninguém acreditava em mim, porque eu
era muito moleque.
Quando parei de acreditar nela, eu já
estava
mais crescido, então resolveram gravar - mas aí a música jánão
tinha mais sentido nenhum...
admitiria
no depoimento ao MIS. Ele se referia ao fato de a cantora Maricene Costa
ter gravado a música em 1964, quando ele já havia perdido o interesse
por ela: "Nem João XXIII concorda com aquele tipo de ecumenismo
social.
Não adianta conciliar rico e pobre, o negócio é não haver distinção",
diria ele em entrevista para a revista
Realidade
em 1967,
Gostando
ou não, foi a primeira vez que suas composições puderamser
ouvidas em disco, embora na voz de outrem.
Era
só treino. O jogo ainda estava por começar.
1964/66
Se
todo mundo sambasse seria
tão
fácil viver
O cenário
para o início do jogo era o Brasil do regime militar. Emde abril
de 1964, um golpe depôs o presidente João Goulart.
No dia 9 do mesmo
mês, um Ato Institucional cassou quarenta mandatos de parlamentares.
A censura
começa a mostrar as garras ao proibir (e depois liberar) a exibição
do filme
Deus e o Diabo na terra do sol,
de Gláuber Rocha.
No mesmo mês
estreia no Rio a peça
Liberdade, liberdade,
de Millôr Fernandes e
Flávio Rangel.
Em São Paulo, o Teatro de Arena monta
Arena conta Zumbi,
de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com músicas de Edu Lobo.
Em
dezembro, o show
Opinião,
no Rio de Janeiro, colocava lado a lado Nara
Leão - expoente da Bossa Nova - e os compositores populares Zé Kéti
e João do Vale.
Em
1965, o Ato Institucional n� 2 dissolve os partidos políticos e
estabelece o
bipartidarismo, em que a Arena (Aliança Renovadora Nacional)
apoia o
regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) reúne a esquálida
oposição. Ainda no mesmo ano é inaugurada a TV Globo, que se
transformaria
na maior rede de televisão do país.
Tem
mais samba (1964)
Chico
Buarque
Para o
musical
Balanço de Orfeu,
de Luiz Vergueiro
Tem mais
samba no encontro que na espera
Tem mais
samba a maldade que a ferida
Tem mais
samba no porto que na vela
Tem mais
samba o perdão que a despedida
Tem mais
samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais
samba no chão do que na lua
Tem mais
samba no homem que trabalha
Tem mais
samba no som que vem da rua
Tem mais
samba no peito de quem chora
Tem mais
samba no pranto de quem vê
Que o bom
samba não tem lugar nem hora
O coração
de fora
Samba sem
querer
Vem que
passa
Teu sofrer
Se todo
mundo sambasse
Seria tão
fácil viver
Chico
considera essa canção o marco zero de sua carreira profissional.
Foi
uma encomenda feita pelo produtor Luiz Vergueiro para o show Balanço
de Orfeu,
que estreou em 7 de dezembro de 1964 no Teatro Maria
Della Costa, em São Paulo.
Em
depoimento para o jornalista e escritor Humberto Werneck, Luiz conta que a
música funcionaria como uma espécie de moral da história para o
confronto
entre a Bossa Nova e a Jovem Guarda. A canção seria cantada no final do
espetáculo, por todo o elenco, numa mais do que esperada vitória
da Bossa
Nova.
A primeira
sugestão de Chico não satisfez o diretor, e a música só ficou
pronta na véspera da estreia.
Era "Tem mais samba" - que,
além de
marco
inicial, indicaria "uma das constantes em seu trabalho: a
criação por
encomenda [aquela foi a primeira], contra o relógio, mas nunca em
prejuízo
da beleza e do prazer de criar", segundo Werneck.
Juca
(1965)
Chico
Buarque
Juca
foi autuado em flagrante
Como
meliante
Pois
sambava bem diante
Da janela
de Maria
Bem
no meio da alegria
A noite
virou dia
O
seu luar de prata
Virou chuva
fria
A sua
serenata
Não
acordou Maria
Juca
ficou desapontado
Declarou ao
delegado
Não saber
se amor é crime
Ou
se samba é pecado
Em legítima
defesa
Batucou
assim na mesa
O
delegado é bamba
Na
delegacia
Mas nunca
fez samba
Nunca viu
Maria
Durante
um dos "sambafos", o grupo fazia tanto barulho que os vizinhos
chamaram a polícia. Enquanto os guardas tentavam encerrar a cantoria,
Chico improvisou os versos que depois seriam incorporados à letra
de 'Juca":
"O delegado é bamba/ Na delegacia/ Mas nunca fez samba/
Nunca viu
Maria".
19
Lua
cheia (1965)
Toquinho-Chico
Buarque
Ninguém
vai chegar do mar
Nem vai me
levar daqui
Nem vai
calar minha viola
Que
desconsola, chora notas
Pra ninguém
ouvir
Minha voz
ficou na espreita, na espera
Quem dera
abrir meu peito
Cantar
feliz
Preparei
para você uma lua cheia
E você não
veio
E você não
quis
Meu violão
ficou tão triste, pudera
Quisera
abrir janelas
Fazer serão
Mas você
me navegou
Mares tão
diversos
E eu fiquei
sem versos
E eu fiquei
em vão
O amigo e
compositor Toquinho lembra como surgiu a primeira parceria dos
dois e sua primeira canção gravada em disco:
Eu
estava com uma das moças que faziam a coreografia, dançando no
S/701A/Balanço de Orfeu.
Chamava-se Vera, morena, aita, corpo bem-feito.
Por sua vez, Chico habituara-se a passar quase todas as
noites no teatro, pelo gostinho de ouvir sua música, e às vezes esticava
a noite com a gente. Num dos jantares na casa do diretor, na
intimidade de uísques e outras fontes de inspiração, enquanto eu tocava
uma música, Chico aproveitava o embalo e, brincando com a moça,
inventava versos com rimas em "era": "Linda noite que
te espera,
oh, Vera/ Quisera abrir janelas, fazer serão...". No dia
seguinte,
mais sóbrio, organizou melhor a poesia e se surpreendeu: "Mas a letra
é boa mesmo!
Podemos fazer uma música!".
o nome da
musa não é pronunciado na canção, que inicialmente tinha o título
de "Primavera", mas ficava subentendido - para quem
soubesse da
história - pela ênfase dada às rimas em "era".
Sonho
de um carnaval (1965)
Chico
Buarque
Carnaval,
desengano
Deixei
a dor em casa me esperando
E
brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira
sempre desce o pano
Carnaval,
desengano
Essa
morena me deixou sonhando
Mão
na mão, pé no chão e hoje nem lembra não
Quarta-feira
sempre desce o pano
Era
uma canção, um só cordão
E
uma vontade
De
tomar a mão
De
cada irmão pela cidade
No
carnaval, esperança
Que
gente longe viva na lembrança
Que
gente triste possa entrar na dança
Que
gente grande saiba ser criança
A voz de
Chico só chegaria às lojas de discos em 5 de maio de 1965, quando a
RGE lançou o compacto com as canções "Pedro pedreiro" e "Sonho
de um carnaval". A composição é, segundo o próprio Chico, o
início de uma
transição para marcar seu próprio espaço, jà que tudo o que vinha
fazendo até então tinha as digitais da Bossa Nova ou das músicas que
costumava ouvir no rádio e nos encontros de seus pais com amigos.
No seu
depoimento ao MIS ele afirma:
mudança
começou com "Sonho de um camaval", embora haja
ainda
umas duas ou três músicas anteriores a isso que eu ainda


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