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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

ENTREVISTA COM A LÍDER DO GRUPO PARLAMENTAR DO "PAN" - "Olhamos os novos partidos como gostaríamos que tivessem olhado para nós"

"Olhamos os novos partidos como gostaríamos que tivessem olhado para nós"

Inês Sousa Real, líder parlamentar do PAN, é a entrevistada de hoje do Vozes ao Minuto.

"Olhamos os novos partidos como gostaríamos que tivessem olhado para nós"

Aos 39 anos, Inês Sousa Real foi a mulher escolhida para liderar a bancada parlamentar do partido que viu quadruplicar o número de deputados nas últimas eleições legislativas. Jurista de profissão, a agora deputada da Assembleia da República diz-se "honrada" pelo desafio que tem em mãos para os próximos quatro anos. 
Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Inês Sousa Real não quis precipitar um sentido de voto ao próximo Orçamento do Estado, salientando que o Partido Socialista tem demonstrado, para já, "abertura para o diálogo".
Das reivindicações do PAN, há uma especial a que o PS não fechará os olhos e que se prende com o reforço da verba para dar alojamento a quem esteja em situação de sem-abrigo. 
Se pudesse desenhar um Portugal de sonho, escolheria um país mais justo para com as pessoas, para com os animais e ambientalmente mais sustentável. Um sonho com muitos sonhos dentro. 
Quais são as primeiras impressões do Parlamento e o que é que este novo desafio na Casa da Democracia representa para si?
É um desafio muito gratificante. Não nos podemos esquecer no dia a dia que estamos aqui a representar a causa pública. Estamos aqui, no fundo, emprestados àquilo que é o serviço público. Ainda estamos em fase de adaptação. Deixei o meu trabalho muito recentemente, mas tem sido uma experiência muito positiva, com a adaptação e integração das comissões, no processo legislativo, que nos dá expectativas muito positivas sobre aquilo que vão ser os próximos quatro anos. Até porque o PAN se apresenta agora com um grupo parlamentar, coisa que não tínhamos na legislatura anterior. E, portanto, temos poderes diferentes em termos de apresentação da matéria legislativa. E permite-nos ir mais longe e reforçar aquilo que é apresentação das causas que formam o nosso ideário
Já se perdeu nos corredores da Assembleia ou andam sempre em grupo para que isso não aconteça?
[Risos]. Já me perdi algumas vezes mas não deixa de ser aprazível porque é um espaço muito bonito, com imensa cultura, com imensas pinturas, imensa arte. É um edifício histórico... é sempre bom perdermo-nos por aqui. É sempre bom perdermo-nos, mas facilmente nos reecontramos. Até porque as pessoas daqui têm sido muito acolhedoras, os funcionários acima, os restantes colegas, e obviamente o grupo parlamentar.
Quando o PAN há quatro anos veio quebrar aquilo que era o sistema não houve esse cuidado de pensar nos direitos que deve ter um deputado único
Como é que sente o ânimo, o pulso do partido agora que saltou para o grupo dos 'grandes'?
É um desafio muito interessante porque isso permite-nos fazer um exercício que até aqui não nos tinha sido dada a oportunidade de fazer. Na legislatura passada, o PAN teve de desbravar algum caminho enquanto deputado único, porque tinha muitas restrições do ponto de vista regimental, não tinha o mesmo tempo para falar do que tinham os restantes partidos, nem sequer a mesma possibilidade de intervenção. Termos agora uma representação diferente dá-nos aqui a possibilidade de apresentarmos mais medidas e iniciativas e de participarmos também em mais comissões. Vem reforçar a nossa possibilidade de participação. E em democracia deveria ser sempre assim. Portanto, é com muito ânimo e otimismo que encaramos aquilo que são os desafios dos próximos anos.
Como é que viu esta polémica dos tempos de intervenção dos partidos recém-chegados à Assembleia da República?
Lamentamos, por um lado, que não tenha havido a mesma atenção, sobreudo da sociedade civil e dos meios de comunicação, quando isso aconteceu só com o PAN. De facto, quando o PAN há quatro anos veio quebrar aquilo que era o sistema - e os partidos que tradicionalmente chegavam até esta AR - não houve esse cuidado de pensar nos direitos que deve ter um deputado único. E olhar agora para um Parlamento mais plural, dá-nos a responsabilidade de adequarmos o regimento a esta realidade e não terem de ser as forças a adequarem-se àquilo que é um regimento já claramente ultrapassado. Há de facto um exercício que temos de fazer porque é salutar para qualquer democracia que exista uma maior representação democrática.
Acusar o PS, Bloco e PCP de terem tentado calar estes novos partidos parece-lhe uma acusação justa?
Mais do que estarmos a ir por aí, é importante é que todos tenhamos consciência, e o PAN nunca defenderá menos do que teve para si próprio, mas também não nos incomoda minimamente que os partidos que agora estão na AR possam ter mais direitos do que aqueles que o próprio PAN teve. Aquilo que temos de fazer enquanto coletivo e enquanto eleitos aqui na AR é o exercício de olhar para o regimento e ver de que forma é que ele tem de ser adaptado. O caminho terá de ser esse e não a forma mais populista de olhar para a questão, até porque já percebemos que há aqui diferentes sensibilidades e, independentemente do que se possa ter passado lá atrás, já existe agora um consenso para que se possa avançar e dar mais tempo de antena às novas forças políticas.
Como é que estão a decorrer as negociações do PS para o Orçamento do Estado?
Já tivemos algumas reuniões no sentido de perceber não só quais são as linhas gerais que o Governo pensa para o OE, como também em que medida é que está a aberto a incluir medidas do PAN. Tem sido já esta postura que tivemos na legislatura passada, de perceber com a força que temos, que medidas conseguimos fazer avançar, não só para contribuir de forma positiva para que o Orçamento se torne um Orçamento que represente também diferentes realidades políticas, como para fazer avançar medidas que achamos da mais elementar justiça.
Não nos podemos esquecer enquanto Estado de Direito que não deixarmos ninguém para trás implica precisamente começar pelos que estão mais vulneráveisQuais?
Já avançámos com uma das nossas bandeiras, que é reforçar a verba que existe do ponto de vista nacional para o projeto de Housing First, que é um projeto de apoio às pessoas que estão em situação de sem-abrigo. Não nos podemos esquecer enquanto Estado de Direito que não deixarmos ninguém para trás implica precisamente começar pelos que estão mais vulneráveis.
E o PAN o que já pediu foi que haja um reforço do Orçamento que ascende, provavelmente, a 7,5 milhões de euros, para que possamos encontrar soluções de alojamento para estas pessoas que estão em situação de vulnerabilidade extrema. A par desta medida, temos outras da mais elementar justiça. Apresentámos uma medida para que haja uma licença de 10 dias para as vítimas de violência doméstica ou de abuso sexual para que possam reorganizar as suas vidas. Seria uma licença integralmente paga, não só para que possam estar numa casa refúgio ou então, noutras circunstâncias, perceberem que estratégias e que apoios podem encontrar para conseguirem reestruturar as suas vidas ter algum apoio do ponto de vista até emocional e psicológico.
Além destas, uma medida que nos é muito cara e que tem a ver com a causa animal, que é a redução do IVA para os serviços médico-veterinários. Não nos podemos esquecer que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) defende que haja uma só saúde e que não faz sentido que se diferencie aquilo que é a prestação dos serviços médicos dos serviços médico-veterinários. Além disso, temos famílias que estão em situação de carência económica e que têm animais de companhia. Há estudos que nos indicam que mais de 50 % das famílias têm animais de companhia nos seus lares. Através das ferramentas que é o OE e das diferentes medidas, há que ir ao encontro das necessidades da população. E a descida do IVA é uma medida há muito reclamada pelas famílias, até se queremos depois proporcionar, de facto, forma de cuidarem dos seus animais, e em situações extremas, de não os abandonarem e não deixarem de lhe prestarem os cuidados que são necessários.
E o PS demonstrou abertura em relação às propostas do PAN?
Até agora, o que tem havido é uma abertura para o diálogo para ver de que forma podemos fazer avançar estas medidas, à semelhança daquilo que aconteceu em anos anteriores. Mas até que o OE esteja fechado e aprovado... há um longo caminho ainda a fazer. Seria precipitado dizermos se, de facto, vamos conseguir fazê-las avançar ou não. Para já, são reivindicações nossas. E a par destas, muitas outras iremos ainda apresentar.
Há alguma medida do PAN que possa adiantar que vai estar inscrita, com certeza, no OE?
Seria muito precipitado, mas em matéria de combate à pobreza, estamos otimistas. Certamente que a questão do housing first será uma prioridade. Tem havido vários sinais, quer da parte do Governo, quer da parte do nosso Presidente da República - tem sido uma causa que lhe é muito cara. E o próprio PAN tem defendido a aposta nas soluções de alojamento às pessoas de sem-abrigo. É uma das nossas reivindicações. Mas é precipitado dizermos se vai ou não ser aceite e se vamos ter uma verba que nos permita alcançar esta solução.
Daquilo que já conhecem da proposta de OE do PS, o que é que mais vos indigna?
O Orçamento ainda não nos foi dado a conhecer.
Das linhas gerais do OE.
Temos apenas muito gerais que têm a ver com o contexto macroeconómico, com a estabilização das contas públicas, e a opção de investimentos. Mas ainda não temos dados mais concretos que nos permitam uma análise mais aprofundada do mesmo. Assim que nos chegue a versão do OE é que poderemos ter uma avaliação mais crítica daquilo que efetivamente são linhas vermelhas. Nesta fase, ainda não temos elementos que nos permitam uma análise concreta e aprofundada.
Portanto, é ainda cedo para dizer se estão mais inclinados para um sentido de voto ou outro.
Seria muito precipitado. Não nos foram dados elementos que nos permitam perceber se os investimentos feitos se contribuem por exemplo para uma redução da pegada carbónica, se é um OE sensível às questões das alterações climáticas, até mesmo sensível à questão do género, ou se vai ajudar-nos a combater as desigualdades que ainda temos no nosso país até da erradicação da pobreza, ou até mesmo as assimetrias regionais.
Vamos ter de perceber, por exemplo, de que forma é que este OE vai concretizar as questões da ferrovia, se vamos combater as desigualdades estruturais. Entre aquilo que são os princípios proclamados e aquilo que depois se concretiza no OE há um longo caminho a fazer. Vamos ter de o conhecer para ver se nos aproximamos ou distanciamos.
Têm mais encontros marcados com o PS?
Sim, vamos ter agora mais reuniões para perceber do ponto de vista sectorial de forma é que se pode fazer avançar estas nossas propostas e reivindicações.
Em política, temos de ter a humildade, muitas vezes, de assumir aquilo que possa ser uma opção que é errada para o país, que pode ser desastrosaUma das matérias em que o PAN discorda em absoluto com a opção do Governo é a questão do novo aeroporto. Ainda há esperança num recuo?
Gostaríamos muito de ver um recuo nessa matéria. Não nos podemos esquecer do impacto ambiental e social que o novo aeroporto vai ter. Já tivemos oportunidade de falar diversas vezes do impacto ambiental, desde logo, porque se localiza numa zona em termos de ecossistema de extrema relevância. Não nos podemos esquecer que a própria UE já veio dizer que Portugal não tinha classificado as zonas de interesse comunitário, e dá-se a coincidência de esta ser precisamente uma dessas áreas. Temos ali uma biodiversidade única no nosso país.
Não faz sentido que a rota dos aviões passe precisamente por cima desse ecossistema, o que vai colocar em causa a continuidade das espécies migratórias que ali nidificam. Por outro lado, temos as questões da saúde da população, que tem direito ao descanso. Do ponto de vista estratégico, parece-nos que não faz sentido para o país que se avance com essa solução. Não podemos, de alguma forma, ignorar aquilo que é a necessidade de apostarmos no interior.
A solução que o PAN avançou, Beja, implicaria apostarmos na ferrovia, apostarmos no desenvolvimento do interior, e também numa infraestrutura já existente, poupando até alguns recursos em termos de investimento. Por outro lado, do ponto de vista ambiental, existem já estudos que referem que a elevação das águas que podem por até em causa a acessibildiade ao aeroporto. Temos de fazer uma avaliação estratégica mais profunda e que nos permita perceber que impactos é que vai ter a construção do aeroporto naquele local. Esperamos que haja um passo atrás porque achamos que é uma medida que não é responsável para com o país e que pode ter um impacto negativo, ao invés de ser positivo do ponto de vista do densenvolvimento económico, ambiental e sustentável ao nível das populações.
Mas nesta fase já tão adiantada do processo ...
Nunca é tarde demais. Em política, temos de ter a humildade, muitas vezes, de assumir aquilo que possa ser uma opção que é errada para o país, que pode ser desastrosa. Fala-se muito no investimento que vai ser feito no aeroporto. Não vamos de alguma forma afundá-lo ...
Não nos podemos esquecer que não há Portugal B, é o único que temos, temos de o preservar
Literalmente.
Literalmente, neste caso. Não vamos afundar esse investimento em detrimento de outras opções que até vão mais ao encontro daquilo que queremos, que é um desenvolvimento do Interior do país e que não iria pôr em causa o bem-estar da população, em termos de saúde e de direito ao descanso. Por outro lado, penhorar aquilo que são os nossos valores ecológicos. Não nos podemos esquecer que não há Portugal B, é o único que temos, temos de o preservar.
O ministro do Ambiente disse que o negócio da exploração do lítio é "cristalino". É?
Aí teremos de ser forçados a discordar. Tem havido alguma opacidade nestes processos na forma como têm estado a ser conduzidos, seja do ponto de vista da contratação, seja do ponto de vista dos estudos prévios para a prospeção do lítio. O que o PAN defende é que, assim, não há condições para a avançar para a exploração do lítio. E temos de ter a consciência de que se queremos de facto avançar com esse tipo de prospeção, teria de ser precedido, necessariamente, de uma avaliação de impacto ambiental estratégico para perceber que impacto vai ter nas populações do ponto de vista social e ambiental. E aqui estamos a fazer o processo invertido.
Nunca poderíamos concordar, nestes termos, com esta opção do Governo. Já para não falar que existe uma total ausência de regulamentação no nosso país. Mais uma vez, há aqui uma subversão daquilo que é a valorização do nosso património natural. 
O Governo defende que o lítio é essencial para a transição energética.
Ouvimos muitas vezes que a solução do presente pode ser o problema de amanhã. E se não houver, de facto, uma avaliação do impacto ambiental estratégico, se não houver uma consulta pública mais próxima das populações e uma regulamentação prévia, podemos vir a ter no futuro um problema no nosso país a nível da qualidade de vida e qualidade ambiental. É por isso também que iremos batalhar que existam, pelo menos, estas condições em todo este processo.
O lítio, de facto, representa um contrassenso. Sendo útil para a transição energética, poderá ter impactos negativos para o próprio ambiente.
É uma questão complexa, e por isso mesmo é que achamos que deve ser precedida de mais estudos que não existem atualmente e de uma avaliação mais profunda. Se não lançarmos mão destas ferramentas, poderemos vir a tomar opções erradas para o país, sobretudo a nível local. O PAN defende que a exploração do lítio seja sempre precedida de estudos de impacto ambiental estratégico, que é o que não tem acontecido agora de forma eficaz. E também deve haver uma maior transparência contratual, sobre a qual já foram apontadas algumas críticas.
Também lhe cheira a "esturro", como apontou o PSD?
Têm sido apontadas algumas críticas e achamos que, em sede própria, deve ser esclarecido quer aqui na Assembleia da República, quer através das ferramentas próprias de participação cidadão. Se empoderarmos as pessoas para que participem também destes processos - nomeadamente em momento de consulta pública -, poderemos estar a legitimar ou não aquilo que possa ser uma opção de permitir a extração. Se não forem envolvidas todas as diferenças ao nível dos interessados, então aí, pelo menos o processo será muito pouco transparente e claro e pouco compreensível para quem está a ver de fora.
Afinal, há ou não há falta de água no rio Tejo?
A questão da gestão dos caudais é um tema preocupante. Salta à vista não só aquilo que é a qualidade da água no Tejo, mas também a gestão dos caudais. Aquilo a que apelamos é que exista uma maior diplomacia na negociação em torno da convenção de Albufeira, porque tem de ser revista a forma como estão a ser geridos os caudais, para que nem Espanha nem Portugal sejam prejudicados, e acima de tudo para que se mantenha todo um ecossistema que depende dos caudais do Tejo.
Não nos podemos esquecer da importância que tem não só para a agricultura, como para a preservação de alguns habitats e até do ponto de vista identitário. Não nos podemos esquecer da importância que revestem os rios para o nosso país. Tem de haver aqui maior diplomacia e uma maior sensibilização de Espanha para uma correta gestão e distribuição destes caudais. Não nos parece que isso esteja a acontecer e, nesse sentido, temos apelado ao Governo. 
Muitas vezes, tem passado mais facilmente a mensagem quando falamos da proteção animal, seja porque há uma tentativa de ridicularização, ou de nos conotarem a um certo fundamentalismo
O PAN teve agora uma expressão eleitoral muito maior, significando isso que os eleitores se identificam com a vossa visão. Aqui no Parlamento, sentem que a vossa visão é mais compreendida? Ou sentem-se colocados de parte, precisamente por terem essa visão diferente?
O PAN acabou por se traduzir num partido disruptivo da forma tradicionalista de fazer política, desde logo porque não nos identificamos na dicotomia nem de Esquerda nem de Direita, e é muito fácil de concretizar e até de exemplificar, porque há matérias como as preocupações ambientais que devem ser transversais a todas as forças políticas.
A emergência climática em que vivemos deve ser uma preocupação e estar na agenda da ordem do dia para que, de alguma forma, se concretize medidas que efetivem aquilo que possa ser uma mera proclamação ou até mesmo um pin na lapela de alguns partidos. É natural que as pessoas se revejam naquilo que é o ideário do PAN, porque temos lutado para que estas reivindicações se traduzam seja nas opções do OE, seja na pegada legislativa que é feita também em matéria ambiental. é natural que quem esteja mais desperto para estas preocupações do presente, e não apenas das gerações futuras, se reveja. 
Apesar de ficarmos muito satisfeitos com a nossa vitória e com o aumento da representação do PAN, não nos podemos esquecer que perdemos todos para a abstenção e que tivemos uma derrota mais uma vez na noite eleitotal. Nos próximos quatro anos também temos de assumir o desafio sobre como é que vamos reaproximar as pessoas da vida política, da participação da vida pública e levá-las a votar para que se sintam representadas.
E como é que isso se faz? Como é que se reaproxima as pessoas da política?
Empoderando as pessoas. Pelo exemplo, por um lado. Ou seja, temos que eliminar aquilo que possam ser processos pouco transparentes. Falamos aqui por exemplo do combate à corrupção. É fundamental. E o PAN tem medidas muito concretas, nomeadamente com os tribunais especializados de combate à corrupção. Pedimos também, inclusive agora em sede de Orçamento, mais meios para o Ministério Público e para a Polícia Judiciária.
Mas, para além daquilo que deve ser o pugnar pelo exemplo e de combater o que possa afastar as pessoas da participação na vida política, devemos dotá-las de outras ferramentas. Agilizar o processo participativo, seja nas comunidades de bairro, seja nas assembleias municipais, seja aqui na AR, seja em matéria de igualdade de género. Não nos podemos esquecer que as mulheres não chegam aos cargos de poder como chegam os homens. Temos uma sociedade marcadamente desigual em matéria de igualdade de género. Há aqui um longo caminho a percorrer. Se não olharmos do ponto de vista estratégico nos próximos quatro anos e pensarmos que ferramentas podemos implementar para reaproximar as pessoas, por muito que os partidos possam continuar a crescer, continuaremos sempre a ter um sabor um bocadinho amargo nas eleições eleitorais.
Notícias ao MinutoInês Sousa Real começou a colaborar com o PAN em 2010© PAN
A título de exemplo, o PAN apresentou neste arranque de legislatura cinco iniciativas que abordam direitos das crianças, das mulheres, do ambiente e dos animais. Ainda sentem na pele o rótulo do partido que só quer saber dos cães e dos gatinhos?
Um bocadinho. Muitas vezes, tem passado mais facilmente a mensagem quando falamos da proteção animal, seja porque há uma tentativa de ridicularização, ou de nos conotarem a um certo fundamentalismo. Seja pela positiva, ou pela negativa, acaba por haver mais reação quando apresentamos iniciativas nessa matéria. Mas os processos evolutivos, mesmo os direitos sociais, sofrem sempre desse mal. Acabamos por encarar com alguma naturalidade. Aquilo que sentimos ao longo destes quatro anos foi de facto uma grande dificuldade em chegar aos meios de comunicação mais tradicionais. Esperamos que agora e de futuro seja mais fácil, para que as pessoas possam conhecer melhor aquilo que defendemos noutras matérias como por exemplo no combate à pobreza, direitos sociais, matéria de inclusão.
Na legislatura passada, uma das nossas reivindicações foi precisamente a presença dos intérpretes de língua gestual nas escolas e nos serviços médicos. E isso muitas vezes não passa para a população. Se olharem para o programa do PAN, vêem que é um programa integrador, que tem uma visão holística da sociedade, que pretende uma mudança de paradigma e que considera que, de facto, não é incompatível defendermos os direitos dos animais e defender os direitos das pessoas e do meio ambiente. Muito pelo contrário, está tudo ligado. Só com uma visão transversal podemos conseguir uma sociedade mais justa, mais humana e mais sustentável.
Olhamos para estes novos partidos da mesma forma que gostaríamos que tivessem olhado para nósOs outros partidos, os já mais instalados, sentem-se ameaçados pelo PAN?
Recordo-me de que o Ricardo Araújo Pereira tinha uma brincadeira engraçada a esse respeito. Dizia que éramos o jacaré que levámos para casa quando era pequenino e que agora ... [risos]. Fez uma paródia em relação a isso. Penso que faz parte do jogo democrático. Em política olha-se sempre para o crescimento de outras forças, de alguma forma, com receio que isso possa tirar espaço político às diferentes forças políticas. Mas nós estamos numa sociedade que está a mudar. Há mais fragmentação, não só em Portugal, mas como noutros países.
A vizinha Espanha também é exemplo disso, nem sempre pelas melhores razões. Há de facto hoje em dia outras preocupações. Só eles próprios [os outros partidos] podem responder como olham para nós. Mas é natural que sinta, de alguma forma, que possa haver essa perda de espaço político. Diria que fundamental que se olhe isto como um enriquecimento da democracia. Se houver mais pluralidade, as pessoas tendem a sentir-se mais representadas. E daquilo que possam ser, muitas vezes, as nossas divergências, haverá certamente momentos de consenso que poderão fazer avançar o país.
Como ganhou agora com a entrada dos três novos partidos?
Certamente. Olhamos para estes novos partidos da mesma forma que gostaríamos que tivessem olhado para nós. Podemos divergir ideologicamente, e obviamente que divergimos, e até mesmo com alguma preocupação que vimos crescer alguns movimentos mais extremistas, mas, ainda assim, é no debate político que devemos ter as nossas diferenças ideológicas e esclarecer ao que cada um vem. A democracia sairá sempre a ganhar com este debate.
Quando é que a Inês despertou para a política? Era uma ambição? Um desejo?
Não acordei um dia e, de repente,... Nunca passou pelas minhas aspirações ser política. Foi, se calhar, um caminho acidental. Aconteceu.. Exato, aconteceu. Mas acho, de facto, muito gratificante. Nunca tinha feito parte de nenhum partido político. Quando decidi voluntariar-me para colaborar com o PAN, em 2010, acabei por ser tomada de empréstimo para este projeto político. E é um bocadinho assim que estou. Estou emprestada à causa pública, mas é muito gratificante sentirmos que estamos a colaborar para melhorar a qualidade de vida das outras pessoas, a defender as nossas causas e aquilo em que acreditamos. E só assim fará sentido enquanto aqui estivermos.
Enquanto mulher também é particularmente gratificante porque sei bem a dificuldade que é acedermos aos cargos de chefia e aos cargos de poder. Hoje temos uma AR mais representada do ponto de vista feminino, mas ainda assim é manifestamente insuficiente. o que espero é poder dar o meu contributo naquilo que é fazer avançar as nossas causas. É muito gratificante estarmos sentados naquele hemiciclo e pensarmos que, não faz assim tanto tempo, não tínhamos uma democracia instaurada. Sinto-me muito honrada e afortunada por poder encarar este desafio.
É vegana
Sim.
Quando é tomou essa decisão?
Foi uma decisão gradual, fui deixando de comer carne há cerca de oito anos, depois deixei de comer peixe. Isto estendeu-se ao meu estilo de vida, não adquiro produtos de origem animal, quer ao nível do calçado e do vestuário. Sinto que é a forma que tenho de me pacificar em relação à minha pegada, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista da relação com os animais. Foi por considerações éticas que tomei esta opção.
Se não mudarmos a forma como vivemos, não vamos conseguir travar o efeito perverso das alterações climáticas e da poluição que estamos a deixar à nossa casa comum
E como é que reage quando dizem que o PAN é fundamentalista e radical?
Talvez seja o receio de as pessoas não saberem o que está por detrás das nossas opções pessoais e da nossa base ideológica. O que o PAN defende é que haja uma redução do consumo de carne, não só pelas questões do bem-estar animal, como também por questões de saúde. A própria OMS defende que se reduza o consumo da carne. Em matéria ambiental então, a pegada ecológica que tem... Se pensarmos que para produzir um quilo de carne são precisos mais de cem litros de água, estamos a ter uma pegada ecológica muito significativa.
E se não mudarmos a forma como vivemos, não vamos conseguir travar o efeito perverso das alterações climáticas e da poluição que estamos a deixar à nossa casa comum. Portanto, talvez seja por alguns interesses instalados daqueles setores se sentirem afrontados com aquilo que é o discurso do PAN, porque vimos despertar para esta realidade, mas não se trata de trazer para aqui uma agenda pessoal ou de impor uma opção pessoal.
As minhas opções pessoais enquanto vegetariana só a mim dizem respeito. O que defendemos para o país é que as pessoas tenham mais saúde, tenham mais qualidade de vida e que possam fazer opções do ponto de vista alimentar mais saudáveis. Da mesma forma que falamos da redução do consumo de carne, também falamos da questão dos açucares que estão presentes, por exemplo, no leite achocolatado que damos nas escolas, no consumo excessivo de comida processada, ou até mesmo na pegada ambiental que temos no consumo hortícola ou fortícola. Nós temos é que repensar a forma como vivemos e saber comer de forma mais saudável e sustentável.
A Inês tem um sonho para Portugal?
[Pensa] Dizer que temos um sonho para Portugal seria um pouco ambicioso. Talvez dentro desse sonho caibam muitos chapéus ou muitos projetos, e até seria difícil dizer qual seria a forma mais impatante de traduzir esse sonho para o nosso país. Mas há um desiderato que temos de ter em cima da mesa que passa muito pelo combate à pobreza. Temos ainda uma situação de desigualdade social, um fosso existente muito perverso em que as pessoas não conseguem quebrar o ciclo da pobreza ou ascender naquilo que é o dito elevador social. Se pudermos começar, pelo menos, por erradicar aquelas formas de vulnerabilidade como é o caso das pessoas que estão em situação de sem-abrigo e para as quais não temos dado soluções.
O caso do bebé que foi abandonado é gritante. Independentemente da questão do que possa ter motivado ou não a mãe a abandoná-lo no lixo, não nos podemos esquecer que o Estado falhou quando não sinalizou que havia uma criança em risco, que ainda não tinha nascido mas que já estava em risco. E quanto mais não seja, independentemente do móbil do abandono, falhámos enquanto coletivo.
Talvez uma sociedade mais justa para com as pessoas, para com os animais - que é uma causa que também me diz bastante - , e mais sustentável, se possa traduzir num sonho. Mas eu sou muito sonhadora e podia elencar uma série deles.
Que impressões tem de António Costa?
É difícil dizer, estamos sempre num registo institucional. Mas parece-me ser aberto ao diálogo, o que é só de si positivo, e que tem essa elasticidade de dialogar e de ter feito em democracia algumas soluções um pouco inventivas. Deixará a sua marca por isso. Vamos ver se da parte do diálogo conseguimos concretizar ou não algumas medidas, que é o mais importante. Reconheço-lhe essa capacidade de saber ouvir o que é o sentir dos outros partidos. Daqui para a frente logo veremos como é que conseguimos trabalhar ou não.
E do Presidente da República?
Estive muito poucas vezes com o sr. Presidente da República. Parece-nos, de facto, que é um Presidente muito afável em relação ao trato com as pessoas. E nesse sentido há aqui uma maior aproximação entre a Presidência e aquilo que é o cidadão, o que é bastante positivo. É uma pessoa muito simpática e aprazível. Para além da pessoa política, enquanto representante do Estado tem essa proximidade. Quanto ao demais, logo se verá ao longo destes quatro anos que opinião fica depois da pessoa política em si. Ainda é muito cedo para fazer essa avaliação.


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