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terça-feira, 4 de março de 2014

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS - (PARTE 6) A FUGA DE PENICHE, ara, ARA, DIAS LOURENÇO, JOAQUIM GOMES, URBANO TAVARES RODRIGUES, VÍDEOS E IMAGENS












A fuga


A 3 de Janeiro de 1960, 10 funcionários do Partido Comunista Português fugiram da Fortaleza de Peniche. A fuga tornou-se um dos episódios mais ímpares da história do PCP. Pela vitória sobre a ditadura salazarista. Pelo regresso à liberdade de importantes quadros clandestinos. E, sobretudo, pelo fim do cativeiro do futuro secretário-geral do partido, Álvaro Cunhal, que tinha passado os últimos 11 anos atrás das grades.Apesar da sua importância, na época a fuga passou despercebida à esmagadora maioria da população e só foi conhecida nos círculos políticos, policiais e do próprio PCP clandestino. No entanto, hoje, é importante que o feito desdes homens continue a ser recordado. Porque foi também graças à luta deles – independentemente de simpatias ou antipatias ideológicas – que vivemos numa sociedade democrática. Para memória futura, ficam aqui os nomes dos elementos do grupo: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos, Francisco Martins Rodrigues.



Peniche – 1950 - Lembranças de uma fuga

Peniche – 1950
Lembranças de uma fuga


O Militante dá a conhecer um texto inédito do camarada José Vitoriano escrito em Outubro de 1998 e cuja publicação se reveste de grande actualidade, não só pelo facto de abordar aspectos da vida prisional e da luta dos presos políticos, mas também pelo facto de termos acabado de comemorar os 45 anos da fuga de Caxias, a fuga no carro blindado de Salazar (4 de Dezembro de 1961) e os 47 anos da fuga de Peniche, que restituiu à liberdade o camarada Álvaro Cunhal e outros destacados dirigentes do Partido (3 de Janeiro de 1960).
O texto do camarada José Vitoriano recorda-nos que o fascismo existiu e que a repressão era parte integrante do regime. Nele sobressai, como prática corrente, o esforço dos carcereiros para tentar desarticular a luta organizada dos presos e como, apesar disso, estes e suas famílias jamais deixaram de resistir e organizar lutas que se inscrevem na luta geral contra o fascismo.
Tentar fugir das cadeias fascistas era uma tarefa para os comunistas presos. O texto do camarada José Vitoriano, relatando-nos a experiência concreta de uma fuga de Peniche – a fuga dos camaradas Francisco Miguel e Jaime Serra (Novembro de 1950) –, ajuda-nos a melhor compreender o que isso quer dizer.
Várias foram as fugas, individuais e colectivas, protagonizadas por membros do Partido, fugas determinadas pelo desejo de reocupar o seu posto de combate na luta pela liberdade e pelo socialismo e que se tornaram património da luta do PCP contra o fascismo.

Numas linhas que há meses escrevemos para esta página fazíamos referência às lutas que, em Peniche, os presos políticos eram com frequência forçados a travar pela melhoria das condições da vida prisional. Naturalmente que isto não acontecia só em Peniche mas, no caso, é de Peniche que estamos a falar.
Uma das preocupações dos carcereiros para tentarem contrariar, tanto quanto possível, tais acções dos presos consistia em, de vez em quando, fazerem mudanças de presos de umas salas para outras, particularmente dos camaradas mais responsáveis, que eles consideravam e apelidavam de «cabecilhas». Estamos a referir-nos a uma fase em que ainda não havia celas na cadeia de Peniche.
No entanto, havia nisto uma grande desorientação dos carcereiros, talvez até porque nenhum processo provava dar resultado. Umas vezes separavam e dispersavam os tais «cabecilhas» por várias salas (ou casernas, como neste tempo ainda se designavam em Peniche as habitações dos presos), outras vezes juntavam-nos todos numa só sala,  separados da massa dos presos.
No primeiro caso, pretendiam impedir que pudessem combinar entre si e organizar qualquer acção, visto estarem separados e impossibilitados de comunicar devido ao total isolamento dumas salas em relação às outras. No segundo, estando juntos mas isolados dos restantes presos, não poderiam exercer a sua influência «nociva» sobre eles e «arrastá-los» para a luta. Estas eram as concepções dos carcereiros, cujos métodos,  contudo, não demonstravam grande eficácia.

Condições favoráveis à fuga
Foi numa destas mudanças que se criaram condições muito favoráveis à organização e preparação de uma fuga. Alguns dos presos mais responsáveis então em Peniche, nomeadamente Jaime Serra (isto passa-se em 1950), foram transferidos para uma sala (antes desactivada), onde já se encontrava isolado, havia algum tempo, Francisco Miguel, uma sala afastada da zona central do Forte onde estavam a população prisional e os serviços da cadeia. Com Jaime Serra foram vários presos de um processo do Algarve, vários outros do Porto e Gabriel Gomes – este condenado a longos anos de prisão por ter sabotado alguns aviões, numa tentativa putchista de Abril de 1947. Totalizavam cerca de vinte presos.
Esta sala, conhecida pela sala 5, situava-se no extremo sul do Forte, encostada à muralha exterior, ao lado das instalações do destacamento da GNR que ali fazia serviço de vigilância e que era rendido mensalmente.
Como nesse tempo o corpo de guardas prisionais em Peniche não era ainda muito grande, os carcereiros tinham dificuldade em manter lá um guarda permanente. E como a sala estava ali mesmo nas barbas da GNR, o guarda prisional só lá ia nos momentos da rendição para contar os presos, às horas da refeição para que fossem buscar a comida à cozinha, às horas do recreio, e pouco mais.
O facto da sala ficar encostada à muralha que dava para o mar e a pouca vigilância dos guardas da cadeia criavam boas condições para a preparação de uma fuga. Nesse sentido, começou-se a trabalhar. Duas hipóteses foram consideradas, uma delas como alternativa à outra e para o caso de essa ter que ser abandonada.
A primeira, por ser a que oferecia melhores condições de êxito e possibilidades para a saída de mais camaradas, era abrir um buraco na muralha, por onde sairiam directamente para o mar os presos interessados em fugir. Previa-se que chegariam ao molhe do porto sem muita dificuldade e sem grande perigo de serem detectados visto a distância ser relativamente curta.
A segunda, consistia em serrar a grade de uma janela que dava para o interior da fortaleza, subir umas escadas em pedra à face da muralha que levavam ao terraço da mesma, saltar para aí e, pelo lado oposto, descer depois para o mar através de uma escada de corda previamente preparada.
Esta última hipótese era bastante mais perigosa, visto que todo o percurso até ao início da descida para o mar (mais concretamente, sobre as pedras que existiam encostadas à muralha) era feito debaixo do ângulo de visão da sentinela da GNR que, ali próximo, sobre o terraço das muralhas, fazia vigilância, andando de um lado para o outro. Era necessário aproveitar os momentos em que o guarda marchava de costas para nós.
Era também a mais limitada, decidindo-se que por ali não poderiam sair mais do que dois camaradas, exactamente pelos perigos que oferecia de sermos detectados.
Era ainda bastante perigosa no que se referia ao risco de acidente, dado que a escada tinha que ser fixada no topo da muralha e existia o perigo de, na descida, com o peso e os balanços do corpo, a escada se desprender ou mesmo partir. As cordas eram feitas com pontas de fio unidas e entrelaçadas, igual ao das redes dos pescadores, a que se ligavam depois bocados de pau de vassoura, dando-lhe a forma de escada.

Mãos à obra
Lançámo-nos, pois, ao trabalho na preparação da fuga através da muralha e, nas horas vagas, confeccionávamos corda para a hipótese de termos que recorrer a esta alternativa.
Demarcado o sítio na muralha onde se iria abrir o buraco, logo se adquiriram umas folhas de papel de embalagem (papel ferro) com que se forrou a parede naquela zona, se colocaram uns cabides e se começou a dependurar ali algumas roupas, como sobretudos e casacos. Isto tinha o objectivo de habituar os carcereiros a verem aquele sítio como o lugar onde os presos penduravam a roupa e que aquelas folhas de papel se justificavam para a preservar da humidade da parede. Isto até era verdade, mas havia outra justificação, e esta só para nós, que era termos o buraco sempre tapado.
De posse de algumas ferramentas que, precavidamente, se tinha ido reunindo iniciou-se o trabalho. A tarefa não era fácil. Para além de desconhecermos a espessura da muralha e dos meios muito rudimentares que tínhamos para trabalhar, tínhamos ainda de resolver outro problema não menos complicado: onde esconder tudo quanto dali se tirava, como pedras e terra, todo aquele entulho.
Embora não houvesse guarda permanente no sítio, iam lá algumas vezes ao dia. À quinta-feira de cada semana tínhamos que pôr as camas na rua deixando tudo a descoberto e guardas da GNR rondavam sempre por ali próximo.
Alguma terra conseguíamos deitá-la ao mar, quando vazávamos o caixote do lixo através de uma ameia na parte baixa da muralha próximo da porta da sala, o que geralmente se fazia sob os olhares do guarda. Mas isto era uma gota de água no oceano – no caso, uma gota de terra! E a outra? E as pedras – algumas bastante grandes?!
A solução foi rasgarem-se algumas mantas e lençóis, com eles fazerem-se sacos, enchê-los e metê-los debaixo das camas. Com algumas pedras fizeram-se bonitos embrulhos, com papel apropriado, que se colocaram sobre prateleiras (bastante resistentes) que havia à volta da sala onde se punham malas e outras coisas. Outras ficaram no chão, mas devidamente acondicionadas.

A greve da fome
Estavam as coisas a andar normalmente – a normalidade possível nestas situações – quando estalou uma greve da fome espontânea, por parte dos restantes presos do Forte que se encontravam na zona de que estávamos isolados. O buraco já tinha cinco metros de profundidade a caminho do exterior.
Tínhamos furado a parede interior da muralha com cerca de dois metros de espessura, atravessado depois uma zona de entulho com cerca de três metros e chegado à parede exterior, que calculávamos tivesse pelo menos outros dois metros. Era um túnel que íamos escorando como podíamos.
Não estávamos nada interessados numa greve da fome naquele momento devido à tarefa que tínhamos em mãos. Mas ela surgia e não tínhamos nada a fazer senão participar. A greve da fome surgia como resposta dos presos à acção repressiva e provocatória dos carcereiros, ambiente que aliás estava na origem do nosso isolamento na sala 5. Era nosso dever não apenas entrar nela mas procurar intervir, por todos os meios possíveis, na sua orientação e direcção, pois ali estavam os presos politicamente mais responsáveis. Foram sete dias sem ingerir qualquer alimento, acompanhados de outras formas de protesto, como recusa de tratamentos e visitas das famílias depois de estas saberem o que se passava.
Ao fim de uma semana de greve da fome era bastante grave a situação dos presos políticos no Forte de Peniche. A sua repercussão no exterior, devido à grande pressão das famílias e de muitas outras pessoas solidárias com a sua luta, começava a preocupar os fascistas. Foi neste quadro, que enviaram à cadeia dois inspectores da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, acompanhados de um médico, para tentarem resolver a situação.
Estes ouviram os presos sobre as razões da greve da fome, prometeram que alguns dos problemas que tinham levado à greve seriam resolvidos, sobre outros prometeram intervir, insistiram para que a terminássemos, permitiram finalmente que uma delegação da nossa sala fosse às outras salas encontrar-se com os outros presos para, em conjunto, se decidir da atitude a tomar. Dos contactos havidos, e perante as promessas feitas, saiu a decisão de se pôr fim à greve. De imediato não estávamos em condições de prosseguir a tarefa que tínhamos em curso e que suspenderamos por causa da greve da fome. Bastante enfraquecidos, cada um de nós com vários quilos a menos, necessitávamos de um período de recuperação até que se pudesse continuar.
Entretanto, passados alguns dias, talvez semanas, tomou-se conhecimento de que iam ser transferidos presos para a cadeia de Setúbal para serem iniciadas obras na de Peniche. Uma das nossas reivindicações, no conjunto das que tinham levado à greve, era exactamente a melhoria das instalações prisionais. Seguiu-se a saída de dois da nossa própria sala.

Execução da fuga
Certos de que mais se seguiriam e podíamos sair todos dali, decidiu-se pôr imediatamente em execução o plano alternativo. O plano da muralha foi abandonado. Nestas condições, a fuga tinha de limitar-se aos dois camaradas mais responsáveis que ali se encontravam, Francisco Miguel e Jaime Serra. Mais, seria aumentar consideravelmente o risco de ser detectada pelas sentinelas.
Tudo correu bem. Cortada a grade até ao fim, montada a vigilância necessária e possível para controlar os movimentos da sentinela mais próxima, distribuídas as tarefas que cada um tinha de realizar no momento, próximo das três horas da manhã do dia 3 de Novembro de 1950 os nossos dois camaradas saíram como previsto, e com êxito, da Fortaleza de Peniche. O ferro cortado da grade voltou a ser colocado no sítio, colado com uma massa feita de sabão e limalha da serradura, o que lhe dava um disfarce quase perfeito, e uns bonecos feitos com roupa foram colocados nas duas camas vazias a imitar os corpos, pois às cinco horas o guarda vinha contar e era necessário certificar-se de que estavam todos. E assim foi!
O que aconteceu depois
Quando a partir das 7 da manhã nos levantámos sem que nada de anormal tivesse ocorrido, a nossa sensação de alívio e bem estar era enorme. Àquela hora, mais de quatro horas passadas, os nossos camaradas estariam certamente a salvo de qualquer perseguição consequente à fuga, pensávamos nós.
Só já muito próximo das nove horas a fuga foi detectada. Alguém da cadeia terá visto a escada a balançar na muralha. Imediatamente um guarda se dirigiu à sala a correr, abriu a porta, apitou para formarmos, contou, identificou um nome dos que faltavam e perguntou, quem era o outro. Mudos estávamos, mudos continuámos. Insistiu, voltou a contar, descobriu ele próprio quem era, fechou a porta, foi embora a correr como tinha vindo.
Tínhamos connosco uma garrafa de vinho do Porto que não me recordo como tinha entrado.
Bebemo-la, fizemos a festa. Os carcereiros estavam ainda sem saber como é que os presos tinham saído da sala para fugir. Tudo parecia intacto.
Em dado momento, o chefe dos guardas da cadeia mais o sargento da GNR aproximaram-se da janela.
Enquanto aquele olha fixamente para a grade, o sargento, apercebendo-se, diz com toda a convicção.
Por aqui não foi. A sentinela teria visto. Deve ter sido lá por trás!
Lá por trás era impossível! – diz o outro.
De repente estende a mão e arranca o bocado de ferro cortado. Vê?
Atrapalhado, o sargento desculpa-se com a lâmpada que ilumina o sítio e que às vezes se apaga. E lá se foram embora, um contente por ter descoberto, o outro nem tanto.
A meio da manhã, o Director da cadeia manda chamar à sua presença Gabriel Gomes. Quer saber como foi, como é que os presos fugiram, a que horas, e por aí adiante: Ameaçou, provocou. Desistiu. E nós presos, vivíamos um momento de felicidade. Bastante fugaz, como veremos.

Um balde de água fria
Quando, pelas duas horas da tarde aproximadamente, vimos, através das grades da janela da nossa sala, passar Francisco Miguel que, entre dois guardas, acabava de reentrar na cadeia, foi como se um enorme balde de água gelada nos tivesse encharcado da cabeça aos pés. Contudo, o facto de vir só, deixava-nos a esperança de que Jaime Serra tivesse conseguido escapar à perseguição, o que felizmente acontecera.
O que é que sucedera então? Como a fuga teve que ser antecipada sem possibilidade de contacto prévio com os apoios com que contavam no exterior, estes não funcionaram e a alternativa foi saírem da vila (que é uma península) pelos seus próprios meios e a pé.
Quando se fez dia não estavam muito longe. Sabendo que os carcereiros logo que dessem pela sua falta se poriam em campo à sua procura, decidiram parar e descansar em sítio preservado das vistas de qualquer passante, esperando que voltasse a ser noite.
Aconteceu que uns caçadores que por ali andavam, atraídos pelo ladrar dos cães, foram ver o que era e depararam-se com os nossos dois camaradas que, entretanto, se tinham levantado e vindo ao seu encontro e a quem deram uma explicação que pareceu ser entendida como natural.

Lutar até ao fim
De qualquer modo, depois disto, não podiam continuar ali, até porque, provavelmente,  não tardaria muito tempo os caçadores viriam a saber que tinham fugido dois presos da Fortaleza e não lhes seria difícil identificá-los com os sujeitos que tinham encontrado.
Os camaradas resolveram então, nesta situação muito complicada, separar-se e ir cada um para seu lado, pois assim sempre haveria mais possibilidades de que, pelo menos um, se salvasse.
Foi o que aconteceu. Francisco Miguel teve o azar de, ao atravessar uma estrada, dar de caras com um guarda da cadeia que, de bicicleta, ia para o Forte entrar de serviço e que nem sequer sabia ainda da fuga. Percebeu imediatamente o que se passava, voltou à aldeia buscar a ajuda de familiares, e o nosso Chico foi apanhado.
Jaime Serra conseguiu com enorme esforço, apesar de bastante mais resistente, chegar a porto seguro a várias dezenas de quilómetros dali e ao fim de muitas e longas horas de caminhada.
Francisco Miguel voltaria a ser enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde permaneceria mais cinco ou seis anos.
Entretanto, como o fascismo, infelizmente para o nosso povo, ainda se manteria no poder por mais cerca de um quarto de século, isso deu tempo a que Francisco Miguel voltasse a fugir de Peniche (3/1/60) depois de regressado do Tarrafal, voltasse a ser preso e voltasse de novo a fugir, desta vez de Caxias (4/12/61), encontrando-se em liberdade aquando do 25 de Abril e no desempenho da sua actividade revolucionária.
Igualmente Jaime Serra, que na altura conseguira escapar aos perseguidores, voltaria a ser preso alguns anos depois (8/12/54), voltaria a fugir da prisão (3/3/56), voltaria de novo a ser preso (27/12/58) e novamente a fugir (3/1/60), encontrando-se também, aquando do 25 de Abril, no exercício pleno da sua actividade revolucionária. Era assim a luta dos comunistas contra o fascismo.
Isto dá razão ao que me dizia um dia um camarada. Um combatente pela liberdade, quando entra numa prisão, a primeira coisa a pensar deve ser: como é que eu vou sair daqui?

dorl.pcp.pt

A ARA foi uma organização criada pelo PCP para a luta armada contra a ditadura fascista. Activa entre 1970 e 73, realizou acções armadas com grande impacto político, algumas tão espectaculares como a do comando que penetrou na Base Aérea 3, em Tancos, em 1971 e destruiu ou danificou 28 aviões e helicópteros.

Este livro é a narrativa ao vivo, de cada uma das acções da ARA, do secreto e tormentoso processo da sua criação, da furiosa perseguição desencadeada pela PIDE e também de como um clandestino viveu os últimos dias da ditadura e se deslumbrou com essa inolvidável explosão de alegria de um Povo que foi o 25 de Abril de 1974.

Não é um ensaio político nem uma enumeração de factos. É o registo – por quem a viveu – da luta abnegada, das aventuras, medos, raivas, coragens de homens e mulheres com nome e rosto, quase todos ainda vivos, e que andam por aí, na labuta do dia a dia, iguais a todos os outros, iguais a todos nós.

«Quem não viveu aqueles tempos... aqueles tempos de PIDE, de Tarrafal, de Legião, de Mocidade Portuguesa, de saudação fascista, de braço no ar, do Cardeal Cerejeira a abençoar Salazar, de Censura, de exílio, de sindicatos proibidos, de exploração desmedida, de perda do emprego por razões políticas, de banimento da função pública, da Universidade... Tempos em que uma telefonista não podia casar para não prejudicar o trabalho ou se casasse perdia o emprego; em que um oficial das forças armadas só podia casar com uma mulher que os superiores considerassem digna da sua classe. Tempos em que as mulheres não podiam votar nas eleições fantoches e o chefe de família era o dono da mulher e dono dos filhos. Quem não viveu esses tempos de medo, de pobreza, exploração, arbítrio e mesquinhez não consegue avaliar! E sem saber isto, pode até pensar que as pessoas que iam para a clandestinidade eram heróis, loucos ou mártires quando na realidade eram pessoas como as outras. Talvez mais informadas, mais indignadas ou mais trituradas pela engrenagem.»

Álvaro Cunhal, uma fotobiografia


O lançamento de Álvaro Cunhal - Fotobiografia faz parte das comemorações centenário de Álvaro Cunhal, que decorre em 10 de novembro, sob o lema «Vida, pensamento e luta: exemplo que se projeta na atualidade e no futuro».


A obra, concebida e realizada pela Comissão das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal e publicada pelas Edições Avante!, «acompanha todo o percurso da vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal, indissociavelmente interligados com a história do PCP e de Portugal ao longo de quase todo o século 20 e na transição para o século XXI». Reúne 600 fotografias e 260 documentos e ilustrações «provenientes de diferentes arquivos ou cedidos por familiares e amigos», a maioria das quais «dizem respeito, naturalmente, à atividade política de Álvaro Cunhal», embora haja muitas que «se relacionam com a sua vida pessoal e familiar», detalha-se em nota divulgada à imprensa.

«O livro está dividido em dez capítulos”, informa a nota. “Os oito primeiros seguem uma ordem cronológica, percorrendo os grandes momentos da vida e intervenção de Álvaro Cunhal; a infância e a adolescência; a juventude, com o início da militância e das responsabilidades de direção na FJCP (Federação da Juventude Comunista Portuguesa) e no PCP (Partido Comunista Portuiguês); a participação na reorganização do PCP de 1940-1941; o duríssimo período de prisão entre 1949 e 1960; a fuga do Forte de Peniche, em 1960; a eleição para secretário-geral do PCP e o contributo para o desenvolvimento da luta popular que conduziu ao derrubamento da ditadura fascista. Após o 25 de Abril de 1974, o destacado papel no processo revolucionário; a intervenção na resistência à recuperação capitalista, latifundiária e imperialista, de 1976 até 1992 (ano em que deixa de ser secretário-geral do PCP); e uma nova fase de intervenção, até à sua morte em 2005».

A obra termina com dois capítulos «consagrados à criação literária e plástica de Álvaro Cunhal» e ao «legado no campo da teoria e das concepções, práticas e valores na vida e ação política».

«No século 20 e na passagem para o século 21, Álvaro Cunhal é em Portugal a personalidade que mais se destaca na luta pelos valores da emancipação social e humana, com forte projeção no plano mundial. Militante e dirigente comunista, secretário-geral do Partido Comunista Português, a sua vida foi inteiramente dedicada à luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo»

Álvaro Cunhal - Fotobiografia é «uma contribuição preciosa para o conhecimento da vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal e do projeto e ideal por que lutou», conclui.




Atenção -  se quiser reduzir o tamanho das fotos clik nas mesmas




VÍDEOS






ALVARO CUNHAL


Os homens do mar gostam de contar histórias do outro mundo. Todos eles tiveram encontros com sereias, adamastores, ou viram saltar das águas o fogo de Santelmo. Mas, os pescadores de Peniche viveram mesmo um dia extraordinário, nos idos de sessenta.
Ao cair da noite, remendadas as redes e varados os barcos, com as mulheres costurando na soleira das portas e os filhos pontapeando bolas de trapos, os homens formam grupinhos no largo. Nunca mais de três pessoas à vez: conhecem bem a dureza das leis e têm diante dos olhos, paredes meias com o bairro, a prova do que acontece a quem desafia o poder. No forte, uma imponente edificação sobre as escarpas, estão encarcerados alguns dos mais acesos adversários do regime salazarista. Quem é dado a episódios romanescos e já ouviu falar do Papillon chama-lhe “ilha do Diabo”.
No bairro dos pescadores, palco de misérias e fantasias, ainda se fala à boca pequena do que acontecera poucos anos antes, quando um prisioneiro descera o paredão a pique sobre o mar e nadara até á praia. O fugitivo tinha levado meses a serrar a porta de ferro do “segredo”, com uma faca feita a partir de uma colher. Uma corda de lençóis e mantas ajudara-o a saltar a amurada. Chamava-se Dias Lourenço.
Assim, os guardiões do regime descobriram que o forte não era inexpugnável. Reforçaram a segurança. Mais ferros, mais cadeados, mais rondas. Mas, no silêncio fundo dos cárceres, conspira-se. pela calada, o povo canta: “Liberdade, liberdade/ quem na tem chama-lhe sua/ eu não tenho liberdade/ nem de pôr o pé na rua.”

Cumplicidades

A certeza de que os prisioneiros não se vergaram chega numa noite de Janeiro de 1960. os habitantes do bairro dos pescadores, que nunca gostaram daquelas vizinhanças com o forte-prisão, vêem desembocar no largo, aos grupos de dois e três, dez homens cujo semblante não engana ninguém. Rostos encovados, roupas mal enjorcadas, andar determinado. Trazem escrito na cara que estão a evadir-se.
Para chegarem ao bairro, tinham de seduzir um guarda, de manietar outro, de saltar barreiras, de descer uma muralha de 20 metros a pique. Tudo para desembocar junto das casas dos pescadores, onde qualquer pessoa poderá denunciá-los.
É um momento que vai alterar a vida de toda aquela gente, os que fogem do forte e os que os vêem passar. Sem alaridos, mas tocadas pelo medo, as mulheres metem as crianças dentro de casa. os pescadores suspendem os relatos de façanhas. Baixam os olhos. É preciso que ninguém veja nada, para nada ter a dizer quando a PIDE chegar.
Os dez desconhecidos atravessam o bairro em silêncio, a passo ritmado, sem pressas, mas sem perder tempo. Bastava alguém ter gritado “ó da guarda” para que as sentinelas do forte dessem o alarme. Mas ninguém fala. Mesmo os que não morrem de amores pelos “vermelhos”, intoxicados pela propaganda que alardeia banquetes de criancinhas e injecções letais na orelha dos velhos, calam-se ante a aparição dos evadidos. Qualquer coisa no olhar deles os emudece.
Sem o saberem, nesse momento tornam-se cúmplices de uma das mais espectaculares fugas das cadeias portuguesas. a que trouxe de volta à liberdade Álvaro Cunhal, o inimigo público nº 1.


LIBERDADE, LIBERDADE

Após 11 anos nos cárceres, grande parte dos quais em completo isolamento, o mais temido e mais bem guardado dos prisioneiros evade-se nas barbas da polícia de Salazar.
É ele um dos homens que abre caminho aos restantes evadidos do forte de Peniche. Fora o primeiro a saltar e também quem atara na muralha da fortaleza-prisão a ponta da corda de lençóis. No topo, as sentinelas, estranhamente, não dão por nada. mais tarde falar-se-á de cumplicidades, de subornos, ou apenas de sorte. passará uma hora, até que soe o alarme e os guardas empunhem das armas. Os holofotes varrem o bairro dos pescadores, as botas cardadas estremecem a noite. Mas, com a cobertura tácita da população e o apoio de camaradas que os aguardam em pontos estratégicos já estão a salvo. Em localidades dispersas, do Barreiro ao baixo Alentejo, estalam foguetes. Nas ventas do regime, o povo ri-se. Para salvar a cara, o Governo espalha a versão de que a fuga fora planeada e executada por comandos da URSS. Um submarino soviético teria recolhido os evadidos que, àquela hora, já estariam num país de Leste.
Muito pelo contrário, Álvaro Cunhal está em Portugal e aqui viverá ainda mais um ano.
Esta fuga insere-se numa série de invasões de prisioneiros políticos conotados com o PCP. Em 1956, Jaime Serra, detido em caxias, faz um molde de sabão da chave do lavadouro e envia-o para o exterior. Um duplicado ajuda-o a fugir. Em 1957, Carlos Brito trepa aos telhados da cadeia do Aljube e equilibra-se sobre um cano de zinco até atingir um edifício vizinho, de onde salta para a rua. No Porto, Silva marques, actual deputado do PSD, subindo a um andaime que dava para o cemitério. Mas é um ano após Peniche que ocorre a fuga porventura mais espectacular. José Magro e Domingos Abrantes, entre outros, evadem-se do Forte de caxias ao volante de um carro do próprio Salazar. Uma viatura blindada, oferta de Franco, concebida para resistir a atentados bombistas. Em vão a GNR dispara sobre os fugitivos. O velho Hudson, com a matrícula HE-10-32, leva dois comunistas para a liberdade, deixando profunda mossa no orgulho do homem de S. bento.






PRÍNCIPE VERMELHO

Como é que Álvaro Barreirinhas Cunhal, licenciado em Direito, filho de um governador e descendente de fidalgos, vai parar às masmorras? Por nascimento e educação, ele nunca deixará de ser um aristocrata. Por mais que se misture com o povo, e aprenda a gostar de sardinhas assadas e tinto do barril, terá sempre porte fidalgo. Em títulos de jornais, chamam-lhe “o príncipe”. Como todos os príncipes, é também um homem que gosta do poder, e que o exerce, de forma por vezes cruel.
O primeiro Cunhal de que há notícia nasceu em Portalegre, por volta de 1640, no seio de uma família de criisttãos-velhos puros. As suas origens remontam a um barão de Santa Comba Dão - ironias da vida! -, e na árvore genealógica da família há um visconde do Ervedal, um conde de Ervideira, os marqueses de Praia e Monforte, além de influentes membros da Igreja. O leque complementa-se com grandes lavradores e proprietários de terras, de Coruche, Coimbra, Seia e da região do Alentejo. Também há aventureiros: um José António Cunhal, que nasceu em Estremoz em 1788 e foi morrer a Seia, com fama de valdevinos, era legionário no Exército de Napoleão.
Ao longo de séculos, os Cunhal fizeram proveitosas alianças entre a nobreza de cofres esvaziados e a burguesia endinheirada.
O pequeno Álvaro, nascido em 1913 na Sé Nova, em Coimbra, e baptizado em Seia, é filho do advogado Avelino da Costa Cunhal, que foi governador civil da Guarda e tinha veia de artista. A mãe, Mercedes Ferreira Barreirinhas, que se orgulhava das suas raízes fidalgas e gostava do poder do dinheiro, tentaria em vão influenciar a vida do filho, desde muito cedo atraído pela gentalha, fazendo amigos entre os pés-descalços e desdenhando dos favores da riqueza. É o segundo de quatro irmãos, dos quais apenas sobrevive a mais nova, Maria Eugénia. Esta irmã, poetisa discreta, tem sido a retaguarda do velho combatente: a única morada oficial que se lhe conhece é a dela, na Rua Sousa Martins, em Lisboa. Foi lá que a PIDE o procurou diversas vezes. De uma delas, Maria Eugénia é levada para os calabouços.

ASCENÇÃO

Quando adere ao partido Comunista Português, com apenas 17 anos e sendo aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, torna-se algo privilegiado da polícia salazarista. Um ano depois, já ocupa posto destacado na liderança do partido. Com um grupo de dirigentes recém-libertados da cadeia, entre os quais Júlio Fogaça, cria um “PCP paralelo”. Opõe-se á actividade daquele a que chama “grupelho provocatório”, tomando posição contra o secretariado de Velez Grilo, Vasco de Carvalho e Cansado Gonçalves, que ficou para a história como o “grupo do Rossio”. Com golpes e contragolpes, num sistema de alianças que envolveu alguns dos camaradas que mais tarde repudiaria, Cunhal caminha para o lugar que seria o seu, de ideólogo do partido.
Uma visita à URSS em 1935 fá-lo descobrir “o Sol na Terra”.
Seguem-se tempos de vertigem. É uma testemunha privilegiada dos maiores acontecimentos da primeira metade do século. Esteve na Guerra Civil de Espanha, onde viveu a sua primeira experiência com armas. Em Portugal, na II Grande Guerra, seguiu os ataques das tropas nazis, ouvindo a BBC e assinalando com bandeirinhas os avanços das forças soviéticas. A retomada de Stalinegrado deu-lhe a certeza da vitória. Após a guerra, assistiu á reconstrução da  Jugoslávia. Viu a instauração do regime popular da Checoslováquia. Deslumbrado pela causa, fecha os olhos aos excessos de pendor estalinista. Faz e perde amigos.
Durante o encarceramento do líder em Peniche, Júlio Fogaça que, entretanto, fora expulso do PCP “por razões morais” - um eufemismo que os comunistas da linha dura adoptaram para discriminar os homossexuais - regressa ao secretariado, após penosa autocrítica e público perdão. Em 1957, no Congresso reformista, Fogaça apresenta um relatório para a “transição pacífica para o socialismo e a unidade anti-salazarista”. Na cadeia, Cunhal discorda e faz saber que está zangado. Quando volta á liberdade, acusa-o de “desvio de direita”. Seguem-se tempos difíceis para o “companheiro da primeira hora”, um homem que passara pelo Tarrafal e sofrera atrozes torturas, fora humilhado pelos camaradas de partido e caluniado até ao fim da vida. Até 1980, ano em que morre anonimamente, Fogaça não será reabilitado.
Outra expulsão humilhante é a de Martins Rodrigues, antigo braço direito do líder, que sai do PCP acusado de “roubo de uma máquina de escrever”. Ressabiado, o renegado funda a primeira organização maoísta portuguesa, a Frente de Acção Popular e o Comité Marxista Leninista. Também são tensas as relações de Cunhal com Mário Soares, afastado do partido por desvio aberrante para a social-democracia, e de Piteira Santos, por pecado de “titismo”.
No partido, suspeita-se que a última detenção de Cunhal, em 1949, terá sido por denúncia de um companheiro. O suposto delator, Manuel Domingues, aparece morto, em 1951. fala-se em execução.








LENDAS

Entretanto, a lenda do revolucionário percorre o país. A PIDE tem muito por onde procurá-lo, em Portugal e no estrangeiro.
Desde os 22 anos, Cunhal sabe o que é viver na clandestinidade. Aprende a vestir-se e a comportar-se como um rural. Acoita-se em casebres, come batatas sem conduto, dorme no restolho. Usa diversos nomes, Duarte, António (nome do irmão mais velho, que morreu cedo), e partilha das tarefas do campo, enquanto difunde os ideais comunistas. de uma vez chegou a estar oito anos no Norte. Aí conhece gente como o Lambaça, o contrabandista e passador de Cinco Dias, Cinco Noites, novela publicada sob o pseudónimo de Manuel Tiago.
Agora que conhece bem o povo, comunga das suas carências e anseios, Cunhal sabe como gerir o descontentamento. Foi o seu dedo por detrás das grandes greves de 1943, 1944 e 1947. Preso duas vezes, em 1937 e em 1940, voltará a ser detido, pela última vez, em 1949. Iniciará, assim, o longo percurso da Penitenciária de Lisboa (onde morre Militão Rodrigues, em greve de fome) até Peniche, de onde sairá na ponta de um lençol.
Cunhal, com o traquejo da clandestinidade, em que uma pessoa muda de nome, de afectos e de vícios, para manter intactas as suas convicções, torna lendária a sua passagem pelas cadeias. De tudo faz mistério, um hábito de vida inteira. É conhecido como o homem que não fala.
Conta-se, entre outros, um episódio de tortura, que visava localizar a origem de um molho de chaves que a PIDE encontrara em seu poder. Conhecido pela sua resistência à dor física e à pressão psíquica, Cunhal sempre se manteve mudo. Quando os carrascos descobriram que as chaves era da própria casa do prisioneiro, perguntaram-lhe: Por que é que não nos disse? Teria poupado tanto trabalho...” Cunhal terá respondido: “Eu não estou aqui para vos poupar trabalho.”






UMA VIDA

Escapa das malhas da PIDE quando, em finais de 1961, se muda para o estrangeiro. Na URSS, é recebido com honras de herói de Estado, como um grande líder da Frente Ocidental. Desloca-se frequentemente á Roménia, onde vivem a sua companheira de então, Isaura (“Luísa”, nome de guerra) e a filha única, Ana. Em meados de 1960, radica-se em Paris. tem a noção de que não pode fazer a revolução portuguesa à distância de Moscovo.
Mais perto do país, passeia-se de boina basca no boulevard Saint-Germain, onde os pides se misturam  com os exilados portugueses. Agora chama-se António de Sousa.
Só regressa a Portugal três dias depois do 25 de Abril. Ele que tanto lutou pela queda do antigo regime, é tomado de surpresa pela revolução. Ninguém o avisou.
Mas vem a tempo de entrar na corrida para o poder. da cadeia ao Governo, o percurso de Cunhal engloba outros 20 anos de glórias e derrotas. è uma rodagem dura para o partido, que se movia melhor na clandestinidade do que á luz do dia.
Hoje, aos 83 anos, o velho senhor continua igual a si próprio. Mesmo depois da queda dos países de Leste, acredita que a luta da sua vida fez sentido. Para a humanidade viver bem consigo mesma, defende o comunismo a longo prazo, o socialismo a médio prazo e uma democracia avançada no final do século. Com o seu mundo a desmoronar-se, comporta-se como um iluminado. É um guerreiro, o último dos moicanos.
Álvaro Cunhal, quase tão velho e provavelmente tão sábio como Moisés, quando atravessou o deserto, ainda insiste em conduzir o povo eleito. Que por acaso, somos nós.



Revista “Visão”, 24 de Abril de 1996


Dias Lourenço (1915 – 2010), o operário de Vila Franca

António Dias Lourenço da Silva nasceu em 1915 em Vila Franca de Xira.
Operário, aderiu ao PCP em 1931. Viveu na clandestinidade entre 1941 e 1949, situação interrompida pela primeira detenção. Torturado, encarecerado em Caxias e depois em Peniche, foi condenado a mais de 8 anos de prisão. Fugiu antes de cumprir metade da pena, passando de novo à clandestinidade. Participou na preparação da fuga de Álvaro Cunhal (v.), em 1961, mas no ano seguinte voltou a ser preso, sendo desta vez condenado a 23 anos. Preparava uma nova fuga quando se deu o 25 de Abril. No regime democrático, foi Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República entre 1976 e 1987, tendo sido eleito nas 4 primeiras Legislaturas.


Joaquim Gomes (1917 – 2010) e a fuga de Peniche


Joaquim Gomes dos Santos nasceu em 1917 na Marinha Grande.



Vidreiro de profissão, esteve ao lado de Álvaro Cunhal na célebre fuga de Peniche – foi uma das três vezes em que esteve preso. Funcionário do PCP, Partido ao qual aderiu na década de 30, pertenceu à Comissão Política do Comité Central do Partido. Depois do 25 de Abril, foi Deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, tendo sido eleito nas 4 primeiras Legislaturas pelo PCP, círculo de Leiria.

FORTE DE PENICHE

Do século XX aos nossos dias

No alvorecer do século XX, foi utilizada como abrigo para os bôeres que se asilaram na então colônia portuguesa de Moçambique após a vitória inglesa na África do Sul. À época da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), nela estiveram detidos alemães e austríacos, convertendo-se, durante o Estado Novo português (1930-1974), em prisão política de segurança máxima. A 3 de Janeiro de 1960 foi palco da espetacular "fuga de Peniche", protagonizada por Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues.
Em 25 de Abril de 1974, ao eclodir a Revolução dos Cravos, foi um dos pontos-chave dos revolucionários, passando a ser utilizada como abrigo para os retornados dos ex-territórios ultramarinos portugueses na África quando do processo de descolonização.
A partir de 1984 um dos três pavilhões passou a ser utilizado como Museu Municipal, exibindo material arqueológico, histórico e etnográfico (renda de bilros, peças consagradas à pesca e à construção naval), destacando-se o chamado Núcleo da Resistência, a reconstituição do ambiente de uma prisão política do Estado Novo (celas individuais e parlatórios). Neste último, os visitantes podem ver a cela onde esteve preso o secretário-geral do Partido Comunista Português Álvaro Cunhal e alguns dos seus desenhos a carvão, bem como o local por onde se evadiu em 1961. O museu é visitado anualmente por mais de 40 mil pessoas.
O Forte da Consolação encontra-se atualmente abandonado e em precário estado de conservação, sendo particularmente preocupante o estado das suas arribas, em processo de derrocada por ação da erosão marinha. No ano de 2006 as dependências da fortaleza serviram como cenário para a dramatização do desembarque inglês de 1589, visando repor a verdade histórica sobre a popular expressão "os amigos de Peniche".
Em Setembro de 2008 a Enatur e o Grupo Pestana assinaram um acordo de exploração, com vista à construção uma Pousada de Portugal.
 Vítor Oliveira.





URBANO TAVARES RODRIGUES / PORTUGUÊS, ESCRITOR, COMUNISTA


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Há oito dias, Urbano Tavares Rodrigues, foi cremado no cemitério do Alto de São João, depois de uma homenagem que lhe foi prestada na Sociedade Portuguesa de Autores. Escrevi um breve trecho para o Avante! sobre esse grande escritor português de quem era amigo e camarada. É esse texto que hoje aqui reproduzo marcando a sua presença no nosso blogue.
Urbano Tavares Rodrigues é um escritor que marca a literatura portuguesa. Uma voz diferente, única que se inscreve numa obra imensa e intensa. São mais de cem títulos publicados entre romances, novelas, contos, ensaios. Deixa um último romance, que será lançado pela sua editora em Dezembro, no dia 6, dia em que Urbano faria 90 anos. É um livro em que o escritor viaja pelas questões que são centrais na sua obra e da sua vida, como as lutas políticas e sociais, a sua militância sem quebras ao seu partido de sempre, o Partido Comunista Português, a solidariedade, as relações humanas, mas também a sexualidade e o erotismo. “É um romance muito curto e onde está todo o espírito do autor”, diz Cecília Andrade, acrescentando que apesar de as personagens não serem auto-biográficas, as questões abordadas têm muito da experiência do autor.
Tem um prefácio escrito pelo próprio e que é uma despedida. “Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz”. Um prefácio que escreve numa fala dirigida a si-próprio, a todos nós mas que é sobretudo dirigida ao seu filho de sete anos, António Urbano.
Urbano Tavares Rodrigues, nasce em Lisboa, mas vai para o Alentejo, para casa dos pais, grandes latifundiários em terras de Moura, a cidade branca que sempre o fascinará. Volta a Lisboa para estudar no Liceu Camões. Volta e traz com ele as memórias das gentes da sua terra com quem se sente solidário o que fará entrar muito jovem nas lutas da oposição ao fascismo e, pouco mais tarde, a aderir ao Partido Comunista Português, o seu Partido até ao fim da vida, a bandeira que nunca deixou envelhecer e que, como queria cobria o seu caixão.
Foi um homem de desmesuras. Na literatura, nos sentimentos, na sinceridade, na ideologia, nas intervenções, na vida. Num meio por vezes envenenado por coisas mesquinhas Urbano erguia-se enorme no seu humanismo, na sua afabilidade e delicadeza, no modo como a todos ajudava e acarinhava. Na atenção que dava aos outros.
Quando o seu primeiro livro foi publicado, no rescaldo das querelas entre presencistas e neo-realistas, ninguém ficou indiferente a essa voz nova, incomum, mas intimamente ligada ao mundo que o rodeava. A sua obra é um enorme fresco multicolor, observando com aguda atenção a época em que vivemos, sempre empenhado em procurar transformá-la de forma positiva e humanista, que fazem a sua obra ocupar um lugar impar na literatura de língua portuguesa.
Foi preso diversas vezes. Foi proibido de leccionar depois de se ter licenciado em Literatura na Universidade Clássica de Lisboa. Esteve exilado durante muitos anos em França com a sua mulher, a escritora Maria Judite de Carvalho, onde foi leitor de português em várias universidades e se fez amigo de Albert Camus.
A sua coragem era conhecida de todos. O aspecto franzino ocultava uma estrutura atlética que cultivava sobretudo pela natação que lhe dava um enorme prazer. No meio são célebres as ocasiões em que colocou os seus punhos em acção, deixando nos adversários as marcas da sua indignação. Alguns desses episódios foram recordados por Baptista Bastos como quando, “numa das vezes em que foi preso pela PIDE “Urbano, rodeado de ‘pides’ virou-se para eles, e disse: ‘Antes que me batam, levam com esta cadeira’, e partiu-a em dois ou três daqueles ‘mariolas depois, é claro, levou uma monumental tareia”.
Outro dia, lembra ainda Baptista-Bastos, vários escritores e advogados da oposição juntaram-se à porta da livraria Sá da Costa, em Lisboa, e viram o Urbano a descer o Chiado na direcção deles. “De repente, vimo-lo voltar atrás e entrar na pastelaria Bénard e, dali a pouco, ouvimos um ‘catrapaz, catrapuz!’, fomos ver. Tinha sido o Urbano que se virara ao Manuel Múrias, crítico do jornal Diário da Manhã, matutino oficioso do regime ditatorial] que era um homem corpulento de dois metros de altura. O caso tinha sido que o Múrias tinha feito uma crítica ignóbil a um livro da Maria Judite de Carvalho, então mulher do Urbano, na qual sugeria que, em vez de escrever livros, devia ficar em casa a fazer filhos. Urbano Tavares  Rodrigues, desancou-o “não era um homem para graças, era um homem de grande fibra”
Mas esse era o mesmo Urbano que se comovia com as vicissitudes das vidas alheias, que foi sempre actuante e esteve sempre presente na defesa dos valores sociais. Que nunca esquece dos desvalidos nem deixou de estar ao lado dos camponeses alentejanos que marcaram a sua infância. Que foi de uma coerência indefectível aos ideais comunistas.
Urbano Tavares Rodrigues é um romancista com uma obra impar, como já foi referido, na literatura portuguesa. Discreto, fez no fim da vida, numa entrevista que deu ao Ipsilon, um reparo mais que justo. O nunca lhe ter sido atribuído o Prémio Camões. Reparo justíssimo se desfilarmos os nomes dos laureados e comparámos a sua obra com a obra de Urbano. Isto de se ser comunista, de ser firme e convictamente comunista tem os seus custos. O de Urbano Tavares Rodrigues foi o de estar nesse índex invisível que mostra como a cultura não é aquele território neutro onde os bem pensantes se reúnem expurgados de ideologia.
A leitura de Urbano Tavares Rodrigues é quase obrigatória. Mentor de várias gerações enquanto professor, conferencista e ensaísta é na sua obra literária que se descobre, envolta numa rara qualidade literária e estética, a desmesura de uma obra que interpreta e interpela a vida, os sentimentos, a ideologia, com uma generosidade que, atrevemos a dizê-los, só um comunista humanista como Urbano era, é capaz.
Portugal perdeu um dos seus maiores escritores. O PCP um dos seus militantes de excepção. O povo português, em especial os camponeses alentejanos, um amigo firme e fiel.
pracadobocage.wordpress.com


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