Os fretes explicam-se
Mesmo que a “Carta a Miguel Relvas“, publicada ontem no Expresso por Fátima Pinheiro, tenha mil palavras, esta foto diz muito mais. Isto num jornal que se diz de referência – mas como nos chapéus, referências há muitas.
Caro Miguel
Carta a Miguel Relvas
Caro Miguel
Resolvi escrever-te, não porque te conheça bem, nem por ser Carnaval; máscaras é logo à noite. Sempre achei é que há um tempo
para tudo e que a vida não se reduz à Política. Tenho sim estima por essa nobre atividade humana. É que esta semana andaste muito
na Berra dos media. Ouvi falar muito de ti, a dizer mal. Acho que há um limite para tudo. Há uma semana, no XXXV Congresso do PSD,
foste escolhido pelo presidente do partido, Pedro Passos Coelho, para encabeçar a sua lista ao Conselho Nacional. Passos tem sido
criticado e tu idem. Não precisas da minha defesa para nada. Nem interessa a cor que tenho. Mas, e já agora, aproveito para dizer
que sou colorida com todas as cores, gosto de todas, e há alturas em que vem ao de cima o preto e o branco. Dois pesos e duas
medidas é que não. Podes rasgar e deitar fora, que não me importa. Importa-me sim dizer o que penso. Manias que me vêm da Filosofia
, cuja arte está num perguntar. Mas não um perguntar por perguntar.
Que saíste e entraste. Qual não é o político que não o tenha já feito? E quando disseste que não voltaste à política, e te criticaram,
lembrei-me logo de Mário Soares, que disse, não há muito, que não estava na política "ativa". Devem estar a gozar. Soares não faz
política! Deixem-me rir. E nada lhe foi apontado. Antes pelo contrário: aparece quando quer e cirurgicamente, no momento que
entende crucial, exato. E vestido para "matar" (já que a noite foi de óscares...). Olha a Aula Magna, que ainda recentemente culminou
uma série de aparições mediáticas, sempre a achincalhar quem governa e a apelar à violência. Chegou até ao recurso da ameaça.
Até estou a estranhar tanto silêncio... Para herói da liberdade, com mais de "12 anos de escravatura" que "aula" Magna! Não devia ser
política, não. Foi um momento poético. Os media, as pessoas como reagiram? Bem, claro. Soares é fiche! E "vende"...
E há tanto mais. Desde quando és o único a tirar um Curso Superior de forma "diferente"? Preciso de lembrar que o homem que foi
estudar filosofia para Paris, não foi objeto das críticas que a ti te fizeram, a propósito de coisa semelhante!? Houve vozes, sim, mas
mais soft. E depois Sócrates é tão negligée...E desde quando um Curso Superior forja um político? E que o problema é que mentiste.
Mas terás sido o único a mentir? E por que só tu és alvo de tareia em tudo que é sitio! ? E não seria melhor dedicarmo-nos à paixão
pela educação, e ao estado do nosso ensino? Mas não, é muito mais fácil esticar o dedo...
E a tua história no PSD, quem se lembra? E a tua cumplicidade com Passos, não é a que existe entre um líder de um partido e os que o
acompanharam sempre? Por que é que se tem falado só de vocês os dois? E qual é o líder que não tem os seus segredos? Não é o
segredo a alma do negócio? Negócio, sim. A política é um negócio. Não estou a falar "desses", estou a querer dizer que a política é a
arte do negociar o bem comum. Quanto aos negócios do mete no bolso, das brutais reformas vitalícias, ou dos lugarões para que vão
os ex-ministros, ou ex-políticos...atire a primeira pedra quem não os tem, ou quem não teve. Acho bem? Adivinhem..Mas aqui
lembro-me de tantos nomes que o melhor é calar-me por agora. De todas as cores, de todos os cargos, de todos os gostos.
Era bom que a política fosse só beleza. Mas se nem eu a consigo na minha vidinha, porque hei-de olhar para o lado? Ouvi dizer que
disseste ontem que vieste para ajudar o Partido no melhor que puderes. Acredito. Já sei que vão pensar que eu milito no PSD, que
esta carta é uma encomenda, e que isto é uma vergonha. Mas no fundo talvez ainda tenha azar. É que sou uma bloguista vulgar que
enquanto faz a sopa e os TPC, não suporta a mediocridade, a começar com a dela. E que escreve melhor sobre cinema. Mas cartas
de amor, quem as não tem?
E para acabar, que esta já vai longa, termino com uma coisa que aqui escrevi e se prende à heroína do dia, Blue Jasmine, e ao
homem que pela primeira vez na sua filmografia se "esconde" na câmara: "Mestre no mostrar os interiores de cada um. Na forma
como interagem com os outros interiores. Nos desencontros. Nas relações amorosas, todas elas. Tudo isto no filme. Mas este filme
é muito forte na forma como mostra quem é Jasmine e fixa-se quase todo ele nela. Talvez se deva muito à genialidade de Blanchet.
Esquecemo-nos que estamos diante da actriz. Ela é mesmo Jasmine. Ao longo do filme, transforma-se transtorna-me. Convincente
porque eu entro no filme. Ou eu entro porque é tão convincente, que não há mais portas: é aquela. A arte é assim: atrai e salva.
E eu dou o meu passo, e ela passa. " Eu cá não sou de estar partida. Partilho a relva com quem a mereçe.
Espero que passes bem. Que passem bem. E que saibam cuidar do menino de sua mãe
Fátima
aventar.eu
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