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sábado, 14 de fevereiro de 2015

O HOMEM QUE ATRAVESSOU UMA MONTANHA - Quando a teimosia se mistura com a avareza, fabrica histórias memoráveis. William Schmidt, conhecido como "o Burro", foi um mineiro seduzido pela febre do ouro que emigrou para o deserto de Mojave em busca de fortuna. A cobiça e o medo de roubo por compartilhar atalhos com outros aventureiros levaram-lhe a cavar, sozinho, um passadiço, na montanha direto ao veio da mina.


Quando a teimosia se mistura com a avareza, fabrica históriasmemoráveis.William Schmidt, conhecido como "o Burro", foi um mineiro seduzido pela febre do ouro que emigrou para o deserto de Mojave em busca de fortuna. A cobiça e o medo de roubo por compartilhar atalhos com outros aventureiros levaram-lhe a cavar, sozinho, um passadiço, na montanha direto ao veio da mina. 38 anos cavando, em segredo, 800 metros de uma galeria que se converteu em monumento à coragem para gerações incrédulas.

O homem que atravessou uma montanha
William Henry Schmidt e o interior do Túnel do Burro
William Henry Schmidt nasceu em Woonsocket, Rhode Island, em janeiro de 1871. Com somente 24 anos contraiu a mesma tuberculose que já tinha matado seis de seus irmãos. O médico diagnosticou que ele não teria mais de um mês de vida se não mudasse de ares o quanto antes possível. Com isso, W. H. Schmidt decidiu aventurar-se no Grande Deserto da Califórnia buscando novos ares como desculpa para conquistar seu filão na corrida do ouro.

No final de 1890 Schmidt estava trabalhando para a Kern County Land Co. em Bakersfield, Califórnia. Uma das grandes mineiradoras que exploravam o ferro da zona. A princípio, a doença de Schmidt traduzia em ineficácia sua rentabilidade no trabalho. Pouco a pouco, a a baixa umidade do local foi moderando sua tuberculose e permitiu que saísse do trabalho por conta alheia para alimentar sua particular febre dourada.
O homem que atravessou uma montanha
Estado atual da entrada do Túnel do Burro
Em 1906, enquanto trabalhava na Kern, Schmidt descobriu vários jazidas auríferas na "Copper Mountain", um maciço de 3.750 metros situado em Summit County, Colorado. Após solicitar as respectivas permissões de exploração pessoais mudou-se para Garlok, local mais próximo da montanha negra de "El Paso", para estabelecer o acampamento base de sua atrevida empresa. Era o último povoado antes da solidão do deserto.

Para chegar a sua jazida tinha que atravessar um estreito desfiladeiro ("Last Chance Canyon" ou "Canhão da última oportunidade") só apto para pessoas e animais de carga. Schmidt adotou dois jumentos abandonados (daí seu apelido) que foram sua única companhia durante muitos anos. Schmidt amava a solidão, e não se importava em trabalhar e viver no inferno se isso permitisse alcançar riquezas antes sonhadas, mas nunca vistas.
O homem que atravessou uma montanha
Vista aérea da montanha atravessada pelo Túnel do Burro
A mineração de ouro era um trabalho muito solitário e ingrato, com grande concorrência e que exigia extrema obstinação. O mineirador devia avaliar muito bem os as localizações para saber na palma da mão as rotas de abastecimento de água e provisões e o caminho mais curto até a mina e os mercadores. O problema era que Schmidt se encontrava a mais de 30 quilômetros de um local habitado. Distância muito grande para a época e insuperável com periodicidade. O pior, o acúmulo de pepitas e utensílios não era recomendável por causa dos contínuos assaltos e pillhagem que reinava nas áreas de exploração.

Por isso "Burro" Schmidt, após assentar-se em seu filão durante dois anos nos quais construiu uma mini cabana com madeira secas e pequenos trilhos de ferro; decidiu criar um atalho na sua rota para o destino. Por que não traçar, em segredo, um túnel direto até o outro lado da montanha evitando o perigoso desfiladeiro?

A escavação começou, com um par de martelos e um velha picareta, em 1900 quando Schmidt tinha 29 anos e se prolongou durante 38 anos até meados de 1938 (66 anos). Jack e Jenny (os jumentos) foram seus únicos colegas durante estes anos, mas devido a seu péssimo estado nem sequer colaboraram com a extração de escombros, sendo estes carregados em sua totalidade pelo único asno que sobrara.
O homem que atravessou uma montanha
William Henry Schmidt sentado próximo da sua cabana.
O túnel tinha (e tem) uma altura de 1,80 metros com uma largura de até 5 metros (em algum trecho) com um comprimento total de quase 800 metros. Ao final a altura do túnel é menor conforme as forças e a coluna de seu escultor iam decaindo pela idade. Reto em sua totalidade com um par de cotovelos ao final como buscando desesperadamente a saída. Não precisava escoras de madeira pois foi escavado em rocha pura. A dureza extrema de suas paredes requeria dinamite para poder transpô-los. Schmidt sacrificou parte de seus rendimentos na compra de explosivos, mas estes nunca foram suficientes para arrebentar a rocha com garantias. Quanto mais profundo o túnel, mais perigosas se tornavam as explosões porque costumavam pegar Schmidt ainda dentro da galeria, incapaz (pelos curtos estopins) de correr o suficiente para escapar da onda explosiva.
O homem que atravessou uma montanha
Estado atual da cabana de William Henry Schmidt.
Conforme o tempo foi passando, a vontade de atravessar a montanha foi transformando-se em uma obsessão. Schmidt dedicava mais tempo à galería que à extração do ouro. O empenho em ver a luz no outro extremo do passadiço era somente comparável ao tamanho de sua solidão e sua iniciativa que, incomprendida, ajudou a forjar a lenda. A temperatura constante no interior (22ºC ) convertiam o túnel no melhor dos refúgios em frente às duras condições do deserto (50ºC) e Schmidt costumava viver e pernoitar, picareta em mãos, no extremo mais profundo de sua obra.
O homem que atravessou uma montanha
Interior da cabana de William Henry Schmidt.
"Burro" Schmidt perdeu-se... a Primeira Guerra Mundial, a grande queda da bolsa e a posterior depressão. Sua desgraça e infortúnio foi a chegada, em 1930, da ferrovia para passar pelo canyon que ele mesmo pretendia salvar com seu túnel. Incompreensivelmente e ferido em seu orgulho Schmidt continuou 8 anos mais até ver realizado o seu sonho.

Calculando volumétricamente e a posteriori a quantidade de rocha extraída da galeria; pesquisadores concluíram que Schmidt extraiu ao todo 5.800 toneladas de pedras; 450 quilos ao dia, em média, durante os 38 anos que durou tão singular desafio. Mais de 70.000 horas de trabalhos forçados voluntários.

"Burro" Schmidt morreu em janeiro de 1954 com 83 anos e inconsciente de sua façanha. Sua cabana e o túnel (no meio do nada) são mantidos intactos e custodiados por uma velha e enigmática servidora pública do estado que (re)viveu em solidão os velhos fantasmas que assolaram a mente de Schmidt. Próximo a (intacta) cabine construida por Schmidt, a senhora Tonie Seger distribui um anedotário em um ambiente com bagunçados instrumentos de mais de 70 anos misturados com revistas modernas e velhos papéis que forram as paredes protegendo o local do mesmo calor sofrido em seu dia pelo senhor William Henry Schmidt "o Burro".

VEJA VÍDEO
 






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