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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Três fotos que mudaram a guerra do Vietname


A noite da ma­dru­gada de 30 de Ja­neiro de 1968 mar­cava o início de uma data sa­grada para os vi­et­na­mitas: os fes­tejos do Novo Ano Lunar. Muitos dos efec­tivos do exér­cito do Vi­et­name do Sul ti­nham sido au­to­ri­zados a co­me­morá-la fora dos quar­téis.

Foi pre­ci­sa­mente nessa noite que duas grandes forças de com­bate – os Vi­et­congs e o Exér­cito do Vi­et­name do Norte – lan­çaram em si­mul­tâneo um ataque sur­presa em todo o país. Esta ope­ração de grande es­cala ficou co­nhe­cida como Ofen­siva Tet. Foram ata­cadas mais de 100 vilas e ci­dades, in­cluindo 36 ca­pi­tais de pro­víncia e a pró­pria ca­pital, Saigão.
Em­bora os ame­ri­canos te­nham sido apa­nhados de sur­presa pelo am­pli­tude do ataque, os ser­viços se­cretos já ti­nham de­tec­tado grandes mo­vi­men­ta­ções de tropas ini­migas. Es­pe­ravam uma ofen­siva apenas contra Khe Sanh, no sul do país, onde se en­con­trava uma base de Ma­rines, mas não uma ofen­siva si­mul­tânea em todo o ter­ri­tório.

Quando as tropas norte-vi­et­na­mitas ata­caram Saigão, 27 ba­ta­lhões dos Es­tados Unidos es­tavam es­ta­ci­o­nados na ca­pital. A ope­ração não foi, assim, o su­cesso mi­litar que se es­pe­rava: entre 30 de Ja­neiro de 1968 e 8 de Junho do mesmo ano, pe­ríodo ofi­cial de du­ração da Ofen­siva Tet, 58 mil sol­dados norte-vi­et­na­mitas per­deram a vida sem que Saigão ti­vesse sido cap­tu­rada ou os ame­ri­canos ex­pulsos.
Mesmo assim, al­gumas re­giões e ci­dades do In­te­rior caíram ir­re­me­di­a­vel­mente nas mãos do Exér­cito do Vi­et­name do Norte.

Os efeitos psi­co­ló­gicos deste ataque entre a opi­nião-pú­blica norte-ame­ri­cana – outro dos ob­jec­tivos dos es­tra­tegas norte-vi­et­na­mitas – foram im­por­tantes.
As ima­gens ini­ciais da Ofen­siva Tet di­fun­didas pelos media mar­caram a forma como o povo en­ca­rava a pre­sença dos seus fi­lhos e sol­dados na­quele ter­ri­tório hostil, des­co­nhe­cido e dis­tante. De pouco adi­antou à ad­mi­nis­tração do então pre­si­dente Lyndon Johnsson in­sistir que a Ofen­siva Tet aca­bara por ser uma grande der­rota dos co­mu­nistas.

1 Exe­cução de um pri­si­o­neiro Vi­et­kong

Execução de um prisioneiro Vietkong, 1968
Eddie Adams, 1968
O efeito das ima­gens ini­ciais de des­norte ame­ri­cano po­deria ter sido ate­nuado com o passar do tempo e a acção da pro­pa­ganda mi­litar – mas a 1 de Fe­ve­reiro de 1968, no ter­ceiro dia da Ofen­siva Tet, quando a con­fusão ainda rei­nava em Saigão, um fo­tó­grafo captou uma imagem que ha­veria de ter um efeito ainda mais de­vas­tador entre o povo ame­ri­cano.
Na­quele dia, duas armas foram dis­pa­radas ao mesmo tempo: uma pis­tola e uma má­quina fo­to­grá­fica.
A bala dis­pa­rada à queima-roupa per­furou o cé­rebro de um pri­si­o­neiro vi­et­cong e a foto cap­turou o mo­mento exacto da exe­cução.
Há duas per­so­na­gens desta tra­gédia: Nguyen Ngoc Loam, co­ronel, no­meado chefe da Po­lícia Na­ci­onal da Re­pú­blica do Vi­et­name, e um ofi­cial vi­et­cong cap­tu­rado, o ca­pitão Nguyen Van Lém, o mesmo nome pró­prio que o seu as­sas­sino.

«Penso que Buda me per­doará por isto»

Nesta foto já não existe vida, nem no car­rasco nem na sua ví­tima: a câ­mara de Eddie Adams trans­forma-os em mo­nu­mentos que re­cordam à Hu­ma­ni­dade a bru­ta­li­dade sel­vagem de uma guerra sem honra.
De um lado, o braço es­ti­cado do car­rasco, os mús­culos tensos, a mão agar­rando a pis­tola com tanta força como se re­ce­asse fa­lhar o alvo e co­brir de ri­dí­culo o seu poder de deus da vin­gança; do outro, um jovem, mãos atadas nas costas, magro, pe­queno, in­de­feso. De um lado, um rosto inex­pres­sivo, frio, o rosto da morte; do outro, um homem a quem não é per­mi­tido, se­quer, um gesto ins­tin­tivo de de­fesa.
O ope­rador de câ­mara da NBC, Vo Suu, filma a sequência: o tiro, o fumo, a queda, o sangue jor­rando da ca­beça do ofi­cial vi­et­cong. Eddie Adams, o fo­tó­grafo, re­cor­dará mais tarde que a sua única von­tade é sair dali, afastar-se, mas, ao mesmo tempo, numa fa­mi­liar com­bi­nação de horror pes­soal e triunfo pro­fis­si­onal, tem cons­ci­ência da ex­tra­or­di­nária foto que acabou de tirar. A foto acabou por ga­nhar um Prémio Pu­litzer.
Nguyen Ngoc Loam, o as­sas­sino, mantém-se calmo quando fala aos re­pór­teres: «Ele matou muitos de nós e dos vossos também» – jus­ti­fica-se ao ope­rador de câ­mara, que ainda não vi­rara as costas. – «Penso que Buda me per­doará por isto».
É um cri­mi­noso de guerra, mas tanto o Vi­et­name do Sul como as au­to­ri­dades ame­ri­canas não fazem caso da si­tu­ação: al­guns ofi­ciais ame­ri­canos pro­testam contra a exe­cução su­mária, mas Nguyen con­tinua ao ser­viço do exér­cito sul-vi­et­na­mita, onde for­ta­lece a re­pu­tação de homem de grande co­ragem e sa­ga­ci­dade em ba­talha. A sua car­reira de guer­reiro ter­mina três meses mais tarde, quando uma gra­nada ini­miga lhe des­trói a perna di­reita.
É en­viado para um hos­pital na Aus­trália para re­ceber tra­ta­mento, mas os pro­testos contra a sua pre­sença são tão ve­e­mentes que acaba por ser trans­fe­rido para os Es­tados Unidos, para um centro mé­dico mi­litar em Washington, o Walter Reed. Al­guns se­na­dores no con­gresso ame­ri­cano pro­testam, mas nada acon­tece.
De volta a Saigão, Nguyen é afas­tado do exér­cito – ti­veram de am­putar-lhe a perna di­reita – e re­gressa à vida civil. Em 1975, quando os vi­et­kongs estão às portas da ca­pital e se inicia a eva­cu­ação, os ame­ri­canos re­cusam-se a ajudá-lo. Acaba por fugir com a fa­mília num avião sul-vi­et­na­mita e re­gressa aos Es­tados Unidos.
Quando a sua pre­sença é co­nhe­cida, al­guns mo­vi­mentos civis tentam de­portá-lo, afir­mando tratar-se de um cri­mi­noso de guerra, mas, mais uma vez, nada acon­tece. Fica a viver no norte da Vir­gínia e abre uma piz­zaria. O ne­gócio corre bem e sem so­bres­saltos até 1991, mas entra em de­clínio quando é re­co­nhe­cido como o car­rasco da foto ti­rada por Eddie Adams. Há quem es­creva nas pa­redes da piz­zaria: «Sa­bemos quem tu és».
O cancro mina-o e ele afasta-se. Acaba por morrer em Julho de 1998.
Nunca foi con­de­nado pelo crime que co­meteu, em­bora tenha dado en­tre­vistas onde pro­curou jus­ti­ficar o seu acto. Ele afirma que o ofi­cial vi­et­cong era um ter­ro­rista que tinha es­tado en­vol­vido no as­sas­sínio de ofi­ciais sul-vi­et­na­mitas e res­pec­tivas fa­mí­lias – daí a exe­cução.
Ao prin­cípio, or­de­nara a um ofi­cial su­bal­terno que ma­tasse o pri­si­o­neiro. Pe­rante a he­si­tação do outro, en­car­regou-se ele pró­prio de exe­cutar a sen­tença. «Se eu he­si­tasse não es­taria a cum­prir o meu dever – e os ho­mens não me se­gui­riam».
Até hoje não se sabe se Nguyen Van Lém es­teve en­vol­vido nos mas­sa­cres que acon­te­ceram. 34 corpos ha­viam sido des­co­bertos em Saigão no dia an­te­rior, tanto de ofi­ciais da po­lícia como das res­pec­tivas mu­lheres e fi­lhos, mas nunca se provou o en­vol­vi­mento do ofi­cial vi­et­cong – fosse ou não res­pon­sável, a ver­dade é que nunca lhe foi dada a opor­tu­ni­dade de se de­fender num tri­bunal mi­litar. Ou­tras fontes – norte-vi­et­na­mitas – afirmam que Lém não era um ope­ra­ci­onal, a sua acção era so­bre­tudo po­lí­tica.
O vídeo mos­trando a sequência com­pleta dos acon­te­ci­mentos passou inú­meras vezes nas te­le­vi­sões e chocou a Amé­rica. E quando a foto de Eddie Adams foi pu­bli­cada na pri­meira pá­gina dos jor­nais ame­ri­canos, mudou a forma como o povo ame­ri­cano en­ca­rava a guerra. A foto não era apenas a imagem de um crime, mas o es­pelho da guerra do Vi­et­name: sel­vagem e gra­tuita, como o acto do chefe da po­lícia Nguyen Ngoc Loam.
Ao prin­cípio a mai­oria dos ame­ri­canos apoiara a guerra, pois tra­tava-se de ajudar ino­centes sul-vi­et­na­mitas a li­bertar-se do jugo co­mu­nista do Norte; de­pois da­quele foto, tor­nara-se muito mais di­fícil des­co­brir onde es­tavam afinal esses ino­centes.

2 A Amé­rica dis­para sobre os pró­prios fi­lhos

Jeffrey Miller

4 de Maio de 1970 é o dia em que muitos ame­ri­canos des­co­brem que a Amé­rica é capaz de as­sas­sinar os seus pró­prios fi­lhos.
John Filo, es­tu­dante de fo­to­grafia, capta a imagem de Jef­frey Miller, 20 anos, es­tu­dante como ele, morto pela Guarda Na­ci­onal du­rante um pro­testo não-au­to­ri­zado contra a de­cisão de Nixon de en­viar tropas para o Cam­bodja. Há mais três mortos e nove fe­ridos nesse dia, todos es­tu­dantes.
O ân­gulo em que a foto é ti­rada poupa-nos à visão do rosto des­feito de Miller, atin­gido com uma bala em cheio na boca. Como re­cor­dará o fo­tó­grafo 30 anos de­pois à CNN, «era como se al­guém ti­vesse des­pe­jado um balde de sangue na rua.» Po­demos ver, e só isso é su­fi­ci­ente, a ex­pressão de uma ra­pa­riga, Mary Ann Vec­chio, que corre para ajudar Jef­frey e grita por so­corro, hor­ro­ri­zada com o que vê. O seu ân­gulo de visão com­pleta a fo­to­grafia.
E para fe­char este re­trato de uma Amé­rica à de­riva, saber-se-á poucos dias de­pois que a ra­pa­riga não é es­tu­dante na Uni­ver­si­dade, tem apenas 14 anos e fugiu de casa dos pais em Miami ves­tida com uma T-shirt que diz Slave.

«Não te pre­o­cupes, mãe. Nin­guém me vai partir a ca­beça»

A 4 de Maio de 2000, a mãe de Jef­frey Miller es­creve uma cró­nica para o Se­attle Times em que nos ex­plica como o mundo se tornou mais pobre desde que o filho foi morto. Liga três pontos cru­ciais da vida de Jef­frey para ex­plicar porque razão «nunca po­deria ter re­sis­tido ao apelo da­quela ma­ni­fes­tação».
Pri­meiro ponto: Jef­frey tem oito anos. Sem o co­nhe­ci­mento da mãe, envia um ar­tigo à re­vista Ebony pre­o­cu­pado com a si­tu­ação so­cial dos ne­gros na Amé­rica. Ela sabe-o três se­manas de­pois quando, em res­posta ao ar­tigo de Jef­frey, re­cebe um te­le­fo­nema de al­guém da re­vista que partiu do prin­cípio de que o filho é negro. Dizem-lhe então que o rapaz está des­ti­nado a ser um grande líder da co­mu­ni­dade afro-ame­ri­cana.
Se­gundo: aos 16, es­creve um poema cha­mado Where Does It End?, onde ex­pressa o seu horror pe­rante «uma guerra sem pro­pó­sito», o con­flito no Vi­et­name.
Ter­ceiro: aos 20, te­le­fona a in­formá-la de que vai par­ti­cipar na ma­ni­fes­tação de 4 de Maio contra a in­vasão do Cam­bodja. Tran­qui­liza-a: «Não te pre­o­cupes, mãe. Posso vir a ser preso, mas de cer­teza que não me vão partir a ca­beça».
Mary Ann Vec­chio está em fuga da casa dos pais. Não é claro porque razão saiu da Flo­rida e se meteu à bo­leia pela Amé­rica: esses tempos re­corda-os apenas com uma frase: «Tinha 14 anos e era uma fu­gi­tiva».
Quis o des­tino que se en­con­trasse perto de Kent a 4 de Maio e que ti­vesse de­ci­dido juntar-se aos ma­ni­fes­tantes. Tê-lo-á feito por in­fluência de Sandra Lee Scheuer e Alan Can­fora, dois es­tu­dantes da Uni­ver­si­dade de quem se tor­nara amiga. Sandra também morre nesse dia.
A foto de John Filo tornou o seu rosto co­nhe­cido em toda a Amé­rica. Na sequência da pu­bli­cação dessa foto, o Go­ver­nador da Flo­rida, Claude Kirk, chegou a afirmar que Mary Ann era uma «dis­si­dente co­mu­nista».
Nas três se­manas que se se­guiram en­trou «na clan­des­ti­ni­dade». Con­cordou vender a sua his­tória a um jor­na­lista a troco de um bi­lhete de au­to­carro para a Ca­li­fórnia, mas foi presa pela po­lícia quando se pre­pa­rava para em­barcar e en­viada de volta à casa dos pais. Agora diz que «en­trou de bo­leia na His­tória».
John Filo co­nheceu-a apenas em 1995, 25 anos de­pois de a ter fo­to­gra­fado. En­con­traram-se no Emerson Col­lege em Boston numa con­fe­rência or­ga­ni­zada pelo co­légio sobre os acon­te­ci­mentos na Uni­ver­si­dade. Ela é agora uma mu­lher ca­sada que diz só ter re­co­me­çado a viver quando saiu com Joe Gillum da casa dos pais para se tornar a se­nhora Gil­lium e aban­donar em de­fi­ni­tivo o ape­lido Vec­chio.
«Sempre me pre­o­cupei com esta pessoa» – afirmou então John Filo. «Co­lo­quei uma cri­ança sob um mi­cros­cópio du­rante muito, muito tempo e agora sinto-me feliz por ela estar também feliz.»
John Filo, o es­tu­dante de fo­to­grafia, tem ou­tras mo­ti­va­ções no campus: é as­som­brado pela per­cepção de que 4 de Maio pode vir ser o dia em que con­se­guirá captar o que Henri Car­tier-Bresson de­signa como «mo­mento de­ci­sivo».
Filo de­am­bula junto aos co­legas desde o dia 1 de Maio sem con­se­guir tirar uma fo­to­grafia que capte o mo­mento his­tó­rico que se vive. Está prestes a de­sistir quando o ti­ro­teio co­meça. Ao prin­cípio julga serem tiros de pól­vora seca e deixa-se ficar em pé, a fo­to­grafar. De­pois per­cebe que são tiros de mu­nição real quando o silvo de uma bala quase lhe queima a orelha. De­siste de fo­to­grafar, atra­palha-se, olha para todos os lados, sem saber para onde ir. É o único que não está abri­gado.
Olha para a sua es­querda e vê Jef­frey, es­ten­dido no chão, o corpo em pe­quenas con­vul­sões até se imo­bi­lizar por com­pleto. O sangue es­corre-lhe pela ca­beça como se es­ti­vesse a ser des­pe­jado por um balde. Entra em pâ­nico e co­meça a fugir.
«Que estás tu a fazer?» – diz-lhe então a voz do fo­tó­grafo dentro da sua ca­beça. «É para isto que tu estás aqui». Volta e aponta a má­quina. Aper­cebe-se então de Mary Ann, cor­rendo em pâ­nico para junto do corpo do rapaz e gri­tando «Meu Deus!».
Clique. A Amé­rica está a matar os seus pró­prios fi­lhos – e está a ser fo­to­gra­fada en­quanto o faz.
O es­tu­dante de fo­to­grafia ganha o seu mo­mento de­ci­sivo e o prémio mais im­por­tante de todos, o Pu­litzer.

Cro­no­logia dos acon­te­ci­mentos


Al­lison B. Krause, Wil­liam K. Sch­ro­eder, Sandra L. Sheuer e Jef­frey G. Miller, os quatro es­tu­dantes mortos.
Sexta, 1 de Maio Dias antes o pre­si­dente Nixon anun­ciara o envio de tropas para o Cam­bodja, au­men­tando a es­cala das ope­ra­ções no Vi­et­name e a in­dig­nação entre os ame­ri­canos – na sua mai­oria jo­vens – que estão contra a guerra.
Es­tu­dantes da Uni­ver­si­dade de Kent or­ga­nizam uma ma­ni­fes­tação contra «a in­vasão de um país so­be­rano sem uma de­cla­ração de guerra formal ou a au­to­ri­zação do Con­gresso ame­ri­cano». Os es­tu­dantes pro­testam contra «a vi­o­lação dos nossos di­reitos cons­ti­tu­ci­o­nais» e «os abusos de poder» do pre­si­dente Nixon, apos­tado em «per­pe­tuar a bar­bárie na­ci­onal». Uma cópia da Cons­ti­tuição Ame­ri­cana é en­ter­rada nos ter­renos da Uni­ver­si­dade para sim­bo­lizar «o seu as­sas­sínio».
À noite, na ci­dade de Kent, adensam-se os pro­testos: uma mul­tidão in­vade as ruas e di­rige-se para o centro, par­tindo al­guns vi­dros das lojas pelo ca­minho. À ma­ni­fes­tação junta-se gente que nada tem a ver com a Uni­ver­si­dade. Muitos já be­beram de­mais. O Mayor de Kent entra em pâ­nico e vê nos pro­testos si­nais de uma su­ble­vação ra­dical e so­li­cita o au­xílio do Go­ver­nador do Es­tado de Co­lumbia. A Guarda Na­ci­onal é en­viada para dis­persar os ma­ni­fes­tantes com gás la­cri­mo­géneo. Às duas e meia da manhã, a si­tu­ação está con­tro­lada.
Sá­bado, 2 de Maio Às oito da noite, 100 ma­ni­fes­tantes cercam um edi­fício da Uni­ver­si­dade que serve de ca­ma­rata aos ofi­ciais de re­serva do Exér­cito que se en­con­tram em treinos mi­li­tares. A as­so­ci­ação à guerra que se trava no Vi­et­name é ins­tan­tânea. Al­guns deitam fogo ao edi­fício. As chamas es­pa­lham-se tão ra­pi­da­mente que os bom­beiros não con­se­guem con­trolá-las. A Guarda Na­ci­onal volta a in­tervir, dis­per­sando os es­tu­dantes e fi­cando a guardar um edi­fício re­du­zido a cinzas.
Guarda Nacional ocupa o campus da Universidade

Guarda Na­ci­onal ocupa o campus da Uni­ver­si­dade
Do­mingo, 3 de Maio No campus da Uni­ver­si­dade, ocu­pado pelos sol­dados da Guarda Na­ci­onal, tudo está calmo. Mas às nove da noite uma mul­tidão de es­tu­dantes volta a reunir-se na ci­dade. Os sol­dados lançam mais gás la­cri­mo­géneo. Os es­tu­dantes re­fu­giam-se na in­ter­secção das ruas East Main e Lin­coln, blo­que­ando o trân­sito e au­men­tando o caos. Às 11 da noite, a mul­tidão torna-se mais hostil, lança pe­dras aos sol­dados e é no­va­mente afas­tada. Há fe­ridos nos dois lados.
Se­gunda, 4 de Maio É dia de aulas na Uni­ver­si­dade. A con­fron­tação da noite an­te­rior pro­vocou res­sen­ti­mento em ambos os lados da bar­ri­cada: os es­tu­dantes estão de­ter­mi­nados em manter uma ma­ni­fes­tação con­vo­cada para aquele dia, en­tre­tanto proi­bida, os sol­dados estão de­ter­mi­nados em im­pedi-la.
Gás lacrimogéneo sobre os estudantes

Gás la­cri­mo­géneo sobre os es­tu­dantes
Ao en­tar­decer, 200 es­tu­dantes en­con­tram-se já reu­nidos em de­safio di­recto às au­to­ri­dades. À ordem de dis­persão, res­pondem com cân­ticos, in­sultos e pe­dras. Mais gás la­cri­mo­géneo é lan­çado mas, desta vez, pouco efeito pro­voca: está muito vento na­quela tarde. A Guarda avança com as bai­o­netas das es­pin­gardas em riste, obri­gando os es­tu­dantes a re­cuar. Nin­guém dis­persa.
O lan­ça­mento de mais gás já não re­solve a si­tu­ação. Pe­dras con­ti­nuam a voar sobre os sol­dados. Estes re­cuam. 28 formam uma linha e dis­param entre 61 e 67 vezes du­rante 13 se­gundos contra a mul­tidão em fúria. Não são tiros de pól­vora seca, mas tiros de mu­nição real. Quatro es­tu­dantes morrem. Nove ficam fe­ridos. Um dos fe­ridos fi­cará pa­ra­lí­tico o resto da vida.
Al­guns tentam di­a­logar com os sol­dados: «Porque é que vocês dis­pa­raram?» É o co­man­dante da Guarda quem res­ponde: «E vamos con­ti­nuar a dis­parar se vocês não dis­per­sarem.»
Este é o mesmo ofi­cial que, mi­nutos de­pois, se apro­xi­mará de Jef­frey Miller para exa­minar o corpo. O es­tu­dante morreu de bar­riga para baixo e o co­man­dante da Guarda Na­ci­onal vira-o com a bota para exa­minar me­lhor os es­tragos. O des­res­peito e a in­di­fe­rença são tão evi­dentes que só a pre­sença de de­zenas de sol­dados im­pe­dirá que os ou­tros es­tu­dantes o es­folem vivo.
Perto dali, muitos ainda re­sistem. Um grupo de 300 não ar­reda pé do campus e só a in­ter­venção de al­guns pro­fes­sores co­ra­josos im­pede que os con­frontos con­ti­nuem e mais mortes ocorram. Os pro­fes­sores con­vencem os alunos a dis­persar. A Uni­ver­si­dade fecha por um pe­ríodo de tempo in­de­ter­mi­nado e só abrirá de­pois das fé­rias de Verão.

Duas ver­sões da mesma foto

A versão original, à direita, e a versão retocada.

A versão ori­ginal, à di­reita, e a versão re­to­cada.
Bastou que al­guém re­pa­rasse na au­sência do poste sobre a ca­beça de Mary Ann Vec­chio na re­pu­bli­cação efec­tuada em 1995 pela Life Ma­ga­zine para que a re­vista fosse acu­sada de ma­ni­pular ima­gens jor­na­lís­ticas. O pró­prio Editor fo­to­grá­fico da Life foi for­çado a es­crever uma ex­pli­cação.
Se­gundo David Friend, esta imagem ma­ni­pu­lada tem sido pu­bli­cada por vá­rias re­vistas – exem­plos: Time (6 de No­vembro de 1972) Pe­ople (2 de Maio de 1977), Time (17 de Ja­neiro de 1980) e Pe­ople (30 de Abril de 1990) – sem que nin­guém ti­vesse re­pa­rado na di­fe­rença cru­cial em re­lação ao ori­ginal.
O que se passou foi que, pro­va­vel­mente ainda em 1970, al­guém tra­ba­lhando no ar­quivo Time-Life Pic­ture Col­lec­tion (e que até hoje per­ma­nece anó­nimo), de­cidiu ‘apagar’ a imagem do poste, na óbvia in­tenção de a me­lhorar e de lhe di­mi­nuir o ruído.

3 Danos co­la­te­rais: Kim Phuc e o Na­palm

Kim Phuc e o terror do Napalm

8 de Junho de 1972. Um avião da Força Aérea Vi­et­na­mita bom­bar­deia Trang Bang, uma po­pu­lação sul-vi­et­na­mita si­tuada a 38 qui­ló­me­tros de Saigão. Cen­tenas de ho­mens, mu­lheres e cri­anças morrem em con­sequência desse bom­bar­de­a­mento com na­palm.
O ataque não ocorreu por en­gano: tratou-se de uma ope­ração mi­litar des­ti­nada a travar o avanço dos vi­et­congs sobre a ca­pital e pro­teger a re­ta­guarda dos sol­dados vi­et­na­mitas.
Os ame­ri­canos não es­ti­veram di­rec­ta­mente en­vol­vidos na ope­ração: o pro­cesso de re­ti­rada de tropas do ter­reno fi­cará con­cluído a 12 de Agosto desse ano, em­bora a acção dos bom­bar­deiros B-52 se tenha in­ten­si­fi­cado nesse pe­ríodo. Mais tarde, co­men­tando as cir­cuns­tân­cias em que o ataque acon­teceu, ve­te­ranos do Vi­et­name afir­maram que os vi­et­congs ti­nham usado a po­pu­lação como es­cudo – daí os danos co­la­te­rais.
Das con­sequên­cias deste ataque ficou-nos uma imagem que se tor­naria uma das grandes fo­to­gra­fias da guerra, de todas as guerras: cri­anças ino­centes – os tais «danos co­la­te­rais» – fu­gindo ao horror do na­palm.
Talvez por pa­recer ainda mais frágil do que as ou­tras, o olhar do fo­tó­grafo vi­et­na­mita Nic Ut centra-se na me­nina de 9 anos de quem mais tarde se tor­nará amigo e pro­tector, Kim Phuc. Vê-a correr na sua di­recção, gri­tando «muito quente, muito quente», com as costas, os om­bros e os braços quei­mados pelo na­palm. O rapaz que se vê a correr à frente dela, do lado es­querdo na foto, é o seu irmão mais velho, Phan Thanh Tam. Nic Ut ti­rará mais fotos deste epi­sódio, in­cluindo uma em que a avó da me­nina foge com o neto ao colo, um bebé que não re­sistiu às quei­ma­duras e acabou por morrer nos seus braços.
Ca­mi­nhando na mesma es­trada, os sol­dados pa­recem in­di­fe­rentes ao so­fri­mento das cri­anças, o que torna a foto ainda mais re­ve­la­dora de como a guerra também é capaz de des­pe­daçar um ser hu­mano por dentro.

«O homem que salvou a minha vida»

Kim Phuc actualmente. À direita, Kim Phuc e Nik Tut.

Kim Phuc ac­tu­al­mente. À di­reita, Kim Phuc e Nik Tut.
Nem todos se mos­trarão in­di­fe­rentes: como re­cor­dará a pró­pria Kim Phouc à BBC, numa en­tre­vista dada a 29 de Abril de 2005, um dos sol­dados deixa-se tocar pelo so­fri­mento da me­nina, dá-lhe de beber do seu cantil, deita-lhe água sobre as costas quei­madas jul­gando assim que lhe ali­viará a dor.
A fa­mília so­bre­vi­vente reúne-se à volta de Kim Phouc e do grupo de jor­na­listas. Nic é vi­et­na­mita e o único capaz de co­mu­nicar com as pes­soas que, de­ses­pe­radas, pedem aos re­pór­teres para as levar para o hos­pital. Nic sabe que as fotos que tirou são im­por­tantes e devem ser en­vi­adas o mais rá­pido pos­sível, mas acaba por con­cordar em levar a me­nina ao hos­pital de carro. Com ele se­guem os dois ir­mãos, um tio e uma tia.
Di­rigem-se ao hos­pital de Cu Chi, a meio ca­minho de Saigão. A ra­pa­riga grita de dores, pede água, diz sentir-se a morrer. Cada mo­vi­mento do carro pro­voca-lhe dores imensas quando a pele quei­mada entra em con­tacto com o banco. O fo­tó­grafo re­cor­dará mais tarde que a me­nina gritou até des­maiar.
Uma hora de­pois chegam ao hos­pital. A regra ali é a se­guinte: tratar pri­meiro os do­entes que os mé­dicos con­si­deram ter hi­pó­tese de so­bre­viver, deixar os casos mais graves para de­pois. A me­nina faz parte deste úl­timo grupo – por esta al­tura, já o fo­tó­grafo está de­ma­siado en­vol­vido com o drama e re­cusa aban­doná-la a uma morte certa.
Puxa dos ga­lões de jor­na­lista: conta aos mé­dicos o drama que pre­sen­ciou, diz-lhes que o rosto da me­nina que eles não querem tratar es­tará nos prin­ci­pais jor­nais.
Acaba por con­vencê-los. Só quando se cer­ti­fica de que a cri­ança en­trou na sala de ope­ra­ções é que aban­dona o hos­pital para en­viar as fotos. Kim Phouc ficou in­ter­nada no hos­pital 14 meses e fez 17 ope­ra­ções ao todo. O fo­tó­grafo foi sempre vi­sitá-la.
Meses de­pois de as fotos terem sido pu­bli­cadas e o nome Nik Tut se tornar fa­moso em todo o mundo, o fo­tó­grafo foi en­tre­vis­tado para re­cordar as cir­cuns­tân­cias em que as ima­gens foram ti­radas.
Nic contou tudo o que se passou, ex­cepto a parte em que se meteu no carro e pro­curou salvar a vida de uma me­nina.
Só 28 anos de­pois do dia em que a fo­to­grafia foi ti­rada o mundo soube do papel do fo­tó­grafo. E foi a pró­pria Kim Phouc quem o re­velou quando fi­nal­mente o con­se­guiu re­en­con­trar, em Lon­dres, du­rante uma au­di­ência com a Rainha. Abra­çando-o, apre­sentou-o como «o homem que salvou a minha vida».
En­tre­vis­tada pela CBS a 19 de Se­tembro de 2000, Kim Phouc dirá que, ao olhar para a foto, sente-se ainda como «se tudo aquilo ti­vesse su­ce­dido ontem».
A con­versão ao Cris­ti­a­nismo, afirma, ajudou-a a re­solver os fan­tasmas do pas­sado:
Eu fui uma ví­tima da guerra, fui uma ví­tima de muitas coisas. Mas penso que con­segui uma vi­tória, pois en­tre­tanto aprendi a per­doar.
Kim Phouc julgou que nunca mais seria atra­ente aos olhos de um homem por causa da ex­tensão das quei­ma­duras nos om­bros, nos braços e nas costas, mas hoje em dia é ca­sada e mãe de dois fi­lhos.
Fez as pazes com o mundo. Sempre re­cusou que a sua his­tória e a foto fossem usadas para fins de pro­pa­ganda po­lí­tica, tanto por vi­et­na­mitas como por ame­ri­canos.
Fugiu do Vi­et­name e re­fu­giou-se no Ca­nadá, onde ainda vive. É nu­me­rosas vezes cha­mada para contar a sua his­tória às novas ge­ra­ções.
Fundou a Kim Foun­da­tion, uma or­ga­ni­zação sem fins lu­cra­tivos que se de­dica a ajudar cri­anças ví­timas da guerra. É Em­bai­xa­dora da UNESCO e a sua missão é levar uma men­sagem de paz ao mundo.

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