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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FLORENCE FOSTER JENKINS A CANTORA MAIS DESAFINADA DA HISTÕRIA - No último natal, um grande amigo me presenteou com um CD chamado "The Glory of the Human Voice" (A glória da voz humana) e no dia posterior quando fui escutá-lo, esperando ouvir uma voz do quilate de uma Montserrat Caballé, notei que se tratava de uma brincadeira do Velho tal a desafinação da cantora. Dias atrás procurei saber quem era ela e descobri uma história muito especial e gostosa de se contar; você já vai entender o porquê.

No último natal, um grande amigo me presenteou com um CD chamado "The Glory of the Human Voice" (A glória da voz humana) e no dia posterior quando fui escutá-lo, esperando ouvir uma voz do quilate de uma Montserrat Caballé, notei que se tratava de uma brincadeira do Velho tal a desafinação da cantora. Dias atrás procurei saber quem era ela e descobri uma história muito especial e gostosa de se contar; você já vai entender o porquê.


Trata se de falar de Florence Foster Jenkins, uma mulher cheia de entusiasmo e que herdou muito dinheiro, o suficiente para financiar sua própria carreira lírica. Florence só não tinha uma coisa: talento, mas isto não a impediu de perseverar; ela estava mais que convencida de suas qualidades e de sua arte.

Florence tampouco ficou desanimada com os risos do público em seus recitais e nem com a crueldade dos críticos algozes. Confiada de sua grandeza, preferiu ignorar a "inveja de seus rivais" e desfrutar do carinho de seus fãs que não eram (e nem são) poucos.
Florence Foster Jenkins, a mulher mais desafinada da história
Florence, em pose de diva.
Durante 30 anos, a classe alta de Manhattan gastou muito dinheiro para ouvir esta mulher robusta trucidar melodias: a diva do alvoroço, a condessa da cacofonia. Em seus recitais semi-privados ela sempre se vestia de Anjo da Inspiração, um vestido longo de filó, uma tiara de brilhantes e um par de asas. Acompanhada de Cosme McMoon, um pianista que adorava fazer caras e bocas, começava seu número de abertura, habitualmente com a ária "Rainha da Noite" da "Flauta mágica" de Mozart. Em breve, a audiência ficava perdida em meio de uma rajada de sons similares aos que produziriam um grupo de gatos de rua.

Ela se considerava uma grande soprano, se comparava com cantoras de renome como Luisa Tetrazzini, no entanto era incapaz de sustentar uma só nota. Sua voz oscilava bruscamente dos agudos aos sussurros de tal maneira que seu acompanhante tinha que fazer esforços titânicos para compensar seus erros de ritmo e variações de tempo. Sem ouvido nem ritmo, ocasionalmente acabava entoando o tom correto, ainda que só por acaso. Quando tentava as notas mais elevadas, sua boca continuava se movendo na tentativa de formar as palavras, mas sua garganta não a acompanhava e emudecia. Sua dicção também não ajudava, especialmente quando cantava em alguma língua estrangeira. A audiência tinha que fazer verdadeiros esforços para evitar as gargalhadas.

Após destroçar "Die Mainacht" (A noite de maio) de Brahms, Florence anunciava um breve intervalo, e logo regressava à cena vestida de Carmen, com um xale de renda nos ombros, castanholas e um cesto de rosas vermelhas. Os espectadores permaneciam absortos enquanto Florence entoava o "clavelitos", acompanhando a canção com suas castanholas enquanto jogava , uma a uma, as rosas para o público. Quando acabavam lançava o cesto, e depois as castanholas. Seus fãs, e tinha muitos, sabiam que "Clavelitos" era sua canção favorita, de modo que era habitual que lhe pedissem um bis. Nesses casos Florence mandava Cosme recolher as rosas, a cesta e as castanholas. Uma vez tudo estava de volta, ela repetia o espetáculo.

Após outro intervalo vinha o grande final, desta vez Florence entrava em cena vestida como a refinada camareira Adela de "Die Fledermaus". Seu número habitual de fechamento era a opera "Canção do riso", uma boa escolha, já que neste ponto a audiência já não podia agüentar por mais tempo as gargalhadas. O final sempre era o mesmo, um aplauso ensurdecedor.

Nascida em 1868, Florence era a filha de Charles Dorrance Foster, um respeitável banqueiro da Pensilvânia. Quando era menina estudou piano, então, ao chegar aos 17, quis continuar seus estudos na Europa. No entanto seu pai não estava disposto a pagar a viagem, e por isso Florence fugiu com um jovem médico da Filadélfia chamado Jenkins. Durante este tempo, Florence ganhou a vida como professora e pianista, mas o casal não deu certo. Jenkins também não apoiava sua "carreira musical" e em 1902 divorciaram-se. Seu pai morreria anos mais tarde, em 1909, e deixou para Florence toda sua fortuna, quando ela em seguida mudou-se para Nova York, decidida a começar uma carreira como cantora de ópera. A posterior morte de sua mãe em 1928 ainda lhe deu mais liberdade.

Apesar de sua falta total de talento, Florence introduziu-se no mundinho musical, em parte graças por fundar e financiar o Verdi Clube, uma instituição dedicada a promover a carreira dos artistas e músicos americanos. Além do clube, ela participava ativamente de várias obras de caridade e por isso todos gostavam dela e seus concertos beneficentes eram concorridos. Como ela mesma financiava este atos, sentia-se com autoridade suficiente de incluir suas atuações neles. Depois de tomar aulas de canto, que não lhe serviram para nada, fez sua estréia em Manhattan, em abril do 1912, pouco depois do desastre do Titanic.

Florence Foster Jenkins, a mulher mais desafinada da história
Com Cosme McMoon.
O talento que faltava a Florence como cantora, lhe sobrava como organizadora e arrecadadora de fundos, ademais era uma pessoa muito querida por seus milhares de amigos de Nova Iorque, que a consideravam uma pessoa modesta em todas as coisas, exceto em seus delírios musicais. Em seus recitais sempre havia um bom público. Enrico Caruso e outras figuras respeitadas do mundo da música costumavam ir. Mas em relação ao público em geral, Florence exigia que fossem primeiro a sua suíte no Hotel Seymour, onde submetia-os a uma espécie de interrogatório. Os ingressos de seus concertos, informava, só estavam à venda para os autênticos amantes da música. Àqueles que passavam a prova com sucesso, tinham a permissão de comprar uma entrada por 2,5 dólares, muitos das quais eram revendidos até por 10 vezes essa cifra.

O momento alto de sua temporada musical era o concerto privado que dava a cada ano no hotel Ritz-Carlton. A entrada para este concerto só era possível mediante convite, enviados a um seleto grupo de 800 pessoas. A cada ano, multidões se amontoavam na portaria do hotel e era necessária a presença da polícia.

Em 1943, o táxi em que viajava sofreu um acidente. O que poderia ter sido um drama converteu-se em uma benção. Quando se recuperou descobriu que podia cantar um tom mais alto que antes. De modo que em vez de denunciar o taxista, Florence presenteou-lhe com uma caixa de cubanos como mostra de agradecimento.


vídeos















Em 1944, com 76 anos, finalmente cedeu ao apelo popular, e decidiu realizar um recital totalmente público no Carnegie Hall só por uma noite. O concerto foi anunciado com tempo e esgotou as entradas com várias semanas de antecipação, mais de duas mil pessoas foram vê-la. Em 25 de outubro a platéia aplaudiu-a de pé enquanto entrava em cena com sua tiara e suas asas de plumas, um tanto surradas após décadas de uso. Enquanto uivava "Bell Song" de Lakme, os gemidos irônicos dos críticos musicais foram apagados pelas gargalhadas do público; a interpretação "Clavelitos" foi seguida de dezenas de "bravos".

Esse foi seu último e maior triunfo. Florence Foster Jenkins sofreu um ataque de coração uma semana depois e morreu na suíte de seu hotel em 26 de novembro. Não deixou nenhum familiar direto, de modo que os membros do conselho do Verdi Clube foram os beneficiários de sua herança, e suas asas. Seu obituário no World-Telegram dizia assim:


"Ela era sumamente feliz em seu trabalho. É uma pena que tão poucos artistas assim sejam. Ela transmitia alegria como por arte de magia aos que a escutavam".



Os 32 anos de carreira musical de Florence foram tão rocambolescos que muitos consideraram que tudo tinha sido uma elaborada brincadeira. No entanto, há poucos fatos que sustentem essas opiniões. Ademais esta visão da carreira de Florence entra em contradição com outro rumor, que afirma que a morte de Florence foi devida às troças dos críticos depois de sua atuação no Carnegie Hall.
Florence Foster Jenkins, a mulher mais desafinada da história
Tudo parece indicar que Florence morreu com o mesmo sentimento de confiança que a acompanhou durante sua vida artística, quando sempre acreditou que as gargalhadas da audiência proviam de "inveja profissional" que consumiam seus rivais. Ela sempre rechaçou as críticas dizendo:

- "As pessoas podem dizer que não sei cantar, mas ninguém poderá dizer que nunca cantei, ou que não me esforcei para cantar e agradar".

A verdade é que Florence se converteu em vida em uma personagem muito, muito, popular. Talvez a crueldade com a qual os críticos tratavam sua arte, em vez de desanimar as pessoas, serviu para aguçar sua curiosidade. O público que ia a seus espetáculos nunca saiu decepcionado, pois a diversão estava garantida.

O mais importante desta história e o exemplo deixado por Florence; ela poderia ter escolhido ser uma milionária excêntrica e fútil, tal qual patricinhas idiotas atuais como Paris Hilton, mas escolheu a filantropia, benemérita de causas sociais, à fazer o bem não importando a quem, a fazer aquilo que gostava e acreditava. No final da vida da gente é o que importa.

PS: Florence gravou 9 Arias em 5 discos de 78rpm, que foram mais tarde remasterizados em 3 CDs: The Muse Surmounted: Florence Foster Jenkins and Elevem or Her Rivals, The Glory of the Human Voice e Murder on the High C’s.



Fonte: nydailynews.com


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