O Expresso guarda no seu seio um provocatório íman de cliques que é, na minha perspectiva, um verdadeiro insulto à inteligência dos leitores. Refiro-me naturalmente ao espaço de opinião de Henrique Raposo (HR), competidor directo de João Miguel Tavares no renhido campeonato do colunista mais reaccionário do burgo.
HR é um campeão das polémicas artificiais. Estou convencido de que boa parte daquilo que escreve tem como intenção criar ruído, fidelizar cliques e garantir a sua continuidade como colunista do jornal. Seja como for, e independentemente de serem as suas palavras expressão fiel do seu pensamento ou – pelo menos parcialmente – cenário para alimentar uma imagem pública que lhe vai garantindo espaço de opinião como representante de um género de tea-party indígena, a verdade é que HR escreve enormidades que me provocam vergonha alheia. Será Raposo reaccionário, bom actor ou simplesmente desmiolado?
O colunista em causa já deu provas bastantes sobre uma incapacidade continuado de olhar o mundo por outro prisma que não tenha por base formas diversas de preconceito. Também já se revelou desinformado sobre temas diversos (recordo a alusão a uma pretensa aliança Syriza/Aurora Dourada com base na qual desenvolvia uma inquinada análise sobre o contexto político grego). Hoje, no texto “A eterna vitimização do negro”, deixou perfeitamente clara a sua tendência para introduzir argumentos “criativos” que suportem a sua narrativa.
Para Raposo existe uma prova indesmentível sobre a natureza estruturalmente violenta da cultura negra (suponho que se refira à cultura dos negros norte-americanos): o hip-hop (estilo musical que identifica como a “canção negra por excelência”) e os seus vídeos “típicos”, nos quais “um cantor negro e os seus amigos andam pelas ruas acenando Glocks, 38s e Magnums enquanto dão palmadinhas em bundas ao léu”. O colunista resume a coisa da seguinte forma: “os negros também têm a sua NRA, chama-se hip-hop”.
Raposo não sabe, mas o hip-hop não é (nem nos Estados Unidos, nem noutras paragens onde os negros ainda lutam por direitos que vão efectivamente além da letra morte da lei) a “canção negra por excelência”. Nos Estados Unidos, por exemplo, a canção negra por excelência – muito anterior ao advento do hip-hop – chama-se “Blues” e tem origem nas comunidades negras do Sul dos Estados Unidos. Noutros Estados, mais a Norte, existem outros estilos muito apreciados por largas camadas das comunidades negras: do Jazz ao Gospel, passando pelo Soul e, naturalmente, pelo hip-hop e estilos aparentados.
Assim, apresentar a suposta natureza violenta do hip-hop como ilustração de uma “cultura do gatilho” das comunidades negras nos Estados Unidos da América é mais ou menos a mesma coisa que aludir à aliança Syriza/Aurora Dourada para qualificar o governo de Tsipras na Grécia.
De resto fui ver os 20 vídeos de hip-hop considerados pelo site “The Boombox” como os melhores de 2015 e pude verificar que apenas em três aparecem armas, e que apenas num deles as armas são mostradas orgulhosamente por um negro. Este vídeo é precisamente uma sátira à ideia de que os vídeos de hip-hop são aquilo que Raposo afirma serem: filmes de “instrumentalização machista do corpo feminino” e de “glorificação das armas”.
Raposo finta os factos com tentativas pouco inteligentes de criar um enredo de irrealidade alternativa que lhe permita contrariar aquilo a que chama a “narrativa fofinha do Black Lives Matter”. O problema deste tipo de retórica é que os factos não se eclipsam, não desaparecem: existe nos EUA uma “questão racial” que não afecta apenas os negros, mas que afecta especialmente os negros, tanto no Sul como no Norte do país; a violência policial contra membros das comunidades negras atinge uma proporção incomparável com aquela exercida contra membros de outras comunidades (incluindo a hispânica, não raras vezes associada à mesma cultura “machista” e de “glorificação das armas” referidas por Raposo); o número de casos de negros desarmados que foram espancados e executados por membros das forças policiais norte-americanas não deixa margem para dúvidas nem argumentação racista sobre a existência de um problema grave, que tem raízes em séculos de exploração, discriminação, perseguição e segregação das comunidades negras na América do Norte.
Via: Manifesto 74 http://bit.ly/2aBeAMB

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