As enfermeiras "matam-nos"? E as feministas "ajudam-nos"? Proponho uma camioneta de fura-greves a invadir um bloco operatório, enquanto o PAN nos vigia a linguagem.
Começo a minha crónica de Domingo pelo testemunho de uma enfermeira em greve, greve que eu apoio, apesar de estar a ser dirigida pela Bastonária do PSD para favorecer o sector privado, sector que eu não apoio. Vejamos, cada macaco no seu galho.
"Ainda vai no Adro.
Em breve, como de costume, a comunicação social vai virar o povo contra nós e vamos ser "os malvados sem coração que não se importam com o sofrimento dos doentes".
Claro que a ninguém importa que nós também estamos doentes.
Sou enfermeira há 31 anos, nunca ganhei tão mal, nunca me senti tão desvalorizada.
Não posso usufruir da isenção de trabalho noturno apesar dos meus 54 anos, porque metade dos enfermeiros do bloco operatório central do Hospital de Viana têm mais de 50 anos- o serviço não comporta.
Temos 8 colegas de baixa (alguns há anos) não são substituídos.
Tenho um filho de 22 anos que acabou o curso superior de enfermagem o ano passado- foi para Frankfurt...
Completamente desmotivada e triste é como me sinto.
Ontem domingo trabalhei até às 23h30, hoje das 8h às 16h e daqui a 2 horas vou outra vez para Viana que faço Noite ( entro às 23h até às 8h30).
O que vale é que GOSTO de ser enfermeira...vá-se lá saber porquê.
Um abraço.
Saúde."
Em breve, como de costume, a comunicação social vai virar o povo contra nós e vamos ser "os malvados sem coração que não se importam com o sofrimento dos doentes".
Claro que a ninguém importa que nós também estamos doentes.
Sou enfermeira há 31 anos, nunca ganhei tão mal, nunca me senti tão desvalorizada.
Não posso usufruir da isenção de trabalho noturno apesar dos meus 54 anos, porque metade dos enfermeiros do bloco operatório central do Hospital de Viana têm mais de 50 anos- o serviço não comporta.
Temos 8 colegas de baixa (alguns há anos) não são substituídos.
Tenho um filho de 22 anos que acabou o curso superior de enfermagem o ano passado- foi para Frankfurt...
Completamente desmotivada e triste é como me sinto.
Ontem domingo trabalhei até às 23h30, hoje das 8h às 16h e daqui a 2 horas vou outra vez para Viana que faço Noite ( entro às 23h até às 8h30).
O que vale é que GOSTO de ser enfermeira...vá-se lá saber porquê.
Um abraço.
Saúde."
O testemunho diz tudo, para quem quer ouvir a realidade. Verifiquei que anda a ser convocada uma "greve de mulheres" para dia 8 de Março, daqui a 4 meses, 120 dias, cento e vinte dias. Eu não quero ser desmancha prazeres com a "bolha activista". Mas há hoje várias greves em curso de mulheres, entre elas a de enfermeiros e professores, duas categorias onde esmagadoramente a força de trabalho é feminina. Como saberão eu não sou nem nunca serei feminista, mas sou, com a mesma convicção, uma defensora da igualdade, justiça e liberdade sociais. É por isso, pela minha defesa da igualdade, que não apoio greves por serem de homens ou de mulheres. Apoio greves ou lutas por direitos, de homens e mulheres. Mas deixo aqui o meu desejo de que a bolha activista sai do reino de propaganda - ou como Pierre Broué dizia, saiam da agenda das universidades norte-americanas - e em vez de celebrar o feminismo daqui a 4 meses, vejam o que se está a passar agora no país. No caso das enfermeiras seria bonito ver as feministas activistas irem prestar a sua solidariedade a um piquete de greve à porta de um hospital antes do dia 8 de Março, enquanto o país inteiro condena sumariamente estas mulheres em greve como "culpadas por mortes".
É que neste grito de culpadas por "homicídio por negligência" - foi isso que ouvi!? - foi ocultado de todos nós o básico: por lei elas, as enfermeiras e eles, não podem abandonar o posto de trabalho se não são substituídas no turno. Como não há para substituir, - vou repetir, não há - porque não há contratações nem carreiras atrativas, e incentiva-se a migração, muitas delas estão a cair de exaustão lentamente nos hospitais porque são obrigadas a fazer 16 horas seguidas com regularidade. Quando digo cair é cair, desmaios de cansaço não são um nem dois, ali, nos blocos operatórios, nas urgências. Qual foi a parte de "as pessoas não aguentam mais" que o país não compreendeu? E se o turno for de noite, lei do PSD que o PS não reverteu, ganham com isso mais 4 euros líquidos por hora, ou algo assim. Vida de cão, caro PAN.
Sim, foi isso mesmo que o Governo fez, com a complacência de tantos (e tantas) que se apressaram a dizer que a greve dos enfermeiros é intolerável, quando sabem que basta acabar com uma pequena percentagem de devolução de mais uma empréstimo a especuladores do FMI, ou uma ínfima parte de uma PPP, para resolver em um dia a situação e acabar com a greve nos blocos operatórios. Não é o que o Governo se propõe fazer, mas sim transferir para os hospitais privados (coisa que agradará à bastonária dos enfermeiros, do PSD, que cavalgou esta greve justa, enquanto os sindicatos afectos ao BE e ao PC ficaram a ver navios passar). Esperem, o Governo também falou em requisição civil, desde Setúbal que ensaiaram, felizmente com ampla contestação, o método "isto vai à porrada". Porque não uma camionete da fura greves a substituir enfermeiros António Costa?
Saudades parecem ter tantos críticos - e o Governo certamente - daquele tempo em que as greves eram convocadas à sexta feira, acompanhadas de uma manifestação às 3 da tarde de delegados sindicais, e não surtiam qualquer efeito, a não ser os trabalhadores perderem um dia de salário.
Há um culpado nesta história, é o Governo. Que deixou uma categoria central na vida dos portugueses à mercê de condições, essas sim incompatíveis com a vida humana. Pois é justamente neste sector, dos enfermeiros, onde o burnout, a exaustão e a queda na esperança média de vida mais se acentuam.
Aliás, exorto daqui o Governo a fazer o que estamos a fazer nos portuários - calcular a esperança média de vida não por país mas por sector de actividade. E faço uma aposta. Ela cai em todos os sectores que trabalham por turnos, independentemente do valor do salário.
Se eu perder não falo de greves durante 6 meses, e vou escrever o meu romance. Se eu ganhar o Governo diminui a idade da reforma para estes sectores e corta as horas de trabalho nocturno onde ele não é caso de vida ou morte (a começar na indústria, à noite dorme-se e faz-se amor, não se montam carros). E quadruplica o valor dos turnos nocturnos para médicos e enfermeiros, pagando o que eles viverão a menos que nós para nos salvar.
Mas mantém-se tudo no sector público, Senhora Bastonária da Ordem dos Enfermeiros. É que ter cavalgado esta greve para encher o mercado do sector privado não lhe ficou mal. Ficou pessimamente. Por melhor que seja na comunicação, esta não lhe retirará a vergonha de ter usado uma greve de base correcta e legitima como moeda de força para servir a destruição do SNS. Usar enfermeiros exaustos como tropa para a General Ana Rita Cavaco destruir ainda mais os serviços públicos foi uma jogada moralmente inaceitável.
E só foi possível porque o PCP e o BE têm sido bombeiros de uma situação laboral cujo fogo está descontrolado. Não lideraram esta greve, deixando-os à mercê da liderança do PSD. Preferiram apoiar o Governo. Sei por isso que estes enfermeiros estão politicamente sós. O meu modesto conselho é que não recuem até o Governo recuar, mas elejam dirigentes vossos, de base em cada hospital e comité de greve, sejam claros na defesa das vossas condições de trabalho mas também do nosso SNS, que pagamos, todos nós. Não deixem isso nas mãos da Bastonária. A carneiro estranho não recebas em teu rebanho.

1 comentário:
"Sou enfermeira há 31 anos, nunca ganhei tão mal, nunca me senti tão desvalorizada."!!!. No tempo do Passos ganhava melhor e foi mais valorizada?
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