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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

populismos e o PAN




Miguel Vale de Almeida

QUANTO MAIS CONHEÇO O PAN
“Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de animais” é uma frase que se ouve muito. Muitíssimo. Diria mais: demasiado, de tal maneira é uma frase horrenda. Percebe-se de onde vem, mas é horrenda, e abstenho-me de dizer porquê, pois acho que deveria ser óbvio. Paralelamente, ainda que mais recente, ouvimos muitíssimo que “os políticos são todos iguais”, parte de um desprezo generalizado sobre a classe política. Também se percebe – e compreende – de onde vem mas, embora não horrenda, é uma frase… estúpida, pela generalização e o populismo que encerra. Vem isto a propósito de quê? Da sensação – não, chamemos-lhe hipótese – de que a estória de amor de muitas pessoas (não resisto: de muitos animais não-humanos, como agora sói dizer-se) pelo PAN seja um upgrade (o “up” é claramente exagerado) de “os políticos são todos iguais” para “as pessoas são todas iguais”.
Dito isto, não acho boa tática o ataque descontrolado e vagamente humorístico que muita esquerda (e direita) fazem ao PAN (até eu caí na tentação no parágrafo acima). Porque ele alimenta a ideia, que anda muito por aí, de que o PAN “assusta”, de que se “eles” estão tão assustados então é porque o PAN é mesmo bom. Claro que esta reação é ela mesma populista, mas aquele ataque – ou demasiada importância conferida ao PAN – alimenta-a ainda mais.
Creio que o que precisa de ser dito sobre o PAN é o seguinte:
1. A ideia de pós-ideologia é falaciosa. Ninguém é, porque ninguém pode ser, pós-ideológico.
2. Os princípios e o programa do PAN – consultáveis online – são confusos, erráticos, incoerentes, e só se sustentam no animalismo. Em política isso é mau, e perigoso.
3. Escolhas éticas e de estilo de vida, como o animalismo, formas de alimentação, filosofias sobre a natureza, misticismos mascarados de política, etc, não são programas políticos. Programa político, na área que o PAN reclama, é o ecologismo, assente numa visão integrada das coisas, algo que o PAN não oferece.
4. As origens dum grupo não determinam o seu crescimento, pois ele pode mudar e ganhar novos adeptos que, por sua vez, mudam mais ainda o quadro. Mas os documentos do PAN ainda apresentam uma misturada original entre “budismo à portuguesa”, “filosofia e poesia do quinto império”, lusofilias bacocas e outros tiques que marcaram um certo enfastiamento com a política e a politização em gerações que se demitiram para o “espírito” no período pós-revolução de abril.
Percebe-se que alguém despolitizado – isto é, sem participação cívica, cultura política, entendimento mínimo da história e sociologia duma sociedade, e um módico de humanismo – seja atraído pela aparência (sublinhe-se) do PAN, precisamente na linha do desprezo emocional pelo seu semelhante, que advém de más experiências de vida e más experiências de cidadania (questões que, justamente, muito teriam a ver com a política, e com a política de esquerda). O que não se percebe é que alguém minimamente situado à esquerda e minimamente ciente do progresso que foi a geringonça, pense votar num buraco negro de concepção da sociedade.
E, voilá!, acabei por fazer o que critiquei na demasiada atenção atacante dada ao PAN  Mas acabo dizendo: não acho o PAN malévolo, acho-o fraco; não me mete medo, mete-me pena quem se deixa levar. Como em todos os populismos.


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