O VÍRUS TSU – CENA I
![]() Barítono Coelho recostou-se no cadeirão e olhou o lustre de pingentes cintilantes que no teto luzia sobre a sua cabeça. Um sorriso ténue iluminava-lhe a face. Tinha acabado de ler os jornais do dia. Em papel, lia sempre em papel, porque achava que as notícias do digital eram sempre menos verdadeiras. As notícias eram cada vez piores. Nem diabo, nem Reis Magos, nem tufões, nem terramotos, nada aparecia que fizesse descarrilar a porcaria da geringonça. A única leve e boa notícia, desde há muitos meses, que tinha acabado de ler era a que dizia que, pela primeira vez desde o dia da usurpação, Abrenúncio Costa perdia popularidade. Era essa a razão do seu sorriso breve. E nessa postura continuou, durante minutos largos, procurando encontrar uma ideia, um plano, uma estratégia vencedora, até que a porta se abriu e lhe interrompeu os devaneios. Era Marcus Antonius que se acercou dele em passo firme e foi dizendo: – Barítono, deixa-te de tristezas e desânimos. Já tenho o homem que nos vai salvar. – Como assim? – Retorquiu Barítono. – É o Manel do Pistão, o melhor mecânico de Lisboa, sabe tudo de carros, mesmo dos elétricos, os mais recentes, respondeu Marcus. E continuou: – O nosso projeto não é fazer empancar a geringonça? Claro que é. Ora quem sabe tudo de carros e motores para os reparar, também deve saber a maneira mais eficaz de os avariar de vez. Ele já cá está. Posso mandá-lo entrar? Barítono estava estupefacto mas não pôde deixar de concluir que a ideia tinha toda a lógica. Quem sabe para o bem também sabe para o mal. E por isso respondeu: – Ok Marcus, que venha o homem. Vamos lá a ver do que é ele capaz. Marcus rodou sobre os tacões de dez centímetros que não dispensava, abriu a porta e falou para o corredor: – Ó engenheiro Manuel, faça o favor de entrar. Barítono estava cada vez mais confuso. Estava á espera que lhe aparecesse um tipo franzino, de fato de macaco com nódoas de óleo e mãos calejadas. Nada disso. Apareceu-lhe um tipo de porte atlético, idade indefinida, de fato e gravata, com uma mala em pele a tiracolo onde se adivinhava um provável computador portátil. O homem aproximou-se, de mão estendida e foi dizendo: – Ó senhor primeiro-ministro, vai ver que o vou safar da embrulhada, Manel do Pistão às suas ordens, como passa V. Exa.? Barítono apertou-lhe a mão, mediu-o suspeitosamente de alto a baixo e retorquiu: – Caro senhor, parece que começamos mal. Você entra aqui e começa logo com ironias?! Como sabe já não sou primeiro-ministro. Os meus detratores dizem que sou primeiro-ministro no exílio. Espero que você não pertença a essa corja porque, se o é, pode sair imediatamente. O homem empertigou-se todo e respondeu: – Como pode ter pensado isso de mim, senhor primeiro-ministro?! Sim, porque eu esclareço-o. Para mim, desde o defunto Dr. Salazar que Deus tenha em paz, não teve este país nenhum primeiro-ministro tão bom como V. Exa, e apesar do desvio geringoncista, o primeiro-ministro legítimo de Portugal continua a ser V. Exa. Marcus, que se tinha aproximado da secretária, depois de ter fechado a porta do gabinete com suavidade, foi dizendo: – Barítono, achas que eu te ia trazer alguém que, mesmo sendo competente, não fosse de confiança? – As minhas desculpas aos dois. Já vi que o engenheiro Manuel é competentíssimo, pelo que, abreviando razões, vamos ao que interessa. Consta que é o melhor perito em mecânica de Lisboa. Repara tudo o que mexe e circula por aí. Nós não queremos reparar nada, antes pelo contrário. Mas quem sabe fazer também sabe desfazer. O motivo do nosso encontro é muito simples e resume-se numa frase, como empancar a geringonça? Responda-me com a sua competência técnica e não com elogios á minha pessoa, caro amigo, foi dizendo Barítono. O homem sorriu. Já estava sentado na cadeira em frente à secretária que Marcus, entretanto, lhe tinha indicado. Parecia um aluno num exame defronte a um professor cético, pronto a recensear-lhe os conhecimentos de fio a pavio, mas respondeu: – Senhor primeiro-ministro. Conheço todos os carros que por aí circulam. Os motores, as suspensões, travões, por dentro e por fora. Tenho os manuais e os documentos mais secretos todos aqui (e apontou para o portátil que entretanto pousara nos joelhos), mas tenho a dizer-lhe que, no caso da geringonça, a coisa não vai ser nada fácil porque é um protótipo que mantém secreta toda a tecnicidade do motor, das rodas e de tudo o mais. Aquilo, no início, parecia-me ser muito primitivo e resultado de uma tecnologia obsoleta. Mas, perante o desempenho que está a ter mudei de ideias. Parece-me ser mais o resultado de uma técnica nova e obscura ainda não publicada. Daí a dificuldade do empreendimento. Barítono assumiu um ar desconsolado mas de seguida, meio irrascível, disparou: – Quer dizer que não há solução? Que, afinal, a sua competência é pura balela?! Bem me pareceu. Se nem o diabo conseguiu dar cabo daquilo, como é que você iria conseguir? E virando-se para Marcus Antonius: – Tu és um crédulo, tanta mezinha que já me receitaste e todas deram em nada, o Abrenúncio soma e segue, e ainda nos goza. Manel do Pistão, engoliu em seco, levantou o queixo e replicou lesto: – Bem, nem tudo está perdido, nada de desânimos. Há uma pequena hipótese. Como disse aquilo é tecnologia nova e secreta. Ora, assim sendo, tem software em quantidade. E para esse software ser atacado só se for com um vírus também dos mais recentes e secretos. Tenho aqui um. Não devem ter ouvido falar dele, tão moderno que é. É o vírus TSU, uma novidade de grande efeito letal. – Barítono e Marcus entreolharam-se com cara de ponto de interrogação. Barítono pareceu interessado e, num afã instou de imediato: – Ó homem, explique lá isso. Como funciona essa maravilha? – É simples. A geringonça tem tentado circular pelo meio da estrada, mas tem, de vez em quando, grande tendência para o ziguezague para a esquerda. Ao volante vai o Dr. Abrenúncio Costa que controla as rodas direitas e equilibra a máquina. O que este vírus faz é permitir, a quem o possuir e ativar, entrar no software da máquina e dar força às rodas esquerdas do Dr. Irónico de Sousa e da Dra. Traquina Martins. E aí o Abrenúncio perde o leme, a máquina despista-se e é o fim. Barítono estava de boca aberta. Era um plano maquiavélico. Sim, o homem tinha razão, para destruir a geringonça, só entrando lá dentro e fazendo-se passar por geringoncista! Afinal o homem era mesmo brilhante. Virou-se para Marcus Antonius que também estava meio abanado: – Marcus, o que achas? Eu cá por mim avança-se já. Marcus replicou logo: – Claro que se avança, desde que o nosso amigo nos garanta que o Abrenúncio não tem antivírus à altura, que a geringonça se estampa mesmo, e nos esclareça como podemos inocular o bicharoco. E tu não me digas que só te trago mezinhas fracas. Que tem a dizer, Manel do Pistão? – Sobre o antivírus posso garantir. O vírus TSU é inovador e o último grito da guerra cibernética. Que a geringonça se estampa é mais que certo. O Dr. Abrenúncio vai sair do meio da estrada e despistar-se na primeira curva à esquerda. Como o inoculamos é simples. Injetamos os vossos deputados com o vírus e eles passam por geringoncistas de esquerda quando ocorrerem as votações na Assembleia da República. O Irónico de Sousa e a Traquina Martins nem vão dar por nada. Vão achar que a máquina que conta os votos se enganou. Mas também não vão dizer nada. Em política a sério, os fins justificam os meios, ou como dizia um antigo provérbio árabe, o inimigo do meu inimigo meu amigo é. Barítono estava radiante. Voltou-se para Marcus Antonius e sentenciou: Marcus, manda comprar um caixote de seringas para inocular os nossos deputados todos e diz ao deputado Sonsonegro que não permito que nenhum, mas nenhum mesmo, escape à picadela. Se fizerem perguntas ele que diga que se trata da vacina contra a gripe. (Nos próximos dias saem as próximas cenas do folhetim). O Vírus TSU – Cena II |
Era por volta do meio-dia. Marcus Antonius acercou-se do computador principal da sede do partido. Tirou os óculos, olhou para o centro do écran e a máquina lá se abriu. Tinham instalado a tecnologia mais recente; nada de palavras-chave, o acesso fazia-se pelo reconhecimento da pupila. E a máquina só abria com a dele e com a de Barítono, para evitar fugas de informação e conspirações. Começou por ver os emails. Eram aos magotes e quase todos eles exigiam explicações sobre o vírus TSU. Eram os patrões, era a Igreja e as Misericórdias, eram os jornais amigos, eram as sedes distritais, eram os sindicalistas da UAT (União Amarela dos Trabalhadores), eram deputados que alegavam ser alérgicos a picadelas e que perguntavam se não podiam engolir o vírus em comprimidos.
Marcus era eficiente. Ligou a impressora e imprimiu todo o correio que foi colocando meticulosamente num dossier que depois colocou numa mala de diplomata. Olhou para o relógio e viu que eram horas de almoço. Apressou-se e preparou-se para sair. Daí a pouco iria reunir com Barítono para fazer o ponto da situação. E a situação não estava nada boa. O seu faro de velho perdigueiro da política não costumava deixá-lo ficar mal.
Saiu. Comeu uma francesinha no bar da esquina – era o que comia sempre quando havia borrasca no horizonte -, e às 15 horas em ponto entrou no gabinete do presidente do partido. Barítono estava sentado à secretária a rir para o écran do computador. Marcus não estranhou. Nos últimos dias Barítono andava a flutuar sobre uma de nuvem da felicidade. Sentou-se na cadeira em frente à secretária e perguntou:
- A que se deve tanta alegria, caro companheiro? Alguma boa notícia de última hora?
Barítono desviou os olhos do computador e foi respondendo calmamente:
- Vou-te fazer uma confidência. Ando mesmo feliz. Ando a reviver velhos tempos, que estava a ver que nunca mais voltavam. Com a nossa estratégia do vírus passei a ser outra vez importante. Parece que estou outra vez no tempo em que era primeiro-ministro e recebia pressões de todo o lado a pedir dinheiro, favores e benesses. Vinham todos ao beija-mão. Agora estão a vir outra vez, porque mesmo os nossos são uns troca-tintas. Vendem-se por um prato de lentilhas às migalhas da geringonça, e dizem que eu é que sou catavento. Sim, eu tenho visto o desfile de traidores que por aí andam a querer enxovalhar-me. Ele é o Toino Saraiva, é o Silva Penhasco, ele é o Morais Tormento, ele é a Azeda Leite, ele é até o Banjo Correia de quem nunca esperei tanta ingratidão. Para já não falar do Mini Mendes essa víbora venenosa de trazer por casa.
- E tu ainda não sabes de tudo. Há os que te criticam pela frente mas há aqueles que nos fazem exigências sérias e mesmo ameaças pela calada. Trago aqui um pacote de emails que temos que analisar com urgência. A situação é grave. Ou me engano muito ou pode estar mesmo a preparar-se uma rebelião, uma greve, ou qualquer coisa assim.
Barítono deu um salto na cadeira. Rebeliões e greves eram coisas das esquerdas, como costumava dizer a Santinha Cristas, que o faziam sempre engolir em seco ao ponto de lhe causarem falta de ar. Pelo que atirou logo: - Como assim, como assim, queres-te explicar?
Marcus retirou o dossier da pasta e disse:
- Vamos por partes. Temos dezenas de mensagens. As sedes distritais perguntam se como vão argumentar quando nos acusam de sermos geringoncistas de esquerda, colonizados pelo Irónico de Sousa e pela Traquina Martins. Responde lá que eu depois transmito.
- Ó, essa é fácil. Avança com a teoria da muleta. Não somos muleta do Abrenúncio. Se ele partiu uma das pernas ele que vá a Cuba fazer fisioterapia – respondeu Barítono com um ar ufano da sua própria sagacidade.
- Bem, mas isso levanta um outro problema. Eles perguntam se agora somos contra a concertação ou a favor da concertação – retorquiu Marcus.
- Ó, essa também é fácil. Se formos nós a concertar somos a favor. Se for o Abrenúncio somos contra – respondeu Barítono esfregando as mãos de contente.
- Pois, mas isso levanta então um outro problema. Vou-te ler este email que é importantíssimo, vindo de quem vem, e sobretudo pelo que diz. É enviado pelo Henrique Zombeteiro do Espesso. Reza assim:
“Caro Barítono
O Dr. Bolsanamão encarregou-me de o contactar. Quer saber se essa coisa do vírus é a sério ou é só para chatear o Abrenúncio. Como militante Nº 1 ele exige saber qual é a tática e diz que subscreve a segunda hipótese e veta a primeira. Ele admite todas as formas de oposição à geringonça, desde que não lhe vão á bolsa. Mais o informo que ele emprega mais de 200 trabalhadores com o salário mínimo, mais os que hão de vir, pelo que essa história do vírus vai dar um rombo de 10 milhões nas contas do grupo. Acrescenta ele que o dinheiro da TSU dado pela geringonça é tão bom como o seu. Seguir-se-ão as devidas represálias nos próximos Espessos e nos noticiários da PIG e da PIG Notícias caso persista nesse aventureirismo irresponsável.
Cordiais saudações do HZ.”
Barítono, desta vez, enfiou-se pela cadeira abaixo. Demorou dez segundos a reagir e por fim, numa voz pausada, murmurou apenas: - E há mais desse jaez?
- Tenho aqui outro, também do piorio. Vem do patriarcado, do próprio Manel Inclemente:
“Caro Barítono
A nossa missão evangélica não pode ser ameaçada pelos desígnios do combate político. As Misericórdias necessitam de acudir aos pobres e desvalidos nestes tempos de agrura e neste Inverno rigoroso. Colocar em causa os rendimentos da Igreja é sacrilégio, pecado mortal que, como sabe, merece punição não só da mão de Deus mas também da voz e da mão dos homens. O dinheiro da geringonça, desde que flua para a mão dos agentes do Senhor, é tão bom como o seu. Pelo que, a persistir nesse devaneio, só nos restará denunciá-lo em todos os púlpitos, em todos os nossos sermões dos próximos meses, quiçá dos próximos anos.
Confiamos, contudo, que Deus tenha piedade de si e lhe dê a graça do arrependimento, de forma a evitar a prossecução das suas funestas intenções.
Em nome do Senhor, MI”.
Barítono ficou ainda mais enfiado na cadeira. Desta vez fez uma grande pausa, um minuto ou mais, a compor as ideias. Marcus aguardava expectante. Como não vinha resposta, avançou timidamente: - Pronto, volta tudo atrás, não é?
Barítono saltou de novo na cadeira e disparou lesto e firme:
- Nem pensar! Quer dizer, para já nem pensar. Vejamos. Pelos vistos não está aí nenhum email da Tia Ângela, do Mário Bazuca, ou do Gangue Schauble a pressionar. Esses sim, seriam mesmo perigosos. Os outros também se podem revelar vir a ser, mas se for o caso, então sim, poderemos sempre voltar atrás.
- Ó homem, mas voltar atrás depois de tanto finca-pé vai ser, em definitivo, o fim da tua carreira política. Já te chamam aldrabão com todas as letras depois dos quatro anos de governo em que te fartaste de mentir e de dar o dito por não dito, mais o que tens dito estes meses todos na oposição que não bate certo com o que fizeste no governo.
- Não te preocupes Marcus. Eu sou o rei da pós-verdade. Não é para me gabar mas até acho que sou melhor que o futuro Presidente Trunfo. Viste como ele ganhou as eleições? Os eleitores estão-se nas tintas para a verdade. A verdade agora é servida nos reality shows das televisões. Os políticos só têm que ser bons ficcionistas, os que escrevem o melhor guião, e eu sou mesmo bom nisso. Até já sei como nos vamos safar se precisarmos de activar o plano B.
- Sou todo ouvidos, explica lá o plano – retorquiu Marcus.
- É simples. Lembras-te de quando eu afirmei e reafirmei que ia apresentar o livro de escândalos do arquitecto Saraivada? Lembras, certamente. Depois acabei por não ir. E a razão que avancei para não ir é que tinha dito que ia, sem ter lido o livro, tendo mudado de opinião depois de o ler. Pois é, agora também não conheço o decreto que o Abrenúncio vai apresentar. Depois de conhecer, e se tivermos que recuar, podemos sempre argumentar da mesma forma. E se a coisa se complicar mesmo, podemos sempre invocar que é em nome do interesse nacional.
- Acho que essa estratégia pode ser o teu suicídio político – disse Marcus desalentado.
- Talvez seja, mas não há nada que pague estes dias em que me sinto de novo importante – disse Barítono com um sorriso de orelha a orelha. E prosseguiu: - E é assim que se fará porque eu é que sou o líder, como muito bem sabes.
Marcus não respondeu. Pensou apenas que os líderes, e já lhe tinham passado vários pela frente, são sempre transitórios. E são sempre os últimos a antecipar o seu próprio fim.
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