Os jornalistas e o “caso Zeca Mendonça”
Zeca Mendonça, num momento que o próprio classificou como de “descontrolo”, deu um pontapé num repórter fotográfico que tentava fotografar Miguel Relvas quando este se dirigia para a sala da reunião do Conselho Nacional do PSD. Dizem as notícias que Zeca Mendonça pediu desculpa ao repórter e que este as aceitou, tendo o incidente sido ultrapassado.
O caso foi conhecido porque a CMTV, televisão do Correio da Manhã, captou o momento, tornando-0 viral. Nos principais canais de televisão as imagens do incidente não foram mostradas. As edições impressas dos jornais do grupo em que trabalha o repórter agredido - Diário de Notícias e Jornal de Notícias – também não publicaram essas imagens. O DN fá-lo apenas na edição digital e bastantes horas depois do acontecimento. O director que chefia o serviço de fotografia em que trabalha o repórter agredido usa hoje a sua coluna de opinião no DN para, num Post Scriptum, condenar o assessor. O Sindicato dos Jornalistas condenou-o também. Nas redes sociais os jornalistas dividem-se entre o apoio empolgado e a crítica impiedosa a Zeca Mendonça. Não há meio termo. Foi até criada uma página no Facebook dedicada ao assunto.
O gesto de Zeca Mendonça é inaceitável não por ter partido de Zeca Mendonça, “um homem bom, um profissional competente, um amigo dos jornalistas” como tantos escreveram (e do que não duvido) nem por o agredido ser um jornalista. O gesto é inaceitável porque é uma agressão gratuita, prepotente e autoritária. É um gesto de alguém que no momento estava investido de um poder que lhe era conferido pelo local e pelo acontecimento que lhe cabia conduzir e controlar. Fosse um jornalista ou a empregada de limpeza, ou outro trabalhador que tivesse sido agredido no desempenho de funções por ter penetrado num local que o “poder” destinara apenas a insiders, a agressão seria sempre um gesto reprovável. Zeca Mendonça reconheceu o erro, embora não o possa apagar.
Mas há outra reflexão a fazer sobre o incidente: porque razão esta agressão mereceu a complacência de tantos jornalistas, quase relegando para plano secundário a solidariedade com o repórter agredido? Porque razão este incidente não provocou nos jornalistas reacção semelhante à que é suscitada quando, em manifestações de rua, um jornalista é “apanhado” por um empurrão ou uma bastonada de um polícia? E, no entanto, com as devidas distâncias, trata-se em ambas as situações do uso da “força” (não apenas simbólica) por parte de quem detém o domínio de um território contra o intruso que invade esse território. Zeca Mendonça era o guardião que garantiria que a zona do hotel onde Relvas iria passar estava “limpa” de jornalistas. O polícia é o guardião da rua onde a manifestação se realiza e cuja “ordem” lhe compete garantir.
Poderíamos ainda avançar noutras interpretações. Por exemplo,vendo na compreensão benevolente do gesto de Zeca Mendonça uma cumplicidade entre jornalistas e assessores enquanto fontes de informação. Mas os assessores de imprensa nem sequer são gente “querida” dos jornalistas, por serem muitos deles ex-jornalistas.
O caso Zeca Mendonça escapa, a meu ver, a essa interpretação, precisamente porque Zeca Mendonça não é um assessor no sentido rigoroso da palavra. Zeca Mendonça é na verdade um amigo dos jornalistas, alguém que não lhes esconde informação nem os desvia de pistas que eles “descobrem”. Alguém que facilita e ajuda o seu trabalho. O seu papel é diferente do de um assessor que acompanha temas e prepara dossiês para um governante ou um presidente.
Esta é a meu ver a explicação para tantos jornalistas terem saído em defesa de Zeca Mendonça: vêem-no mais como um amigo do que como alguém que está “do outro lado”, como costumam dizer dos assessores de imprensa.
Seja como for, Zeca Mendonça não mais voltará a ter a simpatia de todos os jornalistas, como acontecia até agora. É uma perda para o PSD, mas Zeca Mendonça acabará por perceber que a sua relação com os jornalistas sofreu um sério revés. Acabará por decidir retirar-se para um trabalho menos exposto.
vaievem.wordpress.com
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