Patrícia Motta Veiga (facebook)
Não comprei o livro, já que nem para os que gostava de ler tenho dinheiro, mas andei de excerto em excerto na net, a tentar perceber a loucura generalizada e aqui estou, cheia de orgulho e satisfação, a anunciar a todos vós, que foi a pior merda que eu já li na vida!
Especialmente porque não tem história nenhuma, nada, nicles.
Páginas inteiras e não acontece coisíssima nenhuma.
Há uma mulher, completamente insegura, que sem motivo nenhum, se apaixona por um tipo bilionário, e outra vez sem motivo nenhum, resolve fazer tudo o que ele quer. E quando eu digo tudo, é mesmo tudo!
Ele quer fazer "o amor" numa árvore, quer fazer "o amor" em cima de um monte de pulgas, quer fazer "o amor" enquanto lhe espatifa o trombil, e ela diz: Ai que maravilhoso! Estou tão apaixonada!
E basicamente o livro é só isso.
A história é tão verosímil (not), que a menina além de ser virgem com mais de vinte anos, só beijou dois - DOIS - tipos, na vidinha inteira dela! Dois!
Depois, assim que conhece o bilionário, estatela-se no meio do chão.
Não há aqui nenhuma tentativa (forçada) de identificação com todas as mulheres do mundo. Não. Até porque, a queda no chão é o expoente máximo da insegurança e já se sabe que nenhuma mulher é insegura...
Estou mesmo a ver a Liliana Vanessa a ler aquilo e de lágrima no olho a dizer: Esta sou eu! Eu também caio psicologicamente nos meus abismos internos.
A rapariga, por alguma razão que eu não consegui perceber qual é, quando o entrevista apaixona-se por ele, e quando se vem embora, antes de chegar ao elevador, cai de fuças no chão, outra vez.
Amiga, vai a um ortopedista, pelo amor da Santa!
Quando ela o descreve, assumindo que se apaixonou, refere:
"-Nunca nenhum homem me afectou como Christian Grey e não consigo entender porquê! Será sua aparência? Sua educação? Riqueza? Poder?"
Querida, a menina escolheu quatro objectivos para definir porque é que está atraída por ele, três dele foram: Aparência, Riqueza e Poder. E um foi educação, que por si só deveria ser uma premissa básica de qualquer ser humano, logo, podemos descartar esse, porque se se apaixonar por um tipo mal educado, é no mínimo estúpida.
Agora, aparência, riqueza e poder, não são motivos para uma pessoa se apaixonar, Ó Monga!
O mais curioso, é que as mesmas mulheres que se encantam por uma história destas, são as primeiras a dizer, quando vêem uma relação parecida na vida real, que aquilo é só interesse. Mas no livro, ai, o livro, aquilo é amor!
Ora, minhas amigas, onde vocês vêem amor também, eu vejo SUBMISSÃO! Para lá de submissão... Aquilo é doentio e esquizofrénico.
Depois de não sei quantas páginas em que a mulher passa o tempo todo a dizer, Ai o Christian Grey é o máximo!, Ai o Christian Grey faz-me ficar tão excitadinha!, ele apresenta-a ao "quarto vermelho da dor".
Portanto, uma miúda começou a sair com um tipo que lhe interessa, está entusiasmada com ele, ele convida-a para a sua casa e quando lá chegamos encontramos um quarto vermelho, cheio de correntes penduradas no tecto, chicotes, cenas para nos espancar, instrumentos para dilacerar o corpinho e o que é que a malta faz?
-Foge dali, pá! Já! (Se bem que se ela tentasse, ia esbardalhar-se toda no chão outra vez!)
Mas ela não. Fica intrigada mas acha fofinho e não se vai embora.
Vejamos, eu não tenho nada contra sadomasoquismo, dominação e quejandos. Se as pessoas são adultas, estão de comum acordo e se sentem seguras (e lavadas!), cada um sabe de si e a mim tanto se me dá. Mas se a pessoa é virgem, beijou apenas dois homens toda a vida e aparece um gajo rico e poderoso que quer enfiar objectos cortantes no rabo da desgraçada, é melhor sair dali, querida! Digo eu.
Mas não. Em cima de tudo, ele define que, para ela poder ser sua namorada ou amante, ou sei lá eu bem o quê, a miúda vai ter que assinar um contrato. Um contrato! Que a define como submissa e, em linhas gerais, diz que ela tem que fazer tudo, mas tudo o que ele quiser e rapidinho e ainda manter-se sempre limpa e depilada, o que já agora é outra premissa básica, a não ser que alguém esteja a namorar com a Janis Joplin na década de 70.
O que me assusta é que isto está em todo o lado e ao que parece, até no cinema. Qualquer adolescente pode ler um livro ou ver um filme que define contratos e introdução de objectos cortantes no orifício anal como uma coisa normal e romântica.
Aquilo é uma ode à pornografia, minha gente!
E embora eu não tenha nada contra a pornografia, continuo a achar que ela não pode estar exposta para qualquer criança comprar e ser catalogada como um romance, sim?
Sei que há muita gente que vai dizer: Ah, mas tu tens que ler o livro todo para compreender!
Não. Não vou ler o livro todo! Porque me bastou os pedaços de caca que eu li para perceber que aquilo não tem ali nada que faça bem a ninguém. Combinados? Pronto.
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