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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Maria, a mulher paga pelo governo filipino para matar traficantes de droga


Protesto contra o assassinato de traficantes de droga nas Filipinas  | 

A polícia contrata assassinos profissionais para eliminar os traficantes de droga. O presidente Rodrigo Duterte prometeu acabar com a criminalidade em seis meses

"O meu primeiro trabalho foi há dois anos. Eu estava muito assustada e nervosa porque foi a primeira vez", contou Maria, assassina profissional contratadas pela polícia filipina para acabar com o tráfico de droga no país, à BBC.

As Filipinas declararam uma guerra contra as drogas que tem atingido proporções inesperadas. O recém-eleito presidente Rodrigo Duterte, que tomou posse a 30 de junho, prometeu durante a campanha acabar com a criminalidade nos primeiros seis meses de mandato e declarou guerra à droga, tendo sido assassinadas quase 2000 pessoas desde então.

A polícia, com o aval do governo, tem contado com a ajuda de assassinos contratados. Maria (nome fictício) é uma das mulheres responsáveis por "eliminar os maus", como descreveu Duterte no passado.



Novo presidente promete ser "ditador" e "chacinar os maus"

Esta jovem confessou à BBC fazer parte de uma equipa de três mulheres, escolhidas a dedo por se conseguirem aproximar das vítimas sem levantar suspeitas, que seguem as ordens de um "chefe", que Maria revela apenas ser "um agente da polícia". Desde a chegada de Duterte à presidência,há dois meses, Maria diz ter matado cinco pessoas, todas com um tiro na cabeça.

Por cada trabalho, a equipa de Maria recebe 20 mil pesos, o equivalente a 380 euros. O montante, dividido por todas, é considerado uma pequena fortuna nas Filipinas. Maria vem de um bairro pobre de Manila, cidade capital, e não tinha nenhum emprego fixo antes deste.

Os alvos de Maria são todos traficantes de droga. Traficantes como Roger (também nome fictício), que começou a vender droga para sustentar o seu próprio vício, após se ter juntado aos milhares de toxicodependentes que vivem nas ruas de Manila.

"A cada dia, a cada hora. Não consigo viver sem medo", afirmou à BBC. "É muito cansativo e assustador teres de estar sempre escondido. Nunca sabes se a pessoa à tua frente te vai denunciar ou matar. Não consigo dormir à noite", acrescentou.

O traficante admitiu que "fez coisas horríveis" e "prejudicou várias pessoas que se tornaram viciadas em drogas", mas afirmou que nem todos os toxicodependentes são um risco para a sociedade. "Eu sou viciado mas não roubo nem mato", disse.

Quando Duterte subiu ao poder, Roger achou que estaria seguro pois as autoridades iriam "atrás dos grandes produtores de drogas e não dos traficantes de baixo nível". Agora, ao olhar para trás, lamenta o rumo que escolheu. "Gostaria de poder recuar no tempo mas agora é demasiado tarde para mim. Se me entregar à polícia, eles vão matar-me", admitiu.

Quase dois meses depois da tomada de posse de Duterte, um presidente que conta com apoio da maioria da população, já foram mortas 1900 pessoas, todas ligadas ao tráfico e consumo de droga. 756 dos suspeitos foram mortos pela polícia e outras 1160 mortes ainda estão a ser investigadas, segundo dados oficiais filipinos.

Maria foi introduzida no negócio alternativo do crime pelo marido, também ele assassino profissional ao serviço da polícia. "O meu marido recebia ordens para matar pessoas que não pagavam as dívidas", contou. "Um dia, eles precisavam de uma mulher, então o meu marido indicou-me para o trabalho", continuou. "Quando eu vi o homem que devia matar, aproximei-me dele e disparei", lembrou.

Desde esse dia, que está presa numa malha de crimes ao serviço do governo. Arrepende-se todos os dias, sente-se presa e quer mudar de vida, principalmente por causa dos filhos, mas o chefe, o tal agente da polícia, ameaçou matar quem abandonasse a equipa.



Hoje mesmo, o chefe da polícia das Filipinas instou os toxicodependentes a matarem os traficantes de droga e a queimar as suas casas.

Chefe da polícia das Filipinas diz a toxicodependentes para matarem traficantes

"Sinto-me culpada e é muito difícil para mim", confessou Maria. "Não quero que os familiares daqueles que matei venham atrás de mim". Maria não quer que os filhos pensem que a família apenas vive bem porque os pais são assassinos profissionais. O mais velho já lhe perguntou como consegue ganhar tanto dinheiro.


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