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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE - HIMBERTO DELGADO - QUEM FOI E COMO MORREU O GENERAL SEM MEDO




E o julgamento em Portugal após o 25 de Abril?

Pergunta 9 de 13
Um mês passado sobre o 25 de abril, mais exatamente no dia 29 de Maio de de 1974, António Semedo, ex-funcionário do posto fronteiriço de São Leonardo que dera passagem à brigada que foi a Badajoz ao encontro de Humberto Delgado, revela finalmente o segredo que guardara durante nove anos: a verdadeira identidade dos agentes dessa brigada.
Um deles encontrava-se exatamente na mesma cidade onde Semedo fazia esta revelação, Luanda. Era o antigo subinspetor Ernesto Lopes Ramos, agora advogado em Angola, logo detido e conduzido para Lisboa. Outro agente era Agostinho Tienza, igualmente detido, dias depois, em Caxias. Os restantes elementos da brigada, exatamente aqueles cujo depoimento seria mais relevante, eram Rosa Casaco, que chefiou a missão a Espanha, e Casimiro Monteiro, ambos fugidos após o 25 de abril.
As declarações de António Semedo faziam-se já ao abrigo de uma participação que dera entrada na Polícia Judiciária no dia 29 de abril de 1974, por iniciativa do advogado Joaquim Pires de Lima, e que daria origem a um processo em Tribunal Militar, já que os funcionários da PIDE/DGS se encontravam sujeitos ao Código de Justiça Militar. A instrução prolongou-se por três anos, até 25 de julho de 1977, concluindo que apenas Casimiro Monteiro deveria ser julgado enquanto autor material do homicídio, já que atuara “por uma resolução sua e em isolado agir”. Esta decisão foi no entanto alterada posteriormente de modo a incluir, além dos quatro agentes da brigada, os seus superiores hierárquicos enquanto prováveis mandantes do crime.
O libelo acabou assim por imputar a autoria moral de dois crimes de homicídio a Fernando Silva Pais, Barbieri Cardoso (ausente de Portugal) e Pereira de Carvalho, responsáveis máximos da PIDE/DGS, e a Rosa Casaco, Lopes Ramos e AgostinhoTienza a autoria moral do crime de homicídio qualificado na pessoa de Humberto Delgado e a coautoria material do homicídio de Arajaryr Campos. Casimiro Monteiro era acusado não só deste último crime como também lhe era atribuída a autoria material do crime de homicídio qualificado de Humberto Delgado. Através deste libelo o promotor de Justiça, coronel Casimiro Dias Morgado, defendia que a missão da PIDE teria como objetivo reduzir Humberto Delgado à “não atuação”, e por isso devia prever que, para esse fim, pudessem ser utilizados quaisquer meios, incluindo a eliminação física, sublinhando em apoio desta ideia a utilização de cal viva e de ácido sulfúrico.
Parece poder concluir-se que o julgamento realizado no 2º Tribunal Militar de Lisboa e iniciado em 9 de outubro de 1978 não só privilegiou os depoimentos dos réus presentes como as versões que permitiam caracterizar a missão da PIDE em Badajoz como um ato meramente policial. Além de Rosa Casaco e de Casimiro Monteiro, o julgamento acabou por não contar com a presença de Ernesto Lopes Ramos, entretanto fugido do país mas que chegou a depor para o processo.
O tribunal acabou por apreciar em particular a versão apresentada por Silva Pais, segundo a qual o objetivo seria atrair Humberto Delgado a território português: um elemento da brigada, Rosa Casaco, fazia passar-se por alto responsável da suposta organização militar revolucionária existente no interior de Portugal e aliciaria o general a passar a fronteira espanhola. Casaco afirmava contudo, em depoimento escrito enviado para o tribunal, que antes pretendia cloroformizar Delgado e transportá-lo na bagageira do carro. Note-se contudo que o general o conhecia bem Rosa Casaco pelo que o ardil, mesmo a ter existido, estava comprometido à partida.
Em suma, os juízes acabaram por valorizar a tese de detenção falhada devido a um ato impulsivo e imprevisto de Monteiro que abrira fogo sobre o general (ver pergunta 11. Terá Humberto Delgado sido vítima de um rapto que correu mal ou, pelo contrário, a PIDE levava ordens para matar?). Ficavam deste modo arredadas não só as conclusões da autópsia do processo espanhol (do qual tinham sido extraídas certidões) e que apontavam para morte de Humberto Delgado por contusão como também a narrativa constante do depoimento de Ernesto Lopes que referia uma luta corpo a corpo entre Casimiro Monteiro e Delgado (ver pergunta 10. Como foram mortos Humberto Delgado e Arajaryr de Campos?).
O acórdão de 27 de julho de 1981 acabou assim por condenar apenas o réu (ausente) Casimiro Monteiro já que ele “e apenas ele, matou a tiro o general Humberto Delgado e Arajaryr Campos, disparando sobre eles e causando-lhes lesões, que foram causa necessária das suas mortes. Ao disparar, o réu Monteiro agiu com intenção de matar as vítimas”.
Os réus Barbieri Cardoso e Rosa Casaco foram condenados por crimes de falsificação e Ernesto Lopes Ramos e Agostinho Tienza pelo crime de uso de identidade falsa. Silva Pais tinha falecido entretanto e Pereira de Carvalho foi absolvido de todos os crimes. Quanto aos homicídios propriamente ditos afirmava-se o seguinte: “Em relação a este crime não se provou que qualquer dos restantes réus nele tivesse tido intervenção, quer ordenando ou facilitando a sua execução, quer tomando parte nesta”.

Como foram mortos Humberto Delgado e Arajaryr Campos?

Pergunta 10 de 13
Para responder a esta pergunta podemos partir dos depoimentodas principais testemunhas deste crime (porque, independentemente do modo e das causas, não restam dúvidas de que de um crime se tratou). Ora as principais testemunhas são neste caso os próprios membros da brigada da polícia política portuguesa que se deslocou a Badajoz, mais exatamente dos depoimentos de três agentes: Rosa Casaco, que chefiava a brigada, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos. Do quarto elemento, Casimiro Monteiro, considerado o autor material de um ou mesmo dos dois homicídios, quase não existem declarações.
rosa casaco
Rosa Casaco, o chefe da brigada que foi atrás de Humberto Delgado
O local do crime é a base de um pequeno cerro, junto a uma estrada que levava à herdade Los Almerines e próximo da ponte sobre a ribeira de Olivença. Casaco,Tienza e Monteiro aguardaram aqui a chegada de Lopes Ramos, que tinha ido encontrar-se com Delgado em Badajoz (sob a falsa identidade de um oposicionista) para depois o transportar no seu automóvel até este local. Arajaryr teve de ser incluída neste encontro, facto com que ninguém contava.
As declarações de Casaco e Tienza são no essencial semelhantes: Humberto Delgado, que se encontraria desarmado, foi morto a tiro por Monteiro que, segundo Casaco (mas é o único que o afirma), empunhava uma pistola com silenciador. Este inspetor acrescenta que Tienza abateu Arajaryr Campos também com arma de fogo, mas o próprio Tienza afirma que não sabe como morreu a secretária. Sublinhe-se que esta versão é particularmente desculpabilizante para Casaco, pois se perante um assassinato a tiro é difícil reagir a tempo outra coisa é ter-se limitado a assistir imóvel ao homicídio por agressão do general a que ainda por cima se seguiu o estrangulamento da sua secretária.
casimiro monteiro
Casimiro Monteiro, o homem que matou Delgado
Ernesto Lopes Ramos apresenta uma versão radicalmente diferente. Segundo ele o general empunhou logo de início um revólver, ficando com o braço virado para o ar, braço esse que foi agarrado por Monteiro. Enquanto assim estavam Ramos ouviu dois tiros, tendo ficado convencido que foram disparados pelo revólver do general, após o que abandonou o local, em direção a Olivença, conseguindo ainda avistarArajaryr que gritando se agarrava a Monteiro. Tanto Agostinho Tienza como Lopes Ramos afirmam que a reação de Delgado se deveu a ter descoberto a armadilha.
Cruzemos agora estes testemunhos com as provas materiais deixadas no local e com os resultados da autópsia.
Em Los Almerines são encontrados, primeiro por testemunhas locais e depois pela polícia espanhola, três balas por disparar e cinco cartuchos usados, correspondendo a oito projéteis. Nos corpos de Delgado e Arajaryr não são contudo encontradas balas. As perícias realizadas em Espanha apontam para morte causada por uma pancada na nuca (“contusão cerebral e fratura da base do crânio”), no caso do general, e sugerem ter sido a morte da secretária causada por estrangulamento.
A conclusão do acórdão do Tribunal Militar que julgou os agentes da PIDE difere da “tese oficial” da oposição no que se refere à intencionalidade: para o Tribunal tudo partiu de gesto imprevisto de um homem impulsivo, Casimiro Monteiro, e na versão mais frequente tratou-se de execução planeada. Mas ambas dão como verdade adquirida que as vítimas foram mortas a tiro. Torna-se no entanto difícil explicar a articulação entre estes tiros e as diversas marcas de contusões. Delgado e Arajaryrteriam sido espancados depois de mortos a tiro, num ritual macabro difícil de compreender dada a urgência que a brigada tinha de sair daquele local?
Frederico Delgado Rosa, neto e biógrafo do general, tem outra explicação que se baseia por um lado no testemunho de Ernesto Ramos Lopes (semelhante aliás ao que Rosa Casaco apresentou a Silva Pais logo em 1965, na sede da PIDE) e por outro nas perícias médico-legais feitas em Espanha: Casimiro Monteiro terá agredido repetidamente o general ao tentar desarmá-lo, o que explica as contusões menos graves, matando-o depois com um golpe fatal na nuca. De forma equivalente, por estrangulamento, foi morta Arajaryr Campos provavelmente também por Casimiro Monteiro.
As balas e cartuchos encontrados seriam portanto provenientes do revólver do general e não das pistolas dos agentes que, como se torna evidente, não estavam interessados em usá-las, causando alarme nas redondezas. Delgado sim, e por isso disparou, procurando socorro.
Restava agora à brigada da PIDE desembaraçar-se dos corpos. Vão encontrar um local mais a sul, próximo de Vila Nueva del Fresno e a 2 km do posto fronteiriço, conhecido por Los Malos Pasos, onde aproveitam duas fossas naturais abertas no terreno, depositando aí os cadáveres. O de Delgado foi coberto com cal viva para acelerar a decomposição e envolto numa manta. Os dois cadáveres são por fim tapados com paus e pedras. Entretanto o grupo de agentes é avistado por testemunhas locais e procura disfarçar os seus propósitos.
Os agentes da PIDE dormiram nessa noite em Espanha e regressaram depois a Portugal por Rosal de la Frontera, mais a sul. Ao longo dos dias e meses seguintes a PIDE vai procurando apagar vestígios: avisa António Gonçalves Semedo, funcionário da fronteira de São Leonardo, por cujo posto tinha passado para Espanha a brigada da PIDE, para não revelar a verdadeira identidade dos agentes. São destruídos os documentos que o general levava consigo. Os documentos que estavam no quarto de hotel terão sido levados provavelmente pelos membros de um misterioso grupo também alojado no hotel. (Ver pergunta 13. O que foi respondido atrás esgota todas as dúvidas?) e por fim as próprias viaturas. Mas para trás tinham ficado provas materiais, entre as quais o anel com as iniciais HD que o cadáver de Humberto Delgado conservava no dedo e os registos do posto fronteiriço espanhol, através das quais a polícia espanhola estabeleceria facilmente a ligação entre os corpos encontrados em Los Malos Pasos e a sua congénere portuguesa.
Barbieri Cardoso-1
Barbieri Cardoso, subdiretor da PIDE
Agostinho Tienza
Agostinho Tienza, membro da brigada que foi atrás de Delgado
António Gonçalves Semedo
António Gonçalves Semedo, funcionário da fronteira por onde passaram os agentes da PIDE
Ernesto Lopes Ramos
Ernesto Lopes Ramos, outro dos elementos da brigada que foi a Espanha atrás de Delgado
images pereira carvalho
Pereira Carvalho

Terá Humberto Delgado sido vítima de um rapto que correu mal ou a PIDE tinha ordem para matar?

Pergunta 11 de 13
A versão mais difundida ao longo dos últimos 50 anos entre os oposicionistas ao Estado Novo defende que a PIDE partiu de Portugal com ordens precisas com vista à eliminação física de Delgado. Há no entanto diversos aspetos que parecem contrariar esta tese.
Comecemos pelos argumentos habitualmente adiantados para a sustentar:
  • A brigada da PIDE levava cal (são encontrados vestígios dela nos cadáveres) e ácido sulfúrico, destinados a tornar irreconhecíveis os cadáveres (do ácido a autópsia não deteta vestígios).
  • A inclusão na brigada de Casimiro Monteiro, havendo vários agentes mais antigos e experientes (Monteiro tinha entrado para a PIDE havia dois meses), só se justifica pelo seu longo historial de violência e assassinatos (que começa muito antes da sua entrada na PIDE) e pela perícia no manejo de armas.
  • A pistola de Monteiro estaria munida de silenciador (contudo só Rosa Casaco o afirma, além de que esse facto parece ser desmentido pelo testemunho de um tratorista que trabalhava ali perto e que afirma ter ouvido um disparo).
  • A PIDE devia sentir-se humilhada com a entrada de Humberto Delgado, disfarçado, em Portugal, aquando do golpe de Beja, sem que ela o tivesse detetado. Foi a partir deste golpe que, segundo afirmações de Rosa Casaco prestadas em Madrid, em 6 de junho de 1974, “surgiu na mente do então inspetor superior da PIDE, Agostinho Barbieri Cardoso, a ideia de neutralização do General Humberto Delgado” (veremos a seguir como Rosa Casaco consegue afirmar o contrário disto noutras ocasiões, o que aliás era vulgar neste agente).
Barbieri Cardoso
  • A possibilidade de o general conseguir realizar um novo golpe era real, pelo menos na perspetiva do Governo português que, por via diplomática, recebia frequentes avisos nesse sentido.
  • Gradualmente Delgado ia assumindo posições anticolonialistas.
  • “O General Sem Medo” continuava a ser incómodo no que respeita à imagem internacional de Portugal já que atraía as atenções para o regime vigente (contudo a descoberta do seu cadáver acabou por agravar este problema).
    Atentados a figuras políticas eram frequentes no ambiente violento daquela época (o atentado planeado não era todavia vulgar no regime de Salazar).
Há no entanto diversos aspetos que parecem contrariar esta tese de homicídio premeditado.
  • O regime português nada ganhava com a sua eliminação física (ganharia todavia alguma tranquilidade na sua imagem internacional, desde que os cadáveres de Delgado e Arajaryr nunca fossem descobertos).
  • Para quê ir a Espanha matar Humberto Delgado quando teria sido mais simples executá-lo nos locais onde esteve exilado, em Argel ou em Roma? (Foram no entanto feitas tentativas no Brasil e talvez o seu falhanço tenha conduzido ao abandono desta via).
  • Porque não foi contratado alguém exterior à PIDE para executá-lo? (Também isto chegou a ser experimentado numa das tentativas de homicídio anteriores orquestrada no Brasil pela PIDE).
  • Delgado estava naquela época completamente isolado nos meios oposicionistas, razão porque não constituía qualquer perigo (já vimos contudo que não parecia ser isso que a PIDE considerava).
  • Até se tinha tornado útil ao regime, nos últimos anos, enquanto desagregador da oposição, ao contrário do que acontecera no período eleitoral e nos anos imediatos.
  • Humberto Delgado não tinha recuperado da cirurgia a que fora submetido na Checoslováquia em janeiro de 1964, como testemunhou Mário Soares em Paris noVerão do mesmo ano e como provam alguns objetos encontrados no HotelSimancas pela polícia espanhola, pelo que provavelmente não sobreviveria muito mais tempo.
Partindo destas objeções coloca-se uma questão: se a PIDE não pretendia matar o General Sem Medo porque enviou uma brigada de agentes seus a Espanha? É aqui que surge outra hipótese, de que o objetivo era a detenção. Silva Pais defende que o objetivo seria atrair Humberto Delgado a território português fazendo passar Rosa Casaco por um coronel responsável da suposta organização militar revolucionária existente no interior de Portugal. (Note-se contudo que o papel de militar conspirador seria difícil de representar por parte de Rosa Casaco já que o general o conhecia bem.)
Nesta perspetiva, que é a que vinga na tese do acórdão do Tribunal Militar que julgou os agentes da PIDE após o 25 de abril, a operação muda radicalmente de feição quando, perante o gesto de Delgado de sacar da arma, Casimiro Monteiro reage. Morto Delgado a eliminação de Arajaryr Campos ter-se-ia tornado assim inevitável, de forma a não deixar testemunhas.
Isso explicaria então a razão por que
  • os corpos não foram enterrados imediatamente no local do crime: por se tratar de situação imprevista;
  • essa ocultação foi feita de forma precipitada em Vilanueva del Fresno, com os corpos mal cobertos, de forma descuidada e deixando vários vestígios que foram facilmente encontrados: cápsulas de balas, balas por deflagrar, pontas de cigarro e um boletim do Totobola para o dia seguinte à operação,
  • foi escolhido um local próximo da fronteira portuguesa.
Também neste caso surgem algumas objeções:
  • Casimiro Monteiro era um operacional experiente que poderia ter desarmado o General sem o matar.
  • Se a polícia política portuguesa pretendia deter Delgado porque não pediu à sua congénere espanhola que o fizesse, o que teria sido fácil em Badajoz e seria absolutamente legal já que sobre ele pendia um mandado de captura? Aliás, já no passado o poderia ter feito recorrendo a outras polícias estrangeiras.
  • Os vestígios descuidadamente abandonados no local do crime explicam-se pela necessidade de abandonar com rapidez esse local, porque surgiram testemunhas e porque os disparos podiam alertar outras.
  • A forma precipitada como foram ocultados os corpos justifica-se pela proximidade do anoitecer.
  • As consequências da detenção de Humberto Delgado seriam piores do que executá-lo ou deixá-lo em liberdade. O que significaria manter o General encarcerado ou fazer um julgamento, com toda a publicidade internacional daí decorrente e oferecendo à oposição uma renovada oportunidade de mobilização em sua volta?
Há ainda uma terceira tese que combina as duas hipóteses acima expostas: a PIDE ia preparada para duas possibilidades, rapto e assassinato. É a ideia central defendida pela acusação no Tribunal Militar. (Ver pergunta 9. E o julgamento em Portugal após o 25 de Abril?) Ou então os elementos da brigada tinham duas missões distintas.
É esta a teoria insinuada por Rosa Casaco numa entrevista ao Expresso em 20 de julho de 2006: ele, e provavelmente também Ernesto Lopes Ramos, tinham partido de Lisboa com a missão de capturar Delgado mas Casimiro Monteiro, e talvez Agostinho Tienza, teriam recebido ordens para executar o general. Ordens essas dadas certamente por Pereira de Carvalho ou Barbieri Cardoso, ou mesmo de ambos. Ou seja, Monteiro e Tienza teriam recebido instruções que não correspondiam ao plano oficial. Decorre daqui que Barbieri ou Carvalho podiam estar a trabalhar à margem dos objetivos do Governo e ao serviço de terceiros. Quais? As opções aqui são ideológicas. Para uns poderia ser o Grupo de Argel, apontado como principal interessado na morte do general. Para outros tratar-se-ia de elementos da extrema-direita internacional com os quais a PIDE sempre teve relações privilegiadas, provavelmente a Rede Gládio.
Na miríade de hipóteses que procuram explicar as razões da morte de Humberto Delgado e Arajaryr Campos há ainda quem tenha conjeturado uma derradeira teoria: isolado, sem recursos e humilhado no ambiente hostil da oposição em Argel, o general teria decidido entregar-se às autoridades portuguesas. Torna-se no entanto difícil explicar neste contexto por que razão comprou dois bilhetes de autocarro para dia 15 de fevereiro e os pedidos de informação sobre voos disponíveis a partir de Madrid para Casablanca e outras capitais africanas. Mais ainda: se assim fosse por que motivo esta possibilidade generosamente oferecida ao regime de Salazar não foi aproveitada pela sua polícia que reage brutalmente quando fica diante de Delgado?

O regime de Salazar esteve próximo de cair em 1958?

Pergunta 4 de 13
Mais do que acreditar em meios legais, como a eleição como Presidente da República, ou mesmo num levantamento popular, tradicionalmente defendido pelos setores mais à esquerda (respondia-lhes “Pois, pois, o povo levanta-se todas as manhãs…”), Humberto Delgado esperava que o ambiente de euforia que a sua candidatura tinha desencadeado no país inspirasse um número significativo de militares a derrubar o regime. Para isso contava também com o ambiente vivido nas Forças Armadas, então muito divididas pela animosidade que Fernando Santos Costa, ministro da Defesa e membro do Governo havia já 22 anos, tinha desencadeado nos meios castrenses.
Aparentemente estavam assim reunidas as condições para a eclosão de um golpe militar durante o período que antecedeu e em que decorreu a campanha eleitoral. O próprio Governo deve ter tido consciência da perigosidade da situação e mobilizou durante a campanha eleitoral meios excecionais, entregando a um comando único chefiado por Santos Costa que incluía não só a PSP e a GNR mas também as Forças Armadas, a missão de reprimir manifestações e reuniões, que se traduziu em cargas policiais e feridos entre a população. É possível que esta inclusão dos militares, chamados a participar em ações de repressão contra civis, atividade até aí da exclusiva responsabilidade das forças policiais e paramilitares, tenha agudizado ainda mais o ambiente nos quartéis.
As ambicionadas revoltas militares até chegaram a ser planeadas mas nunca chegaram a eclodir: ainda em 1958 há duas tentativas falhadas de revolta, no ano seguinte uma outra (revolta da Sé) e em 1961 uma derradeira tentativa de golpe encabeçada pelo próprio ministro da Defesa, General Botelho Moniz. Mas logo tocaram a reunir os clarins em resposta aos primeiros ataques da UPA no Norte de Angola, mobilizando as tropas e adiando por muitos anos (com exceção do assalto ao quartel de Beja) qualquer tentativa de derrube armado do regime.
Mas não se pode ignorar que Humberto Delgado criara no entanto uma situação nova. Até aí Salazar convivera com grupos de influência (monárquicos, republicanos conservadores), gerindo conflitualidades, ou então confrontara-se com forças políticas irredutíveis (comunistas, republicanos de esquerda), em relação aos quais usava os meios de repressão considerados adequados. Desta vez um antigo apoiante tinha pretendido configurar um duelo pessoal.
Não se sabe se Salazar o terá entendido assim. Em privado, segundo testemunhos, parecia lamentar-se do caminho que tinha seguido um colaborador tão próximo como o piloto-aviador Humberto Delgado. Mas nem por isso o seu Governo deixou de o demitir de todos os cargos oficiais. Em 1960, Delgado seria mesmo excluído da Força Aérea, deixando de receber o soldo de militar.
Até à sua morte Delgado nunca deixou de acreditar ser a ação militar, eventualmente com o apoio de civis armados, a única solução para fazer cair o regime. Em abril de 1974 a História dar-lhe-ia razão.

O que foi respondido atrás esgota todas as dúvidas sobre a morte de Humberto Delgado?

Pergunta 13 de 13
Como é habitual num crime político que envolve diferentes países (Espanha, Itália, Argélia, Portugal), instituições (polícias, grupos políticos) e pessoas (agentes infiltrados, exilados de longa data) a lista de dúvidas torna-se infindável. Limitemo-nos por isso a duas questões.
A primeira tem origem nos testemunhos dos empregados de mesa do Hotel Simancas, em Badajoz, onde Humberto Delgado e Arajaryr Campos se hospedaram. Segundo eles, quando o par almoçava na véspera do seu assassinato entrou um numeroso grupo de pessoas, incluindo alguns homens de porte musculado, que ocupou várias mesas. Por olhares ou gestos percebia-se que entre Delgado e esses homens existia um conhecimento prévio mas só uma vez o general foi visto a falar com um deles. Na manhã seguinte partiram.
No livro de registos do hotel ficaram dois nomes, correspondendo um deles a um homem com aspeto de norte-africano, Hazan Guy Isaac, que estivera presente na reunião realizada em Paris, no Hotel Caumartin. Tratou-se da reunião onde Delgado se encontrou com Ernesto Lopes Ramos e na qual foi combinado o encontro de Badajoz e esse homem, na altura acompanhado de outro, era provavelmente guarda-costas do general. Estaria assim aquele grupo de pessoas em Badajoz para garantir a segurança do general? E porque não o fizeram efetivamente no dia seguinte, 13 de fevereiro? Teriam sido dispensados por Delgado? E porquê? Mais uma vez as teses divergem. Para uns, Delgado consideraria que o mais arriscado - chegar a Badajoz – tinha sido atingido. Logo o general sentir-se-ia seguro e dispensa-os. Uma dispensa tão mais necessária caso ponderasse passar a fronteira acompanhado dos oposicionistas com quem esperava encontrar-se.
A outra questão prende-se com a falta de profissionalismo da PIDE que parece tornar-se evidente em vários pontos das respostas anteriores. Se a “OperaçãoOutono” tinha como objetivo a detenção de Humberto Delgado então esta polícia falhou completamente a sua missão. Mas se o fim era a eliminação física, também falhou, tendo em conta os vários vestígios do crime deixados em solo espanhol.
Esta profusão de vestígios materiais tem sido explicada de duas formas. Podia ser intencional, de forma a facilitar a descoberta do crime, não se explicando contudo por que razão os agentes da PIDE o fariam. Ou então por imposição das circunstâncias: a brigada teve de abandonar rapidamente o local do crime porque o som dos tiros poderia ter sido escutado e causar alarme. Por isso teve de procurar outro lugar para deposição dos corpos. Quando o encontrou já escurecia (em meados de fevereiro os dias ainda são curtos), além de que foi avistada por habitantes locais, pelo que a ocultação foi a possível naquelas circunstâncias, ou seja, bastante precária.
Aceitemos esta explicação como válida mas ela não arreda a imagem de amadorismo que aquela brigada revelou na fronteira espanhola. A PIDE dispôs de mais de dois anos para planear esta operação, à qual atribuiu recursos fora do comum. Contudo:
  • Casimiro Monteiro utiliza um passaporte verdadeiro, de um cidadão britânico,Washdeo Kundanmal Mirpuri. Quando o seu nome é tornado público pelas autoridades espanholas logo a Scotland Yard esclarece que aquele passaporte tinha sido entregue à PIDE pelo seu proprietário aquando da sua passagem por Lisboa, nunca tendo sido devolvido. A partir desse momento um dos suspeitos da justiça espanhola (aquele nome fora registado pelos funcionários da fronteira do país vizinho) fica desde logo associado à polícia portuguesa.
  • A brigada deslocou-se a Espanha em viaturas pessoais dos próprios agentes e embora usassem matrículas falsas os números de motor e chassis eram verdadeiros e foram igualmente registados pelos funcionários do posto fronteiriço. Se houvesse um acidente, se os automóveis fossem apreendidos, tudo se complicaria.
  • No local do crime deixaram um boletim do totobola português.
  • Não retiraram o anel com as iniciais HD do dedo de Humberto Delgado.
  • Os agentes acabaram por dispor de pouco tempo para ocultar os corpos e apagar vestígios porque anoitecia, o que pressupõe mau planeamento horário da operação.
  • Há quem afirme que o local de deposição dos corpos foi “previamente escolhido” por Rosa Casaco. A ser isso verdade teria sido pessimamente escolhido. Na realidade a brigada limitou-se a tirar partido de duas fossas naturais, formadas por um regato, o que poderia permitir que o corpo nela depositado fosse desocultado pelas águas.
  • Não parecem ter levado equipamento adequado que permitisse cavar mais profundamente estas fossas, deixando os corpos quase à superfície. Se tivessem ficado mais enterrados poderia passar muito mais tempo até serem descobertos.
  • A encenação criada em São Leonardo quando o funcionário da PIDE António Semedo, de serviço nessa fronteira, foi apresentar aos seus congéneres espanhóis um dos agentes da brigada como sendo seu colega da polícia acabou por chamar mais a atenção destes.
  • A seguir à notícia do desaparecimento de Delgado, e sobretudo após a descoberta dos cadáveres, os responsáveis da PIDE parecem improvisar, resolvendo os problemas resultantes das pressões de Espanha e do alarme internacional à medida que eles surgem.
Porque demonstrou então a PIDE tanta falta de eficiência? Ao contrário dos operacionais de nações democráticas, sempre sujeitos, nas suas operações encobertas, ao confronto com a Justiça e à curiosidade jornalística dos seus países, os agentes da polícia política portuguesa não tinham de se preocupar com o rasto que deixavam pois perante a sua brutalidade e os seus descuidos, o Governo fechava os olhos e nem os jornais nem a Justiça investigavam. A dada altura, pelos anos sessenta, a PIDE procurou modernizar-se, mas homens como Casaco eram ainda da velha guarda. De um modo geral os agentes não eram mais competentes porque não necessitavam de o ser, até porque a sua recolha de informações era baseada em interrogatórios e estes na tortura. Quando um dia se lhes colocou uma situação mais sofisticada, falharam.
Independentemente do que Salazar sabia sobre esta operação é óbvio que confiou demasiado na competência da sua polícia. Esta não estava preparada nem para prender nem para assassinar um homem como Delgado.

observador.pt


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