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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Como as traições têm influenciado o rumo da história (parte 1)

Como as traições têm influenciado o rumo da história

A história está cheia de casos de pessoas muito confiáveis que se revelaram capazes de delatar e prejudicar os melhores amigos e a pátria. Conheça a sórdida - e ambígua - saga da traição

Álvaro Oppermann 
Um dos episódios mais bem guardados da Revolução Cubana tinha no bojo uma traição em família. E só veio à tona em outubro, quando Juanita Castro lançou o livro de memórias Fidel y Raúl, mis Hermanos. La Historia Secreta, co-escrito com a jornalista María Antonieta Collins. Quinta dos sete filhos de Ángel Castro e Lina Ruz González, Juanita traiu seus irmãos trabalhando para a CIA entre 1961 e 1964, em plena Havana. "Foi uma relação estreita com o arqui-inimigo dos Castro", diz a jornalista sobre a informante de 76 anos, que vive no exílio há 45, primeiro no México e depois nos Estados Unidos. Nesse período, ela nunca falou com os irmãos.

A traição está entre os capítulos mais sombrios - e saborosos - da História ocidental. A própria Bíblia cita vários casos, nenhum tão peculiar quanto aquele em família. Primogênito de Adão e Eva, Caim ficou enciumado da predileção de Deus por seu irmão caçula. Levou Abel para um campo deserto, onde o matou. À traição, subentende-se. "Agora és maldito e expulso do solo fértil que abriu a boca para receber de tua mão o sangue de teu irmão", ordenou Javé ao assassino. "Na cultura do Ocidente não existe delito mais grave que o de defraudar a confiança adquirida", afirma José Manuel Lechado, em Traidores que Cambiaron La Historia ("Traidores que mudaram a História", inédito no Brasil). Mas, sob perspectivas distintas, certos personagens desleais podem até ser heróis. "Na visão dos ingleses, George Washington (protagonista da independência americana) foi um grande traidor", diz Lechado. Seja bem-vindo à narrativa dos atos sorrateiros. E cuidado com quem está às suas costas. Já diz o ditado: "Deus me livre dos amigos, porque os inimigos eu sei quem são".

A palavra "traição", muito além da infidelidade conjugal, mudou de sentido ao longo do tempo. "Hoje ela é acima de tudo um crime contra o Estado. Mas nem sempre foi esse o caso", afirma Alan Orr em Treason and the State ("A traição e o Estado", sem edição em português). Na Antiguidade, trair era agir contra os deuses. Foi o pecado que cometeu, na visão de seus súditos, o faraó Akenaton. No século 14 a.C., ele aboliu a antiga religião egípcia e seu panteão para determinar a adoração monoteísta a Aton e proclamar-se único representante dele. Na Batalha das Termópilas (480 a.C.), entre espartanos e persas, o grego Efialto entregou aos inimigos o segredo de uma estreita passagem entre as montanhas, até a retaguarda grega. Por sua perfídia, vista como uma ofensa direta ao deus da guerra, Ares, Efialto foi amaldiçoado.

Trair começou a ganhar status laico e jurídico na Roma antiga. Segundo o historiador do direito Simon Hirsch, os romanos inventaram o conceito de crimen maiestatis (lesa-majestade) para atos contra a soberania de Estado, o que incluía excentricidades como destruir a estátua do imperador.
Ilustrações: Murilo Maciel

Na Europa, durante a Idade Média, o conceito passou a se referir ao atentado contra a vida do senhor feudal, do rei ou do papa. Mas e se um rei se insurgisse contra o papa? Isso seria traição? E o barão que se rebelasse contra o monarca? No século 13, a opinião dominante entre os juristas era a de que, em ambos os casos, a quebra de hierarquia configurava o delito. No imaginário do aldeão médio, contudo, não havia pior infame que Judas Iscariotes. Com um beijo, entregou Jesus por 30 moedas de ouro. O cristianismo transformou a traição em pecado gravíssimo. Mas o ato do apóstolo demorou a se disseminar. "Até a década de 60 do século I, diferentes memórias parecem sugerir, no seu todo, que os cristãos desconheciam o tema da traição de Jesus", diz André Chevitarese, professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A malhação de Judas só começou por volta do século 4.

Óleo fervente e veneno

Foi na Inglaterra de Henrique VIII que a traição ganhou sua acepção moderna, de crime contra o Estado. O tema é especialmente caro aos ingleses, que usam três palavras para designá-lo: treason, de uso jurídico, e treachery e betrayal, de uso comum. Segundo Orr, o conceito legal moderno nasceu das formulações dos juristas das eras Tudor (século 16) e Stuart (século 17). Ainda não havia separação clara entre Estado e monarca, mas a nova concepção já era diferente da medieval. O crime contra o Estado (que incluía o rei e altos cargos eclesiásticos) era chamado de Alta Traição (High Treason). Em 1530, um cozinheiro condenado por tentar envenenar o bispo de Rochester foi jogado num panelão de óleo fervente. Os reis utilizavam a mesma regra para neutralizar inimigos. Ela ensejou várias condenações irregulares, como a de Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII, em 1536. Também havia uma "traição menor" (Petty Treason), que contemplava, entre outros delitos, o de mulheres que matavam maridos. Essa lei só foi abolida em 1828.

O método mais usado para se livrar de pessoas indesejadas era o veneno. Só em Paris havia cerca de 30 mil "especialistas" que ofereciam seus serviços por encomenda. Envenenado, sir Thomas Overbury foi vítima do mais mirabolante caso de Alta Traição, em 1613, contra o rei James I da Casa de Stuart. Tudo não passou de uma tramoia de Lady Frances Howard. Desejando casar-se com o conde de Rochester, Robert Carr, sofreu a enfática oposição de Overbury, amigo íntimo do assediado. Ela persuadiu o rei a dar um cargo para o desafeto bem longe dali - na Rússia. Desesperado, Thomas recusou a "promoção". A dama, então, convenceu James I de que a negativa do nobre fora motivada por uma conspiração. Notório paranoico, o rei mandou trancar Overbury na Torre de Londres. Ele apareceu morto em 15 de setembro de 1613. E Frances, enfim, casou-se com o conde.
Ilustrações: Murilo Maciel

No Brasil, um dos episódios mais conhecidos de traição é o de Domingos Fernandes Calabar. Contrabandista e senhor de engenho em Pernambuco, em 1632 decidiu juntar-se aos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, que pilhavam o Nordeste desde a década anterior. Os préstimos de Calabar foram vitais para que a Holanda estendesse seus domínios de Pernambuco até o Rio Grande do Norte. Capturado pelos portugueses em 1635, ele foi estrangulado e esquartejado. Já José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, construiu sua infâmia durante a Ditadura. De líder da Associação dos Marinheiros, passou a guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária e então a delator. Preso em 1970, foi convencido pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury a entregar os companheiros. Em janeiro de 1973, o cabo serviu de isca para o extermínio de seis dos principais militantes da VPR, num sítio em Pernambuco. Entre as vítimas estava Soledad Barret Viedma, companheira dele, grávida de sete meses. Depois disso, teve de sumir. Fez uma cirurgia plástica e mudou de identidade, bancado pelo regime.


"A traição é um conceito extraordinariamente ambíguo, que foi utilizado - e ainda o é - para combater inimigos políticos e também para justificar fracassos", diz Lechado. Isso vale para o Brasil, como ilustra o caso de Calabar. Em 1975, um tribunal simulado, em João Pessoa, julgou que o ex-senhor de engenho agiu em favor dos conterrâneos e o absolveu. De traidor passou a mártir.


Galeria da infâmia

Uma pequena seleção do clube que insiste em crescer


Conde Ugolino della Gherardesca
Membro do partido Gibelino, aliado ao imperador, ele comandava Pisa no início do século 13. O partido rival, o Guelfo, dominava Gênova e Florença. Acusado pelo arcebispo Ubaldini, um desafeto, de aderir ao guelfos, Ugolino foi destituído.Ambos aparecem como traidores na Divina Comédia.

Mary Stuart


Pretendente católica ao trono inglês, Mary - chamada carinhosamente de "rainha dos escoceses" (terra dos Stuart) - foi encarcerada por ordem da rainha Elizabeth I, que temia uma trama dos católicos contra ela, anglicana. Após 19 anos na prisão, Mary Stuart foi executada por Alta Traição em 1587.

Joaquim Silvério dos Reis


Em 1789, entregou os inconfidentes mineiros para ter suas dívidas com a coroa portuguesa perdoadas. Seu amigo Tiradentes acabou enforcado e esquartejado. Depois, Silvério ganhou uma pensão vitalícia de Portugal e foi até recebido por dom João.

Charles Maurice de Talleyrand-Périgord


Ministro das Relações Exteriores de Napoleão, dizia que "traição era uma questão de datas". Virou agente da Rússia e entregou segredos do império francês aos austríacos. Em 1815, organizou a deposição de Napoleão e a volta da monarquia.

Jin Bihui

Conhecida como "Mata Hari do Oriente", a manchu foi espiã para o Japão na corte do último imperador da China, Pu Yi. Bela e inteligente, era amante do principal assessor militar do imperador. Gostava de usar roupas masculinas. Segundo uma versão, sofreu abuso sexual na infância. Foi executada como traidora pelo governo nacionalista chinês em 1948.

Heinrich Himmler

O chefe da SS abandonou Hitler e negociou uma rendição da Alemanha com os EUA e a Grã-Bretanha quando viu que o nazismo estava com os dias contados. Hitler, ao descobrir a traição, ficou furioso. Himmler terminou preso pelo exército inglês em maio de 1945. Depois, suicidou-se.

Augusto Pinochet

O general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (1915-2006) foi Chefe do Exército do Chile no fim do governo socialista de Salvador Allende. Quando Pinochet orquestrou o golpe de 11 de setembro de 1973, Allende foi pego de surpresa: considerava-o um bom amigo. Allende suicidou-se e o general instaurou um sangrento regime militar que duraria até 1990.

Tommaso Buscetta
Foi importante membro da Cosa Nostra e ficou rico traficando drogas no Brasil. Preso em 1984 e deportado para a Itália, fez um acordo com a Justiça local, entregando o esquema da Máfia. Foi o primeiro a quebrar o código de silêncio da organização. Faleceu em 2000 em Nova York, livre, mas muitos de seus parentes foram mortos por causa da traição.


Inesquecível colaboracionismo

O auxílio às tropas de Adolf Hitler deixou muitas cicatrizes
 



A cooperação com os nazistas é um capítulo da Segunda Guerra que muitos franceses gostariam de apagar. Em 1940, o Norte do país foi ocupado pelo exército de Hitler. Para manter a nação funcionando, assumiu o poder um governo fantoche , em Vichy, liderado pelo marechal Philippe Pétain. Um dos mais notórios colaboracionistas foi Pierre Laval. Como ministro das Relações Exteriores, ele autorizou a deportação de 15 mil judeus. Em 1945, foi considerado culpado de Alta Traição e fuzilado. Outras pessoas simpáticas ao invasor, mesmo aquelas indiretas, como Coco Chanel, encararam o "julgamento moral" dos compatriotas. A estilista era amante do espião Hans Gunther von Dincklage. Graças a ele, pôde manter seu apartamento num hotel de Paris. Não se sabe até que ponto ela conhecia segredos da espionagem nazista, mas, ao fim da guerra, saiu de Paris e refugiou-se na Suíça, onde permaneceu até 1954. Foi então que criou o glamouroso terninho Chanel. E o sucesso ofuscou a mácula da guerra. Já na Inglaterra, o oficial do exército William Joyce foi condenado à forca por fazer propaganda nazista no rádio. Conhecido como Lorde Haw Haw, ele transmitia de Berlim, para as ilhas britânicas, exaltações ao Führer.
guiadoestudante.abril.com.br

A história de Ana Bolena no reinado de Henrique VIII

A tumultuada vida - e a polêmica morte, com suspeita de adultério - de Ana, a mais famosa entre as seis mulheres do rei inglês Henrique VIII

Carin Homonnay Petti 
Por ela, o rei Henrique VIII abandonou sua mulher, Catarina de Aragão. Por ela, o monarca rompeu com a Igreja Católica. Por ela ainda, o herdeiro dos Tudors fundou uma nova religião, a Igreja Anglicana. Também por essa mulher, o homem mais poderoso da Inglaterra do século 16 sujou as mãos de sangue. Em 1536, três anos após casar-se com o rei e provavelmente com 35 anos, Ana Bolena acabou decapitada, sob a acusação de adultério com cinco homens - entre eles, o próprio irmão.

Não é de estranhar que a vida de Ana, tão cheia de intrigas de alcova, sexo, mortes, mentira e traição, seja, séculos depois, ainda popular no cinema, na internet e na literatura, com mais de 40 biografias publicadas. A mais recente, e também a mais polêmica versão, com doses maiores de sexo e menores de conspiração, acaba de ser lançada nos Estados Unidos e na Inglaterra - Anne Boleyn: Fatal Attractions (Ana Bolena: Atrações Fatais) - e é ainda inédita em português.
Ela não era a mais bonita das pretendentes do rei, mas foi capaz de encantá-lo (Foto: Wikimedia Commons)
Na contramão do que alega a grande maioria dos historiadores contemporâneos, partidários da inocência da rainha, o autor George Bernard, professor da Universidade de Southampton, na Inglaterra, acredita que ela pode ter mesmo pulado a cerca. E até três vezes, talvez por causa da desesperada tentativa de conseguir um herdeiro do rei. O pesquisador contesta a visão de que a mais famosa dos Bolenas tenha sido vítima de uma armação, seja por parte de Henrique VIII, interessado em ter um filho homem (que ela não dava), seja por parte de nobres inimigos, em busca de mais poder.

Para chegar a essa conclusão, Bernard baseia-se principalmente em um poema de 1536, escrito por Lancelot de Carles, diplomata francês na Inglaterra. Segundo um dos trechos, a infidelidade da rainha veio à tona por acaso, numa discussão entre uma de suas damas de companhia, a condessa de Worcester, e o irmão, que a acusava de adultério. Na tentativa de se defender, a condessa teria alegado que suas escapadas não eram nada se comparadas às da rainha - ela, sim, ia para cama não só com um músico da corte, mas com o próprio irmão. Pronto, estaria engatilhado o processo que custou a vida de Ana e a de seus cinco supostos amantes. Entre eles, o músico da corte Mark Smeaton, o único réu confesso. Interrogado, disse que dormiu três vezes com a rainha.

Ana menina

Ana nasceu entre 1500 e 1507. Não se sabe ao certo. Filha de um embaixador, cresceu entre as mais sofisticadas cortes da época. Morou no palácio de Margarida da Áustria, regente dos Países Baixos, e, perto dos 20 anos, foi dama de companhia da rainha Claudia, na França, onde se apaixonou pelos costumes locais.

Em 1521, foi chamada de volta à Inglaterra por causa dos crescentes desentendimentos entre Henrique VIII e o rei francês Henrique I. No ano seguinte, o inglês declararia guerra à França, de olho em territórios do outro lado do canal da Mancha e no controle de portos no mar do Norte. Ana logo se tornou uma dama de companhia da futura rival, a rainha Catarina de Aragão. Acabou fisgando o coração do nobre Henry Percy. "O amor entre os dois era tão grande que resolveram se casar", contou, então, George Cavendish, servo do todo-poderoso cardeal Thomas Wolsey. Mas o religioso proibiu o namoro. Teria sido uma exigência do rei, já apaixonado por ela.

Na época, o cobiçado papel de amante do monarca era de sua irmã mais velha, Mary (leia acima, à dir.). Com fama de difícil, Ana teria resistido por cinco anos às investidas de Henrique VIII. Acabou parando na cama real depois de arrancar a promessa de casamento. Determinada, não se contentava como amante. Outra versão, defendida por George Bernard, é que o soberano resistiu aos encantos dela. Ele temia que, se o caso ganhasse evidência, seriam frustradas as negociações com o papa para o tão desejado divórcio, baseadas até então em argumentos teológicos. Bernard diz que o rei era íntimo de Ana e poderia ter feito sexo com ela se quisesse. Numa das cartas de Henrique a Ana, por exemplo, ele dizia acreditar que logo beijaria os seios dela.

Durona ou não, acabou sob os lençóis do rei. No início de 1533, descobriu que estava grávida de sua única filha, a futura rainha Elizabeth I. Com a barriga inesperada, a dupla casou-se em segredo. Meses depois, em 23 de maio, Thomas Cranmer, o novo arcebispo de Canterbury, deu o sinal verde para o divórcio entre o monarca e Catarina. Ana finalmente ganhava direito à coroa. No domingo 1º de junho, em trajes de veludo roxo, ela foi coroada com toda a pompa na abadia de Westminster.

Entre tantas versões da vida de Ana, as maiores polêmicas são seu papel na corte e o fato de ter ou não traído Henrique. "Ela é culpada apenas de comportamento inadequado com os cortesãos", diz o historiador Peter Marshall, professor da Universidade de Warwick. Seu principal argumento é que a traição não foi confessada pela rainha nem por quatro de seus cinco supostos amantes. "Com medo do castigo divino, os criminosos quase sempre admitiam o delito até minutos antes de morrer. Se fosse culpada, ao insistir em sua inocência, Ana estaria cometendo perjúrio não só aos olhos dos homens, mas aos de Deus. E qualquer pessoa do século 16 acreditaria que isso levaria à condenação eterna."

Filho homem

O historiador Estevão Martins, da Universidade de Brasília, afirma que o rei se desinteressou por Ana quando ela não produziu um herdeiro homem (o que tampouco havia feito Catarina): "Esse era um motivo para grandes conflitos constitucionais na hora da sucessão". E cita agravantes. Ana enfrentava a resistência de facções políticas, como a nobreza escocesa católica, supostamente disposta a alimentar acusações de adultério. "Eles queriam vê-la morta porque eram contrários à criação da Igreja Anglicana."

Também fala em armação Edmilson Martins Rodrigues, professor de história moderna da PUC-RJ. "Henrique VIII se livrou de Ana porque precisava de apoio de grupos da alta nobreza, inimigos da rainha", diz. O soberano havia distribuído terras confiscadas da Igreja Católica para a pequena nobreza, responsável pela produção agrícola. Queria, assim, levar o grupo ao Parlamento e ganhar força política. Depois, mudou de ideia e voltou a buscar o apoio da alta nobreza. E Ana era alinhada ao primeiro grupo. Há também quem defenda que por trás das acusações estava Thomas Cromwell, o mais importante ministro da corte. Ele e a rainha teriam se desentendido quanto aos rumos do confisco das terras da Igreja e da política externa (Cromwell queria se aliar ao Sacro Império Romano-Germânico e ela preferia a França). Essa é a tese de Eric Ives, um dos mais renomados biógrafos de Ana.

Por conspiração, adultério ou uma combinação dos dois fatores, o fato é que ela acordou cedo na sexta feira, 19 de maio de 1536. Antes de amanhecer, assistiu à sua última missa. Por volta das 8 horas, caminhou até o cadafalso da Torre de Londres. Em suas últimas palavras, encomendou a alma a Deus. Ainda elogiou o rei, provavelmente tentando evitar perseguições a sua família. Foi vendada e decepada a golpe de espada. Dez dias depois, Henrique VIII casou-se com a amante Jane Seymour - união que lhe rendeu o tão esperado herdeiro, o futuro rei Eduardo VI. O soberano ainda teve três outras mulheres, até morrer, em 1547.

* Carta de Henrique VIII a Ana Bolena em 1528


Negócio rentável

Ao cair nas graças do rei, as amantes ganhavam dinheiro e poder

Ser amante de rei era um negócio e tanto há alguns séculos. A função rendia títulos, presentes e polpudas mesadas. Algumas das eleitas também tinham um enorme poder político. Não é para menos que muitas famílias encorajavam suas rebentas a dividir os lençóis com o monarca da vez. Entre os Bolenas, não foi diferente. "O pai jogou suas duas filhas, Mary e Ana, na cama de Henrique VIII (à esq.)", diz o historiador Estevão Martins. "Naquela época, mulheres e filhas serviam de moeda de troca nos jogos de interesse da corte." Embora na praça desde o começo da realeza, as amantes tiveram seu apogeu nos séculos 16, 17 e 18 - quando eram "obrigatórias" aos monarcas franceses, ingleses e alemães, diz Eleanor Herman no livro Sexo com Reis - 500 Anos de Adultério, Poder, Rivalidade e Vingança. Uma das mais poderosas representantes da safra foi Diane de Poitiers, amante do rei francês Henrique II. Em meados do século 16, ela nomeou ministros e criou impostos. Dois séculos depois, com a Revolução Francesa, as queridinhas da realeza perderam lugar sob os holofotes. Com a moral dos novos tempos, as aventuras amorosas ganharam ares mais discretos.


Maurício de Nassau, o brasileiro

Mariana Lacerda 

Ele passou apenas sete anos no Brasil, mas hoje, 400 anos depois de seu nascimento, seu nome está associado à época de ouro da presença holandesa no Recife. Ao voltar para Europa, fracassado econômica e militarmente, e até a morte, Maurício de Nassau seria chamado de "o brasileiro"
No amanhecer de 9 de maio de 1624, moradores de São Salvador da Bahia viram entrar no porto uma frota de 25 velas que exibiam reluzentes canhões pintados de vermelho. Eram os holandeses, ou flamengos, que em menos de um dia tomaram a cidade, num ataque à sede do governo-geral do Brasil. Ali, do outro lado do Oceano Atlântico, no novo mundo, iniciara-se mais um episódio da guerra de independência dos Países Baixos (atual Holanda) contra a Espanha – a quem América portuguesa foi anexada em 1580. No ano seguinte, os 1,9 mil soldados holandeses foram dominados e entregaram suas armas ao exército do rei da Espanha. A cidade foi reconquistada. Em 14 de fevereiro de 1630, os flamengos reapareceram, dessa vez com uma armada de 67 velas. Desembarcaram em Pau Amarelo, litoral norte de Pernambuco, e tomaram a direção de Olinda. Tentaram apoderar-se da vila e, no fim, estabeleceram-se no povoado do Recife. Onde ficariam por 24 anos. Nesse período, Recife se tornaria a Nova Holanda. E, para governá-la, a Companhia das Índias Ocidentais enviou para o Brasil o conde Maurício de Nassau. Ao desembarcar em 1637, ele daria início à chamada “idade de ouro” do Brasil holandês.
O contexto histórico em que se deu a vinda dos holandeses para o Brasil é o dos conflitos europeus em torno da questão colonial. “Os Países Baixos rivalizavam com a Espanha pelo controle do rentável comércio marinho de especiarias asiáticas, escravos africanos e, como não poderia deixar de ser, pelo açúcar brasileiro”, afirma a historiadora Adriana Lopez, autora do livro Guerra, Açúcar e Religião no Brasil dos Holandeses. Assim, a capitania de Pernambuco tornou-se um inevitável campo dessa briga. Para a Companhia, a sede do governo-geral interessava politicamente e a capitania de Pernambuco economicamente. Pois no início do século 17, a região abrigava mais de 120 engenhos e, com as capitanias vizinhas, tornou-se “a área de produção açucareira mais importante do mundo”, segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, em O Brasil e os Holandeses.
À Companhia das Índias Ocidentais, criada em 1621 pelos holandeses, cabia o monopólio sobre a conquista, o comércio e a navegação na América e na África. Assim como à Companhia das Índias Orientais estava reservada a parte oriental do mapa-múndi. “As duas dividiram entre si o mundo, tal qual os reis de Portugal e da Espanha pactuaram Tordesilhas”, diz Adriana.
Expulsos da Bahia, os soldados da Companhia tomaram Recife e Olinda. A região transformou-se num só fogo: os engenhos foram abandonados, os canaviais incendiados. Moradores recrutados formaram patrulhas organizadas por Matias de Albuquerque, governador da capitania, que conseguiu manter, por cinco anos, os inimigos restritos ao povoado do Recife.
Com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, luso-brasileiro conhecedor dos labirínticos rios pernambucanos, os holandeses dominaram parte do nordeste do Brasil, da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande. De lá, partiram para a conquista do Maranhão (que só foi conquistado em 1641). A queda do Forte dos Afogados, no Recife, em março de 1633, abriu aos invasores o caminho para os engenhos da Várzea (onde hoje está um dos mais aprazíveis bairros do Recife). Também foram pilhados os engenhos em Goiana e Igarassu, com a conquista da vizinha Itamaracá. Os holandeses atacaram o Forte do Cabedelo, na Paraíba, ao norte, e Porto Calvo, em Alagoas, ao sul. Estavam assim tomado o Nordeste açucareiro e seus pontos de comunicação com a Europa, por onde chegavam mantimentos e escoava-se a produção.
Conquistado o território, chegou a hora de a Companhia organizar sua nova colônia e colocá-la para funcionar – e lucrar. Para a tarefa, chamou um certo Johan Maurits von Nassau-Siegen. Nascido há exatos 400 anos, ele era filho de uma importante família da Europa e, aos 32 anos, tinha uma vitoriosa carreira militar. Parecia ser o homem certo para a função.
Como governador da Nova Holanda, -receberia 1,5 mil florins mensais (o melhor terreno no centro do Recife custaria cerca de 2,5 mil florins) além de seu salário como coronel do Exército, mais uma ajuda de 6 mil florins para despesas pessoais. E ainda o direito a 2% sobre tudo o que fosse apreendido no litoral do Brasil. Era uma proposta irrecusável, principalmente para quem, na época, construía um palácio, em Haia, na Holanda, e estava cheio de dívidas.
Mas o novo governador não veio só. Ao todo, uma comitiva com 46 artistas, cronistas, naturalistas e arquitetos, o acompanhou em sua viagem ao Brasil. Eles seriam responsáveis pela documentação não só das obras do governo, mas da sociedade recifense da época. “Projetaram uma nova cidade, reproduziram as paisagens, fizeram mapas, catalogaram animais e plantas, e retrataram o homem indígena e africano. A fidelidade e a precisão de todo esse trabalho faz com que até hoje seja considerado um importante acervo da história das ciências”, diz o historiador Leonardo Dantas Silva. Até então, o Novo Mundo jamais fora alvo de observações tão precisas. “É essa produção que faz, hoje, o período holandês ser tão lembrado por meio da figura de Nassau – que permaneceu no Brasil apenas sete dos 24 anos de ocupação”, afirma Adriana.
Recife, que relatos da época chamam simplesmente de “povo”, era, no começo do século 17, um burgo “que os nobres de Olinda deviam atravessar pisando em ponta de pé, receando os alagados e os mangues”, escreveu José Antônio Gonsalves de Mello Neto, no clássico Tempo dos Flamengos. A situação agravou-se em novembro de 1631, quando os holandeses incendiaram Olinda. A cidade e “seus inacessíveis oito morros e casas distantes entre si” era difícil de defender das investidas dos portugueses e, por isso, acabou condenada à destruição pelos invasores.
Quando chegou no Recife, em 1637, Nassau encontrou uma população de cerca de 7 mil pessoas obrigada a conviver nas piores condições de higiene e conforto. Para enfrentar a falta de habitações, iniciou a construção, na Ilha de Antônio Vaz (hoje, o bairro de Santo Antônio, no centro do Recife), do que veio a ser a Mauritsstaden ou, para nós, em bom português, a Cidade Maurícia. Ali, ele erigiu para si dois palácios, o de Friburgo e a casa da Boa Vista. E iniciou a urbanização do povoado, seguindo um projeto que contemplava ruas, praças, pontes, mercados, canais, jardins e saneamento, enfim uma cidade de verdade. Afinal, “os holandeses que aqui estiveram eram todos originários de aglomerados urbanos e, por isso mesmo, não poderiam pensar numa cidade que não fosse voltada para o urbano”, diz Leonardo.
Nassau determinou que os moradores varressem a rua defronte suas casas e os orientou “a não despejar mais as imundices senão nas praias”, escreveu Mello Neto. O Recife (atualmente o Bairro do Recife) foi, enfim, em 28 de fevereiro de 1644, ligado à Cidade Maurícia com a construção da primeira ponte da América Latina (onde atualmente fica a ponte Maurício de Nassau). Para a inauguração, Nassau anunciou à população que um boi iria voar sobre suas cabeças. Para surpresa geral, na hora da festa, um boi, ou melhor, o couro de um boi enchido com palha, preso a uma corda, desceu por uma corda do alto do Palácio Friburgo.
Recife tornou-se a cidade mais cosmopolita do continente. Holandeses, franceses, alemães, poloneses que integravam os quadros da Companhia das Índias acorriam para lá. Mulheres chegaram da Holanda e fizeram que o Recife, segundo um relato da época, tivesse os “bordéis mais vis do mundo”. A cidade passou por um terrível surto de sífilis. Doença de cidade grande.
Apesar da relativa paz entre os invasores holandeses e os locais portugueses e brasileiros, durante as obras da Cidade Maurícia, a Companhia passou a questionar a administração de Nassau, que não obtinha os lucros que esperava. “Os novos dominadores eram formados em sua maioria por comerciantes e gente da navegação, acostumados a viver em áreas urbanas e, como tal, não se adaptaram à vida rural, onde se encontravam os principais núcleos da produção do açúcar”, diz Leonardo Dantas, em seu novo livro, João Maurício Brasileiro (ainda inédito). “Eis a primeira falha da tentativa de colonização holandesa no nordeste do Brasil: os invasores podiam ter conseguido apoderar-se dos engenhos, mas não das técnicas de produção de açúcar.”
Ao conquistar Pernambuco, os holandeses confiscaram parte dos engenhos. Os senhores, então, tiveram de pagar caro ao novo governo por suas terras. Quem não teve como pagar ficou devendo. Nassau fazia vista grossa, mas, por pressão da Companhia, passou a cobrar os empréstimos. Assim, atraiu a revolta daqueles que sabiam transformar cana em açúcar. “Ao fazer isso, cultivou entre os donos de engenhos o sentimento de que era melhor – e mais barato – se livrar dos holandeses”, diz Pedro Puntoni, pesquisador da Universidade de São Paulo.
A empresa exigiu o aumento da arrecadação e a cobrança imediata das dívidas e, como não foi atendida, em maio de 1643, o governo holandês mandou que Nassau retornasse. Porém, ele demorou quase um ano para obedecer. Num documento, o seu Testamento Político, Nassau recomendou que, na sua ausência, o governo fosse tolerante com práticas religiosas e exercesse sem rigor a cobrança dos créditos dos engenhos. Que conservasse as fortificações, não abusasse das torturas e fizesse o que fosse possível para atrair a simpatia dos comerciantes portugueses.
Do outro lado do oceano, a Companhia das Índias empobrecia. Por isso, enviava menos recursos para a colônia que, aos poucos, entrou em colapso. “Do início da guerra de restauração, em 1645, até a expulsão total dos holandeses, em 1654, foram anos de muita penúria no Brasil holandês”, diz Adriana Lopez. Cercada no Recife, a população foi obrigada a incluir gatos, cachorros, cavalos e até ratos no cardápio.
O conde Nassau voltou à Europa no mesmo barco que o trouxera ao Brasil, o Zuphen. Ao seu redor, navegava uma frota de 13 navios, e um carregamento avaliado em 2,6 milhões de florins, composto principalmente de açúcar, fumo, pau-brasil e madeiras de lei. Para se ter uma idéia, a ponte construída por Nassau anos antes custou 140 mil florins. Com ele, estavam, além de amostras de plantas, animais e artefatos indígenas, toda a produção de seus cronistas, pintores e naturalistas. Material que, desde aquele momento, iria dar à Europa um valioso testemunho das riquezas naturais e culturais no Novo Mundo. Esse acervo também fez com que Johan Maurits von Nassau-Siegen passasse a ser lembrado, até hoje, em terras do além-mar, como Maurício Brasileiro.

Arte e ciência

A produção dos holandeses no Brasil preservou para sempre um período de apenas 24 anos
Desde o momento em que o europeu chegou ao novo continente, passou a relatar o que via nessa terra, repleta de gente e de vegetação generosa. Mas mesmo após mais de 100 anos da chegada dos portugueses, nunca a Europa vira descrições e desenhos tão minuciosos de paisagens, da fauna, flora, dos índios e negros que habitavam nossas terras, até que Nassau desembarcou no Recife acompanhado por uma comitiva de 46 estudiosos, entre os quais o médico particular de Nassau, Willem Piso, o astrônomo Georg Marcgrave, os pintores Frans Post e Albert Eckhout – autores dos mapas, herbários e obras de artes tão apaixonantes quanto importantes para a compreensão da história da ciência no Brasil e no mundo. “O período de Nassau não foi, necessariamente, melhor para a colonização. Ele não mexeu na estrutura do colonialismo, que é o escravismo e as grandes propriedades. Mas deixou uma herança histórica e científica sem precedentes para a época”, diz a historiadora Adriana Lopez. A Historia Naturalis Brasilie, publicada em Amsterdã em 1648, divide-se em De Medicina Brasiliensi, escrita por Piso, e no Herbarium Vivum Brasiliens, um compêndio das espécies de plantas brasileiras, assinado por Marcgrave. Era o mais completo sobre a flora do Novo Mundo que se tinha notícia e que seria, mais tarde, citado em trabalhos de Lineu e Darwin. Piso e Marcgrave trabalhavam, na maior parte do tempo, no Palácio de Vrijburg (Cidadela da Liberdade), onde Nassau guardava sua coleção de bichos e plantas. O legado do pintor Albert Eckhout inclui um conjunto de oito pinturas, em tamanho natural, com tipos étnicos brasileiros. E mais uma coleção com quadros menores (óleo sobre madeira), além de aquarelas e desenhos de plantas conhecidos como Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae, com retratos da fauna e da flora contida no zoobotânico de Nassau. Em sua comitiva, estava o jovem artista de 24 anos que se tornou o primeiro autor de paisagens em território americano: Frans Post. Ele teria pintado em Pernambuco, segundo o historiador Leonardo Dantas, pelo menos 18 quadros a óleo. Ao retornar a Holanda, Maurício de Nassau levou consigo a mais importante coleção de manuscritos, preciosos mapas e toda obra de Eckhout e Frans Post. Parte desse acervo foi vendido, em 1652, a Frederico Guilherme (1620-1688), príncipe-eleitor de Brademburgo, na Prússia. Uma segunda parte da coleção veio a ser depois negociada pelo conde de Nassau com Frederico III, rei da Dinamarca, ficando o restante para ser adquirido por Luís XIV em 1679. Hoje, um conjunto de 27 painéis, pintado no Brasil por Albert Eckhout, integra o acervo do Museu Nacional de Copenhague. Suas aquarelas e crayons, com pinturas de animais e plantas, foram redescobertos, na Polônia, onde estão disponibilizados à pesquisa. Dos quadros de Post, restaram sete: quatro estão no Museu do Louvre, em Paris, um na Holanda, outro nos Estados Unidos e o sétimo, uma paisagem da Ilha Antônio Vaz, pertence à coleção da Fundação Ricardo Brennand, no Recife.

Presença marcante

Foram apenas 24 anos, mas a invasão dos holandeses deixou marcas indeléveis no Recife
1598
Os holandeses atacam as ilhas de São Tomé e Príncipe, na África, dando início à guerra contra o império ultramarino português.
1602
Fundada a Companhia das Índias Ocidentais.
1604
Nascimento de Nassau.
1624
Soldados da Companhia atacam a cidade de Salvador, na Bahia. São expulsos no ano seguinte.
1630
Olinda e logo em seguida o “povo” do Recife são tomados.
1631
Em 24 de novembro, a cidade de Olinda é incendiada.
1632
Temendo ser punido por furto, Calabar muda o rumo da expansão holandesa ao passar para o lado dos “hereges”.
1636
Os holandeses dominam o Nordeste da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande do Norte.
1637
Empossado o governador da Nova Holanda, o conde Maurício de Nassau-Siegen.
1637
Nassau ataca São Jorge de Mina, na África. Pernambuco recebe 1580 escravos.
1638
Nassau tenta, em vão, a reconquista de Salvador.
1639
Iniciada a construção do Palácio de Friburgo, casa e jardim zoobotâncio de Nassau.
1641
A Companhia já dominava sete das 14 capitais do Brasil, as regiões da Guiana, e as ilhas de Curaçao e Aruba, além do comércio de peles feito pelo Rio Hudson, na América do Norte.
1644
Nassau inaugura a primeira ponte da América Latina.
1644
Nassau deixa o Recife, levando sua coleção de pinturas, vendidas, posteriormente, talvez para pagar as contas da construção de seu palácio, em Haia.
1645
Os luso-brasileiros têm o Recife isolado, sem acesso aos alimentos produzidos na zona rural.
1646
Holanda manda reforços para Pernambuco.
1647
Rebeldes luso-brasileiros controlam o interior do Nordeste. Os holandeses dominam as entradas por mar. Do Forte do Bom Jesus (hoje bairro de Casa Forte), o burgo do Recife é bombardeado sem cessar.

1649
Em 19 de fevereiro, começa a Batalha dos Guararapes. Mais de mil soldados morrem no confronto com rebeldes luso-brasileiros. A data é considerada o marco do início da existência do Exército brasileiro.
1653
Portugal bloqueia o Porto do Recife. Em 27 de janeiro do ano seguinte, a tropa da Companhia das Índias Ocidentais rende-se.
1654
Saídos do Recife, 23 judeus chegam à baía de Hudson e se estabelecem na futura Nova York.

Nova York é aqui

Durante a ocupação, os holandeses garantiam tolerância religiosa para espanhóis, portugueses e nativos, católicos ou judeus. Por isso, judeus portugueses e alguns migrados da Polônia e da Alemanha, mudaram-se para o Brasil a fim de fugir da Inquisição. Eles se estabeleceram no comércio, cobranças de impostos e venda de tabaco e escravos – que ocorria na rua dos Judeus, hoje chamada rua do Bom Jesus, no Recife. Ali surgiu, por volta de 1636, a primeira sinagoga na América, a Zur Israel (rocha de Israel).
Durante a Inssurreição Pernambucana, o movimento de reconquista português, a cidade foi cercada e o rabino Isaac Aboab da Fonseca, um português, compôs o poema Mi Kamókha (Quem Como Tu?), em que descreveu a ação de João Fernandes Vieira, líder do movimento, e o estado de penúria pelo qual passava a comunidade judaica.
“Trata-se da primeira literatura escrita em hebraico na América”, diz Leonardo Dantas Silva, historiador recifense. Em 22 de junho de 1646, os esfomeados do Recife vêem surgir os barcos holandeses Falcão e Elizabeth, que vinham carregados de soldados e alimentos.
A população agradecida mandou cunhar duas medalhas comemorativas, as primeiras que se têm notícia no Brasil, para serem entregues aos comandantes dos navios, com os dizeres “O Falcão e o Elizabeth salvaram o Recife”. Após a rendição das tropas holandesas, cerca de 400 judeus retornam à Europa. Um grupo de 23 deles seguiu para a Nova Amsterdã e, lá, fundaram a primeira comunidade judaica do que, no futuro, tornou-se a cidade de Nova York.

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