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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

CONFISSÕES DE UM TAXISTA ...





Arregaçou a manga da camisa e sentou-se. Soltou dois bafos nas lentes dos óculos graduados, que depois limpou com o lenço castanho que tirou do bolso das calças, trabalho meticuloso. De seguida, estendeu o braço esquerdo e fez um ar grave. Como quem oferecia o membro superior inerte, em holocausto, a uma qualquer Divindade Azeteca. Mentira. Ela, de bata branca, carregou no botão do pequeno aparelho de aspeto simpático, que vai medindo as batidas do coração … tac … tac … tac ... txxxx. O garrote aliviou - se no braço, esvaziando-se como um balão furado.

A farmacêutica debruçou - se então sobre o mostrador do medidor de pressão arterial e abanou com a cabeça, numa negativa que tinha pouco de entusiasmante. Ele - o paciente - remexeu-se na cadeira nervosamente e perguntou acabrunhado:

- Será que vou desta, Senhora Doutora ?

Ela, a pressão arterial, andava zangada com os excessos do dono de um coração prazenteiro. Mas é sempre assim. Não fosse o Henrique, taxista.

Vive numa maratona de correrias a levar clientes da zona do pinhal para a cidade. E vice - versa. É assim que a Vida lhe desenhou o Destino. A fazer curvas e contra - curvas, o carro cheio de clientes, que pagam a corrida  entre todos, que a vida não está para brincadeiras. 

O rádio do carro, vai tocando em altos berros, como a querer amaciar os quilómetros da jornada. E no espelho retrovisor, pendurado, um Rosário – de - Contas Brancas, que vai dançando ao sabor dos caprichos do alcatrão - a Proteção Divina.

- Será que vou desta, Senhora Doutora ?

- Não, não vai. Mas tem que dosear o esforço e ter cuidado com a alimentação, Senhor Henrique, diz a farmacêutica abanando a cabeça como sério aviso …

Boa conversa da treta. Quando se juntam no táxi os que trabalham na Câmara da cidade e vão para a aldeia, é sempre um sufoco. Basta olhar para as panças deles, que mais parecem os bombos de Almaceda,  até têm dificuldade em entrar no carro. E depois querem parar em todas as tascas, antes de chegar ao destino - uma inquietação. E ele, o Henrique - o Henrique taxista - a alinhar com aquela brigada de elite de alcoólicas e bagaceiras…

- Será que vou desta, Senhora Doutora ?

- Não vai. Mas tenha cuidado …

Não paga o serviço que lhe foi prestado. É de graça, exclama o homem da farmacêutica, que diz tratar-se de uma promoção, género supermercados do Azevedo. Também Belmiro de seu nome …

Sai porta fora e dirige-se para o taxi. Vou- lhe dizendo que tenha cuidado com o vinho e as aguardentes, os enchidos, o arroz de maranhos, o bacalhau à Zé do Pipo, o cabrito estonado, o polvo à lagareiro, a cabidela de galo, o ensopado de borrego, o grão de bico com mão de vaca, as enguias fritas, as costeletas de porco, os achigãs de cebolada, as feijoadas de lebre, os douradinhos da Iglo, as latas de atum, as sardinhas com pimentos e os petiscos ...

Agradece, com um sorriso, o meu cuidado. Mas lembra-me que há muito que vive só, porque a sua mulher se finou - uma saudade. Mas lá na aldeia, tem em seu redor mais de trinta viúvas, que o olham e tratam com carinho e desvelo.

- Mas como é que eu não hei de andar com o coração num alvoroço, com tanto mulherio à minha volta ?

Realmente … vou pensando eu cá para com os meus botões …
 

Quito Pereira
encontrogeracoesbnm.blogspot.pt

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