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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

AFINAL O QUE É QUE SE PASSA NO ÍEMEN




Onde fica o Iémen?



Colocado no fundo da Arábia Saudita mesmo no calcanhar da bota arábica, o Iémené vizinho do pacífico Omã e tem África a poucos quilómetros de mar vermelho de distância.
O país fica no cruzamento entre a península arábica, a Ásia e a África e a sua cultura e tradição estão ligadas a esta posição de entreposto entre múltiplas culturas. Com lugar de destaque nas ancestrais rotas de especiarias, foi definido pelos romanos como Arabia Felix, em contraponto à Arabia Deserta do norte (atual Arábia Saudita).
Habitam o Iemen 25 milhões de pessoas, quase todas muçulmanas, quase todas dependentes de uma economia que se baseia em produtos básicos como o café, o peixe e o algodão. O grande motor da economia é o petróleo, que não chega às mãos da imensa maioria da população.

Qual é a situação político-económica do Iémen?


O primeiro aspeto que importa reter sobre o Iémen é que mais de metade da população vive com menos de dois dólares por mês. As Nações Unidas estimam que perto de 60% da população necessite de apoio humanitário para sobreviver.
O Iémen tem vivido numa instabilidade crónica desde o fim dos anos setenta, graças a um regime pouco democrático liderado por Ali Abdullah Saleh, que durou até novembro de 2011. No rescaldo das primaveras árabes, o país viveu um período de euforia pró-democrática que teve pouca concretização prática. Ao fim de pouco mais de três anos, a situação política piorou e o país tem estado envolvido numa guerra civil que é motivada por questões religiosas mas principalmente pelas limitações económicas.

Quem manda no Iémen?


Formalmente é o presidente Mansour  e a sua guarda presidencial. Mas o presidente, escolhido em 2011 para assegurar a transição democrática no país, tem pouco poder real.
Neste momento grande parte da capital Sanaa está sob controlo dos rebeldes xiitas houthi, provenientes do norte do país e fortemente apoiados pelo regime iraniano. As fações mais extremistas gostariam de recuperar o Imanato Zaidi, que governou o norte do Iémen durante quase mil anos.
Também os grupos da Al-Qaeda controlam parte do território, impondo uma lei islâmica absolutista que permite treinar jihadistas que depois são enviados para a Síria e o Afeganistão. As forças houthi combatem as forças da al-Qaeda pelo controlo do território, graças ao apoio que têm de Teerão.
Entre estes três poderes, o exército tem a lealdade dividida e não responde de forma unificada às forças civis. É um exemplo perfeito que vem nos manuais de estados falhados.

O que está a acontecer na capital?


Sanaa, a capital do Iémen, está literalmente sitiada. Um grupo de rebeldes Houthi oriundo do norte do país montou um cerco ao palácio presidencial desde o fim de semana, o que tem resultado em violentos tiroteios com as forças leais ao Presidente Mansour .
Apesar do anúncio de um cessar-fogo na última segunda-feira, os combates não cessaram. Exigindo maior autonomia para as províncias do norte e a melhoria das condições económicas, os Houthi recusam recuar nas exigências.
E esta situação segue-se aos intensos combates nas últimas semanas entre os representantes da Al-Qaeda e os Huothi, que de acordo com a Reuters terão já provocado muitas dezenas de mortos.

E qual é a relação do Iémen com o ataque ao Charlie Hebdo?


Os culpados do atentado ao Charlie Hebdo treinaram no Iémen em 2011. Os serviços secretos europeus já confirmaram que ambos os irmãos Koauchi estiveram no território, como os próprios tinham anunciado – tendo inclusivamente sido financiados por Anwar al-Awlaki há quatro anos, um muçulmano associado à violência promovida pelo grupo terrorista de Bin Laden.
A própria Al-Qaida da Península Arábica, sediada no Iémen, assumiu publicamente a responsabilidade pelo ataque. Assim sendo, o ataque teria sido ordenado por al-Zawahri, o líder supremo da Al-Qaeda, em consequência direta dos repetidos cartoons tendo por alvo os muçulmanos.
Esta narrativa tem sido tratada com algum ceticismo pelos investigadores franceses. Se é verdade que os irmãos Kouachi treinaram no Iémen em 2011 e receberam fundos para atentados, isso pode ter pouco a ver com o que aconteceu em Paris quatro anos depois. Os fundos e a coordenação podem ter vindo de outras fontes, incluindo o Estado Islâmico, que disputa com a al-Qaeda a liderança da violência em nome de Alá e tem procurado ações com grande impacto mediático.

Quem controla o petróleo que o país produz? 


A produção de petróleo equivale a 70% da riqueza do país, mas tem vindo a decair desde 2010. De acordo com o Financial Times, em 2013 o Iémen importoumais petróleo do que aquele que exportou, situação inédita nos últimos trinta anos. Este défice energético é um sinal da desagregação económica do país graças à continuada crise política e económica.
Perto de metade do petróleo recolhido é refinado no país para satisfazer a procura interna, sendo altamente subsidiado pelo governo e chegando ao mercado a preços baixos. A outra metade, que corre em dois oleodutos, é exportada por mar para os países asiáticos que preenchem a lista de clientes.
Mas a província de Hadramawt, que produz mais de metade do petróleo do país, tem fugido ao controlo da empresa estatal criada para gerir essa exploração. Vários ataques aos poços e ao oleoduto têm limitado a produção corrente, com o governo a colocar a culpa em milícias tribais e na influência da Al-Qaeda na regiãoa província de Marib os Houthi tomaram o controlo da produção petrolífera e ameaçam não a devolver ao governo central – utilizando-a como forma de pressara as suas exigências políticas.
te relatório da Chatam House, um grupo de reflexão sobre política e economia internacional sediado em Londres, fornece excelentes indicaçaões sobre o contexto histórico da produção petrolífera do país. E esta análise do governo americano fornece o ponto de situação do que se passava no terreno há escassos meses – em que já eram notórios os problemas de segurança do país.

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